PAULO ROBERTO DE ALMEIDA

Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos sobre relações internacionais e política externa do Brasil

 

 

 

 

 

 

Manifesto Comunista, ou quase...

dedicado a marquissistas à beira de um ataque de nervos

(a propósito de uma simples resenha)

 

por Paulo Roberto de Almeida

 

Dois espectros rondam a revista Espaço Acadêmico: o da intolerância e o do sectarismo, ambos de natureza fundamentalista.

Vários poderes da velha academia se juntaram em uma santa aliança contra a liberdade de pensamento e o direito de expressar uma opinião própria: os papas do marxismo fossilizado e os czares da censura ideológica, as viúvas do velho comunismo e os órfãos de um “novo socialismo” (ainda indefinido), sindicalistas de princípios bizarros e militantes sem qualquer princípio, censores auto-assumidos e candidatos a policiais do livre arbítrio, professores da situação e estudantes de oposição, ideólogos de plantão e demagogos de ocasião, proponentes do novo mundo (im)possível e opositores da globalização provável, pretensos intelectuais à busca de alguma nova, e interessante, idéia, e oportunistas sem qualquer idéia nova, mesmo desinteressante...

Quais os motivos de uma tal coalizão de forças, mesmo heteróclita? Qual a razão de uma tal mobilização de esforços, mesmo que ridiculamente desproporcional ao objeto visado? O que justifica tamanha transpiração e tão pouca inspiração?

Acreditem: foi uma simples resenha de duas páginas sobre um livro que talvez não tenha duas páginas que se sustentem. Pois é: seria simplesmente ridículo, se não fosse também patético e, quiçá, preocupante (para a revista, quero dizer).

Inacreditável, mas verdadeiro. Contra uma resenha feita em um tom que foi julgado desrespeitoso (para ser mais preciso, jocoso), levantou-se um brancaleônico exército de soi-disant marquissistas, que exibem em comum apenas o mau humor e a ausência de qualquer senso do ridículo. Incapazes de ressaltar qualidades inexistentes no livro visado, os novos cruzados de uma santa causa hoje moribunda se ocupam de proferir impropérios contra quem não reza pela sua mofada cartilha gótica. Nunca antes neste país, tantos desocupados perderam tanto tempo com objetivos tão irrisórios. Destes fatos concluem-se duas coisas.

1) Uma simples resenha de um livro, a rigor desinteressante (a resenha), já é reconhecida como tendo o poder de desencadear as forças conjugadas de todos esses velhos baluartes de causas hoje superadas, dos defensores de projetos fracassados, de cultores de idéias empoeiradas, na verdade soterradas por camadas geológicas de programas políticos abandonados e de plataformas inadequadas ao mundo atual.

2) Já é tempo de colocar claramente o que está em jogo na missão da Espaço Acadêmico e de expor abertamente a natureza reacionária, obscurantista e nefasta dessa nova demanda de caça às bruxas, dos pedidos de censura e de exclusão. Já é tempo de denunciar abertamente o caráter fascista desses pedidos de manutenção da “pureza ideológica” deste veículo de idéias, e de expor a essência fundamentalista dessa vontade espúria de se introduzir o cerceamento do direito de opinião.

Por isso mesmo, cabe desvendar totalmente, perante o público que lê esta revista, a visão do mundo estreitamente sectária e intolerante daqueles que pretendem se contrapor à liberdade de pensamento. Ao fazê-lo, creio estar prestando um serviço público de simples defesa da liberdade de opinião e do direito à livre manifestação do pensamento, princípios universais, democráticos, e que, acredito, norteiam também a atividade e a própria existência da Espaço Acadêmico. Esta dupla defesa é a única razão deste “manifesto”, feito de meu próprio punho.

1. Surpresa!: uma resenha de um livro obscuro deslancha uma tempestade

Confesso minha surpresa com esta confusão criada em torno de... literalmente nada! O que era para ser uma simples resenha, anódina, corriqueira, como muitas outras dezenas, ou centenas, que já fiz em minha vida acadêmica, tornou-se o centro do que foi designado (pelos meus censores auto-assumidos) como uma “polêmica”. Cabe restrição quanto ao uso deste conceito: “polêmica” é quando se tem um debate, geralmente contraditório, entre proponentes de propostas nitidamente contrastantes, no qual cada um se esforça para sustentar a legitimidade de suas posições através da exposição racional de argumentos, preferencialmente em tom ameno e civilizado.

Ora, não é nada disso que vem ocorrendo em relação a esta tempestade em copo de cerveja. O que se assistiu, logo em seguida, foi um festival de impropérios políticos, cenas explícitas de sectarismo ideológico e demandas abertas de censura ao editor da revista. Antes, porém, de entrar no debate sobre o que, exatamente, está em jogo na vida da Espaço Acadêmico, caberia expor os fatos com franqueza.

A revista publicou, sob o título de “Marxistas totalmente contornáveis” (maio de 2008), a resenha que eu tive a má idéia de perpetrar do livro organizado por Jorge Nóvoa, Incontornável Marx (Salvador-São Paulo: Unesp-UFBA, 2007). Para ser sincero, reconheço que ela foi concebida num tom deliberadamente provocador e escrita de forma passavelmente irônica (mas, sem qualquer raiva; antes, com deleite). Imaginei, superficialmente, que ela poderia eriçar alguns sobrolhos e arrepiar cabelos ruivos. Tinha a leve consciência de que ela poderia produzir pequenos tremores políticos em determinados arrabaldes, como algum ranger de dentes “marquissistas”. Desconfiava que alguns “moicanos” pudessem tomar as dores de um velho culto, hoje exclusivamente acadêmico (já que, ao que parece, os partidos que encarnavam a verdadeira fé estão melancolicamente desaparecendo, um após o outro).

O que eu não esperava, contudo, era que essa resenha fosse inspirar cenas de raiva explícita ou chegar, até mesmo, a despertar instintos retaliatórios nos últimos true believers de um planeta mais marcado pelo fenômeno do Entzauberung do que dedicado à lapidação em praça pública. Parece que estamos em face daquela história de, à falta de argumento consistente, ordena-se “atirar contra o mensageiro”, como ocorria antigamente nos filmes série B de Cinecittà ou de Hollywood.

Nunca me imaginei no papel de mensageiro (aqui não vai qualquer desprezo pela nobre profissão, linha auxiliar de generais e diplomatas), vitimado indevidamente por aqueles que não gostam do conteúdo da mensagem. Pois não é que a minha resenha sobre um livro pretensamente “marquissista” foi acolhida por várias salvas de artilharia pesada, por parte daqueles que se sentiram atingidos pelas minhas palavras mordazes em relação a uma produção papelística que, sinceramente, eu classificaria de propriamente dispensável?

Obviamente, eu não disse isso na minha resenha: apenas que o livro não valia o papel no qual estava impresso e que, em vista disso, seria melhor usar o dinheiro na compra de duas ou três pizzas, à escolha do freguês. A bem da verdade, confesso desconhecer o preço do livro – ele me foi oferecido graciosamente, digamos assim –, como também não saberia dizer, com exatidão, quantas pizzas seria possível trocar por essa massa indigesta de marquissismo universitário, requentado e mal passado, le tout servi avec une sauce française.

O que eu não podia imaginar, daí minha surpresa, era que uma rápida e curta nota sobre um livro, que talvez merecesse ficar esquecido na estante dos “a ler num futuro indefinido”, fosse despertar tantas reações enraivecidas e tantos apelos a um auto-da-fé, como essa minha simples resenha provocadora. Estupefato que estou com tantas vocações censórias em “marquissistas” de academia, proponho expor os fatos.

Para não deixar os leitores no escuro, exponho trechos de alguns dos muitos comentários recebidos por um editor corajoso e repassados a este colunista. Os nomes dos meus censores estão devidamente resguardados, uma vez que não tenho, como eles, nenhuma vocação a “polícia do pensamento”, assim como não acredito que eles apreciariam ver expostas à luz do dia julgamentos e comentários tão contrários ao espírito acadêmico que deveria nortear a atividade desta revista.

2. A pizza é “marquissista”, mas o recheio é inquisitorial

Um desses comentaristas, membro de um grupo de discussão sobre marxismo, visivelmente indignado –posto que recorrendo a abundantes “???” e “!!!”–, indagou do editor se estava “por dentro da ‘polêmica’ acerca da resenha do livro Incontornável Marx???” O primeiro prontificou-se a reunir todos os comentários recebidos e enviá-los ao editor [eu também pedi, mas até agora não recebi], explicitando ele que fazia “coro às preocupações dos companheiros!!”. Bem, mesmo que eu não tenha ainda recebido esses comentários reunidos – certamente uma Gesamtwerke do marxismo redivivo –, mortifica-me sinceramente a preocupação dos companheiros, na medida em que eu possa desestabilizar as bases conceituais do grupo de estudos marquissista, o que seria certamente uma tragédia para a pesquisa universitária nas humanidades. Talvez eu possa ajudá-los, recomendando a leitura, se desejarem, do meu artigo “O fetiche do Capital(Espaço Acadêmico, n. 83, abril de 2008). [Desconfio que eles não vão aprovar, mas prometo àquele que me provar ter lido todo O Capital lhe agraciar com uma medalhinha da Karl Marx Haus, de Trier.]

Um outro começa por dizer que leu “atônito [sic] a resenha que um tal de PRA faz ao livro Incontornável Marx”. Ele esclarece que sua “perplexidade não advém do comentário desfavorável do articulista”, que, ressalva ele, “tem todo o direito de ter uma opinião crítica, mas do seu tom raivoso e marcadamente anti-comunista”. Vejam bem: a “perplexidade” tem a ver, não com o conteúdo substantivo [até aqui passado sob silêncio], mas com a coloração política da resenha. Acho que é a minha vez de ficar atônito [sem sic].

Devo, antes de tudo, agradecer ao missivista por permitir-me o direito de ter uma “opinião crítica”, mas também confesso minha “perplexidade” por ele não me dar o direito de adotar o tom que eu quiser para expressar uma opinião pessoal numa resenha que, aliás, está certamente mais marcada pelo bom humor do que pela raiva. Palavras, sejam elas impressas ou nas telas, não costumam, ao que eu saiba, saltar fora do texto para latir ou morder; elas apenas cutucam aqueles que se colocam na posição de censores unilaterais daquilo que eles mesmos julgam que pode conter, ou não, uma resenha feita por terceiros.

Críticos de livros, como regra de princípio, deveriam ser inimputáveis, como os índios e os alienados. Mas sempre há o perigo de um deles ser convidado para um duelo ou receber, inopinadamente, um tiro de algum autor mal-humorado. Espero não ter de cruzar com nenhum desses “marquissistas” em algum seminário acadêmico.

Deixo o tom “anti-comunista” a critério do comentarista em questão, uma vez que ele, aparentemente, está disposto a exclusivamente aceitar resenhas que sejam “marcadamente pró-comunistas”, ou seja, que se acomodem à sua própria opinião. Bem, isso é uma questão de gosto, acho. Caberia em todo caso lembrá-lo, que num espaço aberto, como é a revista digital em apreço, todos têm o direito absoluto de ler o que lhes apetece, bastando dar um click away para escapar de coisas desagradáveis.

O mesmo comentarista faz uma sugestão, que talvez conforme uma diretiva, ao editor da Espaço Acadêmico: “Não consigo entender as razões que levam a REA a abrir espaço para coisas como essa”. Se ele não entende, é obviamente problema dele. Eu me permitiria sugerir ao editor que publicasse, imediatamente, “coisas como essa”, que chegam à sua caixa de correspondência, pois a revista está aí para isso mesmo: oferecer um espaço de intercâmbio acadêmico a gregos e goianos, enfim, a todos aqueles que querem debater de forma aberta questões da vida intelectual, o que inclui, obviamente, o marxismo, o anti-comunismo, a raiva incontida de universitários com vocação para censores, tratados seminais ou banalidades monumentais.

Finalmente, ele apela ao editor principal “para que faça chegar aos editores da revista meu desagrado (que acredito compartilhado por outros...)”, o que pode revelar uma insuspeitada vocação para grande inquisidor. O fabuloso critério aqui parece ser: li, não gostei, manda cortar...

Justamente, o pedido de censura aparece explicitamente nos comentários de um terceiro missivista, tanto mais surpreendente que se trata de um importante editor do campo marxista e supostamente libertário (com sol e tudo). Depois de informar ao editor que “várias pessoas estranharam o nível de uma resenha publicada na REA sobre o Incontornável Marx”, ele esclarece que se soma a elas e diz, sem rebuços, que: “Não conheço o livro, mas acho que foi um cochilo permitir que um texto tão desrespeitoso saísse em uma publicação tão respeitada.”(!!!) O critério, aqui, já avançou um pouco mais: não li, nem o livro nem a resenha, mas me disseram para não gostar, e eu alertaria o editor para não ficar dormindo no ponto...

Talvez o editor mereça mesmo receber um pacote de café extra-forte desses candidatos a Savonarola e a Torquemada; mas não estou certo de que sua vigilância, doravante movida a cafeína, deva se exercer no sentido de garantir a pureza da linha justa do comitê central, como parecem requerer os novos dominicanos do marxismo universitário. [Em tempo: se este terceiro missivista ainda não conhece o livro, eu lhe diria que, francamente, não se apoquente por tão pouco, mesmo em se tratando de um experiente editor “marxista”. Como eu já escrevi: melhor ficar com uma boa pizza!]

3. Tropa, sentido!: apresentar os fuzis...

Os comentários alinhados acima foram, se ouso dizer, os mais amenos em uma série bem mais violenta de invectivas estarrecedoras se as julgarmos pelo critério do respeito à liberdade de pensamento. Algumas delas são francamente raivosas, furibundas mesmo, assim como extrapolam o objeto próprio em causa – as qualidades (ou falta de) do livro – para descambar para teorias conspiratórias sobre uma suposta campanha do autor da resenha contra o marxismo em geral e o movimento socialista em particular. Além da perda do senso do ridículo, tal visão denota uma nítida incapacidade de reagir dentro de limites restritos, afetos à resenha, e revela uma clara propensão à censura política e um compromisso com a defesa da “linha justa”, que sob o stalinismo era, obviamente, aquela determinada pelo comitê central. Feita a denúncia, não se necessitava sequer de tribunal: os comissários do povo (em grande parte voluntários) se aprestavam para o fuzilamento...

Um dos comentaristas acha, por exemplo, que “a resenha situa-se no contexto de um ataque sistemático e ininterrupto ao marxismo por parte do autor”. Ele então aproveita a ocasião para retomar uma acrimônia dificilmente contida em oportunidade anterior, como revela logo em seguida: “Na edição anterior, escreveu um artigo longo – e igualmente violento [ele se refere aqui ao meu já referido artigo “O fetiche do Capital”] – criticando os que insistem em ler o Capital. Assim, como a resenha, é um artigo calhorda, permeado de ironia e adjetivação. Assim, acho que é nítido que o alvo não é o livro em si, mas qualquer coisa que se mova (no campo do marxismo, bem entendido)”. Ou seja, o livro resenhado é o que menos importa: o objeto próprio de tal fuzilamento seria a minha postura, inaceitável aos olhos de um candidato seguro a “comissário dos costumes” em certos regimes fundamentalistas, ou a controlador da “linha justa” em finados regimes totalitários. [Pode-se indagar se esse comentarista não aspira a algum cargo de censor de correspondência num novo Gulag acadêmico.]

Mas, o mesmo enraivecido comentarista, ao final, se permite uma sugestão, na linha de que “vale dar uma resposta sem encher a bola do sujeito” [isto é, eu mesmo]: “talvez o melhor seja simplesmente desconhecer a ‘resenha’ dele e encaminhar uma resenha de verdade, apresentando o livro de verdade”. A sugestão foi imediatamente aceita por outros intervenientes no intercâmbio, passando-se então à delicada busca de um nome para cumprir tão ingente tarefa de fazer uma resenha encomendada.

Sorte que alguém se prontificou: “Contatarei [Fulano] e [Sicrano], Doutores em [Disciplina] e Professores universitários, autores de textos excelentes, pedindo que escrevam sobre o livro, não necessariamente em resposta a quem quer que seja, mas na condição de debate”. Um outro, depois de indagar “quem poderia ser convidado para esta resenha-resposta?”, expressou, pelo menos, algo sensato: “Não deveria ser um dos autores, claro”. [Este, pelo menos, aparenta ter senso do ridículo.]

Um terceiro também tem sua sugestão: “Acho também que o [Beltrano] é uma bôa [sic] escolha para recensar [resic] o livro e responder aos rebuznos e ornejos do [resenhista]”. Confesso que tive de ir ao dicionário: encontrei rebusno, com “s”, que é a mesma coisa que zurro (de um burro, portanto). Quanto a ornejos, é um exato sinônimo, o que evidência uma firme vontade de me identificar a um jumento. Depois de tão simpática apreciação, eu recomendaria que a “recensão” encomendada passe por uma correção estilística do missivista em questão, que muito faria para enriquecer sua substância terminológica. [Atenção, contra-resenhista: evitar os zurros!]

Ainda outro, que acha que “a imagem do livro foi seriamente atacada” [mas só a imagem?; ele nada diz sobre meus argumentos quanto ao conteúdo mesmo do livro], se apressa no mesmo sentido, isto é, encontrar rapidamente quem possa falar a favor do livro: “Aceito a proposta de [A] que possa ser o [B], tanto quanto a de [C] que possa ser o [D] e fico me perguntando por que não poderiam ser os dois a escreverem sobre o livro?”. Não satisfeito, ele se entusiasma com a perspectiva de dispor de vários textos encomendados expressamente para elogiar uma obra que lhe parece excelente. [Atenção, B e D: façam pelo menos a corvéia de ler livro.]

O apelo, patético, a essa resenha encomendada, quase que prêt-à-porter, e provavelmente em causa própria, merece ser transcrito na íntegra:

“Acho que se podemos escrever na Espaço Acadêmico mostrando a riqueza de idéias que o livro exibe [elogio em boca própria é...], não apenas como patrimônio seu, mas como um ponto de partida importante para a necessidade da renovação revolucionária do pensamento socialista contemporâneo, isto será muito bom. Portanto não poderemos deixar de retomar as idéias e teses de alguns artigos (que seja) e destacar a importância de suas elaborações e de seus autores (também). Se o ataque não visava apenas o livro, como bem reconhece [Beltrano], é à partir dele que o tal [resenhista] se mobiliza e vocifera seus fantasmas ideológicos. Acho portanto que o livro precisa ser defendido também.” [À margem: não precisa me agradecer pela transcrição do encômio, mas também não vale pedir pagamento de copyright.]

Obviamente, não tenho nada a ver com a escolha do “redator” laudatório, mas não deixa de ser interessante registrar a “metodologia” para tal objetivo. Não importa quem seja o escolhido, ele tem necessariamente de ser uma espécie de “mercenário a soldo” dos autores do livro, uma vez que, independentemente do que ele possa pensar sobre o seu conteúdo real – além das inúmeras falhas editoriais que eu detectei apenas quanto à forma –, a conclusão já está pré-encomendada: trata-se de obra relevante para o aprofundamento do marxismo no Brasil, contribuindo poderosamente para a difusão e expansão do socialismo e do pensamento revolucionário e tal e tal...

Não imagino um pesquisador digno desse nome, prontificando-se a prestar um papel tão subordinado na escala dos empreendimentos acadêmicos. Isto equivaleria, literalmente, a converter-se em pluma de aluguel de um grupo de autores despeitados. O próprio “sugestionador” tem dúvidas, porém, de que isso possa ser feito, pois ele mesmo está ressentido com a pouca atenção que tão magnífica obra recebeu entre os seus pares: “que a ‘esquerda’ queira desconhecê-lo não é surpresa, mas os socialistas porque [sic] fizeram tanto silêncio à divulgação do livro?” [Pois é: não se fazem mais socialistas como antigamente; os de hoje não têm qualquer entusiasmo pela causa.]

O mesmo “sugestionador” é bastante meticuloso na tarefa de salvar o socialismo dele próprio e, manifestamente, se excede no objetivo grandioso de, não apenas responder “resenhisticamente” ao meu vil ataque a tão importante obra do marxismo brasileiro, como também propõe que os verdadeiros comunistas passem ao ataque. Em suas palavras [ainda sem copyright, mas eu coloquei algumas vírgulas]:

“Isso não impede que possamos ser completados [???] por uma ofensiva-manifesto [sic] que, partindo de modo genérico do livro, se faça [resic] a defesa da necessidade de resgatarmos o patrimônio de Marx e de outros teóricos do socialismo, visando aprofundá-lo, ‘atualizá-lo’ e disseminá-lo. Este é um terreno em que poderemos sofrer derrotas se não passarmos à ofensiva.” [Aux armes, citoyens!]

Eu também concordo; até poderia oferecer ajuda, uma vez que conheço bem a obra do velho barbudo. Mas, confesso que não entendi a sugestão final do nosso entusiasmado estrategista do ataque: “Se queremos defender a teoria de Marx e o socialismo precisamos passar a ofensiva teórica, como prática fundamental.” Vejamos: o que seria uma “ofensiva teórica”? Perpetrar mais um livro desse mesmo teor e qualidade? Pode ser, mas eu sugeriria maior cuidado com a revisão da próxima vez, pois, manifestamente, o revisor, ou organizador, não fez direito o dever de casa.

O mais notável é a mobilização de tantas pessoas ocupadas com seus afazeres universitários, políticos, sociais (alguns, supostamente produtivos também), apenas para retrucar a uma simples resenha de duas páginas. Um correspondente decidido não se exime de sobre-dimensionar a tarefa. Em sua opinião, a minha resenha “não é só uma crítica ao livro, mas um ataque ao marxismo como doutrina e ao socialismo como projeto”. [Puxa!: tudo isso?] Mas ele continua: “Logo, não vejo porque não reagir. Creio que há que reagir. Temos o que defender. Não se trata somente de nossa ‘auto-defesa’, como autores, o que não deixaria de ser legítimo, mas da defesa da causa que permanece a mais elevada da nossa época. Não devemos julgar o ataque pela estatura do inimigo, mas pela violência do dano.”

Agradeço, envaidecido, tanta atenção em relação à minha resenha, mas cabe a pergunta: esses marquissistas devotados não estariam, por acaso, tentando matar um mosquito (a resenha) com uma bala de canhão, ao encomendar uma reação mais do que proporcional ao dano infligido? Vale tanta vela para morto tão insignificante?

Confesso que gostaria de passar à margem de ataques ainda mais virulentos, não fosse a recomendação reiterada de exclusão, expulsão, banimento e ostracismo, que alguns desses missivistas pretendem fazer com um resenhista apenas abusado. Um deles vai buscar um antigo texto sobre o “intelectual raivoso” para invectivar de forma barroca contra a minha pessoa.

Quem seria, exatamente, a nova figura bizarra no cenário nacional? Ele não poupa substantivos e adjetivos: o “intelectual raivoso deixa atrás de si o rastro pútrido da reafirmação das visões culturais obscurantistas ensejadas por ordem capitalista que, em estágio senil consolidado, propõe apenas a inevitabilidade da miséria, da desigualdade, do egoísmo, do individualismo, da fome, da guerra e da morte.Parbleu!: em matéria de literatura naturalista, Émile Zola não escreveria melhor.

Mas, o que propõe, precisamente, este nosso anatomista político? “Não se justifica a publicação, mesmo em nome da liberdade de expressão, pois se trata de mero ataque ideológico que desqualifica pessoal e intelectual [sic] autores por não se perfilarem com as idéias apologéticas do autor. Idéias que o mesmo apóia apenas na fortaleza dos interesses que representa: a ordem capitalista neoliberal.” Obrigado pela distinção! Confesso que não sabia que eu representava tão importante papel na defesa e manutenção da ordem capitalista global: vou ter de pedir o meu soldo aos “donos” de Wall Street e de Davos, mas desconfio que eles ainda não sabem disso.

Em texto ainda mais furibundo, esse apoplético comentarista não encontra nenhuma palavra a dizer a favor do livro em questão – talvez por que não o tenha lido – mas se apressa em condenar a resenha, por constituir ela um “mero ataque opinativo e axiomático aos autores e à obra”. Agradeço pelo axiomático, mas confesso que fiquei curioso para saber o que ele teria a dizer a favor dos autores e da obra (hélas, ainda não foi desta vez).

Ele preferiu desfechar, verborragicamente, raios jupiterianos contra um autor que estaria a serviço da causa neoliberal, do Império [com “i” maiúsculo, só existe um, nem preciso explicar], alinhado a não se sabe bem quais “interesses sociais”, ao lado daqueles que seriam, em sua linguagem gongórica, os “pregoeiros irrestritos da ordem capitalista triunfante”. Vero?!: tudo isso junto?! E “triunfante”, além do mais? Mas, isso deve valer um salário e tanto em Wall Street. [Vou perguntar-lhe, em particular, se ele poderia me dar um atestado com firma reconhecida de que sou tudo isso ao mesmo tempo, para justificar os novos ganhos em divisas.]

Enfim, afirmações reiteradas dos diversos missivistas – que me dispenso de reproduzir pelo aborrecido da repetição e pela redundância dos temas – deixam claro que todos eles se sentiram pessoalmente atacados pela minha resenha, Não tanto pelo meu julgamento do conteúdo do livro, em si, mas pelo argumento paranóico de que eu estava conduzindo um ataque sistemático à fortaleza do marxismo estabelecido e que eles precisavam, de modo urgente, passar à ofensiva para evitar a queda da cidadela.

Fico lisonjeado por tanta mobilização em torno dessa curta peça sem maiores qualidades intrínsecas (o que reconheço imediatamente), mas me permito duvidar dos critérios retidos para empreender a contra-ofensiva prometida: o que se pretende é me dar uma lição, em nome do sacrossanto bastião do socialismo imorredouro, ainda que eu desconfie que ele anda bem mal de saúde (mas isto não vem ao caso). O que, na verdade, transparece é o desejo incontido de silenciar, banir, se possível eliminar (ao menos metaforicamente) um “inimigo de classe” (e da causa), em nome de uma velha doutrina que tem ainda longa vida assegurada nas nossas academias, graças a figuras como estas, cujas palavras eu transcrevi nos parágrafos acima. Pensei que a academia fosse mais tolerante (e mais bem-humorada), mas vejo que estou enganado.

Atribuo escassa importância (if any) a essa resenha – que certamente não será incluída nas minhas “obras escolhidas” – mas me assusta sobremaneira a perspectiva de ver a academia abrigar tantas vocações de censores, tantas figuras comprometidas com a pureza da doutrina, tantos espíritos mancomunados com a causa do expurgo, da supressão do pensamento contraditório, com a eliminação da simples discordância de opinião. Atitudes e palavras como as expostas nesta nova (e certamente dispensável) peça “polêmica”, não corroem apenas o “espírito acadêmico” – que supostamente deveria guiar o trabalho neste Espaço –, elas também representam marteladas virtuais no edifício da liberdade de expressão e no exercício do livre arbítrio.

Como já disse alguém, pode sair daí o embrião do fascismo, que é uma das formas do fundamentalismo político (junto com aqueles outros sistemas, que alguns missivistas certamente defendem). Pensar que pessoas assim possam participar, em outras circunstâncias, de um projeto de regime totalitário é propriamente assustador, quando se pretende imaginar o futuro da academia.

A intolerância e o sectarismo aqui demonstrados me confirmam, infelizmente, que isso é bem possível. Eu espero, sinceramente, estar enganado...

4. Concluindo: much ado about almost nothing...

Ao fim e ao cabo, eu me pergunto se uma simples resenha de duas páginas merece tamanha consideração por parte de tantas “almas cândidas” – a expressão é de Raymond Aron, no seu famoso Ópio dos Intelectuais – e minha resposta só pode ser: indiscutivelmente, não! O esforço dispensado por tantos censores do marquissismo estabelecido contra uma peça acusatória a um livro manifestamente ruim – e mal editado, diga-se de passagem – não merece os bits and bytes e a eletricidade gasta nesta resposta indevidamente longa (para a “desimportância” do assunto).

A rigor, o presente “entrevero” sequer mereceria o tempo perdido com algo absolutamente inútil no plano cultural ou livresco, a não ser pelo fato de revelar o espírito intolerante e sectário que se esconde atrás de candidatos a donos da verdade oficial. O mundo certamente já conheceu épocas e lugares bem mais deploráveis em matéria de censura ao pensamento alheio. As motivações, contudo, são as mesmas: cercear e reprimir quem pensa diferente. A intolerância, o sectarismo, a auto-renúncia à liberdade começam assim, como, aliás, alertava uma conhecida marxista libertária, cujo nome, por ironias da história e da economia, é o mesmo de um pequeno país que ostenta hoje a mais alta renda per capita do mundo capitalista (mas existe, ainda, algum outro mundo que não seja capitalista, para horror dos nossos marquissistas?).

Não creio que meus comentaristas mal-humorados pretendam inaugurar uma fase de “caça ao resenhista”. Seria um bem triste papel, a todos os títulos. De minha parte, dou por encerrado um episódio certamente deplorável nos anais dos book-reviews (a não ser que eu seja novamente provocado, é claro...).

Termino com uma recomendação, que espero bem bem-humorada, apesar de grave. Marquissistas de opereta, libertai-vos dos grilhões mentais que vos prendem a um mundo de fantasia – quando não a um projeto des Gulag acadêmico – e uni-vos! Vocês não tem nada a perder, a não ser o senso do ridículo...

Brasília,15.05.2008

 

P.S. 1: O organizador e os autores do indigitado livro, em lugar de me acusar por não sei quais crimes cometidos contra o marxismo e o socialismo, deveriam, na verdade, agradecer-me sinceramente por toda esta confusão criada (involuntariamente, é verdade, mas a culpa é deles) em torno de uma obra que corria o risco de passar inteiramente despercebida e ignorada dos marquissistas de plantão. Aliás, um dos comentaristas lamentou o fato da “esquerda” [sic] ter solenemente ignorado o que ele deve considerar uma brilhante obra nos anais do marxismo brasileiro, e parece ter “saltado” sobre a ocasião para chamar a atenção de toda essa comunidade sobre ela. Está aí, pois, uma bela oportunidade para vender um pouco mais, sair da estante dos “genéricos”, e recolher um pouco mais de direitos autorais derivados desse aumento de venda que veio a ser tremendamente estimulado pelo interesse por mim despertado sobre ele (embora inteiramente no âmbito da lei das “conseqüências involuntárias”).

P.S. 2: Não, os autores não precisam se preocupar, que eu não vou pedir participação nos “lucros”, por esse aumento da demanda agregada. Minha parte pode ficar, a critério dos organizadores, para algum asilo de socialistas pobres.

P.S. 3: Reconheço, por fim, que minha resenha não seguiu inteiramente os padrões do gênero, em todo caso, aqueles mesmos que eu me tinha fixado num texto elaborado, justamente, sobre “A arte da resenha (para uso de aprendizes, neófitos e outros amantes de livros)” [Brasília, 24 janeiro 2006, 5 p. Elementos centrais de uma resenha de livros; disponível no blog Book Reviews (link: http://praresenhas.blogspot.com/2006/01/02-arte-da-resenha.html#links)].

   

 

 

 

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