EVA PAULINO BUENO

Eva Paulino Bueno é paranaense de Cafeara. Morou em Maringá até 1975, e se graduou em Letras pela UEM (1975). Tem mestrado em Língua Inglesa pela UFRJ (1986), e Ph. D. em Hispanic Languages and Literatures pela Universidade de Pittsburgh (1991). Atualmente é professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women Writers, An Encyclopedia (Routledge).

 

 

O legado de George W. Bush

Eva Paulino Bueno

 

Outro dia me deparei com um comentário de Suzanne MacNevin, publicado no dia 6 de outubro de 2004, intitulado “O legado de George W. Bush.”[1] O artigo consiste de manchetes extraídas de vários meios de comunicação, seguidas dos comentários da autora. Ela comenta, por exemplo, a manchete falando do problema da obesidade do povo, do aumento da violência de rua e no problema do débito nacional que, naquele ano, tinha atingido 7 trilhões de dólares, e que, se George W. Bush fosse reeleito, certamente continuaria a aumentar ao toque de 2 bilhões de dólares diários, e, naquele passo, todo homem, toda mulher e toda criança do país deveria 25 mil dólares, a sua parte da dívida nacional. MacNevin em seguida comenta a manchete que diz que mais de 3 milhões de americanos tinham perdido seu emprego desde o início do governo Bush (o primeiro governo). Mais adiante, ela faz uma previsão que não deixa de ser engraçada: o país seria controlado por pessoas gordas e violentas com uma dívida de 25 mil dólares.

A imagem seria mais engraçada se não estivesse tão próxima da verdade em muitos aspectos. Quatro anos depois do artigo de MacNevin, quando o país se prepara para a nova administração e a despedida de George W. Bush, é hora de fazer alguns cálculos, imaginar o que poderia ter sido e contrastar com o que foi realmente. Uma busca rápida na internet, em inglês, dá o número de 2.940.000 menções e artigos sobre o legado de W. Bush, ou “Dubya,” como muitos passaram a chamá-lo. Já uma busca com o título “as eleições presidenciais americanas de 2000 só traz 562 menções. Quais seriam as razões para esta diferença no interesse sobre a eleição e o subseqüente governo?

Talvez a primeira razão seja o escândalo e o horror dos ataques de 11 de setembro de 2001. Até então, o que se dizia de George W. Bush era que ele gostava de fins de semana prolongados, e que não era encontrado trabalhando fora de hora. Ele parecia que ia mesmo simplesmente deixar que Dick Cheney tomasse todas as rédeas e ficaria simplesmente aproveitando a vida boa, como sempre tinha feito na condição de filhinho de papai e herdeiro. O ataque terrorista de 2001 o jogou subitamente no olho do público. De um momento para o outro, o povo americano — que por sinal tinha votado em maioria para Al Gore, e que teve que assistir à “coroação” de Bush pela corte suprema — apreciou a sua tomada de decisão e a sua empatia com as famílias das vítimas. Teria sido porque ele sentiu o grande apoio popular que ele decidiu enviar tropas ao Afeganistão? Ou teria sido porque, de uma maneira ou de outra, isto era o que ele sempre gostaria de ter feito? A verdade é que uma guerra foi iniciada para destruir o Taliban e Osama Bin Laden. Bin Laden provavelmente não estava lá. Mas o Taliban foi derrubado do poder, milhares de civis e militares foram mortos, e um contingente de soldados americanos continua no país, e em 2008 mais de 150 deles foram mortos. (Hoje, o Taliban está reorganizado no país, e retomou seus métodos de terror, especialmente contra mulheres, e continua sendo sustentado pela venda de drogas e pelos poderes regionais, que não foram afetados pela presença militar americana.)

Mas quem diz que isto seria suficiente? Parece que o gosto de sangue, para quem é sanguinário, é mesmo como uma droga poderosa e viciante. Quanto mais se toma, mais se quer tomar. A guerra do Iraque, iniciada porque Bush queria de todas maneiras iniciá-la, de todas maneiras necessitava de uma “explicação,” uma “razão”. Na ausência de ambas, ora, estas coisas se fabricam. Em uma entrevista recente a Charles Gibson, Bush gagueja quando Gibson lhe pergunta se ele teria ido à guerra se soubesse que não havia armas de destruição massiva. Felizmente temos o filme, disponível em www.youtube.com sob o título “Gibson Interviews George W. Bush HQ 12/01”. É importante ver os olhos do homem quando a pergunta é feita. Ele responde que “para saber disto ele teria que viver os mesmos momentos de novo”. Logicamente, não havia provas da existência das armas, o que havia, com certeza, era seu desejo de ser mais que seu próprio pai e terminar a guerra que ele achava que seu pai não tinha sabido terminar em 1990. E aqui estamos: cinco anos de outra guerra insana. Provavelmente um milhão de iraquianos já foram mortos. Mais os soldados americanos e de outros países envolvidos. Mais os soldados que voltam com lesões físicas e emocionais.

Enquanto isto, Bush deu incentivos fiscais e cortes de impostos aos mais ricos do país, ao toque de mais de um trilhão de dólares nos últimos quatro anos. Deu também esmolas aos pobres, de $600 cada dois anos, de “reembolso” do imposto de renda. Muitos ainda votaram para o candidato republicano McCain, em 2008, por causa destes seiscentos dólares. Alguns desavisados ainda disseram, em entrevista, que os republicanos iam tornar estes envios de seiscentos dólares obrigatório, e por isto votavam neles.

Mas as duas guerras sozinhas e esmolas aos pobres não eram suficientes para George W. Bush. Não importando o número de mortos, os desastres ecológicos nos dois países, nos inúmeros desabrigados e da incalculável perda de propriedade. George W. Bush vai ficar na história também por duas coisas ainda mais insidiosas, que ele arquitetou juntamente com seu gabinete: a relativização da tortura de prisioneiros políticos e a quase destruição da idéia do governo civilizado baseado em leis.

A começar pela prisão de Guantánamo, onde homens de origem ou de cara árabe foram jogados por tempo indefinidos, depois de serem arrebanhados em várias partes do mundo. Sem direito sequer a avisar suas famílias, sem ter advogado, pode-se imaginar o desespero destes homens. Mas desde o princípio, instituições americanas se pronunciaram contra este lugar e contra a maneira que os prisioneiros estavam sendo tratados. Hoje se sabe que a grande maioria dos homens presos em Guantánamo eram inocentes, e muitos já foram soltos, retornados a suas famílias. O único que foi julgado e condenado foi o motorista de Bin Laden, um pobre diabo que ganhava o salário mínimo.

Mas, infelizmente para um país que gosta de crer que tem um cachê moral, piores foram as revelações das torturas e humilhações feitas aos prisioneiros iraquianos dentro do Iraque. Lá também, uma simples denúncia (de um desafeto, de um inimigo, não importava de quem) era suficiente para que os soldados americanos prendessem o indivíduo e o levasse a uma das prisões, onde eles eram torturados sem pena e muitos morriam sob tortura. O caso mais famoso, como sabemos, foi Abu Grabe, de onde vieram as fotos que o mundo inteiro viu. Outra vez: uma pessoa de consciência, ao ver estas fotos, mostrou-as à imprensa, para que o escândalo causasse uma mudança interna nestas prisões. George W. Bush se disse “chocado” com as fotos. Não me lembro do que Dick Chenney disse, mas deve ter rido.

Mas estas coisas são feitas mais ou menos na surdina. A pior coisa que o governo W. Bush fez, nestes termos, foi enviar seus capangas ao congresso para defenderem “waterboarding” e dizerem que não é tortura. Esta técnica consiste de quase afogar o/a prisioneiro/a para que ele/ela confesse. Por mais incrível que pareça, embora a inteligência militar dos Estados Unidos tenha ordens expressas para não extrair informações sob tortura (porque elas não são boas informações), e as técnicas que os torturadores começaram a usar saíram diretamente das pesquisas feitas entre os soviéticos, o governo Bush teve a ousadia de enviar representantes ao congresso para defender o uso de “waterboarding” e outras técnicas contra “os inimigos da nação”.

E quem é inimigo da nação? O legado de W. Bush nos diz que inimigo da nação é todo e qualquer um que seja contra ele. Desde 2002, cidadãos americanos começaram a ouvir “cliques” na linha quando estavam falando ao telefone. O que no princípio parecia ser um defeito técnico qualquer, mais tarde se provou e comprovou que eram “grampos”. Um governo que sempre se gabou de basear-se em lei, de respeitar a privacidade de seus cidadãos e de manter a constituição, se deu ao direito de penetrar na vida pessoal de qualquer pessoa sob o menor pretexto. Se você teve uma vez um amigo egípcio (ou de qualquer país do Oriente Médio), ou estado em um país de influência árabe, você ouviria os cliques.

Então, em termos da segurança, pode-se dizer que o legado de W. Bush afetou o mundo inteiro. Houve momentos, nestes últimos 7 anos, em que qualquer pessoa pensante nos Estados Unidos se sentia como se estivesse dentro do livro 1984, de Orwell, e o Big Brother era W. Bush, com olhos e dedos e instrumentos de tortura aplicados no mundo inteiro. Nada e ninguém estava a salvo.

Enquanto isto, a imagem pública do homem era que ele é ‘ate’ um pouco bobo, não sabe pronunciar as palavras direito, um verdadeiro palhaço. Só de vez em quando ele mostrou seu “temperamento”, como quando um repórter perguntou sobre a guerra no Iraque e ele murmurou para um assistente “Lá vem este cara de novo”, e o microfone não estava desligado.

Nestes últimos anos os Estados Unidos se transformaram, não só para outros países, mas mesmo para seus próprios cidadãos, em uma espécie de monstro de milhões de olhos, milhões de recursos, nenhuma consciência, a não ser aquele necessária para manter o status quo. Ah, se uma bomba explodiu em cima de uma casa e matou toda a família, era lamentável, e só. Ah, se um prisioneiro foi morto sob tortura, ah, que lamentável, e só. Se um militar voltava do Iraque faltando pedaços, sofrendo de problemas mentais, ah, que lamentável. Se os mortos continuam se multiplicando, ah, que lamentável. Mas se alguém se atrevia a mostrar os caixões dos soldados mortos apinhados dentro de um avião, a mão do governo agia com rapidez e cabeças rolavam.

*

Aqui nos Estados Unidos, desde a administração de Herbert Hoover, ao deixar o governo o presidente inicia (com a ajuda de doadores) uma biblioteca com seu nome. Aqui está a lista completa:

William J. Clinton (1993-2001)

The William J. Clinton Presidential Library and Museum

George Bush (1989-1993)

The George Bush Presidential Library and Museum

Ronald Reagan (1981-1989)

The Ronald Reagan Presidential Library

Jimmy Carter (1977-1981)

The Jimmy Carter Presidential Library

Gerald R. Ford (1974-1977)

The Gerald R. Ford Presidential Library

Richard M. Nixon (1969-1974)

The Richard Nixon Library & Birthplace Nixon Presidential Materials Project

Lyndon B. Johnson (1963-1969)

The Lyndon Baines Johnson Presidential Library and Museum

John F. Kennedy (1961-1963)

The John F. Kennedy Presidential Library and Museum

Dwight D. Eisenhower (1953-1961)

Dwight D. Eisenhower Presidential Library

Harry S. Truman (1945-1953)

The Harry S. Truman Presidential Museum and Library

Franklin D. Roosevelt (1933-1945)

The Franklin D. Roosevelt Library

Herbert Hoover (1929-1933)

The Herbert Hoover Presidential Library-Museum

Qualquer pessoa pode visitar estas bibliotecas. A entrada é franca. Eu já estive na Biblioteca de Lyndon B. Johnson, que fica no campus da Universidade de Texas em Austin. No seu acervo, se encontram objetos, artefatos, livros escritos na época e escritos desde então sobre a administração de Lyndon Johnson. Há também filmes, entrevistas, jornais da época. O que se tenta fazer nestas bibliotecas é sempre dar uma visão do que foram os anos da administração, e como ela continua sendo vista na história.

E isto traz à tona a pergunta sobre a possível biblioteca de George W. Bush. O que conteria? Ultimamente, acho que vendo que seus sonhos imperiais estavam indo por água abaixo, o governo Bush decidiu fazer uma coisa inegavelmente boa: ajudar nas campanhas contra a AIDS na África. De fato, a administração Bush triplicou as doações de dinheiro, medicamentos, equipamentos e pessoal, para o combate à AIDS, principalmente, e à malária também. Um artigo no Washington Post, de 2006, diz que Bush se encontrou com dúzias de chefe de estado africanos, e que o combate a estas doenças, embora não tenha sido importante no começo de seu governo, começou a ser cada vez mais importante. (http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/12/30/AR2006123000941.html).

Então, certamente este fato vai ser exposto na porta de entrada da biblioteca de George W. Bush, pelas razões óbvias. Todos querem ser lembrados pelas coisas boas que fizeram. Será possível que George W. Bush realmente levou suas forças armadas ao conflito do Iraque e do Afeganistão achando que estava fazendo algo bom? Na verdade, quando o Taliban “caiu,” muitos no mundo inteiro se lembraram das enormes campanhas que estavam sendo feitas na internet pedindo ajuda para as mulheres afegãs que eram mortas em praça pública como cachorros, só por não terem o corpo inteiro coberto com a burka. Ou mesmo a destruição das duas estátuas milenárias de Buda no vale de Bamyan do Afeganistão, porque os ortodoxos de lá, seguindo a crença que não devemos mostrar figuras humanas, se acharam no direito de levar canhões e dinamite e destruir tudo. Certamente, aquele governo não prenunciava coisas boas. (Mas Osama Bin Laden, a desculpa para invadir o Afeganistão, não estava lá.)

**

Nesta estação cinematográfica de fim de ano, em geral traz uma mistura de filmes “para a família” e filmes sérios. Nos “de família” temos histórias para as quais os pais podem levar todos os filhos para que se divirtam com as aventuras de Marley, ou de crianças que controlam a realidade do mundo, fazendo chover doces, por exemplo. Mas, entre os filmes sérios, tem um detalhe muito interessante: dois filmes sobre a era de Hitler. Num deles, Tom Cruise é o cabeça de um golpe para tentar matar Hitler. Em outro, um grupo de judeus durante a segunda guerra mundial passa a viver na floresta, para fugir da perseguição nazista. Coincidência?

Talvez sim. Mas talvez não. Para muitos que viveram estes oito anos acompanhando a situação dentro dos Estados Unidos, muitas vezes houve a sensação/certeza de que algo terrível estava sendo feito em nosso nome, contra pessoas indefesas, em várias partes do mundo. Outros sentiram que também tinham que bater no peito, cantar o hino nacional (mesmo que não saiba ou não possa), porque ou estávamos com o governo ou contra o país. O mais terrível disto tudo era a esmagante certeza de que não podíamos fazer nada. As mãos, os dedos, as unhas, as malhas do governo estavam em todos os lugares.

Mas a ordem há de voltar. O respeito há de voltar. O ano é novo. A esperança se renova. Um novo presidente vai tomar o poder. Embora o país esteja mais perto da bancarrota e da anarquia do que jamais esteve desde a grande depressão dos anos 30, a simples saída de W. Bush do poder já levanta os ânimos. Obama “herda” a maior casa desarrumada do mundo, numa vizinhança em que praticamente ninguém gosta dos moradores e numa cidade em que existem brigas por todo lado. Mas há esperança. Os eleitores dos Estados Unidos deram o passo certo. Agora, é só esperar que em outras partes do mundo também as pessoas de bom senso e boa vontade prevaleçam.

E aguardar com curiosidade a construção da biblioteca de George W. Bush. Eu só espero que os sapatos do jornalista iraquiano constem em uma vitrine especial, com um lugar onde todos nós que gostaríamos de ter jogado aquele sapato possamos assinar.

 

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