RAYMUNDO DE LIMA

Formado em Psicologia, Mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

 

Trânsito: que pensar? Que fazer?

por Raymundo de Lima*

 

Trânsito em Maringá (Fonte: http://www.hojemaringa.com.br/imagens/691207007671.jpg)Morrem 35 mil pessoas por ano no trânsito brasileiro. Maringá, cidade planejada e de meio porte no interior do Paraná, vem batendo o seu próprio recorde de acidentes no trânsito: só em / 2008 mais 7 pessoas perderam a vida, é uma morte a cada 5 dias. E quantos perdem uma parte do corpo? Quantos ficam traumatizados? São 1968 ocorrências registradas no centro da cidade. Sábado é o dia mais trágico de ocorrências no trânsito para os maringaenses. O envolvimento com motociclistas é 56,5%.

Em qualquer cidade brasileira as causas dos acidentes no trânsito podem ser o álcool, drogas, buracos, animais na pista, sinalização inadequada, desrespeito a sinalização, sensação de impunidade, velocidade irresponsável, falta de atenção, motoqueiros “costurando” etc.

Tais infrações acima apontam para a “mãe” das causas: a falta de educação, a falta de responsabilidade para dirigir, falta de respeito às leis do trânsito e a sensação de impunidade do motorista. Também há causas de fundo: o irracionalismo dos políticos que viram as costas para  as pesquisas sobre as causas dos acidentes de trânsito, a morosidade do poder público para  impor regras mais duras, fiscalização ostensiva e medidas para disciplinar os motoristas. Por que não proíbem os  motoqueiros trafegarem perigosamente entre os carros, colocando em risco a vida deles e dos demais?

Por outro lado, os pais falham na educação dos filhos, sobretudo quando conduzem bebês no colo e crianças no banco da frente, ou quando presenteiam adolescentes com motos. Adolescentes são os que mais exageram na bebida. Ainda que o veículo seja conduzido por um maior habilitado, um grupo de adolescentes alcoolizado aumenta dez vezes a chance de cometer um acidente. As pesquisas alertam que os jovens entre 18 e 25 anos são os que mais matam e se matam no trânsito brasileiro.

As auto-escolas falham nos seu propósito de ensino-treino, ou seja, além de ensinar a dirigir, também deveria proporcionar ao futuro motorista uma verdadeira educação da cidadania. Não acredito que um pit bull no trânsito pode ser pequenez em casa. A formação da nova geração de motoristas precisa ser revista e aprimorada.

A barbárie de nosso trânsito implica mais responsáveis: a psicologia e seus testes. Há décadas são questionados a metodologia dos testes psicológicos usados para essa finalidade. Faltam pesquisas e um debate sobre  a cientificidade dessa psicologia ou psiquiatria responsável pela habilitação ou impedimento dos motoristas.   

Os fatores culturais deveriam também ser levantados dentre as causas dessa barbárie. O carro é um objeto-fetiche, dá poder, prazer de vida e vazão à pulsão de morte. Sábado indica maior probabilidade de acidentes no trânsito, porque Maringá recebe um maior número de visitantes de cidades menores cujos motoristas foram condicionados a dirigir despreocupados na sua tranqüila e pequena cidade de origem. Sábados, geralmente os motoristas se sentem mais relaxados, daí sua desatenção.

Maringá, Londrina e outras cidades do Paraná adotaram um sinaleiro que indica aos motoristas o tempo de espera e o tempo de fluxo. Mas, o problema é que esse sinaleiro fez surgir motoristas viciados em avançar o último sinal vermelho ou aproveitando o último verde. Câmeras instaladas em algumas esquinas mais movimentadas foram espalhadas pela cidade visando coibir as transgressões dos motoristas. Se facilitar pedestres e carros são atropelados por motoristas potencialmente criminosos. Talvez os guardas de trânsito fossem mais eficientes do que as câmeras, que não tem autoridade.  

Também não vemos guardas nos finais de semana coibindo crianças de viajar no banco da frente. Há motoristas que colocam seu filho pequeno no colo, ao volante, nos finais de semana. Que hábitos ou vícios tais pais estão desenvolvendo nos filhos?   

Os donos de carros espaçosos demonstram tanto ostentação como incivilidade nas cidades do interior. Pode ser propriedade privada, mas o uso do veículo tem que respeitar as regras públicas do trânsito. Para estes, as regras do trânsito cuja finalidade é ordenar o espaço público serve apenas para os outros. No dia-a-dia é visível a falta de educação e desrespeito desses motoristas para com pedestres e outros motoristas de carros menores. Na frente das escolas há mães que param em local proibido, falam ao celular com ar de importantes, e acham que estão certas, caso alguém reclame. E há aquelas que deixam os filhos jogarem lixo pela janela, enfim, há tantos pontos-cegos nos nossos motoristas.  

Parafraseando o sociólogo Wight Mills, se o problema de nosso trânsito fosse de apenas 1% da população, pode-se dizer que se trata de um problema pessoal. Mas quando existe um alto índice de acidentes no trânsito, sem dúvida, é um problema social e educacional. A primeira medida urgente é melhorar a educação dos motoristas, sobretudo, da nova geração.

 


* Psicólogo, doutor em educação pela USP, e professor do DFE-UEM

   

 

 

 

 

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