ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)

 

 

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Contribuição à história do marxismo no Brasil (1987-1994)*
 
 

A esquerda marxista e o PT (II)

A Nova Esquerda (NE) e o Movimento por uma Tendência Marxista do PT (MTM-PT)

Antonio Ozaí da Silva**

 

Das correntes vinculadas ao marxismo-leninismo, o caso mais singular foi o giro efetivado pelo Partido Revolucionário Comunista (PRC) que, em 1989, decidiu se dissolver enquanto partido e adotar o caráter de tendência interna do Partido dos Trabalhadores.[1] Não se tratava de simples adaptação à resolução sobre as Tendências adotada pelo 5º EN. A mudança no caráter organizativo expressa questionamentos internos sobre a estratégia e tática socialistas, o leninismo e o marxismo.  

O PRC foi criado segundo o modelo de organização marxista-leninista. Como outras organizações, ele se autoproclamou o embrião do partido revolucionário no Brasil. [2] Essa concepção de organização determinou a caracterização e as relações políticas com o PT. Estes comunistas enfatizaram que não alimentavam “falsas expectativas em relação a um papel estratégico revolucionário do PT”. Para eles, o PT era “uma organização político-frentista hegemonizada por posições reformista, aprisionada nos marcos da ideologia burguesa”.[3] Portanto, um partido tático. Enquanto tal, não se subordina à sua disciplina.[4]Por outro lado, reconheceram a importância do PT como “o único partido não integrado à transição e à política de “conciliação nacional” e “com possibilidade de evoluir num sentido democrático-radical”. [5]

Estas posições pautaram as relações, sempre tensas e conflituosas, entre o PRC e o PT – particularmente, a corrente majoritária. As divergências no campo da organização expressavam concepções discordantes em relação á tática e à estratégia. O PRC centrava sua tática na desestabilização da Nova República, cujo objetivo seria derrotar da estratégia burguesa em consolidar a “democracia dos monopólios e criar uma correlação de forças favorável ao avanço da luta pela estratégia revolucionária”[6]: a construção de uma Alternativa Democrática, Operária e Popular. [7] Esta alternativa se contrapunha à estratégia “democrática e popular”, formulada pela ART. [8]

A partir do seu 2º Congresso, ganhou força em seu interior a posição política daqueles que defendiam um novo tipo de relacionamento como PT, questionando a própria existência do PRC enquanto partido. Diversos dirigentes passaram a defender internamente uma política que enfatizava a construção do PT como partido estratégico. Em abril de 1987, seu Comitê Central fez a autocrítica, admitindo equívocos e imprecisões táticas em sua relação com o PT. Estes erros, admitia o CC, persistiam desde o 1º Congresso – e mesmo depois do 2º Congresso.[9]

Seu 3º Congresso, realizado em agosto de 1989, formalizou a nova linha política organizativa com a anuência de cerca de 90% dos presentes à proposta de extinção do partido. Com o lançamento de um manifesto Por uma Nova Esquerda, os militantes do ex-PRC pretenderam fomentar o debate, livre do dogmatismo, sobre os principais problemas enfrentados pela esquerda: a concepção de partido, o socialismo e o próprio marxismo.

O manifesto expressa a pluralidade dos esforços que convergiam para a construção de uma nova Tendência petista. Expressa a pluralidade das forças políticas envolvidas nesse esforço, unidas pelo “compromisso radical contra o dogmatismo“. Nesse momento, discordam tanto dos vêem o socialismo como “resultado espontâneo das lutas reivindicatórias” quanto dos que pensam-no como resultante de uma “estratégia que pretende alterar, de reforma em reforma, a natureza do Estado”.[10]

O manifesto apresenta o marxismo como a síntese revolucionaria da paixão presente na razão iluminista que antecedeu a Revolução Francesa, entre os revolucionários de Paris em plena Revolução, nos insurrectos de 1871, que ressurgiu em Petrogrado em 1917 e em outros acontecimentos que mudaram a história da humanidade. Esse marxismo, herdeiro desta paixão, “é em sua origem um humanismo radical” e, como dizia Marx, deve duvidar de tudo.[11]

Essa é a para romper com o dogmatismo dominante, comparado a “um fantasma a arrastar sua corrente de ferro pelos porões da consciência, mesmo entre o pensamento de muitos que se declaram anti-estalinistas”. Esse “fantasma” impede que o “anjo da história”[12] volte sua face para o futuro. “O “anjo da história” só terá condições de voltar sua face em direção ao futuro quando acertarmos as contas com as ruínas das revoluções”, afirma o manifesto.[13]

A superação desse passado nos coloca questões cujas repostas condicionam a própria possibilidade de construir uma nova utopia que resgate a paixão dos revolucionários. São perguntas que não dizem respeito apenas aos formuladores do Manifesto Por uma Nova Esquerda, mas a todos que procuram superar seus fantasmas que, como afirmam, se arrastam pelos porões das nossas mentes. Pois:

“O que fez com que o sonho bolchevique chegasse ao pesadelo dos processos de Moscou? O que diríamos se estivéssemos em Budapeste em 1956 ou em Praga em 1968? Como situar a infinidade de grandes e pequenos crimes cometidos em nome do Comunismo e pelos comunistas?” [14]

Evidentemente há respostas. Porém, os que propõem uma Nova Esquerda não se satisfazem com as respostas fáceis dos que “alimentam uma visão maniqueísta da história e situam a origem dos problemas políticos da revolução russa na hegemonia burocrática”, isto é, na contra-revolução stalinista da segunda metade da década de vinte. A estes, pode-se, por exemplo, perguntar: “E Kronstadt? Como situar o massacre dos marinheiros da fortaleza de Kronstadt em 1921?” [15]

As questões levantadas pelo manifesto – concorde-se ou não com ele – são profundas. Elas desencadearam um processo interno que evoluiu de forma diferenciada e que resultou na formação de duas novas Tendências: a Nova Esquerda (NE) e o Movimento por uma Tendência Marxista do PT (MTM-PT).[16] Esse desenlace ocorreu no encontro nacional, realizado em fevereiro de 1990, que deveria fundar a “nova esquerda” proposta no manifesto.

Neste encontro foram apresentadas duas teses. A primeira, defendida pela maioria e intitulada Para uma estratégia revolucionária, afirma o marxismo como uma referência teórica como outras e recusa a filiação ao mesmo; descarta a ditadura do proletariado; e, defende o caráter não-comunista da tendência. A outra tese, PT: que socialismo?, também defende uma postura antidogmática em relação ao marxismo, mas mantendo muitos dos princípios e valores considerados pela maioria dos que formaram a NE como ortodoxos. Esta tese teve o apoio de cerca de 25% dos delegados eleitos nos Estados.[17]

A divisão reflete caminhos e enfoques diferentes a respeito do tipo de organização, do programa e da estratégia socialista. Segundo Corrêa, vereador petista em Belo Horizonte (na época) e integrante da TM, “não houve propriamente um “rompimento” com a NE, já que esta tendência apenas se constituiu no Encontro Nacional”. Antes, havia apenas o esforço de militantes petistas, organizados ou não em coletivos, com objetivo de formar uma nova Tendência do PT. Em Minas Gerais, estes militantes se intitulavam Corrente Revolucionária. De qualquer forma, há uma trajetória comum, desde o PRC, interrompida pela negativa dos que formaram a TM em integrar a NE.[18] 

A crítica formulada pelos que formariam a TM foi antecipada por outros. Guimarães observara o “movimento pendular” perpetrado pela NE entre a crítica positiva aos dogmas e a negação dos conceitos chaves marxianos. Para ele, a crítica elaborada pela NE não se aplicava ao PT, cuja pluralidade e aversão aos dogmas é patente desde sua fundação. Se não era o PT a quem então se dirigia a NE? O próprio autor respondeu:

“Só pode ser ao seu próprio passado, à forma como aprendiam e aplicavam o marxismo. Este “marxismo” teria entrado em contradição com a vida – com a realidade rica e incontornável do PT – e, portanto, teria de ser revisto”. [19]

Esta revisão levara a NE ao extremo oposto do dogma, isto é, ao abandono não só daqueles elementos negativos em seu passado, mas também da própria positividade que pudesse ser recuperada e mantida a partir da sua trajetória. Para Guimarães, os teóricos desta corrente “usam Gramsci contra Lênin e até mesmo contra Marx”. Ele observou que vários conceitos identificados como marxistas pela NE eram, na verdade, “aspectos do stalinismo ou visões impregnadas de sua influência”.[20]

Não é essa a posição da NE.[21] Ela identificou a crise no Leste Europeu como do projeto socialista e do marxismo:

“Não só porque os governos totalitários recentemente destituídos ou ainda subsistentes se autodefinem como socialista, mas principalmente porque, de fato, a matriz político ideológica de todos eles se situa no leito histórico do movimento de luta pelo socialismo e o comunismo”.[22]

Como a VS, a NE concluiu que o stalinismo representou a continuidade histórica de Marx e Lênin. Ambas produziram uma singular assemelhação entre o stalinismo e o trotskismo; ambas elegeram a tendência DS como interlocutora principal na polêmica desencadeada neste período.[23] A crítica à corrente trotskista é mordaz: seu marxismo estaria, como afirmou Rolim, de forma irônica, “fora do tempo”.[24]

A coordenação da VS afirmou categoricamente que a explicação histórica dessa Tendência – e do trotskismo em geral – sobre o processo de burocratização e degeneração Revolução Russa “não passa de um mito construído pela ideologização trotskista da história”. As origens do stalinismo, portanto, estariam na concepção leninista de organização, a qual estaria fundamentada “numa concepção politicista de transformação social”.[25]

As críticas à NE são invariavelmente identificadas como uma reiteração da ortodoxia marxista. Suas teses pleiteiam um socialismo humanista e libertário, um “dever-ser”. Com isto, ela afirma uma postura comum a outras Tendências: a compreensão de que o socialismo é “uma possibilidade aberta pelo desenvolvimento histórico”. Portanto, ele “não é fruto de uma lógica inscrita na objetividade, nem é o resultado natural e inevitável de contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações sociais de produção”.[26]

Se o socialismo permanece como um projeto, a estratégia para conquistá-lo não mais pode se fundamentar na velha idéia de revolução. A NE concebe a revolução socialista como um “movimento de negação-afirmação cuja realidade material expressa-se, na esfera pública, pela construção de um Poder alternativo capaz de fundar e sustentar um novo Estado”. Ela, a Revolução, é “essencialmente, a afirmação da liberdade; a fundação do novo Estado constitui “a libertação”, ou seja, “o momento negativo da liberdade”. Na dialética da NE, novo Estado e Revolução Socialista correspondem a “ser livre de” e “ser livre para” – libertação e liberdade. [27]

Esta concepção pretende afirmar a Revolução “como um processo de luta contra a violência”. (sic.) O contrário seria sua degradação na “apologia da barbárie”. Ingenuidade? A NE pretende justamente se contrapor à “visão pacifista ingênua, segundo a qual o acúmulo e a concentração de hegemonia sejam garantias suficientes para a conquista do Socialismo”. Por outro lado, recusa o que considera como a “visão tradicional”, a idéia de que os fins justificam os meios. Contra o pacifismo ingênuo. Mas também contra qualquer idéia que justifique ou valorize a violência – ou que a coloque como “parteira da história”.[28]

A Revolução, como admite a NE, pressupõe “atos legítimos de força”, pois trata-se de “induzir a minoria a fazer o que não deseja ou a renunciar a algo que deseja”.[29] Como se impor à minoria sem sucumbir à ingenuidade ou à violência pura? A resposta da NE está na legitimação da força, entre outros fatores, pelo estabelecimento de

“um novo consenso, democrático, majoritário e hegemônico na sociedade, para que os momentos coercitivos do estado sejam legitimados pela ampla maioria e realizados no interior do Estado de direito, previsível e normatizado, com instituições plenamente constituídas”.[30]

Mas, é possível atingir este consenso sem o recurso à violência por parte dos que, embora minoritários, controlam o poder econômico e político? E, no caso da reação dominante apelar à violência na defesa dos seus interesses, os explorados devem abdicar da violência revolucionária? A resposta, acredita a NE, está na sociedade civil, isto é, no deslocamento do foco da disputa política do Estado para esta e a conseqüente submissão deste à mesma.[31]

Nesse momento, a NE utiliza um referencial marxista, fundamentalmente Gramsci. Com efeito, a influência gramsciniana é comum à TM. Evidentemente, as interpretações do pensador italiano são divergentes. Um olhar crítico verá que o “socialismo liberal” da NE não suporta a “crítica marxista do Estado”. Assim, ela é obrigada a descartar o Gramsci revolucionário e reduzi-lo a uma versão domesticada, à “maneira social-democrata” do PCI.[32]  

Para a TM, a questão principal está em saber se o Estado burguês, a despeito das mudanças ocorridas na sociedade capitalista, mantém sua particularidade de classe e o “monopólio coercitivo”. Segundo Rocha, os “guardiões da modernidade”, ao tentarem ultrapassar o marxismo, recuam a Bernstein; ao se embeberem de forma acrítica das contribuições dos pensadores contemporâneos, eles “dissolvem a singularidade da política nos imperativos éticos, na pragmática moral e na imaginação radical”.[33] A resposta revela o grau das divergências com a NE. A TM assume a necessidade da ruptura revolucionária, da destruição do Estado burguês etc.

A NE afirma que “a Revolução não se constitui num projeto imanente à realidade social. Nenhuma classe, grupo ou camada social é revolucionária pela posição que ocupa no modo de produção”.[34] O sentido político desta afirmação reside na crítica aos que, a despeito das inovações tecnológicas e da derrocada dos regimes do Leste Europeu, continuam defendendo que o proletariado é a classe historicamente revolucionária, portadora de um projeto histórico que, em sua essência, é universalizante e emancipador. Esta postura não se fundamenta numa crença religiosa, mas nos antagonismos determinados pela posição objetiva ocupada pelas classes na sociedade capitalista.

Sem dúvida, a implantação de novas tecnologias resulta em mudanças nas relações do trabalho e no próprio perfil do proletariado. Paralelamente ao trabalhador clássico da segunda revolução industrial, vinculados ao velho modelo taylorista-fordista, coexiste um novo mundo do trabalho composto por um contingente de trabalhadores ligado à informática, eletrônica, telecomunicações, à pesquisa científico-tecnológica.[35] Mas estas transformações no mundo do trabalho não suprimiram a velha classe operária, nem destituíram a nova força de trabalho qualificada da sua qualidade de proletários. As contradições e antagonismos entre as classes permanecem.

Os formuladores das teses da NE reconhecem as contradições objetivas do capitalismo, em especial aquela que separa a minoria de proprietários privados dos meios de produção da maioria constituída por aqueles que só dispõe da sua força de trabalho. Portanto, entre exploradores e explorados. Estes últimos, na elaboração teórica da NE, têm uma “pré-disposição genérica favorável” que “condiciona o desenvolvimento de uma ideologia revolucionária”. Como esta “pré-disposição” é determinada por uma situação que se apresenta em sua forma imediata, ela se configura como interesse. Estes interesses se referem aos indivíduos e às classes. Mas como as classes não determinam “interesses históricos”, então não há garantia que a pré-disposição dos explorados redunde em ideologia revolucionária.[36]

As conclusões a que chegou Genoino e a NE se fundamentam numa análise sobre as experiências do socialismo real, identificadas como a via comunista contraposta à via social-democrata. O desafio do PT e da esquerda em geral seria precisamente formular uma alternativa que supere ambas. Pois, se a social-democracia teve o mérito de negar o totalitarismo, ela não resolveu os problemas candentes da humanidade e se limitou a administrar o capitalismo – e nisto Genoino está de acordo. A via comunista, por sua vez, “deu origem a sociedades totalitárias e ineficientes”.[37]

Muitos marxistas e Tendências marxistas – inclusive correntes consideradas ortodoxas – concordam quanto à necessidade da renovação do socialismo, de “recriar um projeto socialista”; muitos estão de acordo com a crítica aos conceitos de partido, Estado e Revolução, vinculada à experiência que desabou no Leste; muitos concordarão inclusive que o desmoronamento do socialismo real tem um efeito positivo porque, como escreve Genoino, “nos obriga a aceitar o desafio de criar uma nova utopia, um novo projeto que volte a mexer e a apaixonar as pessoas”.[38]

Mas, esses marxistas não estão de acordo com sua fundamentação teórica, com a similitude restritiva do marxismo ao socialismo real, com o grau da ruptura que as formulações atingem ao percorrerem o caminho de volta à heterodoxia e, principalmente, com as conseqüências práticas desta política. Muitos se recusam, terminantemente, a “dar adeus a tudo aquilo”, principalmente se “aquilo” ao qual se refere Genoino significar renegar o pensamento e a obra de Marx-Engels – e em diversos casos, de Lênin, Trotsky etc. Agora, vários aceitarão o seu conselho se este denotar o desejo de aprofundar a crítica a tudo o que significou o socialismo real.

Em suma, como salienta Tarso Genro no prefácio à polêmica entrevista dada por Genoino à Folha de S. Paulo[39], “são múltiplos os graus de ruptura da esquerda marxista não ortodoxa ou ex-marxista com o cemitério filosófico do stalinismo”. Mesmo o prefaciador, é da opinião que esta ruptura “é profundamente dialética, e porque não dizer, marxista”.[40] 

Romper não significa necessariamente execrar o passado em sua totalidade. Genro reivindica as “contribuições marxianas” que permanecem atuais. Essas dizem respeito “aos enunciados do seu humanismo revolucionário”, ou seja:

“A defesa de que “para o homem a raiz é o próprio homem”; a tese de que o capitalismo é uma forma histórica determinada e superável, através das lutas que pressuponham uma ordem em que a produção e a distribuição social da riqueza sejam o objeto da sociedade, a afirmativa que sustenta ser possível a extinção da alienação numa sociedade regulada e ao mesmo tempo livre de toda a opressão; a confiança de que as condições materiais, culturais e científicas da sociedade capitalista possibilitam um grande salto para a humanidade”.[41]

Contudo, se como admite Genro, é impossível refletir sobre o socialismo sem dialogar com Marx e o marxismo, é necessário ir além: no sentido da libertação em relação ao marxismo estratificado historicamente. Isso não significa um retorno ao “Marx original”. (“Qual deles?”, pergunta Genro). Ir além, quer dizer, revolucionar o pensar humano

“com a mesma ousadia de Marx e incorporando não só as lições da História, mas outros horizontes científicos e filosóficos produzidos nas últimas décadas, à semelhança do que ele realizou no seu tempo”.[42]

A postura teórica da NE se traduz, no plano da ação política concreta, em proposta igualmente polêmicas. A tendência centraliza sua atuação no parlamento, compreendido como o lugar privilegiado para implementar a reforma do Estado. Esta política se expressou na resistência à palavra de ordem Fora Collor; na defesa da governabilidade do governo Itamar Franco; na cruzada pelo parlamentarismo; na proposta de participar positivamente da revisão constitucional; na insistência, reiterada em vários momentos, em prol de uma ampla política de alianças da esquerda e centro-esquerda; na defesa da reforma do Estado.[43]

Esta estratégia fundamenta-se na constatação de que a esquerda se encontra na defensiva política e ideológica e que qualquer avanço passível de alterar a correlação de forças só pode se dar pela “reforma e permeabilização do Estado burguês às reivindicações democráticas e populares”.[44]

A aceitação ou não desta perspectiva é relacionada ao caráter conservador ou moderno da esquerda.[45] Para Genoino, o desafio do PT e – dos marxistas em geral – é estabelecer um “novo início”. Essa é a “primeira revolução” que a esquerda precisa fazer. A começar pela própria rediscussão do conceito de Revolução, pois, ainda de acordo com o deputado, “o verdadeiro paradigma não está entre esquerda e direita, mas entre conservadorismo e renovação”.[46]

A NE se aproximou da ART – particularmente da sua ala mais heterodoxa e institucionalista; do setor da VS, liderado por Augusto de Franco e Eduardo Jorge; do grupo PT Vivo, com forte presença e influência na administração Erundina; de um grupo no Rio de Janeiro, composto por Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder, entre outros; e uma ala da igreja liderada por Plínio de Arruda Sampaio e Irma Passoni.

Essa aliança foi consolidada com a apresentação de tese conjunta ao 1º Congresso do PT, em 1991, pelo PPB. Porém, o núcleo de forças que o compôs inicialmente não se manteve: no Rio de janeiro saíram Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder e Milton Temer, entre outros; no Rio Grande do Sul, Tarso Genro, adotou uma postura independente; os da ART que assinaram a tese do PPB, tinham-no como segunda opção; da VS, destaca-se a saída de Augusto de Franco, não só do PPB, mas do próprio PT – foi incorporado à Comunidade Solidária; Irma Passoni, seguiu o exemplo de Franco e aderiu ao governo FHC; Plínio Sampaio, ao contrário, se manteve no PT e assumiu uma postura independente – chegou a ser cogitado pela esquerda petista para disputar a presidência nacional do partido no 10º EN. Dos que permaneceram na DR destacam-se nacionalmente os deputados Eduardo Jorge e José Genoino.

De qualquer forma, o PPB expressou uma recomposição de forças políticas na esquerda brasileira cuja crítica ao marxismo enveredou para uma postura que historicamente procura fundir socialismo e liberalismo.[47] De fato, o marxismo – principalmente a sua vertente dogmática e autoritária – sempre teve dificuldade em reconhecer qualquer positividade na democracia liberal-burguesa. Com isso secundarizou e/ou instrumentalizou bandeiras democráticas e aprisionou o indivíduo ao coletivo – em geral, representado por um partido autodenominado revolucionário. Com a derrocada do stalinismo e o enfraquecimento do movimento socialista, é natural que as liberdades individuais e a democracia sejam revalorizadas. Mas esta não é uma questão nova para o movimento operário.[48]

Embora catalizador de um processo de deslocamento teórico-político de marxistas ortodoxos – muitos com formação stalinista – o PPB refletiu graus de preocupações diversas. Sua própria composição expressou sensibilidades divergentes em relação aos temas teóricos e/ou conjunturais.[49] Não se pode negar o esforço de setores que o compuseram em sinceramente superar uma concepção autoritária e dogmática do socialismo. Mas sua evolução se deu no sentido contrário da crítica positiva ao marxismo, resultou simplesmente na sua negação. A formação da DR[50] expressou a predominância dessa política.[51]

A DR, a exemplo do seu antecessor (o PPB), não se assume enquanto Tendência, isto é, estruturada nos moldes dos demais grupo que disputam espaços na estrutura petista. Minoritária nas instâncias nacionais petistas, a DR deslocou sua ação, através dos seus principais líderes, para o parlamento e as articulações pluripartidária. A proximidade com o grupo de deputados e senadores de vários partidos articulado por Roberto Freire, com o objetivo negociar as reformas constitucionais com o governo FHC, colocou os principais interlocutores da DR – José Genoino e Eduardo Jorge – em rota de colisão com a maioria do PT – inclusive com a Articulação Unidade na Luta.[52]

Genoino e Eduardo Jorge foram convocados pela executiva petista para explicarem a participação na “articulação política paralela” liderada por Freire e a defesa de posições contrária ao partido, como o fim do monopólio das estatais e a proposta de reforma da previdência apresentada por Eduardo Jorge. Na reunião, afirmaram que não votaram contra as posições do partido; negaram qualquer apoio ao governo FHC; esclareceram que a participação em reuniões com parlamentares de outros partidos não configurava a formação de um bloco político, nem qualquer articulação paralela; disseram não querer entrar em confronto com o partido e decidiram que seu grupo iria preencher as duas vagas na executiva, a qual haviam abandonado. Diante da insistência do deputado Eduardo Jorge em manter sua proposta, a executiva encaminhou o problema para o Diretório Nacional.[53]

A política do deputado José Genoino encontrou resistências no interior da própria DR. O deputado federal Milton Temer (PT-RJ) questionou seu colega. "O Genoino é grande demais para ser liderado pelo Roberto Freire", afirmou.[54] Temer também divergiu de Genoino ao defender os monopólios estatais na área de telecomunicações e petróleo. Temer disse que não quer melhorar o capitalismo, mas transformá-lo. Ele é dos líderes de um grupo de comunistas que, em 1988, rompeu com o PCB e entrou no PT.[55]

Nessa perspectiva, a crítica ao marxismo fora longe demais: da ortodoxia ao “melhorismo”. Sem cair nos extremos, outros agrupamentos e Tendências reconheceram a necessidade de renovar o marxismo. A TM, por exemplo, considerou este processo como inerente ao conteúdo revolucionário do marxismo. Ela coloca-se “no leito da tradição deste pensamento” e, portanto, recusou o papel de crítico externo ao mesmo. “Só o marxismo possui os fundamentos teóricos-filosóficos capazes de operar esse processo constante de renovação fundamental às correntes revolucionárias”, afirmou.[56]

Além de reafirmar o marxismo, a TM difere da NE no tocante a avaliação da falência das formações sociais no Leste Europeu. Para ela, o que aconteceu nestes países, representou “o fim de um ciclo aberto pelo stalinismo”. “Do ponto de vista filosófico, trata-se da bancarrota do conceito economicista de socialismo, reduzido ao somatório da propriedade estatal mais a planificação, que agora cede terreno ao capitalismo privado do tipo ocidental”, afirma. A TM diferencia o capitalismo ocidental do “capitalismo burocrático de Estado”, característico daquelas sociedades.[57]

Sem referir-se à NE ou à VS, a TM escarnece os que jactam-se da morte de Marx, apresentam Lênin como um “ditador fanático” e identificam o marxismo com o “mecanismo irradiado desde a União Soviética”:

“Semelhantes vulgaridades”, afirma o MTM, “são repetidas sem o menor senso crítico por muitos intelectuais e correntes de esquerda, que se entregam ao abatimento e à capitulação perante a ofensiva do capital. Esta psicologia revela a crise de perspectivas diante do fracasso daquilo que há décadas vem sendo apresentado como socialismo, da correlação de forças surgida com as vitórias da direita nesta década e da incapacidade que a ossificação dogmática, cristalizada desde a Era Stalin em nome do marxismo”.[58]

A TM constituiu-se em Tendência interna do PT, conceituando-o como um “partido revolucionário e socialista em formação e disputa”, como um “partido operário e popular”.[59] Essa caracterização justifica a militância em seu interior para que ele “assuma o papel estratégico central da revolução socialista”. Para a TM, O aspecto principal da atuação dos revolucionários no PT é, nas condições históricas atuais, lutar para que ele se constitua numa “alternativa operária e popular” que desafie a hegemonia burguesa.[60]

A TM se afirma como uma tendência petista “definida filosoficamente pelo marxismo” que, mesmo aplicando as decisões das instâncias do PT e acatando sua disciplina, funciona na base “da prevalência das posições majoritárias sobre as minoritárias e das instâncias gerais sobre as particulares”.[61]

Também houve uma recomposição entre os defensores da atualidade do marxismo, no espírito de renovação e crítica à ortodoxia – tendo como referência o próprio marxismo. Esta perspectiva consolidou-se no 1º Congresso do PT, na confluência da TM com a FS, a BS e personalidades independentes, como Florestan Fernandes, resultando na apresentação da tese PT Socialista e Revolucionário.

Essa tese diferencia o socialismo revolucionário do stalinismo.[62] Reconhecem, no entanto, os “erros acumulados pelos bolcheviques, que abriram brechas para a cristalização burocrática”.[63] Para seus defensores, o PT resgatou o socialismo como uma “proposta intrinsecamente democrática”; como um conceito que “se refere a um período de transição entre o capitalismo e uma sociedade sem classes, humanista, universal, possibilidade que só pode se realizar mundialmente”.[64]

A tese caracteriza a social-democracia como “uma doutrina autônoma em relação ao socialismo moderno” que tem na sua origem a marca do “socialismo de guerra”. Entre suas “realizações” destacam-se: co-participação no assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebckneck, na Alemanha; a traição às revoluções espanhola e argelina; o apoio à guerra do Golfo; e a gestão dos interesses capitalistas, aplicando uma política imperialista. Há muito que a social-democracia abandonou “na teoria as veleidades anti-capitalistas que na prática já lançara no lixo”, conclui.[65]

Por tudo isto, a Tese 10 recusa a participação do PT na Internacional Socialista, mesmo como observador. Pois, seus formuladores são da opinião que, na polêmica que separou o socialismo revolucionário da social-democracia, não se admite neutralidade ou mesmo a possibilidade de uma terceira via entre esta e o stalinismo.

A intervenção conjunta no 1º Congresso fortaleceu os laços políticos entre estas forças. Após o congresso, elas intensificaram os esforços no sentido de formar um fórum comum que lhes desse um mínimo de organicidade política. Este projeto evoluiu com a formação do NLPT, em abril de 1992, o qual incorporaria as Tendências BS e OT e o coletivo do deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh.

 

* Os artigos que compõem esta série são versões adaptadas da dissertação de Mestrado, Os partidos, tendências e organizações marxistas no Brasil (1987-1994): permanências e descontinuidades, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), em 1998, sob a orientação de Maurício Tragtenberg. A banca de defesa foi composta, além do orientador, pelos professores Isabel Maria Loureiro e Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida. A dissertação não foi publicada em versão impressa e a iniciativa que ora adotamos visa disponibilizá-la aos militantes do movimento social, estudiosos do tema e demais interessados – afinal, a pesquisa foi financiada por dinheiro público, através de bolsa de estudo do CNPq. Aqui trataremos das organizações marxistas não vinculadas à tradição trotskistas. Os textos relativos a estas foram publicados nas primeiras edições da REA. Ver: O PT e os marxismos da tradição trotskista: introdução; O Trabalho (OT) - Corrente Interna do Partido dos Trabalhadores; A Democracia Socialista (DS); As origens e ideologia do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU); A Causa Operária; A Tendência Pelo Partido Operário Revolucionário.

[1] O Partido Revolucionário Comunista foi fundado em seu I Congresso, em 21 de janeiro de 1984. Ele resultou de uma cisão do PC do B, no início dos anos 80, que divergiu da linha política e da avaliação do partido sobre a guerrilha do Araguaia. A esta dissidência se juntaram um grupo de Pernambuco, oriundo da POLOP; outro de Minas Gerais, vindo do MEP; e outro do Rio Grande do Sul, sem vínculo formal com qualquer organização. As resoluções deste congresso afirmam que o PC do B é uma corrente que “está sempre oscilando entre colar-se à burguesia ou acompanhar a radicalidade das massas; entre aliar-se com pelegos ou avançar na luta sindical; uma oscilação que vem prevalecendo com uma inclinação à direita”. Ver: Comitê Central do PRC. Resoluções do I Congresso do PRC. Janeiro de 1984.

[2] “O Partido Revolucionário Comunista, estruturado partidariamente de maneira independente e em moldes leninistas, reivindica-se como possibilidade concreta de unificação dos comunistas, pela construção do partido de vanguarda  da classe operária”. Comitê Central do PRC. Resolução Política do Partido Revolucionário Comunista. Outubro de 1985, documento, p. 08. O PRC travou o debate interno sobre o tipo de partido, evoluindo para uma postura gramsciniana e depois para a negação da concepção leninista de organização. Parte dessa discussão está no livro Fazendo o amanhã: partido de vanguarda, política revolucionária e crítica da economia, Tchê Editora, 1987, pp. 11-33. Esse livro reproduz artigos publicados originalmente no jornal Fazendo o Amanhã, escritos por: Adelmo Genro filho (“Lênin e partido de vanguarda” e “O indivíduo e o partido – sobre a questão do centralismo democrático”); Sérgio Weigert (“Revolucionário ou burocrata?”);  e, Tarso Genro (“Sobre a grosseria e o centralismo). Ver ainda: Tarso Genro. “A questão do partido leninista hoje” . Teoria e Política nº 8. São Paulo, Brasil Debates, 1987, pp. 99-118. 

[3] Comitê Central do PRC. Resolução Política do Partido Revolucionário Comunista, op. cit., p. 14.

[4] É o que afirma o seu II Congresso: “O PRC considera que não há centralismo em uma organização política institucional e frentista como o PT. Reconhece que as conclusões das instâncias dirigentes são as posições próprias desse partido, mas não as tem como obrigatórias para os  seus militantes”.  Id., pp. 14-15. 

[5] Essa avaliação levou-o a defender um relacionamento de partido para partido paralelamente à atuação dos seus militantes no PT.  Em alguns Estados, manteve a participação no PMDB e só decidiu pela participação exclusiva no PT no seu II Congresso.

[6] Comitê Central do PRC. Resoluções Políticas do PRC. Maio de 1986, documento, p. 04.

[7] Um esboço desta estratégia – vitoriosa no V Encontro Nacional do PT – foi apresentado por Pomar e Dirceu em “Algumas considerações sobre as Tendências Organizadas no PT”. Neste, eles fazem uma breve análise da formação social brasileira. Na polêmica travada neste período, Adelmo Genro Filho, um dos líderes do PRC, escreveu que a tática proposta neste documento “é nitidamente reformista”. Quanto à estratégia da luta pelo socialismo, Genro Filho comparou-a àquela defendida pelo PC do B, “pelo menos no que diz respeito à velha tese da “etapa democrática e popular”. (Adelmo Genro Filho. “Contra o Socialismo Legalista (Resposta a Wladimir Pomar)”, op. cit. pp. 10-11). Ainda sobre esse ponto ver o artigo “Para uma tática revolucionária sob a “Nova República”, escrito  poucos dias antes da morte de Tancredo Neves. O autor polemiza com as correntes “pretensamente comunistas” que apoiaram a Aliança Democrática e com “as teses que subsidiam o liberalismo radical do PT”. Este texto expressa as posições do PRC. In: Teoria e Política, nº 7. São Paulo, Editora Brasil Debates, 1985, pp. 09- 52.     

[8] Pomar e Dirceu, sintetizaram a crítica às Tendências no polêmico documento citado acima. Afirmaram que as “Tendências Organizadas” eram incapazes de ir além dos “princípios gerais sobre o socialismo”, o que expressaria um doutrinarismo, evidenciado na transformação de “alguns conceitos marxistas” em “fórmulas gerais” aplicáveis a qualquer situação. Criticaram ainda a tática “irresponsável” de desestabilização da Nova República, a qual teria uma falsa premissa: “que existe ou está amadurecendo rapidamente uma situação revolucionária”. Esta premissa não estaria em consonância com o estágio de consciência das massas. “Esses agrupamentos colocam objetivos táticos que já se confundem com os objetivos estratégicos antes que a situação  tenha amadurecido para isso”, afirmam.

[9] Em entrevista, Ozeas Duarte faz uma revelação que ilustra a intensidade da polêmica no interior do PRC a respeito do PT: “Foram duas propostas apresentadas e uma ia no caminho da dissolução que teve 50 por cento menos 1 voto”, afirmou. Ver: “Ozeas Duarte: Crise na cabeça da esquerda brasileira”. (Entrevista) Brasil Revolucionário nº 5, Edição Especial, junho de 1990, p.10. 

[10] Comissão Organizadora do 1º Encontro Nacional. Manifesto Por uma Nova Esquerda. São Paulo, 30 de julho de 1989, 04 págs. Como que profético, o manifesto afirma: “Boa parte das posições que se insurgiram contra a ortodoxia – ainda que, nem por isso, tenham realmente inovado – terminaram por desenvolver um tipo de reflexão que abandonou, concretamente, uma perspectiva revolucionária em troca de estratégias claramente reformistas. Tal é o caso, hoje, por exemplo, do eurocomunismo”. 

[11] Id.

[12] Referência à alegoria crida por Walter Benjamin, que comparou à história o “Angelus Novus” do quadro de Klee, anjo cujo olhar volta-se para o passado com uma expressão de horror.

[13] Ib.

[14] Ib.

[15] Ib. Os que redigiram o “manifesto” não afirmam textualmente, mas é principalmente o trotskismo o qual questionam.

[16] Ou simplesmente Tendência Marxista (TM), designação que adotamos.

[17] Assinam a primeira tese o deputado José Genoino, Tarso Genro, Marcos Rolim, Maurício Faria, Jarbas Barbosa, José Guimarães e José Eduardo Utzig.Entre os que assinam PT: que socialismo? estão: Ronald Rocha, Rogério Corrêa, Artur Scavone e Jefferson Calaça Ver: Railda Herrero. “Nova esquerda define princípios”. Boletim Nacional, março de 1990, p. 06.

[18] Embora se esforce para não caracterizar mais um racha da esquerda brasileira, o próprio Corrêa explicita as razões do rompimento: “De fato, nós rompemos com uma posição que, inaugurando-se com uma crítica ao stalinismo e ao dogmatismo, sendo portanto originalmente promissora e potente, acabou se degenerando e se desqualificando na forma de uma vulgar simetria filosófica que fundamenta a luta política a partir do idealismo moral, coloca o marxismo como alvo central do combate teórico, adota uma concepção subjetivista acerca da história, com forte inflexão irracionalista, e adere a teses basilares do reformismo, tais como a democracia como valor universal, a idéia do Estado como simples universalidade abstrata, sem caráter de classe, o abandono da luta de classes como uma determinação fundamental da estratégia socialista, especialmente o papel do proletariado enquanto dever ser revolucionário, a redução categórica da “guerra de movimento” à ruptura e desta a um rabicho da hegemonia, dentre outras”. (Ver:  “Por um marxismo antidogmático e revolucionário” (Entrevista) Em Tempo, março/abril de 1990, p. 16).

[19] Juarez Guimarães. “A “Nova Esquerda” e o Marxismo”. Em Tempo, outubro de 1989, pp. 06- 08. É importante ressaltar que este artigo, embora escrito antes da formalização do racha entre a NE e o MTM, têm como referência textos de autores que, na época, faziam parte da maioria, ou seja, da ala que encaminharia a constituição da Nova Esquerda. Guimarães se baseia nos artigos de Marcos Rolim e Tarso Genro – contidos no caderno “Contribuição ao debate” – e no texto de Aldo Fornazieri, “Considerações sobre a sociedade civil, o Estado e a estratégia”, além do manifesto “Por uma nova esquerda”. Aliás, o próprio manifesto faz alusão aos seus críticos: “Mesmo antes de sistematizarmos qualquer posição não afeta à ortodoxia reinante, sabemos da atividade promovida por algumas correntes do PT que, no afã de mobilizarem os convertidos, se furtam ao debate que propomos preferindo o caminho tortuosos da estigmatização”. (Ver: Manifesto por uma Nova Esquerda, op. cit.).

[20] “Ao invés da rigidez das teses, a “leveza dos conceitos” mal definidos; ao invés de certezas acima da história, as concessões à inquietação do momento; ao invés da razão excessivamente ordenadora, a turbulência da paixão. Tudo isso marcado pelo impacto da obra de Gramsci apreendida não através de suas várias fases e especificidades, mas com lentes bastante influenciadas pela leitura de herdeiros, ou aspirantes a herdeiros, em particular os eurocomunistas”, afirma Guimarães. (Id.)

[21] A partir desse momento estaremos nos referindo à Tendência Nova Esquerda. Fazemos essa observação para evitar confusões com o período no qual todos estavam juntos pela construção de uma nova Tendência (entre o lançamento do Manifesto por uma Nova Esquerda e o Encontro Nacional de fevereiro de 1990).

[22] Nova Esquerda, Tese 6. Teses para o 7º Encontro Nacional. Boletim Nacional , op. cit. p. 64.

[23] Esta estratégica não é causal. A VS – e a Nova Esquerda – tem uma avaliação positiva da DS: ela teria se reciclado e, com isto dado uma contribuição fundamental à construção do PT. Dentre as correntes trotskistas, a DS seria “a mais importante, a que possui maior representatividade partidária”, afirma em documento interno preparado para discussão interna. (Ver: “Crítica da tese trotskista da tendência interna do PT “Democracia Socialista” intitulada “O PT e o Socialismo”, abril de 1990, mimeo., 05 págs.

[24] Também é um trocadilho com o nome do jornal porta-voz das posições da DS: Em Tempo. “Crítica a um marxismo fora do tempo” , publicado primeiro em formato brochura, é a resposta da NE ao artigo de Guimarães. Corroborando com as teses da VS, Rolim afirma: “O trotskismo é, efetivamente o último reduto da ortodoxia marxista. Como tal constitui-se num protesto da razão inútil que já não pode mais deslocar-se enquanto negatividade porque sua própria existência é o juízo consolidado. Como discernimento, o trotskismo impõe-se uma autolimitação dogmática tão rigorosa e coerente quanto aquela que caracteriza as correntes stalinistas. Que ambos se acusem de bastardia na disputa pela herança teórica do marxismo, eis apenas outra evidência de seu inequívoco parentesco. Irmãos de fé na idéia mística de um “verdadeiro marxismo”, as correntes dogmáticas enfrentam o debate com a prévia preocupação de propô-lo em torno dos seus conceitos. Amarram, desta forma, a própria razão em torno de um eixo irremovível como Ulisses se fez amarrar em torno de um mastro para resistir ao canto da sereia”. (Ver: Marcos Rolim. “Crítica a um marxismo fora do tempo.” Teoria e Política, nº 15. São Paulo, Brasil Debates, dezembro de 1990, pp. 107-140) A réplica de Juarez Guimarães, “A volta do círculo”, foi publicada por Em Tempo, março/abril de 1990, pp. 14-15)

[25] Vertente Socialista. Tese 8, op. cit., p. 92. A crítica ao modelo leninista de partido é parte do próprio processo revolucionário na Rússia dos anos de Lênin. Destacamos a crítica, por exemplo, de Rosa Luxemburgo.

[26] “Nova Esquerda” .PT Informa – Teses para o 6º Encontro Estadual/SP. São Paulo, abril de 1990.

[27] Id.

[28] Ib.

[29] Ib.

[30] José Genoino e Tarso Genro. “Novo socialismo”. Folha de S. Paulo, 31 de maio de 1990.

[31] Id.

[32] Ronald de Oliveira Rocha. “Democratizar o Estado ou iludir o povo?” Em Tempo, 22.02.1991. O autor refere-se ao Partido Comunista Italiano e, portanto, à leitura eurocomunista dos conceitos e categorias gramscinianos. O PCI, que também se propôs a ser o núcleo de uma “nova esquerda” européia, mudou seu nome em fevereiro de 1991: passou a se chamar Partido Democrático da Esquerda (PDS) – em italiano, Partido Democratico della Sinistra.

[33] Id. Rocha cita textualmente Agnes Heller, Habermas e Castoriadis, pensadores que influenciam as teses da Nova Esquerda.

[34] “Nova Esquerda”. PT Informa – Teses para o 6º Encontro Estadual/SP, op. cit.

[35] Tarso Genro tem insistido na análise destas mudanças e na necessidade da esquerda repensar sua tática e estratégia. Sem desconsiderar o proletariado clássico, ele defende que o projeto socialista moderno deve incorporar as “novas classes trabalhadoras” oriundas da terceira revolução industrial. Este novo proletariado será o elemento vital da resistência antimonopolista e antibarbárie. São vários os artigos onde o autor trata deste tema. (Ver a bibliografia).

[36] “Nova Esquerda”. PT Informa – Teses para o 6º Encontro Estadual/SP, op. cit.

[37] GENOINO, José. Repensando o socialismo. (Entrevista a Mauro Lopes). São Paulo, Brasiliense, 1991, p.25.

[38] Id., pp. 27-28.

[39] Publicada em 13 de março de 1991 no jornal e posteriormente editada como livro, com o título da nota anterior. Só este fato já é revelador do peso político do deputado Genoino. Salvo alguma publicação mais recente, não houve à época o mesmo tratamento ao marxismo ortodoxo criticado pelo autor. É óbvio, que o referido jornal não é neutro. Aliás, os líderes da Nova Esquerda sempre tiveram um espaço privilegiado e constante na mídia. Sem dúvida, suas posições políticas modernas contribuíram muito para isso.

[40] In idem, pp. 15-16.

[41] Ib., p. 16.

[42] Ib.

[43] Estas posições políticas foram amplamente difundidas, tanto nos órgãos de comunicação do PT, quanto na chamada grande imprensa. Nesta, seus representantes tiveram espaço privilegiado, especialmente o deputado Genoino. A propósito, Ivan Valente e Artur Scavone observaram como os representantes destas posições transformam as páginas do jornal Folha de S. Paulo numa “Tribuna de Debates privada, instrumento privilegiado para deformar opiniões, criticar correntes políticas internas” petistas e pressionam, “sabendo de antemão que o direito de resposta não estaria garantido a todos os interessados”. Ver: Artur Scavone e Ivan Valente. “Resposta aos deputados José Genoino e Eduardo Jorge”. In: Quinzena, nº 129. São Paulo, CPV, 20.12.1991, pp. 23-24.

[44] Tarso Genro. “O esquerdismo e a vergonha da reforma”. Em Tempo, março/abril de 1991, p. 22.

[45] O artigo citado na nota acima é uma resposta à crítica de Ronald de Oliveira Rocha à política da Nova Esquerda. É interessante o título utilizado por Genro. O esquerdismo nos sugere o autor, é conservador. Para se livrar desta pecha só perdendo a vergonha.

[46] José Genoino. “Esquerda – conservadorismo e renovação”. Folha de S. Paulo, 12.07.1993. O senador Roberto Freire tem a mesma posição. (Ver o primeiro capítulo). Aliás, as semelhanças não se esgotam neste aspecto.

[47] Analisando as teses do PPB, Corrêa observa: “O texto não é marcado apenas pela valorização da democracia, das liberdades, do livre desenvolvimento individual, mas também pela negação dos conflitos de interesses, classes (explorados e exploradores) e país (imperialistas e dependentes); pelo discurso dos valores éticos-morais-universais desencarnados das forças sociais concretas capazes de implementar sua materialização; pela rejeição da revolução como ruptura e negação radical de toda a ordem estabelecida; pela ressurreição da figura de um Estado universal”. (Ver: José Corrêa. “Uma crítica ao “Projeto para o Brasil”. Em Tempo, novembro de 1991, pp. 07-09.

[48] Como assinalou Borón, alguns segmentos da esquerda “aderiram a uma concepção ingenuamente otimista e ‘facilista’ da democracia, que repousa em dois pressupostos: a) o caráter supostamente linear e irreversível dos processos democráticos (...); b) a crença, teoricamente errônea e historicamente falsa, de que a democracia é um projeto que se esgota apenas na normalização das instituições políticas”. Ver: Atílio A. Borón. A sociedade civil depois do dilúvio neo-liberal. In SADER, Emir e GENTILI, Pablo. (org.) Pós-neoliberalismo – As políticas sociais e o Estado democrático. São Paulo, Paz e Terra, 1995, p. 64. Por outro lado, Borón não exime a “vulgata pseudomarxista” pela forma como esta concebeu as liberdades “formais”, consideradas simplesmente pelo seu caráter burguês. Contra todos, este autor resgata a revolucionária Rosa Luxemburgo, a qual “jamais sucumbiu diante da tentação – que tantos estragos havia feito na esquerda – de maldizer a democracia burguesa por ser exclusivamente “formal”. BORÓN, Atílio A. Estado, Capitalismo e Democracia na América Latina. São Paulo, Paz e Terra, 1994, pp. 14-15. Machado sintetiza este debate sobre a democracia burguesa e o marxismo em sua dissertação, no primeiro capítulo. Ver: MACHADO, Eliel Ribeiro. O Colégio de Líderes no Parlamento brasileiro e a participação política dos partidos de esquerda: PT, PDT, PSB e PC do B. São Paulo: s.n., 1997, pp. 07-51.

[49] Como sugeriu Corrêa, “se o PPB não existisse teria que ser inventado, porque expressa as posições que vem sendo defendidas na prática por todo um setor do PT, profundamente inserido na institucionalidade e confrontado com a cultura política classista dominante no partido”. José Corrêa. “Uma crítica ao Projeto para o Brasil”, op. cit.

[50] No 8º EN, o PPB passou a se denominar Democracia Radical (DR).

[51] Talvez esse seja um fator que explique a saída de reconhecidos marxistas, refiro-me a Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder. Afinal, o limite da crítica é o seu oposto. 

[52] "Na prática, o Genoino quer que o PT seja a ala esquerda do governo FHC e hoje é o 16º vice-líder do governo no Congresso", atacou Dirceu. Genoino defendeu-se: "Essa acusação do Zé Dirceu é barata e só espero que não queiram arrumar um bode expiatório para fazer uma nova maioria artificial que não tem projeto para o partido", disse. Citados in: Carlos Eduardo Alves. “PT intima ala de Genoino”. Folha de S. Paulo, 26.04.1995. Ambos terminariam por fazer as pazes. O apoio de Genoino e da DR foi fundamental para José Dirceu eleger-se presidente do PT no 10º EN.

[53] Comissão Executiva Nacional. São Paulo, 13 de maio de 1995. Ver a íntegra da nota da CEN-PT in: Folha de S. Paulo, 15.05.1995.

[54] Carlos Eduardo Alves. “Intimação já divide grupo de Genoino”. Folha de São Paulo, 27.04.1995. 

[55] Ver as declarações do deputado Milton Temer em: Carlos Eduardo Alves. “Grupo tem dissidência no Rio”. Folha de S. Paulo, 22.05.1995.

[56] Coordenação Nacional do MTM-PT. Teses para a I Conferência Nacional do MTM-PT. Arma da Crítica, fev./mar. de 1991, p.26.

[57] Id., p. 08. Nessa análise, a política de Gorbatchev contribuiu para desenvolver o capitalismo de tipo ocidental na ex-URSS.

[58] Ib., p. 07.

[59] Ib., p. 23. Ao mesmo tempo, a TM aponta as contradições inerentes à trajetória do PT: “a insuficiência das formulações programáticas e estratégicas, o corporativismo que marca sua atuação política, uma certa inflexão institucionalista que vem se pronunciando e a estrutura interna”.

[60] Ib.

[61] Ib., p.26. A concepção de partido da TM permanece sob influência do leninismo, o qual teria um caráter particular – que diz respeito às condições da revolução russa – e outro universal: a idéia de um “contrato ético-ideológico entre militantes individuais dedicados a constituírem uma prática orgânica própria, mas ligada às massas profunda e permanentemente”. Para a TM, não se trata nem de combater Lênin, nem de aplicar as suas contribuições de forma dogmática. Tanto num caso quanto noutro, o resultado é idêntico: a sua liquidação.

[62] Florestan usou a expressão “socialismo operário radical”. Para ele, “A “crise do Leste” corresponde a uma tragédia tardia e revela que os países em transição para o socialismo ignoraram os riscos das promessas que não se cumpriram e esqueceram que a contra-revolução está sempre ativa”. FERNANDES, Florestan. O PT em movimento: Contribuição ao I Congresso do Partido dos Trabalhadores. São Paulo, Autores Associados, 1991, pp. 25-26.

[63] Por um PT revolucionário (Tese 10). Coordenação Política Geral do Congresso, Jornal do Congresso, op. cit., pp. 72-73. Neste ponto compartilham da tese de que Stalin perpetrou a contra-revolução, representando uma ruptura com a fase anterior. Por outro lado, se diferenciam da maioria das correntes trotskistas.

[64] Id., p. 73.

[65] Ib.

continua >>>

   

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* Os artigos que compõem esta série são versões adaptadas da dissertação de Mestrado, Os partidos, tendências e organizações marxistas no Brasil (1987-1994): permanências e descontinuidades, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), em 1998, sob a orientação de Maurício Tragtenberg. A banca de defesa foi composta, além do orientador, pelos professores Isabel Maria Loureiro e Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida. A dissertação não foi publicada em versão impressa e a iniciativa que ora adotamos visa disponibilizá-la aos militantes do movimento social, estudiosos do tema e demais interessados – afinal, a pesquisa foi financiada por dinheiro público, através de bolsa de estudo do CNPq.

 

> artigos anteriores da série

III - A esquerda marxista e o PT (I)

II - O marxismo-leninismo: entre a negação e a afirmação da tradição stalinista: O Partido Comunista do Brasil (3)

II - O marxismo-leninismo: entre a negação e a afirmação da tradição stalinista: O Partido Comunista do Brasil (2)

II - O marxismo-leninismo: entre a negação e a afirmação da tradição stalinista: O Partido Comunista do Brasil (1)

II - O marxismo-leninismo: entre a negação e a afirmação da tradição stalinista: O PCB reorganizado

II – O marxismo-leninismo: entre a negação e a afirmação da tradição stalinista - O Partido Popular Socialista

II – O marxismo-leninismo: entre a negação e a afirmação da tradição stalinista - O Partido Comunista Brasileiro (PCB)

Contribuição à história do marxismo no brasil (1987-1994)

I – contextualização

Trabalho e Política - Ruptura e tradição na organização política dos trabalhadores (Uma análise das origens e evolução da Tendência Articulação – PT)

A Tendência Pelo Partido Operário Revolucionário

A Causa Operária

As origens e ideologia do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU)

A Democracia Socialista (DS)

O Trabalho (OT) - Corrente Interna do Partido dos Trabalhadores

O PT e os marxismos da tradição trotskista: introdução

   

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