RAYMUNDO DE LIMA

Formado em Psicologia, Mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

 

 

Obama e a oratória

Raymundo de Lima

 

O vice-presidente eleito dos Estados Unidos, Joseph Biden, ainda quando era senador, cometeu o deslize de dizer que Barack Hussein Obama era o primeiro afro-descendente que sabia se expressar bem.

De fato, políticos, sindicalistas e professores são admirados e temidos pelos adversários com boa oratória. Todavia, hoje não basta ser verboso; é preciso saber argumentar com elegância, até usando jogo de palavras para vencer as idéias e argumentos dos oponentes.

Partindo desse princípio, os negros norte-americanos forjaram uma cultura da arte oratória a partir da década de 1930. Progressistas e visionários da causa negra, dispostos a lutar pela igualdade dos direitos civis, se comprometeram ensinar os jovens a trabalhar os seus sentimentos de raiva despertados pelo racismo dos brancos; em seguida, eles iriam aprender sobre as técnicas para falar bem, argumentar com consistência, e vencer ‘os debates’ nas escolas, universidades, igrejas e sindicatos.

O filme “Grandes Debates”, dirigido por Denzel Washington, e que também faz o papel de professor, trata historicamente desse assunto.

Faz sentido, portanto, que a brilhante trajetória de Obama esteja ligada, além de sua elevada inteligência, também à influência que adquiriu com outras culturas, sua formação pessoal-subjetiva, à formação em Direito na Universidade Harvard e o seu desenvolvimento em duas atividades profissionais da palavra: advogado e político[1]. Logo no primeiro ano do curso de Direito, em Harvard, os alunos aprendem o quanto é importante “afiar os cérebros e a oratória para ser um profissional vencedor”.

Diferente das escolas no Brasil, é tradição nas escolas dos Estados Unidos a valorização das competições de basquete, invenções, soletração e debates de idéias; todas com regras associadas aos objetivos de aprendizagem dos alunos que, no fundo, reproduzem o espírito competitivo do capitalismo e do self made man. (Evidentemente, aqui, não insinuo nenhum reconhecimento sobre a qualidade da escola pública norte-americana, que nos lugares predominantemente pobres chega a ser pior do que a dos países subdesenvolvidos, faltando desde carteiras e livros até professores competentes e comprometidos com a causa do ensino).

Parece que a arte da oratória não chegou a se constituir em disciplina nos currículos escolares do sistema público de ensino dos Estados Unidos. No entanto, paralelamente ao ensino regular se desenvolveu uma onda de métodos particulares para ensinar “a arte de falar bem e fazer amigos”, sendo que uma delas hoje está organizada em rede internacional de cursos de oratória.

Voltando à associação entre a oratória e a luta pelos direitos civis, desde a década de 1960, dois movimentos negros norte-americanos foram discordantes em termos de métodos de lutas: um pacífico, liderado pelo pastor protestante Martin Luther King, pretendia vencer a discriminação pela palavra e fé. O outro, representado pelo ativista Malcolm X, criticava os discursos dos pacifistas e entendia que só um movimento violento poderia libertar os negros. Até meados de 1975, os Panteras Negras sustentaram essa convicção. O boxe estiloso de Cassius Clay, depois convertido ao islamismo como Muhammad Ali, também teria apoiado a segunda tendência.

Já o movimento negro do reverendo Luther King fora influenciado pelas idéias de desobediência civil de David Henry Thoreau e na luta pacífica de Mahatma Gandhi. Podemos dizer que o seu memorável discurso pela justiça e igualdade social, em1963, “Eu tenho um sonho”, hoje se realiza na frase e ato “Yes, we can”, do presidente Obama.

A luta pacífica, persistente, com argumentos e fé, vence a luta com violência, quer para chegar ao poder político ou fazer valer direitos civis das pessoas comuns. Não devemos esquecer que, antes de Obama e seu discurso moderadamente laico, o movimento negro teve mais um reverendo, Jesse Jackson, que foi duas vezes pré-candidato à presidência dos Estados Unidos.

Em qualquer parte do mundo civilizado, a oratória pode se tornar um poderoso instrumento de luta não violenta pela não violência; além de poder estimular a esperança do povo, a atitude participativa e a inclusão social.

Pessoas verdadeiramente esclarecidas e que lutam por um mundo de paz deveriam reagir aos discursos que fazem apologia da violência, quase sempre de forma velada, isto é, taticamente fazendo uso do silêncio ou de “análise com um olho só” (pseudoanálise ou falácia), por exemplo, propositalmente não querendo enxergar a barbárie terrorista: de facções ou de Estado.

A arte de falar bem, saber conversar, e argumentar com consistência deveriam ser valorizadas nos currículos de nossos colégios e universidades, principalmente entre os profissionais da palavra: professores, advogados, fonoaudiólogos, religiosos. Ainda que correndo o risco de sermos enrolados por uma eloqüência vazia, e sustentada pelo carisma do orador, no mínimo, teríamos profissionais falando melhor em público. Também seria uma oportunidade para estabelecermos uma correlação entre o falar e o pensar do orador.

 

Sugestões de leituras

ANDRIOLI, Antonio. Cultura e estilo intelectual. Disponível em:<http://www.espacoacademico.com.br/063/63esp_andrioli.htm>

BERNARDO, Gustavo. Educação pelo argumento. São Paulo: Rocco, 2000.

BURKE, Peter. A Arte da Conversação. São Paulo: UNESP,1995.

BURKE, Peter. A oralidade nos bancos da academia. Folha de S. Paulo, Caderno Mais, Julho de. 2003.

CARNEGIE, Dale. Como falar em público e influenciar pessoas no mundo dos negócios. 28.ed.Rio de Janeiro: Record, 1995.

GRANDES DEBATES. (filme). The Great Debaters. Diretor: Denzel Washington. Lançamento: 2007.

GUSDORF, Georges. A fala. Rio de Janeiro: Rio, 1977.

LEAL, José Carlos. A arte de falar em público. Rio de Janeiro: ETC, 1995.

LIMA, Raymundo. A arte do silêncio. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/062/62lima.htm>

LIMA, Raymundo. O poder hipnótico do slogan. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/029/29ray.htm>.

LIMA, Raymundo. Palestras e palestrantes, em baixa! Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/022/22ray.htm>.

REBOUL, Olivier. Introdução à retórica. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

SAGAN, Carl. A arte refinada de detectar mentiras. In: O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como vela no escuro. São Paulo: Cia das Letras, 1996.

 

[1] Em contraste com nosso presidente Lula, que parece não se importar ler livros e escrever ensaios ou artigos, “Obama, em seus tempos de Harvard [também] dirigiu a revista da Faculdade de Direito-, tem o maior respeito pelos livros, graças aos quais pôde adquirir uma sólida base intelectual para suas convicções progressistas” (MEZAN, 2009). Para o psicanalista Renato Mezan, “Só carisma não resolve”. Sem a leitura de livros, Obama “não teria podido citar em seu discurso de posse a Bíblia e palavras de George Washington, não saberia se servir das alusões e metáforas que abrilhantaram sua fala nem demonstraria o seguro conhecimento da história do seu país, assim como da situação de povos estrangeiros, que evidentemente possui. É certo que sem seu carisma e sem a habilidade retórica que soube desenvolver nada disso teria produzido o entusiasmo que se viu, mas também seria tolo negar que a qualidade literária e a construção caprichada do discurso têm algo a ver com o efeito que teve mundo afora” (MEZAN, R. Não lê por quê? Folha de S. Paulo, cad. Mais! 25/01/2009).[grifo meu].

 

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