EVA PAULINO BUENO

Eva Paulino Bueno é paranaense de Cafeara. Morou em Maringá até 1975, e se graduou em Letras pela UEM (1975). Tem mestrado em Língua Inglesa pela UFRJ (1986), e Ph. D. em Hispanic Languages and Literatures pela Universidade de Pittsburgh (1991). Atualmente é professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women Writers, An Encyclopedia (Routledge).

 

 

Contagem regressiva para as eleições americanas

Eva P. Bueno

 

Assim acontece estes últimos dias por aqui na terra do tio Sam: a gente liga a televisão, e lá vem Sarah Palin trazendo o filhinho mais novo no colo, se dirigindo para o microfone. Antes de começar a falar, ela entrega o bebê para uma assistente, enquanto a multidão delira. Num outro canal, lá está Sara Palin acusando Barack Obama de ter “relações” com terroristas, com gente que quer “destruir América.” A multidão grita. Uma pessoa do meio da multidão berra, “Kill him!” – “Mata ele!” Sarah Palin, beatificamente, sorri, e continua seu discurso, dizendo dos horrores que Barack Obama significa para o país, para cada um de seus cidadãos. Depois, ela olha a câmara e diz, “O defeito de Barack Obama é que ele fica olhando para o passado, e não para o futuro, onde estão as soluções.” O Canal Fox repete as acusações da governadora do Alaska, cada discurso repetido em várias formas, de vários ângulos.

Então a gente muda de canal e vê Barack Obama em seus comícios. Ele fala que temos que salvar a economia do país, e diz quais são seus planos: salvar a classe média, ter um programa para sustentar os pequenos negociantes durante esta crise, acudir as cidades, e não somente garantir a sobrevivência dos bancos que emprestaram dinheiro sem fazer nenhuma exigência, sem requerer provas de habilidade de pagar, e das grandes companhias cujos diretores se safaram com milhões de dólares. Ele fala de como o país se meteu nesta encrenca, dos quatro anos de irresponsabilidade fiscal e de guerra preemptiva e de corrupção levaram o país à beira da falência.

Como no país só existem mesmo dois partidos viáveis (os demais, incluindo o de Ralph Nader, não têm mais que frações de seguidores), os eleitores americanos ou votam nos republicanos, ou para os democratas, ou se anunciam independentes. Quando uma pessoa se registra como eleitora, tem que dizer a que partido pertence, mas isto não quer dizer que os que se registrados como republicanos sempre votam para os republicanos, ou que democratas votam somente para democratas. Existe bastante possibilidade de mudar-se de idéia, e isto acontece de vez em quando. Durante a campanha de Ronald Reagan, existiam os “Democratas para Reagan, que aliás foram os que mudaram o destino da eleição. Mas, nos últimos dias, as duas campanhas têm se concentrado nos chamados “independentes,” que podem decidir na última hora em quem votam.

E são estes independentes que estão, de uma certa maneira, ficando mais e mais irritados com a campanha negativa de McCain-Palin contra Obama. Note-se que os republicanos não fazem campanha contra Joe Biden. Quando mencionam as coisas negativas, se concentram em Obama. Quais seriam as razões para tal?

O que fica claro é que Joe Biden, por ter sido senador já por tantos anos, é considerado completamente conhecido, acima de suspeita, embora McCain de vez em quando diga que ele estava errado ao votar contra a entrada na guerra do Iraque. Mas o ponto preponderante é simplesmente que ele é um homem branco. Obama, por outro lado, filho de pai keniano e mãe branca americana, aqui neste país é simplesmente negro. A campanha de McPalin é uma tentativa de reviver a crença no “negro perigoso, amedrontador, no qual não se pode confiar.” Por que ele é perigoso? Porque é negro, porque é inteligente, porque sabe do que está falando, porque é democrata, ou tudo isto? A campanha de McPalin, que afinal não quer utilizar a cor da pele de Obama para indicar seu nível de “periculosidade,” diz que ele tem “associações” com uma pessoa que nos anos 60, William Ayers — quando Obama tinha 8 anos de idade – pertenceu a um grupo contra a guerra do Vietnã, e que bombardeou alguns edifícios. O nível da associação de Obama com Ayers? Ayers hoje é professor da universidade e pessoa reconhecida e admirada em Chicago por seu espírito cívico e trabalho como professor (inclusive foi nomeado “a pessoa do ano” em 2005).. De acordo com o Washington Post, “The only hard facts that have come out so far are the $200 contribution by Ayers to the Obama re-election fund, and their joint membership of the eight-person Woods Fund Board” – “Os únicos fatos comprovados até agora são a contribuição de 200 dólares para a campanha de reeleição de Obama, e a sociedade num grupo de oito pessoas no Woods Fund Board.” (http://blog.washingtonpost.com/fact-checker/2008/02/obamas_weatherman_connection.html, 19 de fevereiro de 2008). No entanto, os republicanos continuam a espalhar que “Obama está em contato com um terrorista,” e estão deixando mensagens nas secretárias eletrônicas dos republicanos e de independentes, acusando-o. [1] E mesmo que McCain às vezes tente se desvencilhar desta campanha negativa, comete erros terríveis que revelam algo preocupante de sua personalidade. Um exemplo disso foi algo que aconteceu em um de seus últimos comícios, quando uma mulher pegou o microfone e disse que não votaria em Obama porque ele é “árabe.” McCain tomou o microfone da mulher e disse, “Não senhora, ele não é árabe. Ele é um pai de família decente.” Obviamente, para McCain, e seus seguidores, a questão é que um árabe não pode ser um pai de família decente. Por aí, se pode ver o tipo de relação uma administração McCain teria com o mundo, e com os países árabes.

Como tem reagido Obama a tudo isto? No princípio da campanha negativa, muitos democratas disseram que ele deveria ser superior a tudo isto, e sua campanha não deveria “se sujar” respondendo a McCain and Palin (McPalin, como muitos os chamam agora). O problema, alertaram outros, é que embora muita gente não goste de campanha negativa, as desinformações que são passadas através delas são as que ficam na mente do eleitor, e se não forem contestadas uma a uma, o eleitor vai achar que elas são verdade. Um exemplo disto foi o que aconteceu na campanha de 2004, quando um grupo de veteranos da guerra do Vietnã, pagos e nutridos pelo partido republicano, publicaram em jornais, revistas, e através do canal Fox, um documento em que acusavam John Kerry de muitas coisas, questionando seu patriotismo, e inclusive sua atuação no Vietnã, porque, ao retornar aos Estados Unidos, ele falou publicamente no senado contra aquela guerra. E, como os “veteranos do swift boat” não podiam negar que Kerry tivesse recebido uma medalha por bravura, todos eles na convenção republicana usaram band-aids na cara contendo uma reprodução da medalha, para indicar que ela não valia nada. Como resultado, muita gente acabou votando por Bush e o Doutor Morte, Dick Cheney, mesmo sabendo que a política dos dois, além de perigosa, era burra. Quatro anos mais tarde, estamos com o país em vias de bancarrota econômica, enquanto moralmente já está falido em quase todo o mundo. O grupo de “veteranos” do “Swift Boat” devem se orgulhar do que fizeram.

Como deveria Obama reagir à campanha difamatória? Ele havia dito, desde o princípio, que não queria fazer uma campanha suja. Enquanto isto, a base democrata se retorcia ao ver as acusações falsas feitas ao candidato, enquanto os McPalin continuavam a espalhar mentiras e fazer previsões das conseqüências terríveis que Obama traria ao país. Finalmente, a campanha democrática começou a responder e a trazer a sua mensagem. Logicamente, ajuda bastante que a base democrata tem contribuído generosamente para a campanha, e Obama tem dinheiro para gastar com anúncios nos quais pode rebater os ataques republicanos por um lado, e por outro especificar seus planos de governo. E por fim a campanha de Obama começou a revidar, apontando as falhas de McPalin, seus planos não-existentes de governo, e a continuação da administração Bush com outras caras. Embora Obama não quisesse partir para este caminho, e levou muito tempo para começar a responder, a sua campanha não poderia deixar que acusações como as que McPalin tem feito fossem simplesmente varridas embaixo do tapete.

A campanha negativa de McPalin obteve alguns resultados: muitos americanos, cansados que estão destas acusações infundadas dos republicanos, e tendo em vista que o que mais lhes importa neste momento é que estão perdendo seus empregos e suas casas, estão começando a ir para o lado de Obama em grandes números. Em estados tradicionalmente “vermelhos” — republicanos — como a Carolina do Norte e Missouri, agora já existe a possibilidade de uma vitória democrática.

Será que as pessoas, de repente, mesmo aquelas que votaram por George W. Bush tendo plena consciência da sua incompetência, sua truculência, sua machice besta, agora de repente resolveram optar por um candidato com mais habilidade de governar, e que não tem a carga histórica e o pavio curto de John McCain atrelado com uma mulher sem condições de governar? Eu acho que, na verdade, de uma forma ou de outra, as pessoas aqui, como em todos os lugares, buscam o seu próprio interesse. Se no momento da eleição a coisa mais importante se resume nos ruídos dos tambores de guerra, na busca insana da “vingança,” então a população vota com o candidato que se propõe a ir à guerra. A sanha expansionista americana, assim como o foi a romana, a espanhola, a portuguesa, a inglesa, a francesa, e outras, sempre tem um fundo econômico, cujos ganhos “filtram” para a população, depois de ter deixado o “grosso” dos ganhos com as figuras políticas mais importantes, os amigos dos amigos dos chefes, a gente “de cima.” No momento, no entanto, como a guerra do Iraque realmente não está sendo tão fácil como os articulistas republicanos apregoaram, e não está rendendo o quanto esperavam (pelo contrário, está sendo uma hemorragia mensal de bilhões de dólares), e os soldados morrem bestamente, e os que retornam doentes não recebem o tratamento adequando, então faz mais sentido que a população dirija seu olhar pra dentro das próprias fronteiras, pra ver a situação econômica fora de controle dentro do país, e que prefira o candidato que promete se dedicar mais a resolver os problemas internos, a ajudar a classe média, e a tratar os assuntos exteriores com tato e diplomacia, para que não se necessite sair fazendo guerra com meio mundo.

Mas nem todos acham que o que Obama sugere é o melhor para o país. Esta semana do último debate entre os dois candidatos a presidência, a figura mais marcante foi um tal “Joe encanador,” um homem “do povo” que saiu do meio da multidão e falou com Obama durante uma das suas caminhadas pela cidade de Holland, Ohio. Joe Wurzelbach disse a Obama que seu plano de impostos lhe causaria dano, porque estava pensando em comprar uma firma de consertos, e que a firma ia custar mais que $250 mil dólares, e que então teria imposto mais alto. Obama lhe explicou que o valor da companhia não seria o que seu plano de impostos tomaria em consideração, mas o ganho anual do dono. Ou o ganho anual de qualquer pessoa. Quem fizer menos que $250 por ano, pagará menos impostos.  “Joe the plumber” se tornou celebridade da noite para o dia, já que McCain o usou como exemplo dos que serão sacrificados no plano de impostos de Obama, ao que Obama retrucou, outra vez, que quem ganhar menos que um quarto de milhão de dólares por ano, pagará menos impostos. O que se descobriu, no dia seguinte ao debate, é que “Joe the plumber” na verdade não tem licença para ser encanador, é republicano, é um seguidor de McCain,e não teve problema nenhum de dar seu plano de ação: fechar a fronteira, continuar a guerra no Iraque, abaixar todos os impostos. De fato, com a dívida que o governo Bush-Cheney está deixando para quem assumir a presidência em janeiro de 2009, qual outra maneira de arrecadar fundos e resolver a situação interna do país senão atacar outros países ricos em petróleo para arrecadar um tanto dos lucros para os gatos gordos? O único problema é que, como já se viu, a guerra do Iraque não está rendendo e jamais vai render os lucros que se pensava.

E assim caminha a humanidade americana. As coisas se desenrolam, devagar, arduamente, e parece, pelos últimos resultados da pesquisa de opinião, que Barack Obama tem alguns pontos acima de John McCain.  No domingo dia 19 de outubro, Colin Powell, uma das figuras públicas mais respeitadas entre os dois partidos, disse que vai votar em Obama, porque ele representa uma “força transformacional” para a política americana.

Mas convêm não esquecer que, em algum lugar dos Estados Unidos, uma mulher chamada Sarah Palin vem trazendo para o palco seu filhinho, puxando os cordões dos corações das pessoas da sua audiência. “Oh, vejam que doce mãe ela é!” O bebê, claro, não pode dar sua opinião, embora me pareça muito estranho a mãe estar trazendo-o para lugares frios, a céu aberto, a qualquer hora do dia e da noite. Mas, como vem todo embrulhado, pode ser qualquer criança—até mesmo uma boneca!--e ninguém notaria a diferença. Uma doce figura materna. Mas esta é a mesma mulher que, durante seu debate com o candidato a vice-presidente pelo partido democrático tentou zombar dele, e quando ele se emocionou ao dizer que entende a situação do pai de família em dificuldade, sem saber se vão conseguir manter a família (ele passou por isto quando sua mulher e filha morreram em um acidente de carro, e seus dois filhos ficaram gravemente feridos), ela passou por cima da emoção dele, sem se deter, sem oferecer sequer um segundo de solidariedade, sempre sorrindo, soprando as brasas do partido. O povo notou. Assim como notou que no penúltimo debate McCain se referiu a Barack Obama, seu colega no senado, como “Aquele ali.” O povo notou, comentou que não gostou.

Mas será que tudo isto vai se converter em votos para o candidato democrata em novembro? Não se sabe. Em inglês existe uma palavra muito bonita, “gullible,” que quer dizer mais ou menos “ingênuo, sem malícia.” Houve tempo em que eu achava que esta palavra servia muito bem para caracterizar a maioria das pessoas daqui. Hoje em dia, já não tenho tanta certeza. As pessoas sabem muito bem o que querem, e não são ingênuas. O problema é que a maioria delas vive afundada num charco de ignorância, acha que o mundo inteiro lhes deve algo, e que sua superioridade é indiscutível, e que seu destino é realmente ir por todo o planeta e impor seu modelo político, econômico, filosófico. Para estas, vale o outro significado de “gullible”: manipulável.

Felizmente, existe uma minoria que se pensa como parte de uma comunidade muito maior que a constituída pelos que são deste país, uma comunidade de pessoas de bom senso, que não existe só nos EUA, mas que vive em todos os países do mundo. São uma minoria aqui, e provavelmente são uma minoria em todos os países, mas juntas, todas estas minorias multi-nacionais formam um grande número de pessoas de boa vontade que não desistem, e continuam tentando levar adiante a idéia de que um país não tem nem o direito de se impor aos mais fracos, e que a dignidade humana não é negociável, e não depende da cor da pele, da religião que a pessoa segue, nem de quanto dinheiro ganha.

Estas eleições deste ano, como disse o senador Joe Biden, candidato a vice-presidente pelo partido democrata, são as mais importantes das vidas de todos nós que vivemos aqui. Da decisão do povo americano (e tomara que as mumunhas eleitoreiras sejam mínimas desta vez) depende o que vai acontecer praticamente no mundo inteiro nas próximas décadas. As conseqüências do tumulto do mercado de ações americano nos mercados de ações do mundo inteiro são uma prova disto, assim como a situação militar afeta a política de países que nem sequer têm soldados envolvidos nos conflitos encabeçados pelos Estados Unidos. Será interessante ver se o povo é manipulável e vai se deixar influenciar pela imagem de uma mulher posando com seu bebê enquanto fala horrores de outra pessoa, ou se o povo vai tomar consciência do peso da situação para todos nós, no mundo inteiro, e votar com a cabeça em cima do pescoço lugar, e não dentro de encanamentos republicanos. A contagem regressiva se acelera.

 

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