EDILEUSA SANTOS OLIVEIRA

Mestranda em Memória: Linguagem e Sociedade, pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)

 

 

ANA ELIZABETH ALVES SANTOS

Professora-orientadora do Mestrado em Memória: Linguagem e Sociedade, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)

 

 

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A inutilidade dos lugares de memória:

a “Biblioteca Verde” de Carlos Drummond de Andrade

Edileusa Santos Oliveira* & Ana Elizabeth Alves Santos**

 

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Quando o pesquisador se debruça sobre a Memória, enquanto um fenômeno multimodal, possível de ser tratado como objeto de estudo de um campo multidisciplinar, vem-lhe o seguinte questionamento: “Memória, para quê?

A reflexão de Pierre Nora acerca da memória – tal como outras obras sobre esse tema – propõe uma resposta a esse questionamento. Porém, este autor segue um percurso de apartação entre este fenômeno e a História. Segundo o autor, a História está presente onde não há mais as “sociedades-memória”, com a manifestação da tradição se dando no presente vivido. No momento em que a tradição é suplantada pela modernização, então só nos resta os "lugares de memória", que são espaços onde a memória se cristaliza e se refugia: arquivos, museus, bibliotecas, galerias de arte, etc. Segundo Pierre Nora (1993, p. 3), "há locais de memória porque não há mais meios de memória".

Nora trata desse movimento, que parte da memória vivida na intimidade, como evidência e como meio de existência, em continuidade com as gerações antecedentes, para alcançar a memória mediada pela história, numa trajetória existencial marcada por rupturas tão profundas que se tornam visíveis, podendo até serem tomadas por objetos de estudo. Tais descontinuidades teriam cessado, então, os meios de memória, aqueles vínculos que garantiam o sentimento de identidade, pertencimento e continuidade. Em substituição dos meios ficaram os “lugares”, esses “novos meios” de apreender a memória que não habitamos e não nos habita mais. São lugares de memória porque não vivemos mais o que eles comunicam, e porque a história se apropria deles como sua matéria-prima (NORA, 1993).

Os “lugares de memória” não são apenas físicos, são também mentais, espaços imaginários onde quase não há preocupação utilitária, onde habitam coisas e não seres. Esses “lugares”, refúgios para os indícios, as marcas, os sinais do que se passou, permitiriam uma visão, ou melhor, uma “re-visão” da memória, pois, através do que neles está contido, nos seria possível apreciar o que é lembrado ou esquecido em relação ao passado.

Seguindo a compreensão de Nora, o pesquisador poderá imaginar: “onde” estariam esses “lugares” e que “coisas” poderiam ser encontradas neles? E assim, tal como as “meninas sapecas” das fábulas, que seguem um “coelhinho enigmático” em busca de respostas para as suas inquietações[1], ele caminha num campo “enciclopédico” de mil possibilidades e respostas e descobre inicialmente que os “lugares de memória” não apenas estão; eles são! São as bibliotecas, as coleções, os arquivos, os museus e muitos dos seus pertences. Parte, então, em visita a alguns desses “lugares”, tendo por “coelho-guia” autores que falaram, cantaram ou recitaram sobre eles. São filósofos, historiadores e poetas que refletiram – cada qual à sua maneira e com a linguagem própria da sua área – sobre esses espaços e coisas que podem ser tomados como objetos ou instrumentos da pesquisa científica, todos eles preocupados com fenômenos do passado.

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O pesquisador chega a uma Coleção Particular, e o que encontra lá?  Inutilidades! Porém, estando acompanhado por Krzysztof Pomian (1984), compreende que tais “inutilidades", objetos privados de valor de uso, trazem um significado para além da sua materialidade. O seu valor, portanto, é atribuído pelo significado. Representam uma experiência importante para quem os guarda e para quem os vê. São, na linguagem de Pomian, semióforos, categoria criada por ele para se referir aos objetos que são opostos às coisas. Estas, ao contrário daqueles, têm utilidade, mas não têm significado. Os semióforos são objetos sem valor de uso. O seu valor é atribuído pelo significado, pois representam uma experiência importante para quem os guarda.

Os semióforos referem-se a objetos que são comprados, guardados, exibidos, com a finalidade de “serem expostos ao olhar”, e não para desempenharem a função inicial para a qual possam ter sido criados; por isso, têm valor de troca, mas não têm valor de uso. Se não servem para usar, servem para serem exibidos ao olhar (POMIAN, 1984). Daí o seu valor de troca, pois são fontes de prazer para uns, alimentam o instinto de propriedade de outros; garantem status e prestígio aos vaidosos, transmitem conhecimentos históricos e científicos aos pesquisadores.

São variados os motivos que levam os homens a tornarem-se colecionadores. A explicação acima cabe ao homem moderno, mas será inadequada se pensarmos em sociedades de outras épocas, que mantiveram objetos fora do circuito das atividades econômicas, cuidadosamente protegidos e entregues ao olhar: as tumbas, os templos, os palácios, que acumularam relíquias, oferendas, mobiliários funerários, presentes, despojos, tesouros principescos (Idem). Tais lugares sinalizam uma coleção, com motivações e buscas diferentes: contato com o sobrenatural, garantia de imortalidade, demonstração de força e de poder. Porém, algo é comum a todos eles: o desprezo pela utilidade.

Kant (1980) está presente nessa pressuposição, no sentido em que, nos seus estudos sobre o belo, atribuiu inutilidade à beleza, alegando que sua principal característica é ser livre de qualquer interesse ou finalidade. Mas Pomian vai além da descrição formal do belo, proposta em Kant, que se ateve à dimensão formal do juízo estético sobre a beleza, pois busca o significado (histórico) que se sobrepõe à utilidade. A categoria que nos interessa aqui é justamente a “inutilidade”, pois possibilita definir o objeto que compõe as coleções.

Devido ao tempo e ao desuso, por exemplo, os objetos históricos e etnográficos interessam-nos pelo significado que possuem, pois trazem à memória dos agentes do presente as representações sociais, o estilo, as circunstâncias e os fazeres do passado. Expostos ao olhar, tais objetos asseguram a comunicação entre o presente e o passado, o que Pomian (1984, p.66) chamou de mundos visível e invisível, sendo o mundo invisível algo mais amplo que somente o passado: “O invisível é o que está muito longe no espaço: além do horizonte, mas também muito alto ou muito baixo.” O autor se refere a algo que está muito longe no tempo, “no passado, no futuro. (...) é o que está para além de qualquer espaço físico...” É a subjetividade.

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Imbuído da compreensão de Pomian, o pesquisador adentra num Museu. Sabe que, apesar da distinção entre um museu e uma coleção privada – distinção marcada pelo conteúdo (o sentido ou ressonância que os visitantes dão às coleções) –, encontrará ali também os semióforos. Ele vê os “lugares de memória”, anunciados por Nora, em forma mesclada de arte e objeto (com um passado de utilidades e um presente de significados). As esculturas, os mobiliários, as pinturas, os talheres, os desenhos, as ferramentas, tudo, tão necessário ainda (necessário porque pode informar algo), comunica um fato ocorrido e denuncia sua condição de ancião – paradoxalmente excitante.

Ao sair deste “templo de recordações”, onde os relógios e os calendários de séculos anteriores insinuam que o tempo parou, mas a movimentação de curiosos comprova o contrário, o pesquisador olha para trás e percebe que até mesmo o prédio que guarda tantos trabalhos do tempo histórico do homem é um arquitetônico “lugar de memória”. O pesquisador vai a um Arquivo na companhia de Jacques Le Goff e percebe, então, que se trata de um lugar daquilo que “foi lembrado” e do que “foi esquecido de ser lembrado”. Esse trocadilho é proposital, pois lhe permitirá entender que os documentos contidos nos Arquivos são, para um olhar menos “ingênuo”, as escolhas e decisões de “alguém”. Como afirma Le Goff (1996, p.95), “o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada” por aqueles que detêm o poder de proclamação ou por aqueles que “se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa”, ou seja, os historiadores.

Nora (1993, p.14) faz um destaque sobre a atual obsessão pelo Arquivo, explicando que quanto “menos a memória é vivida do interior, mais ela tem necessidade de suportes exteriores e de referências tangíveis de uma existência que só vive através delas”. Le Goff chama de “materiais da memória” estes documentos, mas reconhece que o seu tratamento deve avançar em relação às concepções positivistas, que interpretam os documentos como sendo um testemunho verídico e fiel da realidade passada. Como sabemos, para a escola historiográfica positivista, o documento é afirmado como um "testemunho escrito" e fundamenta o fato histórico, podendo explicitá-lo.

Entretanto, no próprio século XIX, o documento foi deixando de ser apenas o texto. Foi justamente um positivista, Fustel de Coulanges, quem afirmou que, na falta dos escritos, a história deve escutar tudo que há nos locais por onde o homem passou e por onde ele deixou marcas de sua vida (Apud: LE GOFF, 1996). Tal afirmação foi ampliada e fundamentada pela Escola dos Annales, que iniciou uma crítica profunda da noção de documento, não só alargando o entendimento sobre o que seria seu conteúdo, como também inovando a abordagem e as perguntas feitas a ele, questionando mesmo o documento enquanto tal e, mais diretamente, pondo em jogo a própria historicidade do historiador (BURKE, 1997).

A crítica dos Annales à forma positivista de entendimento do documento histórico e do lugar de enunciação do historiador transformou o método histórico, que ganhou novos contornos e um novo lugar institucional: em 1928, Marc Bloch, retomando a idéia de Lucien Febvre, criou uma revista, agora francesa, dedicada à história econômica. Originalmente chamada Annales d´Histoire Économique et Sociale, pretendia ser a difusora de uma abordagem interdisciplinar da história e preocupava-se com o problema do método no campo das ciências sociais. Os Annales, aos poucos, converteram-se no centro de um movimento histórico que marcou a historiografia francesa do século XX (OLIVEIRA & CASIMIRO, 2007).

Se compreendermos, à luz do pensamento dos historiadores dos Annales, que os documentos, escritos ou não, comunicam eventos passados ou oferecem uma interpretação sobre os fenômenos ocorridos, aceitaremos que eles são “lugares de memória”. Contudo, os fatos comunicados pelos documentos, verdadeiros ou falsos, estão registrados por algum motivo, não explícito, que deve ser descoberto pelo pesquisador – isso é o que realmente importa.

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Por fim, o pesquisador visita uma biblioteca. Das muitas portas abertas, entreabertas e fechadas que estão no interior da biblioteca, sugerindo o que Jorge Luis Borges (2007) chamou de “a biblioteca de Babel”, entra em três delas, que o levam em dimensões de diferentes sentidos da Biblioteca. A primeira lhe fala das bibliotecas como um lugar de “maravilhas”, onde são permitidas experiências oníricas. A segunda lhe mostra um lugar de pesquisa, capaz de informar sobre todos os tempos e os “não-tempos”. Na terceira e última porta, está agora acompanhado por Walter Benjamin (1995), o pesquisador descobre que ali também é um lugar de semióforos, quando se trata de uma coleção de livros. Está, portanto, num “lugar de memória”, capaz de informar sobre os fenômenos passados, como se fosse um grande “arquivo universal”.

A possibilidade do saber e do amadurecimento científico e humano através da aprendizagem tem na Biblioteca um grande símbolo. A quantidade e variedade de livros que estão nela compilam muitos dos resultados da caminhada intelectual da humanidade: as descobertas, os inventos e os escritos, que impulsionaram o desenvolvimento, promoveram o contentamento ou o sofrimento; enfim, tudo que mereceu ou que pôde ser anotado e que, portanto, recebeu a imortalidade, reunido e arquivado num único espaço físico, porém, ilimitado, como imaginamos que seja “um” universo.

Antes de sair da biblioteca, o pesquisador trata de fechar as portas que estão abertas e, para sua surpresa, o que sente nas pontas dos dedos não é a superfície de madeira, o que se espera em uma porta, mas sim a maciez da percalina.[2] Não são portas, são capas de livros!  Lendo o poema “Biblioteca Verde”, de Carlos Drummond de Andrade, encontramos as “três portas”, agora perpassadas por um garoto, que ganha uma coleção de obras literárias:

– Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.

São só 24 volumes encadernados em percalina verde.
– Meu filho, é livro demais para uma criança!...
– Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
– Quando crescer, eu compro. Agora não.
– Papai, me compra agora. É em percalina verde,
só 24 volumes. Compra, compra, compra!...
– Fica quieto, menino, eu vou comprar.

 

– Rio de Janeiro? Aqui é o Coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com um arranhão, recuso. Já sabe:
Quero a devolução de meu dinheiro.
– Está bem, Coronel, ordens são ordens.

 

Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
vai levando tamanho universo.

Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde.

Sou o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo)
Ninguém mais aqui possui a coleção das Obras Célebres.

 

Tenho de ler tudo. Antes de ler,

que bom passar a mão no som da percalina,

esse cristal de fluida transparência: verde, verde...
Amanhã começo a ler. Agora não.

 

Agora quero ver figuras. Todas.

Templo de Tebas, Osíris, Medusa, Apolo nu, Vênus nua...

 

Nossa Senhora, tem disso nos livros?!...
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!
 

Espermacete cai na cama, queima a perna, o sono.

Olha que eu tomo e rasgo essa Biblioteca

antes que pegue fogo na casa.

 

Vai dormir, menino, antes que eu perca a paciência e te dê uma sova.

Dorme, filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.

 

Mas leio, leio... Em filosofias tropeço e caio,

cavalgo de novo meu verde livro,

em cavalarias me perco, medievo;

em contos, poemas me vejo viver.

 

Como te devoro, verde pastagem!...

Ou antes carruagem de fugir de mim

e me trazer de volta à casa

a qualquer hora num fechar de páginas?

 

Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei nunca,

está na Biblioteca em verde murmúrio

de flauta-percalina eternamente.

(ANDRADE, 2003, p.2)

 

A Biblioteca Verde era uma coleção antiga, encadernada em percalina verde com os dizeres da lombada em dourado, contendo a Coleção das Produções Literárias mais célebres do mundo, composta por obras dos autores mais aclamados dos tempos antigos, medievais e modernos. Não se sabe exatamente quem organizou, nem quando e onde foi impressa e distribuída essas coleções. As indicações editoriais, semelhantes em qualquer dos seus volumes, são as do editor “Sociedade Internacional” de “Lisboa, Rio de Janeiro, São Paulo, Londres, Paris”. Data de 1906 a edição em língua portuguesa, incluindo autores portugueses e brasileiros. Os seus 24 volumes, num total de 12.224 páginas, encantam o personagem do poema de Drummond.

Através da textura, das gravuras e das palavras, o personagem vivenciou a Biblioteca enquanto espaço de criatividade fantástica, memória, saber e sentimentos. Aqueles livros representaram, para ele, aporte de conhecimentos e coleção de inestimável valor sentimental: “Sou o mais rico menino destas redondezas. (Orgulho, não; inveja de mim mesmo). Ninguém mais aqui possui a coleção das Obras Célebres.” Trata-se, portanto, de um semióforo, como indica o seu título: “Coleção das Produções Literárias...”, montada por “alguém” que considerou determinadas obras como sendo as “mais célebres do mundo”, segundo critérios que não são claros, pois, certamente, são de nível pessoal e sentimental.

Na ânsia pela leitura, o menino guardou em si a sua coleção assim que a recebeu como presente do seu pai. Imediatamente, “guardou” todos os livros, no sentido exato expresso no poema “Guardar” de Antônio Cícero (1996): olhou, fitou, mirou, admirou, iluminou a coleção de livros e foi iluminado por ela. Os elementos contidos em cada livro eram-lhe possivelmente visíveis, imediatamente ou não, conforme “o olhar”, permitido pelos tipos de leitura que o menino ia fazendo, ora deslizando na superfície, ora arriscando-se pelas profundezas: Em filosofias tropeço e caio, cavalgo de novo meu verde livro, em cavalarias me perco, medievo; em contos, poemas me vejo viver. Na sua leitura, os livros mostravam ou sugeriam: “Tudo que sei é ela que me ensina. O que saberei, o que não saberei nunca, está na Biblioteca” (ANDRADE, 2003).

O singelo e profundo texto de Cícero nos explica que “em cofres não se guarda coisa alguma”, pois neles a coisa desaparece das nossas vistas. Guardamos algo quando penetramos e somos penetrados por ele. Assim, na poesia de Drummond, por causa da sua coleção, o garoto manteve-se acordado, em vigília, velando por ela: “A mãe se queixa: Não dorme este menino. O irmão reclama: Apaga a luz, cretino! Espermacete cai na cama, queima a perna, o sono.” (Idem, ibidem).

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Muitos outros espaços poderiam ser visitados, de modo que a resposta buscada no início dessa caminhada não está dada em definitivo. Contudo, pôde começar a ser construída. Para que a memória? Para fazer caminhar, para descobrir a sabedoria composta no mistério, para perceber o âmago das coisas e a profundeza de algo tido como inutilidade, pois, para além da aparência e da forma que apresentam os objetos, os instrumentos, os lugares e todas as coisas aos nossos olhos, estão uma essência e uma memória regidas por sentidos e significados tão marcantes e originais que são capazes de atribuir-lhes perenidade.

Como exemplo, temos os museus, tão fielmente visitados; os arquivos, relidos e reinterpretados por gerações seguidas de estudiosos; as coleções, “guardadas” com um afeto quase maternal; as bibliotecas, “passeadas” por “todas as idades e identidades”; temos os casarões seculares, inabitáveis, porém, “habitados” por narrativas incríveis; temos as esculturas, que de tão imóveis se comunicam; temos as lembranças e os esquecimentos, rasgos no tecido do nosso presente tão imediato e, algumas vezes, superficial.

Tratamos de um “modo de compreensão sobre como lidar com o tempo e a sucessão dos eventos”, modo que se apresenta de múltiplas maneiras nos diferentes lugares: nos colecionadores, manifesta-se pelo apego aos seus objetos semioforizados; nos museólogos, é a consideração dos objetos como guardiões do passado; nos arquivistas, é o sentimento de que os papéis são testemunhos; nos bibliotecários, é a certeza de que têm o universo enfileirado em estantes; nos pesquisadores, é uma bússola que os salvará num oceano de interrogações sem respostas. Enfim, memória para que possamos perceber a íntima, ínfima e necessária relação entre as coisas. Memória para que a humanidade sinta que, por essência e por princípio, a sua existência não é hermética ou simplesmente instintiva.

 

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Palavra Mágica. Rio de Janeiro: Record. 2003.

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas, v.2. São Paulo: Brasiliense, 1995.

BORGES, Walter. Ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da Historiografia. São Paulo: UNESP, 1997.

CICERO, Antonio. Poemas Escolhidos. Rio de Janeiro: Record. 1996.

KANT, Immanuel. Analítica do Belo: Crítica do juízo. In: Os pensadores.  São Paulo: Abril Cultural, 1980.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Unicamp, 1996.

NORA, Pierre. Entre história e memória: a problemática dos lugares. Revista Projeto História. São Paulo, v.10, p.7-28, 1993.

OLIVEIRA, Edileusa Santos, CASIMIRO, Ana Palmira B. Santos. Os Annales por Peter Burke: Uma visão larga e profunda. Revista HISTEDBR On-line. Campinas, n.25, p.268-270, 2007.

POMIAN, Krzysztof. Coleção. In: Memória e História. Lisboa: Casa da Moeda/Imprensa Nacional, 1984.

 


* Mestranda em Memória: Linguagem e Sociedade, oferecido pela Universidade Estadual de Sudoeste da Bahia – UESB. Email: leu_vc@yahoo.com.br

** Professora-orientadora do Mestrado em Memória: Linguagem e Sociedade, oferecido pela Universidade Estadual de Sudoeste da Bahia – UESB. Email: ana_alves183@hotmail.com

[1]Alusão feita ao personagem Coelho do livro “Alice no País das Maravilhas”. Tal personagem é o controlador do tempo e o portador das informações, que nunca eram dadas imediatamente.

[2]Percalina: Tecido de algodão leve e brilhante que serve para forro e também para encadernação de livros.

 

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