RUDÁ RICCI

Sociólogo, Mestre em Ciência Política e Doutor em Ciências Sociais. Coordenador do

Instituto Cultiva e membro da Executiva Nacional do Fórum Brasil do Orçamento. Membro do Observatório Internacional da Democracia Participativa

 

 

A imagem pública do MST

Rudá Ricci*

 

O IBOPE realizou, no mês de maio, uma pesquisa de opinião sobre a imagem do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em algumas regiões do país. Foram 2.100 entrevistados com mais de 16 anos, a maioria abaixo dos 39 anos, residentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Distrito Federal, Salvador, Fortaleza, Vitória, São Luís, Imperatriz, Belém e Marabá, além de algumas regiões do interior do país.

A pesquisa é reveladora sobre o mosaico da cultura e percepção política da população brasileira. A ambigüidade está presente em grande parte das respostas. E parece dividir efetivamente o Brasil em interior e capitais.

O MST parece ter maiores resistências nas capitais, em especial, em Belém e Vitória. Os entrevistados das capitais são os que afirmam conhecer mais o movimento, chegando a 27% do total dos entrevistados confirmando que conhecem efetivamente o MST. A situação mais favorável à ação do MST encontra-se no pólo oposto, no interior do país, regiões onde o índice daqueles que afirmam conhecer o movimento é menor (chegando a 90% dos que afirmam não conhecer muito o MST).

Assim, logo de início, ficaria a pergunta sobre como se daria esta possível incoerência. Um dado apresentado em seguida parece indicar uma primeira pista: os moradores de capitais destacam, além das ocupações, os protestos como principal arma de ação do MST. Há, aqui, uma provável hipótese que os protestos incomodariam sobremaneira as populações mais urbanizadas das capitais, tanto pelo simbolismo da ocupação dos espaços públicos, quanto pela mudança de rotina e ordem das cidades. Os entrevistados do interior do país não destacam esta modalidade de ação como significativa.

Quando questionados sobre o grau de confiança em várias instituições, os entrevistados de Belém são os mais críticos ao MST (apenas 3%). Igreja, Forças Armadas e Meios de Comunicação são os que apresentam maior credibilidade (entre 60% e 80%). MST, Congresso Nacional e Políticos aparecem com credibilidade inferior a 30% dos pesquisados. Surpreendentemente, ministério público e sindicatos ficam pouco acima dessas três instituições, com médias ao redor de 45%.

A pesquisa vai indicando mais e mais ambigüidades. No total de pesquisados, 46% são favoráveis ao MST (com exceção de Belém e Vitória, cujos índices são muito mais baixos). Mas, em seguida, este apoio de quase metade dos entrevistados vai se revelando melhor, quando são inquiridos sobre as palavras que mais destacariam o movimento dos sem terra. As duas palavras mais destacadas foram: violência e coragem. Violência é mais destacada em Belém, Imperatriz e interior de Minas Gerais (acima de 50%). Coragem é mais destacada no interior de Minas Gerais, Dourados e Vale do Ribeira (SP), ao redor de 30%.  Vitória, novamente, destaca “autoritarismo”, “ilegalidade” e “radicalismo”. Interior de Minas Gerais destaca “justiça” (com 30%). O Brasil se divide em relação a temas agudos da vida política nacional.

Mostrando a Cara

Os residentes em capitais do país acreditam que os próprios líderes e participantes do MST são os maiores beneficiados de sua ação. Mas no interior, e em especial o interior mineiro, acredita-se que os maiores beneficiados são os pobres (a exceção fica por conta do Vale do Ribeira).

A reação dos moradores de Marabá é a mais agressiva e violenta em caso de ocupação de terra, mas no restante do país, ao redor de 60% afirmaram que negociariam. A percepção de 40% dos entrevistados é que as empresas da região utilizariam de força para expulsar os ocupantes de suas terras.

Enfim, “seis em cada dez moradores das Regiões Metropolitanas acreditam que esse tipo de movimento social no Brasil está se aproximando da criminalidade. Essa percepção é mais forte em Porto Alegre, Belo Horizonte e Distrito Federal, além de crescer com a escolaridade”.

Contudo, o MST mantém uma imagem favorável (em especial, em Salvador, cujo índice atinge 70%) no nordeste e interior do país, também forte entre jovens.

A cultura ambivalente, que tantos estudos procuram retratar nos últimos anos, parece mais que evidenciada nesta pesquisa. O MST, como principal mobilizador da sociedade brasileira, polariza opiniões. Mas o mais interessante é que revela ambigüidades entre capitais e interior, mas entre as populações de cada uma dessas regiões. São poucos os territórios que indicam coerência, como é o caso do interior mineiro (mais favorável ao MST) e Vitória e Belém (mais críticos).

Se há crédito quanto ao objetivo das mobilizações lideradas pelo MST, o método parece ser o fator mais importante de crítica, tanto pela percepção da violência e criminalidade, quanto do efeito simbólico dos protestos em algumas capitais.

Arriscaria retomar a tese da cordialidade de Sérgio Buarque de Holanda, não enquanto passividade, mas enquanto uma cultura da relação de intimidade (a origem da palavra é coração), da proximidade nas relações para resolução de problemas. Este parece o princípio da cultura política das capitais. Contudo, quanto mais rural, mais identificado com a imagem do MST, como revolta à marginalidade dos “desfiliados sociais”. O Brasil continua assim: ressentido e pouco afeto aos arroubos na luta social. Se revolta, sai às ruas, mas retorna em seguida. O MST é caudatário desta ambigüidade. Colhe os frutos desta oscilação quase emocional. Como organização racional, mas que promove a “mística” como elemento de coesão interna, também oscila entre a tradição e a razão política, entre a revolta e a construção política de sua liderança.

Assim, muitas vezes atinge o alvo que não havia mirado.

 

* Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Diretor Geral do Instituto Cultiva (www.cultiva.org.br) e membro do Fórum Brasil do Orçamento (www.forumfbo.org.br). E-mail: ruda@inet.com.br. Blog: http://rudaricci.blogspot.com

 

 

 

 

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