RAYMUNDO DE LIMA

Formado em Psicologia, Mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

 

 

A paixão, o ‘não’, o crime...

Raymundo de Lima

 

É duro agüentar um “não quero saber de você”, “não dá mais pra continuar”, “não te amo”. Nesse caso, em vez da ‘paixão amorosa’ murchar, geralmente ela se transforma em ‘paixão louca’, aumentando assim a probabilidade de vir-a-ser trágica. Lindemberg estava enlouquecido de paixão, tinha recebido um ‘não’, daí seqüestrou, bateu e atirou na ex namorada, Eloá.

Para além do desfecho trágico, é momento oportuno para pensar: 1) sobre o efeito do ‘não’, principalmente para essa geração de jovens acostumados a ter tudo que desejam, e não suportam frustrações; 2) sobre as paixões ‘sadias’ e ‘doentias’.

Padre Antonio Vieira bem analisou os efeitos do ‘não’. “Terrível palavra é o não. Não tem direito nem avesso; por qualquer lado que o tomeis, sempre soa e diz o mesmo. Lede-o como quiserdes, será sempre não(...); sempre morde, fere, leva veneno consigo. Mata a esperança; não há corretivo que o modere, nem arte que o abrande, nem lisonja que o adoce. Por mais que confeiteis um ‘não’sempre amarga; por mais que o enfeiteis, sempre é feio; por mais que o doureis, sempre é de ferro.” E conclui: “Tão injuriosa palavra é um ‘não’. Para a necessidade, dura; para a honra, afrontosa, e para o merecimento, insofrível”.

Imagino Eloá, na frágil experiência de adolescente, procurando dourar, abrandar, adoçar o  “não” já dito para Lindenberg, que por sua vez tenta convencê-la a apagar essa palavra maldita, ou pelo menos dar-lhe a esperança de um futuro “sim”.

Falaram sobre a “baixa tolerância a frustração” do rapaz. Pergunto-me se nessa idade existe alguém “treinado” para responder um “não”com equilíbrio e racionalidade. Como qualquer garoto de sua geração provavelmente foi poupado pelos pais para suportar os pequenos “nãos” do cotidiano, caminho necessário para se fundar uma ética pessoal. Os pais hoje se adiantam com “sim” aos filhos; vale tudo para evitar a explosão de ira deles.

A paixão amorosa – que ainda não é amor – é sempre um risco. A cegueira psíquica  do apaixonado idealiza, delira e idolatra. “Sem o seu amor não saberei viver”. Ou seja, agora, só o outro pode lhe dar sentido existencial e garantir felicidade. A paixão (gr.: pathos) mira na felicidade (gr.: eudaimonia). Em grego, ‘pathos’ é sofrimento. Os médicos dizem patologia, i.é, doença. Os apaixonados dizem que não conseguem dormir direito, e falta interesse por qualquer atividade que não envolva o pretendente. “Fico pensando nela o tempo todo” murmuram os reféns da paixão. Enfim, a paixão consome, queima, contradiz: “é um querer mais que bem querer, é nunca contentar-se de contente” (Camões).

Qualquer estrutura psíquica é vulnerável as paixões (amor, ódio, ciúme, inveja). Um apaixonado que recebe um “não” se obriga também a sofrer com o retorno de conteúdos recalcados e intensificados por tais sentimentos. Uma constituição psíquica patológica do apaixonado aumenta a probabilidade de homicídio e suicídio.

Contudo, isso não quer dizer que “toda” paixão é doença. Porque as paixões fazem parte da condição humana e dão sentido à vida. Claro, ela  pode tanto destruir como construir. O homo sapiens faz civilização, mas é sua paixão que impulsiona os projetos. “Nada de grandioso se faz sem paixão”, diz Hegel.

O coronel Eduardo declara que Lindenberg “variava” nas respostas. Ora, os casos extremos de paixão chega a ciclotimia, isto é, uma disfunção semelhante à desordem maníaco-depressiva, que apresenta períodos de excitação extrema e tristeza, além de ciúme obsessivo.

Lindemberg cometeu um ato criminoso – passional –, mas não era bandido. Na vida líquida de hoje, cuja ética é frouxa, podemos facilmente ser vítimas de paixões loucas. Impossível ir direto ao amor sem passar por elas. O caminho é educar as paixões. Mesmo assim, há riscos.

 

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