RAYMUNDO DE LIMA

Formado em Psicologia, Mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

 

 

“Yes, we can”, Mr. Obama!

Raymundo de Lima

 

A vida humana é guiada por sugestões, persuasões, slogans[1] ou palavras que nos ordenam o que devemos fazer. Nossa autonomia é relativa. Repetir uma palavra ou frase, automaticamente, constitui ao mesmo tempo uma catarse subjetiva e uma sintonia de um grupo ou nação, como aconteceu durante o discurso de vitorioso de Barack Obama: “Yes, we can” (Sim, nós podemos).

Os slogans são informações condensadas, sintéticas, que fisgam as pessoas para consumirem um produto material ou seguir uma idéia-fé. Sua função é apelar diretamente às paixões políticas, religiosas, estéticas; promover o entusiasmo e o ódio individual ou coletivo. A publicidade abusa deles: "Se é Bayer, é bom”, “O primeiro sutiã a gente nunca esquece”, “Compre Baton”, “A cerveja número 1”...

Há milênios as religiões usam slogans (ou mantras) para ligar os fiéis à transcendência: “Pai nosso...”, “Deus é amor”, “Só Cristo Salva”, “Deus é fiel”, “Allah é grande”, “Guerra santa aos infiéis”, etc.

No campo político os slogans são usados para fazer revoluções, vencer eleições, protestar etc.“Abaixo a ditadura”, pichado nos muros pelo Brasil afora, conduziu um movimento popular que anos depois abriria caminho para as “Diretas já”.  "Trabalhadores do mundo, uni-vos!" guiou as lutas dos trabalhadores rumo a revolução socialista. Na Rússia, o “Terra e Paz” reforçou o argumento para o país sair da primeira guerra, distribuir terras para o proletariado e fazer a revolução socialista. “Pátria amada, venceremos” também marcou a revolução cubana. “Lutar, mas não perder a ternura”, atribuído ao romântico Che hoje é apenas uma bonita frase de camiseta.

Os slogans devem ser contextualizados: “Independência ou morte” nada tem a ver com a ideologia dos anos de chumbo que produziu o “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Nos EUA, a luta pelos direitos civis dos negros foi sintetizada por “Eu tenho um sonho”, extraído do famoso discurso de Martin Luther King, em 1963. O capital simbólico de Obama, em 2008-9, transforma o sonho do reverendo King em projeto de governo multi-étnico-cultural: “Yes, we can”.   

Quanto mais são repetidos os slogans maior será a probabilidade de eles se tornarem autônomos em relação às pessoas e suas idéias-fonte. Parecendo revelações divinas, eles podem excluir o pensamento complexo e crítico. Fanáticos, terroristas e nazi-fascistas são guiados por slogans poderosos, mas vazios de sentido. No seu estudo “Propaganda política”, Jean-Marie Domenach distingue slogan de palavra de ordem, e também compara os slogans nazistas dos marxistas. Um psicanalista diria que a reprodução de slogans se dá pelo gozo da sonoridade-ato, da compulsão de falar-ouvir e causar “ex-tase”, isto é, deixar as pessoas fora-de-si. Para os fora-de-si ou foracluídos vale-tudo para o bem ou para o mal; até a repetição automática das palavras virarem desgaste ou desuso. Logo, porém, surgirá outro slogan condensando um novo sentido, e repetido até a exaustão.

Olivier Reboul observa que um slogan só pode ser destruído por outro slogan mais poderoso, melhorado. Assim, uma campanha publicitária dizia:“De olhos fechados compro tudo na primavera”. Foi superado pelo concorrente: “De olhos bem abertos compro qualidade”.

A frase de Marx “A religião é o ópio do povo” foi uma metáfora retórica funcional para fabricar ateus. Não estou convicto se este slogan aumentou o número de ateus no mundo, mas causou empobrecimento nas pesquisas sobre religião e a religiosidade. Reconhecendo o dogmatismo desse slogan o pensador francês Raymond Aron reagiu dizendo: “O marxismo é o ópio dos intelectuais”. Nelson Rodrigues repetia essa frase provocando a ira dos marxistas burgueses da Zona Sul, do Rio de Janeiro. Marxista sem ser burguês odiava o teatrólogo pelas suas provocações “reacionárias”.

Recentemente, na Espanha, alguém descrente na democracia representativa pichou o  muro com: “Basta de mentiras”. Meses depois era rebatida por outra: “Queremos mentiras novas”. Vale a recomendação do livro de Reboul: precisamos pensar o slogan para não pensar por slogans.

 

Referências

DOMENACH, J.-M. Propaganda política. Portugal: Difusão Européia do Livro, 1965?

QUINTANILHA, L. Técnicas da tradição literária ajudam a idealizar as mais criativas mensagens publicitárias. Disponível em: < http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11257 >

REBOUL, O. Introdução à retórica. São Paulo: M. Fontes, 2004.

_________. O slogan. São Paulo: Cultrix, 1984.

SLOGANS. Disponível em:<http://www.memoriadapropaganda.org.br/Artigos/20060410_Slogans.html>.

 

[1]Incorporada ao português, a palavra inglesa slogan vem do gaélico escocês sluagh-ghairm, que significa ‘grito de guerra’, uma acepção obsoleta. Mais do que impor, cabe hoje ao slogan convencer, seduzir”. Disponível em: <http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11257>

 

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