JOÃO DOS SANTOS FILHO

Professor da Universidade Estadual de Maringá. Autor do livro “Ontologia do turismo: estudo de suas causas primeiras”, EDUSC, Universidade de Caxias do Sul

 

 

 

As relações de produção na Inglaterra criaram Thomas Cook - Parte II

João dos Santos Filho*

 

São os homens que produzem as suas representações, as suas idéias, etc., mas os homens reais, actuantes e tais como foram condicionados por um determinado desenvolvimento das suas forças produtivas e do modo de relações que lhe corresponde, incluindo até as formas mais amplas que estas possam tomar. A consciência nunca pode ser mais do que o Ser consciente; e o Ser dos homens é o seu processo da vida real. (MARX, 1976: 25)

 

A idéia de locomoção e viagens surge com o aparecimento do homo sapiens, em todos os cantos do planeta há marcas e relatos de encontros entre povos, via cooperação, assimilação, dominação e conflitos. Todos esses encontros deixaram marcas por meio das pinturas rupestres e achados arqueológicos que hoje ajudam a reescrever com maiores detalhes a historia das primeiras civilizações da humanidade.

A existência dessa gama de vestígios e o avanço das técnicas de pesquisa arqueológicas permitem observar vários tipos de povos em estágios diferentes de civilização que compunham e habitavam os diferentes espaços do planeta. Esse mosaico composto de diferentes grupos sociais vai de certa forma caracterizar aquilo que chamamos de cultura universal e que se constitui no produto máximo de expressão de civilização.

Com o aparecimento de povos com estágios culturais diferentes que refletem o nível de desenvolvimento das suas relações de produção, o processo de dominação vai surgir em diferentes etapas e por diferentes meios. No inicio tudo era resumido no processo de submissão ao trabalho servil, escravo e assalariado, hoje esse movimento é mais sutil não necessariamente necessita de uma força física para intimidar o outro, basta deixar o processo de globalização neoliberal fluir em seus blocos econômicos.

Assim, entendemos que o processo de dominação na história mantém uma lógica de exploração para com o outro, ou seja, o mais desenvolvido mantém o domínio sobre os menos desenvolvidos, como escreveu Karl Marx em seu texto clássico ”O Método da Economia Política”, afirmando:

A sociedade burguesa é a organização histórica mais desenvolvida, mais diferenciada da produção. As categorias que exprimem suas relações, a compreensão de sua própria articulação, permitem penetrar na articulação e nas relações de produção de todas as formas de sociedade desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos se acham edificadas, e cujos vestígios, não ultrapassados ainda, levam de arrastão desenvolvendo tudo que fora antes apenas indicado que toma assim toda a sua significação etc. (MARX, 1982: 17)

A revolução industrial ocorrida na Inglaterra foi resultado de um processo que por condições peculiares de sua história vinha sendo gestada desde que a [...] imigração foi estimulada pela realeza que, em várias ocasiões, sobretudo no inicio do século XIV, se empenhou em fundar, com a ajuda desses iniciadores estrangeiros, uma indústria nacional. (MANTOUX, sd: 24) A descoberta das grandes invenções foi um estimulo aos produtos manufaturados, o apoio de estruturas bancarias e o descobrimento da alquimia cientifica no processo de metais e o domínio do vapor como impulsão o aproveitamento dos conhecimentos de engenheiros franceses, alemães, holandeses e italianos fizeram desse país a Meca dos grandes experimentos e obras que aceleraram o processo de acumulação do Capital.

O processo de desenvolvimento capitalista vai encontrar espaço e as condições ideais para se expandir na Inglaterra, o transporte de passageiros por ferrovias vem servir ao movimento da economia, pois o deslocamento de pessoas e mercadorias traz consigo uma fluidez mercadológica antes não experimentada. Serviços novos aparecem, transferências de capital movimentam trabalho vivo e o trabalho morto, a riqueza apesar de centralizada aparece e manda sua sombra para setores da classe trabalhadora:

A construção de caminhos-de-ferro foi provavelmente o fator mais importante na promoção do progresso econômico europeu nos anos 1830 e 1840. De novo a Grã - Bretanha, onde a primeira linha pública de passageiros (de Stockton a Darlington) se abriu em 1825, foi à pioneira e pôde agir como consultora e fornecedora no estrangeiro. (HENDERSON, 1979: 19)

A economia se diversifica em larga escala, aparece a necessidade de aperfeiçoar as ferrovias para que sejam usadas para de transporte de passageiros com destinos determinados para a prática de viagens de lazer, saúde e negócios, surge então à atividade turística em sua plenitude moderna, alcançando um perfil alocado principalmente ao setor de serviços.

Os pólos de desenvolvimento econômico surgiram, subúrbios se desenvolvem, pois eram redutos de uma classe média que consumia praias e áreas de veraneio e as estradas de ferro acenavam futuras linhas para o transporte de passageiros. A ferrovia significa valorização das terras e imóveis e em um ano a ferrovia havia transportado:

Quarenta e oito milhões de passageiros utilizaram as ferrovias do Reino Unido em um único ano (1845). Homens e mulheres já podiam ser transportados ao longo de três mil milhas de via férrea na Grã-Bretanha (1846). (HOBSBAWM, 1982: 322)

Thomas Cook, foi na verdade um pioneiro do turismo “moderno”, graças ao desenvolvimento da Inglaterra como a primeira potencia a se industrializar e a praticar as leis de mercado favorecidas por uma população trabalhadora capaz de consumir produtos. Cook cria o turismo de massa ferroviário, com tarifas reduzidas, viagens em grupo, pacote de viagens, fez campanhas publicitárias, promoções para conquistar clientela. Sua ação vai permitir que a classe operária imite os comportamentos da nobreza e passem a freqüentar as praias e os balneários do momento, antes tidos como redutos dos ricos. 

Tópicos a serem pesquisados para entender o papel de Thomas Cook na História do Turismo

O personagem que tinha tido um papel, mesmo que não considerado relevante na história de uma nação e posteriormente por diversas razões alcança projeção mundial. Pode ser objeto de um processo de autofagia plena e começa a ser produto de uma história que acaba em alguns momentos incorporando atos artificiais, ou até recuperando sua importância, segundo os interesses das classes dominantes. Nesse sentido, a historiografia de um país pode criar destruir, resgatar e fabricar heróis, segundo sua capacidade expansionista de impor materialmente e simbolicamente sua força de mercado ao mundo.

Portanto, qualquer personagem da história pode muitas vezes ser montado e moldado segundo os interesses do Capital, nesse sentido, não podemos, como afirma Karl Marx, deixar que interesses acima dos homens vivos deixem espaço para aqueles que:

Pretendem, portanto escrever uma história do passado que faça resplandecer com o maior brilho a glória de uma pessoa que não é histórica e daquilo que ela imaginou: não interessa, pois, evocar quaisquer acontecimentos realmente históricos nem sequer as intrusões da política na história. Em compensação, interessa fornecer um escrito que não repouse num estudo sério, mas sim em montagens históricas e em ninharias literárias [...] (MARX, 1976: 53)

A luta por uma historiografia nacional autentica e que seja o reflexo dos atos de um povo só podem existir quando realizamos um processo constante de autocrítica da mesma e agregamos a ela novos saberes produto de estudos científicos.

Nesse sentido, podemos passar a refletir algumas questões:

1 – Parte da literatura editada em português existente que faz menção ao personagem Thomas Cook, aparece por meio de pequenos comentários nos inúmeros livros editados, muitas vezes em forma de nota. E com um conjunto de informações repetitivas sem qualquer reflexão que não seja a mera descrição dos dados biográficos desse personagem. Com raras exceções existem obras que caracterizam historicamente Cook ensaiando indagações procedentes. Mesmo com o perigo de cometer alguns equívocos involuntários, podemos destacar algumas obras de autores brasileiros; a) Turismo no Percurso do Tempo. Organizado por Mirian Rejowski; b) História das Viagens e do Turismo de Ycarim Melgaço Barbosa; c) Manual de iniciação ao turismo de Margarita Barreto; d) Aspectos Multidisciplinares da História e Turismo de Haroldo Leitão Camargo. In. Como aprender e como ensinar.

Gostaria de registrar que existem centros brasileiros de pesquisa e investigadores que estão orientando teses, monografias e trabalhos sobre o papel de Thomas Cook na história do turismo, porém na atualidade o que se consegue de dados se restringe a fatos biográficos e descontextualizados do processo histórico que estava ocorrendo na Inglaterra.

2 – A literatura referente à histórica do processo de industrialização da Inglaterra traduzida para o português na qual tive acesso entre as quais as obras do historiador de Eric J. Hobsbawm, Paul Mantoux, Frédéric Mauro, William Otto Henderson e outros que estão mencionados na bibliografia deste trabalho. Não mencionam nem de forma secundária o nome de Thomas Cook, mesmo quando escrevem sobre o desenvolvimento do transporte ferroviário inglês, essa ausência pode significar duas hipóteses; A primeira àquela que considerava que o direito ao lazer e turismo estava reservado a uma nobreza já decadente, porém ainda portadora de recursos financeiros e a uma forte burguesia que se encostava ao estilo de vida aristocrata; A segunda, por Thomas Cook ser um pastor batista que desenvolvia um trabalho de recuperação a alcoólicos ter ousado a programar viagens para as classes sociais populares em localidades tidas como redutos exclusivos dos ricos.  

Portanto, a historiografia inglesa pelos fatores arrolados no começo deste texto relega ao esquecimento Thomas Cook, quem sabe por ter criado e desenvolvido um turismo de massa e popular que no fundo subvertia a estratificação social daquela sociedade, pois dava certas condições ao proletariado e a classe media de usufruírem do turismo de montanhas, termal e dos balneários que eram considerados uma terapia medicinal entre a classe dominante.

O turismo na Inglaterra foi resultado de um processo de desenvolvimento histórico, econômico e industrial aliado ao avanço dos meios de transporte marítimo e ferroviário. Porem, o Grand Tour é uma prática que existia desde o século XVI e vai até 1798 com a Revolução Francesa, que permitiu a classe social dominante enviar ao exterior seus filhos com tutores para prepará-los para o comando político da Inglaterra ensinando-os a serem:

Este viaje tenía el objetivo primordial de enseñar a estos jóvenes candidatos los saberes y  los logros de los estados europeos modernos, y sobretodo en su parte italiana, el esplendor de las antiguas civilizaciones griega y romana, aunque uno de los fines principales era el de formar un cuerpo de diplomáticos, políticos, abogados y militares bien capacitado. El turismo en ese momento constituía, como se explicará de nuevo más adelante, una ciencia más que una actividad de ocio, una materia más entre las que se debían formar los lords ingleses. (GARAY , 2004: 5)

O objetivo da classe dominante com seus filhos da aristocracia e da poderosa burguesia era desenvolver um processo que viesse garantir para as gerações futuras o comando político e econômico do país. Dando a eles a vivencia e oportunidade para conhecer culturas e sistemas políticos mais avançados culturalmente. E em casos específicos o Estado inglês custeava parte dessas viagens para futuros diplomatas, e para aqueles que ocupariam cargos no governo, com isso a Inglaterra fazia uma ponte imaginária com o continente europeu, segundo o escritor Edmund Swinglehurst:

O objetivo era tirar os rapazes de circulação durante aqueles anos inconvenientes que antecediam a idade adulta e educá-los – embora os mais críticos acreditassem que eles não faziam nada além de farrear e contrair sífilis. (SWINGLEHURST, 2001: 104)

Portanto, a atividade turística já era desenvolvida e pertencia exclusivamente às classes aristocratas e a burguesia emergente que avançava com o empreendedorismo de Thomas Cook junto ao transporte ferroviário que se massifica e se populariza, segundo a turismóloga da Universidade de São Paulo professora Mirian Rejowski, baseada em seus estudos e leituras:

[...] Cook começou a tratar as viagens que organizava, porque acreditava que elas abriam a mente e aumentavam a sede pelo conhecimento, no processo de quebra de barreiras de classes e nacionalidades, promovendo a tolerância e a benevolência cristã entre os homens. Também argumentava a favor dos benefícios do contato com a natureza e da recreação. Para ele, todos, ricos e pobres, tinham o direito de viajar, e a ferrovia havia chegado para tornar isso possível. (REJOWSKI, 2002: 54)

Se Thomas Cook foi pioneiro do turismo utilizando-se de um pré-trade turístico possível e existente na metade do século XIX, a historiografia inglesa que o havia colocado em um papel secundário recupera-o posteriormente perante a história do turismo. Além do que entendemos que o próprio desenvolvimento desse fenômeno mundial resgata Thomas Cook do esquecimento e o resgata perante a historiografia internacional, essa parece ser a explicação mais plausível para essas dúvidas sobre o personagem.

Com isso, não invalidamos nossas afirmações primeiras da hegemonia que a história inglesa tem sobre as historias nacionais, o que alertamos de forma mais sistemática é que historiadores ingleses minimizam o papel de Thomas Cook e a literatura brasileira sobre turismo, quando o aborda o faz quase sempre com o mesmo discurso, repetitivo, descritivo e até ufanista, mas descontextualizado da abordagem dentro dos parâmetros da economia política. 

Comentários e reflexões para futuras investigações

Em primeiro lugar entendemos que o fenômeno turismo já aparece sinalizado na realidade social desde o processo que o homem se organiza para a sua subsistência (caça, pesca e coleta). “A primeira condição de toda história humana é evidentemente a existência de seres humanos vivos” (Marx: 1976. p18). E para desenvolver essas atividades de subsistência e garantir a existência de categorias dadas pela categoria trabalho, à realidade movimenta essas atividades por meio do caráter da relação dialética entre o lúdico, lazer e o trabalho.

O trabalho para ser executado vai depender de rituais mágicos e, portanto não é entendido como castigo ou obrigação, mas sim, como algo livre de qualquer ato de opressão, pelo menos na sociedade igualitária, veja Karl Marx em mais um de seus inúmeros escritos:

[...] é a sociedade que regula a produção geral e me possibilita fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear à noite, fazer crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico. (MARX, 1976: 41)

Se trabalho expressa uma condição fundamental para a existência humana, o não trabalho é o outro lado da moeda e, portanto o lazer aparece quando surge o trabalho. O livro de Paul Lafargue: “O direito à Preguiça” é um alerta sobre isso, quando faz aquele relato dramático das condições de vida e da necessidade de diminuir drasticamente o tempo de trabalho das classes trabalhadoras.

O importante é demonstrar que o turismo segundo o desenvolvimento das relações de produção vai sendo sinalizado de formas diferentes porem associativas no decorrer do processo histórico, como fato para um argumento poderoso podemos citar o livro “Popol Vuh” do povo Maya-quiché da Guatemala encontrado pelo Frei dominicano Francisco Ximénez em 1701. O Popol Vuh foi escrito entre 1545 a 1555 segundo o historiador Paulo Suess que organizou o livro A Conquista Espiritual da América Espanhola afirma que. ”POPOL VUH, cujo autor é desconhecido, já leva em conta os estragos da conquista” (Suess: 1992. p. 36).

Apesar de o livro mencionar as alegrias e o modo de vida Quiché mostra também o contato como os espanhóis, quando em um discurso de lamentação afirma:

Así hablaban los reyes mientras ayunaban. Y los pueblos grandes y pequeños les llevaban piedras preciosas, metales, la miel más dulce, pulseras, esmeraldas y plumas azules.

Hubo muchas generaciones de hombres y reyes antes de que vinieran los españoles a nuestra tierra […]. (POPOL VUH, sd: 113)

Esta obra por sua riqueza histórica, apesar de já expressar traços marcantes da dominação espanhola, apresenta um lado magnífico da sociedade Maya - quiché plenamente estratificada voltada para a prática do lazer / cerimonial e do esporte. Perante a história da humanidade o Popol Voh é um dos tesouros mais valiosos que foi salvo dos Autos de Fé que os espanhóis fizeram contra as chamadas idolatrias da civilização Maya. A queima de bibliotecas e de objetos sagrados foi imensa e decorrente dos processos inquisitoriais que os acusavam de coisas pertencentes ao diabo.

O testemunho que esse livro representa para o resgate da história Quiche abre caminhos pra entender os povos pré-colombianos de centro América, em que aparece uma civilização onde o gosto pelo rito, atos cerimoniais religiosos e mágicos começa pelo nascimento do ser, passa pela adolescência prepara a iniciação sexual, a união conjugal e a própria morte. Todas as relações sociais, portanto passam por um processo de leitura de um real montado por atividades lúdicas e de um lazer que vão sinalizar uma forma especifica de turismo naquele período histórico.

Em uma das muitas passagens do livro Popol Voh fica explicito que a sociedade Mayas cultua de forma intensa a integração do homem com a natureza no sentido da vida e da morte, desenvolvendo uma harmonia com os animais, no divertimento lúdico, ritual e na prática do deslocamento (viagens) por isso o império Maya se expandiu pelo continente. É esse ponto que queremos mostrar a sensibilidade de uma nação em que a sua existência funde-se num sincretismo natureza, homem e animal:

Como sentián que el final de sus días estaba próximo, Balam-Quitzé, Balam-Acab y Mahucutah empezaron a despedirse de sus hijos. Iqui-balam no tuvo ningún hijo. Cantaron el Camucú, un canto de mucha triteza, porque tristeza sentiían en sus corazones cuando se despidieron de sus hijos en la cima del cerro Hacavitz.

Hijos, nosotros nos vamos y  no volveremos; ya se acaban nuestros días, ya hemos cumplido nuestra misión; cuiden sus casas y su pueblo; planten la tierra y recuerden el lugar del que hemos venido. En memoria de nosotros les dejamos este presente. Así les dijeron mientras les entregaban un envoltorio cerrado y cosido. No supieron qué contenía adentro porque nunca abrieron el envoltorio; solamente lo guardaron con mucho cuidado.

Y simplemente desaparecieron nuestros padres y abuelos. No estaban enfermos; no sentían dolor ni agonía. Como sólo desaparecieron, no fueron enterrados por sus mujeres y sus hijos; sólo quemaron copal ante el envoltorio. Así fue el fin de Balam-Quitzé, Balam- Acab, Mahucutah e Iqui- Balam, nuestros primeros padres.

Los hijos no olvidaron los sabios consejos de sus padres. Decidieron un día ir a visitar en el  oriente el lugar de dónde habían venido. Tres fueron los que hicieron el viaje: Cocaib, Coacutec y Coajau. Se pusieron en camino; pero antes se despidieron de sus hermanos y parientes:

– Volveremos; no moriremos.

Seguramente pasaron sobre el mar antes de llegar donde el señor Nacxit, monarca del oriente. Nacxit los recibió y les dío las insignias del poder y de la majestad. De allá vienen los insignias del  Ahpop Y del Ahpop- Camhá. Les entregaron polvos de diferentes colores, perfumes, flautas, la señal del tigre, del venado, del pájaro, el caracol, plumas de diferentes colores. Todo vino de Tulán, del oriente. (POPOL VUH, sd: 106 e 107).

Esta referencia contida no interior do livro dos Mayas, demonstra uma sociedade em que o culto aos deuses é o motor de sua história, segundo o escritor colombiano César Valencia Solanilla em um texto na internet comenta:

Los mayas, al igual que los aztecas, tenían un gusto particular por los ritos y las ceremonias, las fiestas, los carnavales y todas estas formas ceremoniales colectivas en que se combinaban la danza, la música y el canto. Periódicamente se representaban piezas de índole religiosa, épica, histórica y burlesca, que sirvieron para mantener viva la memoria cultural de su pasado. La mayoría de estas obras tenían carácter didáctico, pero fueron duramente perseguidas por los españoles, que veían en estas formas artísticas la expresión de la idolatría y la resistencia al poder de la corona. Al parecer existieron muchas pequeñas obras dramáticas, vinculadas con la celebración de las cosechas y la agricultura, como el llamado Festival de los Elotes, que es un canto a la tierra para solicitarle sus favores, o los festivales de celebración del maíz. (VALENCIA SOLANILLA, 2000: 17) 

Uma segunda questão a ser analisada é que a literatura sobre Thomas Cook existente no Brasil traduzida para o português, com exceção de algumas obras que já mencionei neste trabalho se apresenta de forma limitada nas referencias a esse personagem. Os discursos se restringem a dados bibliográficos pouco contextualizados no processo de desenvolvimento do capitalismo.

O acesso à literatura em inglês não é fácil de ser encontrada como também em espanhol, nossas bibliotecas em termos de obras sobre o fenômeno do turismo e da produção literária latino-americana mantêm ainda grande timidez na busca desses assuntos Essa situação amparada ao fato de que o ensino no Brasil historicamente primeiramente esteve ancorado nas idéias européias e posteriormente norte-americanas, acabou relegando a um papel secundário as visões de latinidade, esquecemos e muitas vezes nós negamos a sermos latinos.

Essa repulsa pelo continente latino-americano nos desvia de nossas raízes étnicas e produz uma literatura brasileira que tentou resgatar essa latinidade esquecida, entre os vários intelectuais contemporâneos que assim procederam podemos citar as obras de Darcy Ribeiro e Octavio Ianni.

Uma última questão a ser mencionada é que a maioria dos professores responsáveis pelas disciplinas especifica do turismo de uma forma ou de outra dão uma ênfase demasiada (forte) a Thomas Cook como o iniciador do turismo no mundo. Essas leituras que são passada aos alunos acabam muitas vezes produzindo as seguintes compreensões:

1- O personagem histórico Thomas Cook, só se tornou conhecido e considerado pela literatura inglesa e mundial quando foi recuperado por via dos estudos sobre o fenômeno turístico que começaram a ser objeto de interesse do capitalismo e dos centros de pesquisa. Por esse motivo, como mencionamos anteriormente no início deste trabalho, os grandes historiadores ingleses conhecidos mundialmente em nenhum momento cita-o. Essa omissão pode vir a ajudar a comprovar que o mesmo desempenhou na história da nação inglesa um papel de pouco destaque para o conjunto das modificações estruturais que estavam ocorrendo na época.

Apesar dessas reflexões e do esforço em querer entender o valor de Thomas Cook para a história do turismo, a compreensão desse personagem no cotidiano do meio acadêmico e estudantil nós leva as seguintes indagações:

A) O turismo começou na Inglaterra com o desenvolvimento do capitalismo;

Pergunta-se: Antes do capitalismo não havia turismo? Será que as categorias mais simples não poderiam estar exprimindo relações subordinadas de um todo mais desenvolvido? Como comenta Karl Marx no “O método da Economia Política”.

A categoria turismo é resultado do desenvolvimento do processo histórico e, portanto sua existência aparece sob diferentes tonalidades e em períodos diversos por meio de manifestações consideradas travestidas em outras categorias que na verdade são expressões derivadas do turismo, isto é, aproximações de um todo mais desenvolvido. Assim com esse entendimento, o turismo não pode ser compreendido como sendo algo que aparece de repente como aqueles que acreditam que esse fenômeno surge com o capitalismo e na Inglaterra.

Ocorreu é que o turismo sempre esteve presente na realidade social, porém sua manifestação durante a história da humanidade surge sob diferentes e aproximadas essencialidades. Com esse pressuposto claro da existência do fenômeno turístico na história da humanidade, a nação que estiver com os meios de produção mais desenvolvida consegue produzir um Thomas Cook que revolucionou na prática e organizou o chamado turismo moderno.

Portanto, apesar da Inglaterra ter saído na frente não foi ela que inventou o turismo e as viagens, pois as mesmas são frutos do surgimento dos homens, por isso a historiografia mundial sobre o turismo deve ser rediscutida perante a história das civilizações Incas, Mayas, Astecas e Guaranis. Vamos deslocar o eixo das discussões sobre a história do desenvolvimento da humanidade de uma visão eurocentrista para outra fundada na volta de nossa latinidade e descobrir que a história da civilização da humanidade é o resultado de todo um processo de etnias, culturas e sistemas que estão dentro de uma determinada “economia política” em que todos os povos latinos devem escrevê-la, pois são os atores da sua civilização, como comenta o historiador cubano Raúl Enrique Gómez Treto:

La historia latinoamericana – y caribeña – se há presentado con inmoderada frecuencia como una historia marginal, periférica, en relación con las historias supuestamente centrales de la humanidad: fundamentalmente con la historia eurocentrista. Es cierto que aún hoy es mucho lo que se ignora de la llamada historia precolombina de América, pero también es mucho lo que vamos desvelando, descubriendo, y que nos fuerza a recomponer y redimensionar en forma más realista, proporcionada e integral nuestra historia regional en relación con la del resto del mundo. (GÓMEZ TRETO , 1996: 44)

Finalmente registro que a literatura sobre o fenômeno turístico em inglês, francês e até espanhol, existente no Brasil “parece” não ser de fácil acesso para estudiosos e pesquisadores. Além do que nossas editoras apresentam certa timidez mercadológica para traduzir obras importantes nesse campo. Esse fato não deixa de serem também resquícios fortíssimos de uma base de preconceitos para com esse assunto. Bem como, a facilidade de traduzir algumas obras depende do interesse que as editoras estrangeiras dão a alguns escritores específicos.

Com isso concluímos que a hegemonia de dominação de uma historiografia pelas nações mais desenvolvidas a outros países é uma realidade, que permanece na literatura universal. E merece ser refletido com maior profundidade como é o caso de Thomas Cook.

 

Referências

BARBOSA, Ycarim Melgaço. História das viagens e do turismo. São Paulo: Aleph, 2000

CHESNEAUX, Jean. Devemos fazer tabula rasa do passado? São Paulo: Ática, 1995.

FENELON, Déa Ribeiro. 50 textos de história do Brasil. São Paulo: Hucitec, 1974.

GARAY, Luis. Orígenes del Turismo. El Grand Tour y los viajeros ilustrados en Europa. Nicarágua. Disponível em: http://orbita.starmedia.com/~luisgaraysbd/Origenes.htm 20/06/2004

GÓMEZ TRETO, Raúl Enrique. La Integración de Nuestra América. In América Latina contemporânea: desafios e perspectivas: Rio de Janeiro: Expressão e Cultura; São Paulo: Edusp, 1996.

HENDERSON, William Otto. A revolução industrial: 1780-1914. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1979.

HOBSBAWM, Eric J. A era das revoluções: Europa 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

IANNI, Octavio. Sociologia da Sociologia Latino-Americana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.

LANDES, David S. A riqueza e a pobreza das nações: por que algumas são tão ricas e outras tão pobres. Rio de Janeiro: Campus, 1998.

LUKÁCS, Georg. Existencialismo ou Marxismo. São Paulo: Ciências Humanas LTDA, 1979.

MARX, Karl. A Ideologia Alemã. Portugal: Editorial Presença, 1976.

__________. Para a crítica da economia política; salário, preço e lucro; O rendimento e suas fontes: a economia vulgar. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

REJOWSKI, Mirian. Desenvolvimento do Turismo Moderno. São Paulo: Aleph. In Turismo no Percurso do Tempo.Org REJOWSKI, Mirian. São Paulo: 2002

SANDOVAL, Franco (Org). Popol Vuh: versión transparente. In: Programa Educativo sobre Cultura Democrática y Derechos Humanos. Ministério de Gobernacion. Administración Serrano Elias. 2. edição. Guatemala: Bisel. [s.d].

SWINGLEHURST Edmund. Contato direto: os efeitos do turismo nas sociedades do passado e nas atuais. In Turismo Global. Org. WILLIAM F. Theobald. São Paulo: Senac, 2001

VALENCIA SOLANILLA, César. Teatro precolombino: el ritual y la ceremonia. In revista de Ciencias Humanas: Colombia – Universidad Tecnológica de Pereira – UTP, 2000. Disponible em: hptt://www.upt.edu.co/~chumanas/revistas/revistas/rev17/valencia.html

 

* Bacharel em Turismo, pelo Centro Universitário Ibero-Americano de São Paulo (Unibero) e Bacharel em Ciências Sociais, pela PUC/SP. Mestre em Educação: História e Filosofia da Educação, pela PUC/SP. Professor-convidado na Faculdad de Filosofia e Letras da Universidad Nacional de Heredia (UNA), em San José da Costa Rica. Professor concursado pela Universidade Estadual de Maringá. Autor do livro “Ontologia do turismo: estudo de suas causas primeiras” EDUSC, Universidade de Caxias do Sul.  E-mail  joaofilho@onda.com.br

 

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