JOÃO DOS SANTOS FILHO

Bacharel em Turismo pelo Centro Universitário Ibero-Americano de São Paulo (Unibero) e bacharel em Ciências Sociais pela PUC/SP. Mestre em Educação: História e Filosofia da Educação pela PUC/SP. Professor-convidado na Faculdad de Filosofia e Letras da Universidad Nacional de Heredia (UNA), em San José da Costa Rica. Professor concursado pela Universidade Estadual de Maringá. Autor do livro “Ontologia do turismo: estudo de suas causas primeiras” EDUSC, Universidade de Caxias do Sul

 

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Questões teóricas expressam riqueza e pobreza no debate epistemológico do fenômeno turístico

Uma ciência em construção

Parte I

João dos Santos Filho*

 

Tal era o homem de ciência. Mas não constituía, por muito que fosse a metade do homem. Para Marx a ciência era uma força histórica motriz de uma força (sic) revolucionária. Por mais puro que fosse o prazer que oferecesse uma nova descoberta feita em qualquer ciência teórica e cuja aplicação prática talvez não pudesse ser ainda prevista de modo algum, era outro o prazer que experimentava quando se tratava de uma descoberta capaz de exercer imediatamente uma influência revolucionadora (sic) na indústria e no desenvolvimento histórico em geral. (MARX e ENGELS, s.d: 351-2) (grifo nosso)

 

Apenas conhecemos uma ciência, a da história. Esta pode ser examinada sob dois aspectos; podemos dividi-la em história da natureza e história dos homens. Porém esses dois aspectos não são separáveis; condicionar-se-ão reciprocamente. (MARX, 1976, p. 18) (grifo nosso)

 

Comentários iniciais

Os centros de estudos e investigação sobre o fenômeno do turismo, e a produção bibliográfica existente sobre o assunto demonstram que os mesmos estão marcados pela matriz do positivismo, traduzida nas correntes sociológicas do funcionalismo e do estruturalismo. Com isso, constatamos também, que o conjunto epistemológico do turismo esta sustentado pelo edifício conceitual do neopositivismo, com assim afirma com muita lucidez o filósofo George Lukács:

Se analisássemos bem as constantes teóricas dos grupos dirigentes políticos, militares e econômicos de nosso tempo, descobriríamos (sic) que elas – consciente ou inconscientemente – são determinadas por métodos de pensamento neopositivista. (LUKÁCS, 1978: 2)

Há uma tendência hegemônica teórico-filosófica em trabalhar o fenômeno do turismo no campo “de negação às contradições”, fora do movimento histórico, isto é, acima das contradições inerentes da sociedade capitalista. Busca-se o campo da funcionalidade integrativa do equilíbrio e harmonia entre as relações sociais, ou ainda, trabalham o turismo como algo circunscrito em espaços geográficos e estruturas organizacionais que se especificam como modelos de gestão administrativa.

As leituras produzidas sobre o fenômeno turístico demonstram uma forte tendência na reprodução de um discurso repetitivo, alienante e descolado da realidade econômica, política e histórica brasileira. O qual é substituído por um estrangeirismo etnocêntrico inculcado por meio de uma historiografia globalizada e determinante como explicativa do fenômeno turístico.

Segundo o professor Helton Ricardo Ouriques em seu livro, “A produção do turismo: fetichismo e dependência”. Comenta este mesmo fato, fazendo as seguintes afirmações:

a) o predomínio de modelos analíticos que não tentam verificar a complexidade de um tema;

b) a ausência de busca da compreensão das controvérsias científicas sobre o tema;

c)  a massificação de um discurso dominante, ideologicamente pró-turístico, absorvido sem nenhuma análise em pesquisas acadêmicas;

d)  por fim, revela a produção desses “paradigmas” dominante e não a produção de novos conhecimentos sobre o tema do turismo. (OURIQUES, 2005: 69 e 70)

Ampliando as referências de Ouriques podemos acrescentar que as predominâncias dos modelos analíticos se dão dentro dos princípios positivistas, os dados empíricos são supervalorizados no estudo do contato humano, que incessantemente busca entender as quantificações das relações de fraternidade e solidariedade entre as pessoas. Na luta por respostas lógicas tenta explicar e intervir no mundo físico buscando apreender à regularidade e constância, que acredita existir entre os fatos sociais.

 Essa singularidade axiomática se exprime na essência do método funcionalista e esta presente na epistemologia do turismo, que está preparado para estudar objetos com alto grau de estabilidade e permanência, portanto, dando a sensação de poder explicar o fenômeno social dentro das ciências biológicas e físicas. Segundo o sociólogo Florestan Fernandes o funcionalismo:

É uma análise que tem por objeto descobrir e interpretar as conexões que se estabelecem quando unidades do sistema social concorrem, com sua atividade, para manter ou alterar as adaptações, ajustamentos e controles sociais de que dependem a integração e a continuidade do sistema social em seus componentes nucleares ou como um todo. (FERNANDES, 1978: 281-2)

O funcionalismo teve sua ampla aceitação junto à antropologia e seus estudos etnológicos, estendendo-se para as outras ciências, cujo objetivo, é captar as regras explicativas e as funções do cotidiano de uma sociedade ou grupo social. Essa obsessão em querer descobrir as regularidades, e a função dos fatos sociais está ligado à necessidade de eliminar (negar) as conexões causais, para que a idéia de estabilidade se explicite em sua plenitude.

A leitura do turismo feita dentro do funcionalismo acaba atendendo aos interesses do Capital, para sua reprodução, sendo que, mercadologicamente ela serve à empregabilidade e ao mito da competência, como saídas para a idéia fascista do empreendedorismo.[1]

O fenômeno turístico se apresenta como possível de ser realizado dentro do conceito de sustentabilidade, ou seja, o turismo sustentável adquire uma qualificação metafísica e existencialista que o torna ideologicamente capaz de salvar o capitalismo de sua crise. Mais uma vez, o método funcionalista ajuda a formação de uma epistemologia do turismo, pois ao destacar o status quo da regularidade e a busca no entendimento das funções de cada instituição, esta se afastando das contradições para salientar o equilíbrio e a funcionalidade do turismo como atividade econômica.

Essa interpretação funcionalista do turismo atende basicamente aos interesses de sua expansão no conjunto da lógica do Capital, pois coloca as contradições de sua sustentabilidade em suspensão e aproveita a origem do conceito (meio ambiente). Na qual segundo eles, existe a possibilidade de se conseguir uma sustentabilidade rentável e não predatória.

Entretanto, quando esta sustentabilidade que era de origem “ecológica” é translada para o turismo, explicita um processo ligado ao acúmulo de capital em que os interesses do capitalismo são hegemônicos e obedece a lógica de mercado. O turismo entendido pelo método funcionalista transmite a idéia de ser um fenômeno que se explicita dentro das premissas do funcionamento harmônico e equilibrado.

Porque este é um fenômeno que integra e propaga a idéia de paz e harmonia entre os homens, insinuando ideologicamente a noção de desenvolvimento e progresso para a sociedade, sem ocasionar traumas e rupturas com a população nativa. Para contrapor aqueles que adotam a leitura do método funcionalista para entender o turismo, Ouriques escreve:

A ideologia do turismo, ao reservar à periferia em geral e ao Brasil em particular a função de servirem de “colônia de férias” dos habitantes dos países centrais, acaba reforçando a máxima da disponibilidade colonial: de que existimos para satisfazer as necessidades metropolitanas, agora como “museus vivos”, serviçais, paisagens maravilhosas e fontes de prazer sexual. É por isso que o turismo é uma forma de fetichismo e de dependência. (OURIQUES, 2005: 141)

O turismo surge então, como sendo, capaz de trazer de volta o equilíbrio e harmonia perdida da sociedade capitalista, adquirindo a característica de poderes salvatérios[2]. E por isso, o método funcionalista é aquele mais “adequado" a entender o fenômeno turístico dentro da perspectiva do mercado, e não do turista ou do nativo.

O interesse para que o fenômeno turístico seja visto, dentro da visão positivista – funcionalista, decorre do fato deste método entender que a sociedade apresenta-se em estado de equilíbrio e congelamento, em razão da divisão social do trabalho ser resultado de uma “solidariedade” que se constroem entre as classes sociais parceiras, pois todos desejam atingir o progresso e o desenvolvimento.

A contradição é tida como uma patologia, que pode ser resolvida com uma nova regra social, retomando ao equilíbrio e a harmonia do sistema. Assim, o turismo mercadoria para ser implantado na lógica dos interesses globais recusa as contradições estruturais, e adota a posição metafísica e fenomenológica de abraçar a realidade segundo os interesses do Capital.

Nesta concepção, o turismo vê garantido seus interesses mercadológicos e perde de fato qualquer interesse de turismo sustentável, de equilíbrio, harmônico para dar lugar aos interesses de mercado.

Na verdade o método funcionalista, apesar de sua essencialidade como capaz de descrever o cotidiano dos fatos sociais e, portanto, em muitos casos ser adequado para produzir belíssimas análises da realidade. Possui limitações, quanto a perceber a dinâmica histórica da sociedade e suas contradições, por isso a leitura do turismo se adapta a uma visão conformista e estática.

O estruturalismo na pessoa de Max Weber desenvolveu a concepção lógica do tipo ideal, em que os conceitos são uma construção a priori decorrente do modelo estrutural proposto e racionalmente construído. È com essa visão, que o turismo faz a leitura dos mega-empreendimentos, como modelos infalíveis de ”sucesso” os Resorts.

O método de leitura do fenômeno turístico vai ser o estruturalismo também, pois separa a historia das relações causais e cuida do tipo ideal construído mentalmente. Exemplo é o livro do professor Carlos Mário Beni. Análise Estrutural do Turismo, publicado pelo SENAC.

Apesar da tendência epistemológica apresentadas pelos dois métodos, os mesmos atuam de forma distinta e fazem a leitura do turismo em campos diferentes, entretanto “As duas teorias expostas apresentam em comum a mesma tendência a eliminar do campo da análise a pretensão de compreender a realidade social como algo concreto” (Fernandes, 1978, p. 96).

O professor Florestan Fernandes esta se referindo ao conceito de concreto usado por Marx em seu artigo “Para a crítica da economia política; Salário, preço e lucro; o rendimento e suas fontes: a economia vulgar”. Em que trabalha de forma comparativa o método Positivista e o método do Materialismo histórico.

O método funcionalista e estruturalista são instrumentos fundamentais para o entendimento da realidade e produziram estudos primorosos sobre o homem e a sociedade. Com um arcabouço teórico e filosófico constituído permite entender a importância destes instrumentos explicativos para entendimento da realidade, sem, contudo, se aproximar ou situar no movimento da história.

Introdução

Diante dos fatos relatados acima gostaríamos de parabenizar aos meus pares da academia; pesquisadores, professores e estudiosos do fenômeno turístico pelo comportamento de tolerância, que tem caracterizado os embates científicos sobre a construção epistemológica de uma ciência do turismo. As discussões que vem surgindo no interior das faculdades, universidades e centros de pesquisas ainda são expressas de forma tímida e corporativa, mas, já trazem a tona a existência de diferentes posturas epistemológicas, ocasionando importantes debates científicos dentro da academia.

O desenvolvimento de discussões, em torno de uma epistemologia do turismo é possível, desde que, a mesma facilite a construção de um arcabouço teórico sólido, na qual, todos se tolerarem nos debates em si e para si. Escrevendo e respondendo para os outros, trabalhos de cunho científico, que expressem posições teórico/filosófico diferentes alimentando um processo de construção de um saber científico universal.

Discutir de forma civilizada as diferenças, os limites, e os avanços, entre os métodos epistemológicos no campo científico do fenômeno turístico. É entender que o saber científico individual e diferente não pode ser entendido como mera oposição ou afrontamento, mas sim, como riqueza e amadurecimento acadêmico, para o conhecimento do ser humano.  Preservar a diversidade dos saberes, bem como, usar epistemologias diferentes para o estudo do fenômeno turístico, não se torna nenhuma imprecisão, mas sim, o uso da racionalidade humana para o conhecimento da realidade, sem, contudo, deixar de optar por um deles para garantir a existência do debate.

Portanto, partimos do pressuposto de que, o estudo do fenômeno turístico quando delimitado por processos e instrumentais científicos de forma sistemática perante os diferentes enfoques teóricos, pode ser um elemento forte para o desenvolvimento de uma ciência do turismo.  Isso reforça seu aporte teórico/filosófico perante as outras áreas do conhecimento humano, com isso, o se tornar ciência depende de como a racionalidade dos homens, e como os interesses econômicos tratam os desafios para conhecer realidade. 

O desenvolvimento das Ciências Sociais traz avanços no campo da racionalidade, permitindo que o conhecimento humano galgue saltos de refinamento do conhecer científico. Para isso, a contribuição de seu arcabouço terminológico permitiu descrever, com maior precisão, os conceitos científicos, e estes, por sua vez, refletem a essência dos fatos e fenômenos sociais.

Nesse caso os três pensadores; Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx, sustentam os fundamentos para o pensamento da racionalidade científica e constituem o método de interpretação funcionalista, estruturalista e marxista, respectivamente, procurando entender como cada qual contribuiu para a leitura epistemológica do fenômeno turístico.

Clássicos da Sociologia e a Ciência do Turismo

Em primeiro lugar, devemos esclarecer o que entendemos por turismo. Esta é uma atividade que surgiu com o desenvolvimento da humanidade, atrelado ao conjunto das necessidades básicas, que vão se cristalizando em conjunto com a evolução das relações de produção. Seu aparecimento é sinalizado pela necessidade básica de movimento que cada sociedade, segundo seus preceitos culturais e históricos, processa por meio da sociabilidade.

Inicia como uma necessidade básica e vai transformando-se historicamente; adquire inúmeras variações conceituais, mas sempre mantendo sua espinha dorsal de significação, passando por tempo liberado, tempo de não-trabalho, tempo livre, ócio, lazer e, na forma contemporânea, como atividade turística. Configurando-se como mercadoria cujo valor de uso e de troca permite a maximização no processo acumulação de capital.

Com o entendimento acima, torna-se questionável as afirmações[3] de que o turismo começou com o capitalismo ou iniciou com Thomas Cook. A crítica a esses pressupostos, aceita como corretos, traz novas questões e leva à discussão em nível das questões epistemológicas.

Em segundo lugar, o fenômeno turístico já apresenta um conjunto de interpretações científicas sobre seu objeto de apreciável referência acadêmica, produzida nos grandes centros de investigação, o que permite distinguir diferentes abordagens teóricas que pressionam o embate entre elas, fazendo do turismo elemento plenamente discutível no interior das outras ciências.

Portanto, partimos do pressuposto de que qualquer objeto que for delimitado por processos e instrumentais científicos para ser estudado de forma sistemática perante diferentes enfoques teóricos. Reforça seu aporte como ciência em si e perante as outras áreas do conhecimento humano, com isso, o se tornar ciência depende de como a racionalidade dos homens e os interesses econômicos tratam os desafios para conhecer realidade. 

O desenvolvimento das Ciências Sociais traz avanços no campo da racionalidade, permitindo que o conhecimento humano galgue saltos de refinamento do conhecer científico. Para isso, a contribuição de seu arcabouço terminológico permitiu descrever, com maior precisão, os conceitos científicos, e estes, por sua vez, refletem a essência dos fatos e fenômenos sociais.

Defesa da pluralidade epistemológica

O professor Florestan Fernandes em sua imensa produção intelectual sempre defendeu e atuou como um intelectual militante, sem perder ou misturar papéis, pois soube preservar o trabalho científico e usá-lo para defender uma práxis transformadora. Como pesquisador de renome internacional no campo das Ciências Sociais trouxe uma contribuição teórica e atuação inovadora como pensador da realidade latino-americana, com autoridade acadêmica reconhecida internacionalmente, faz o seguinte comentário sobre a convivência de diferentes epistemologias:

Somos carentes desse diálogo entre gerações e entre membros de uma mesma geração. O intelectual brasileiro é uma espécie de esquerdista invertido. O esquerdista gosta de combater o companheiro. O intelectual gosta de ignorar o companheiro de armas. Essa ultrajante condição em que cada um é uma ilha e fala sozinho é algo angustiante, que só serve para converter o intelectual num elemento que depende da sua profissão e de sua realização como elo no complexo de dominação cultural. Ele interessa como parte desse elo. Satisfeita a dominação cultural, ele não existe como pessoa e, principalmente, não tem importância como intelectual. Os colegas se ignoram; às vezes se dizem bom-dia e boa-tarde, outras vezes nem isso. Não convivem entre si e quando há convívio, esse convívio não passa pelas idéias, passa ou pelas fofoquinhas ou, então, por reuniões alegres, festivas, que servem como elemento de compensação psicológica. Em conseqüência, temos uma carência muito grande da crítica dos colegas, de críticas que podem ser produtivas. (FERNANDES, 1987: 311)

Florestan com essa fala tenta sinalizar a perseguição “oculta” que sofrem àqueles que ousam fazer leituras diferentes das consagradas. Nesse caso, ele se refere ao marxismo como instrumento de entendimento da realidade, que ao mesmo tempo em que desvenda o real, mostra suas contradições e propõe sua superação. Essa leitura quando aplicada ao entendimento do fenômeno turístico, desenvolve o mesmo processo colocando o Materialismo Histórico e Dialético como um método também capaz de auxiliar a analise da realidade.

O importante é conhecer cada um dos métodos existentes, que explicam a realidade, para isso, devemos lembrar que a opção metodológica escolhida, seja ela qual for, não impede a utilização de diferentes arcabouços epistêmicos em um estudo científico, com a devida parcimônia e cuidados explicativos de quem o utiliza. 

Tal procedimento metodológico é comum nos escritos do professor Florestan Fernandes, pois, o ecletismo teórico enriquece seus estudos, e o consagra como um dos intelectuais brasileiro mais conhecido no exterior no campo da sociologia. Em um texto sobre a contribuição teórica de Florestan para as ciências sociais, o sociólogo e pesquisador Gabriel Cohn confirma nossa observação:

Essa disposição para articular modalidades diversas de acesso à realidade social, para mobilizar formulação metodológica e esquemas teóricos diversos no interior da mesma pesquisa, é uma maneira de dar conta dessa tensão entre a inserção prática angustiada, tensa – (sic) e, por que não dizer, em muitos momentos contraditória no seu mundo – e as exigências da consistência interna, do acabamento, da integridade da obra. Eu tenho a impressão de que no caso de Florestan isso se realiza com muito êxito. Ele consegue de fato dar conta de diversas formas de acesso ao seu objeto e produzir análises inteiramente consistentes internamente. (COHN, 1987: 53)

O desenvolvimento da ciência depende, não só do uso de epistemologias diferentes, mas também, em saber usá-las de forma crítica e inteligente, como fazia o cientista social Florestan Fernandes. Demonstrando que qualquer fenômeno, e entendo principalmente o turístico, não pode ficar restrito ao monopólio explicativo de uma única linha epistemológica, mas, sim, com os cuidados necessários por parte do investigador, podem-se produzir estudos baseados em diferentes conceitos que aderem à explicação do objeto, sem, contudo, minar a vertente teórica escolhida em sua base originária.

A arte de recorrer, nas análises científicas, a diferentes epistemologias requer do pesquisador um domínio compreensivo das mesmas, bem como, conhecimento das diferenças entre elas, e saber quando, e onde utilizá-los, pois aí reside a capacidade criativa do investigar. Por isso, a ciência é uma arte revolucionária como assim se expressou Marx, diferentes conceitos podem ser utilizados, desde que devidamente justificados e detectados seus limites dentro do corpo do trabalho.

Diante essas explanações iniciais partimos para “pressupostos”, que devem ser rediscutidos entre os estudiosos do turismo nos seus congressos, simpósios e semanas, em que a civilidade acadêmica deve garantir o embate entre epistemologias contrarias, pois, o discutir as diferenças garante o desenvolvimento do saber, e solidifica o turismo como ciência.

 


* Bacharel em Turismo pelo Centro Universitário Ibero-Americano de São Paulo (Unibero) e bacharel em Ciências Sociais pela PUC/SP. Mestre em Educação: História e Filosofia da Educação pela PUC/SP. Professor-convidado na Faculdad de Filosofia e Letras da Universidad Nacional de Heredia (UNA), em San José da Costa Rica. Professor concursado pela Universidade Estadual de Maringá. Autor do livro “Ontologia do turismo: estudo de suas causas primeiras” EDUSC, Universidade de Caxias do Sul.  E-mail  joaofilho@onda.com.br

[1] Existe uma processualidade histórica explicativa para o aparecimento hegemônico do conceito de empreendedorismo no âmbito da economia neoliberal que acaba contaminando toda e qualquer relação social. Essa ideologia empreendedora ganha corpo e espaço dentro do sistema econômico mundial em razão da cristalização de um modus operantis do capital; desemprego estrutural e crônico em decorrência dos fatores de avanço tecnológico no campo da informação, telecomunicações e do gerenciamento, que acabam suprimindo empregos no conjunto das diferentes cadeias produtivas. Com isso, a classe operária vê enfraquecer a luta de classe; depara-se com o fim do emprego, o que a leva ter como única “opção” o estabelecimento de um negocio próprio. Na verdade esse “falso” avanço do conceito de empreendedorismo nos países da América – Latina e especificamente no Brasil é resultado da crise econômica e política do capital e não como diz Schumpeter do poder inovador do homem em criar coisas novas para o desenvolvimento da economia. Assim, o desenvolvimento e modismo do empreendedorismo ressurgem como elemento salvatério da sociedade contemporânea, pois é reflexo da crise do capital na qual leva o individuo a se aventurar a ser empresário, por impossibilidade de ser assalariado.

[2] Como se o fenômeno turístico possuem-se poder providencial, para resolver questões terrenas e que a harmonia e equilíbrio imperam diante dos interesses do Capital e resolvam suas contradições.

[3] Sugiro que o leitor consulte o livro Ontologia do turismo: estudo de suas causas primeiras, em que faço a discussão dessas questões de forma profunda e apresento outro entendimento do fenômeno turístico.

 

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