JOÃO DOS SANTOS FILHO

Professor da Universidade Estadual de Maringá. Autor do livro “Ontologia do turismo: estudo de suas causas primeiras”, EDUSC, Universidade de Caxias do Sul

 

 

Inclusão ou exclusão social:

qual é a lógica do Turismo?

por João dos Santos Filho*

 

A sinalização do fenômeno turístico na história surge por meio de diferentes e variadas manifestações societárias, a qual depende do estágio de desenvolvimento das relações de produção e das forças produtivas. Presente em todos os períodos históricos da humanidade com explicitações diferentes vai ser mencionado pela primeira vez no modo de produção tribal[1], em sua face inicial, junto às necessidades básicas do ser humano. Portanto, o turismo aparece antes do capitalismo, e assim, não pode ser considerado produto dele, mas sim, adquire com ele uma dinâmica econômica própria apresentando formas de se expressar diferenciadas, que vão configurar essa atividade historicamente.

O turismo como estimulador na reprodução e ampliação do grande capital, por ele, surgem os delirantes megaempreendimentos turísticos, que abusam do lúdico dos homens e inculcam nas crianças um imaginário do irreal possível: o homem que voa; a sensação de pilotar uma nave espacial; heróis que nunca morrem; monstros amigos, animais ferozes cativos, tudo isso, na busca de oferecer lazeres e entretenimentos diversos e diferenciados para classes que podem pagar pela exarcebação do lúdico mercadológico.

O aparecimento da atividade turística ocorre no interior das necessidades básicas, dada pela categoria movimento[2], considerado a protoforma de nascimento do mesmo, que se nutriu dos lazeres das elites e classes dominantes, como assim, se refere o estudioso Marc Boyer ao afirmar que “O passado elitista nos dá freqüentemente o cenário do turismo de massa” (BOYER, 2003, p. 19). O caráter histórico do turismo se dá pela conformidade de atividades que os grupos sociais desenvolvem para atender à necessidade básica de movimento.

Neste sentido, duas questões devem ficar claras para entendermos o turismo na história da humanidade. A primeira é que a necessidade básica antecede qualquer outro fato social, e que este se configura na matriz que sinaliza o fenômeno do turismo. A segunda é que com o desenvolvimento de atividades para atender á necessidade básica de movimento vai incorporar diferentes quadros culturais, que expressam as diferenças sociais, mesmo que sutis daquela sociedade.

Movimento é uma necessidade básica que só existe em razão da atividade na qual o grupo social a elabora e necessita para manter o organismo sadio e indispensável à sociabilidade, pois determinam um tipo de ação para os exercícios e iniciativa. Sinalizando a atividade de lazer e turismo como resposta cultural que será dada de formas diferentes, segundo o desenvolvimento das relações de produção.

Se a atividade conhecida como turismo foi se formando durante a história da humanidade e possui uma essencialidade elitista, poderíamos afirmar que a mesma tem uma tendência de ser considerada como uma atividade de exclusão. Entretanto só esse fator, não pode qualificá-la como excludente, além do que, proceder a essa conclusão imediatista é processar um pensamento de base determinista e mecânico, pois existe um determinante maior a questionar. A quem é dirigida as Políticas Nacionais de Turismo no Brasil? Esta parece ser a questão principal, e que pode nós levar a entender o elitismo no turismo e de forma científica questionar as atividades que dão organicidade a esse posicionamento.

Bases teóricas para entender o elitismo no Turismo

Partimos da premissa de que atividade humana, após certo momento da histórica, inicia um movimento triturador das relações sociais impondo a desigualdade em razão da aceleração das trocas de mercadorias entre as tribos. O aparecimento da mercadoria vai quebrar o equilíbrio natural que buscava satisfazer às necessidades imediatas e impor um processo de desigualdade pelo acúmulo de capital na produção do excedente, para explicitar esse processo de desigualdade, Karl Marx em seu conhecido Manifesto Comunista, afirma:

A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes.

Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e oficial, numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das suas classes em luta.  (MARX, 1980: 8)

Na verdade a noção de acumulação de capital que aparece com a mercadoria é o combustível que alimenta e expande a desigualdade entre os homens e que vai se aprofundando no interior dos modos de produção que surgem com o desenvolvimento da história.

O turismo encontra ambiente propício para se desenvolver, no conjunto das necessidades básicas pela categoria Movimento. Esta se materializa de formas diferentes, segundo o estágio de desenvolvimento das relações de produção, assim as sociedades vão desenvolver atividades físicas próprias de cada cultura. A necessidade básica de “movimento” sinaliza a atividade de lazer e turismo como resposta cultural que será dada de formas diferentes.

Podemos relacionar as mais diferentes e curiosas manifestações de atividades para se obter “movimento” das danças indígenas, em que esta toda relacionada ao cotidiano daquele povo até a mercantilização do lúdico irreal. O mercado do lazer e entretenimento movimenta grande parte da economia mundial, em que o tempo livre virou mercadoria que pode ser consumida segundo o poder econômico das classes sociais.

Com o aparecimento da mercadoria surge em escala mundial o cultivo da desigualdade em que o Capital transforma o turismo no instrumento da modernidade, como assim afirma James Petras:

Hoy en dia ser <<moderno>> significa tener acceso a los circuitos industriales del comercio, las finanzas, las inmobiliarias y la industria turística. Ser<<marginal>> hoy significa ser nacional, regional, local. Las élites internacionales son las que hacen la historia; los marginales son los objetos de esta: objetos de explotación, objetos típicos o sexuales del turismo, un emplazamiento para la apropiación y la inversión. (Petras, s/d: 25)

Esse processo vem acompanhado por outro mais bárbaro, que é a pressão para que a sociedade privatize os serviços públicos oferecidos pelo Estado, bem como, torna-se simplesmente um órgão administrativo para normatizar o mercado segundo os interesses privados. Esse procedimento vai limitar a ação do Estado no campo junto às classes populares e afastá-los cada vez mais da possibilidade de usufruir a maioria das atividades de turismo.

O Estado passa à iniciativa privada o atendimento social em todos os campos inclusive no turismo, é ai, que surgem uma série programas caricato:

1 – Destacamos o engenhoso marketing realizado pela EMBRATUR na divulgação do cotidiano de seus atos, alguns são primorosos esteticamente, outros decadentes, mentirosos, apelativos e subliminares como é o caso da propaganda feita em torno do programa lançado pela EMBRATUR chamado “Vai Brasil”, divulgado com sendo o programa para as classes populares, com a participação de personagem como Marinete (a diarista).  O que não foi explicado é que as marinetes teriam de possuir um computador para acessar as agências de viagens na compra de algum pacote turístico, assinar um contrato para poder financiar sua viagem.

2 – O “Empreendetur” idealizado pela Associação de Bacharéis em Turismo (ABBTUR) é um exemplo do irracionalismo do pensamento burguês, pois caminha num mundo de puro fetichismo, negando as contradições da realidade e se opondo ao movimento dialético da história. Os elaboradores do programa, quando criticados, se defendem argumentando que a realidade deve ser trabalhada no conjunto do mundo privado que governa os sistemas econômicos “sustentáveis”. Salientam que a saída para a inoperância da atividade pública se deve ao despertar do espírito empreendedor que existe em cada um de nós. Ressaltam ainda que as críticas ao programa sejam resultado de análises de viés ideológico.

O discurso de que a iniciativa privada tem um comprometimento ético com a sociedade, e não com a ampliação da mais valia, ficando o turismo dependente de sua conduta e atuação; não proporciona o entendimento de que a atividade empreendedora se deve ao desemprego e a política recessiva imposta pelo Estado brasileiro; e, finalmente, acaba fazendo uma apologia contra a luta pela regulamentação, uma vez que afirma implicitamente ou explicitamente (conforme o entendimento de cada um) que não é necessário profissional devidamente formado em cursos de nível superior para atuarem e promoverem o turismo com responsabilidade.

Essa parceria da ABBTUR nacional com a empresa citada não é especificada no site. Isso nos remete a alguns questionamentos: O Empreendetur foi desenvolvido por e para uma empresa privada com a estrutura da ABBTUR e Ministério do Turismo? Como são as relações entre as organizações, incluindo fluxo financeiro e de informações cadastrais? A empresa Bureau de Consultoria terá acesso ao cadastro de inscritos e poderá utilizá-lo para venda de seus serviços? Finalmente, retornamos a outra pergunta que diz respeito à organização profissional: por que a ABBTUR assume um programa que tem como ‘’público alvo’’ qualquer interessado, mesmo não sendo turismólogo?

Conclusão

As políticas públicas existentes no campo do turismo são inconseqüentes, porque são privatizantes, elitistas, pulverizadas e obedecem ao princípio de estar descomprometidas com as classes populares. Dentre as diferentes ações desenvolvidas pelo governo, é no turismo que o mesmo delega à iniciativa privada a totalidade de suas atividades, pois não entende que, no Brasil, o turismo deve ser encarado como um investimento social a fundo perdido e não simplesmente como gerador de mais-valia.

As características abismosas da estrutura social brasileira exigem que o Estado desenvolva política de turismo de cunho social e cidadã, em que a responsabilidade principal deve ser do governo, com o apoio do trade. Com isso, não estamos negando o papel e a importância da iniciativa privada, mas, sim, alertando aos responsáveis pelo turismo no Brasil que o Estado tem o dever de desenvolver políticas públicas para as classes populares, com diretrizes claras de inclusão social para os diferentes estratos sociais.

Por essa razão, a tendência do Estado é sempre formalizar programas inconsistentes para o turismo receptivo, ou seja, afirmamos que a preocupação do poder público nesse caso é oportunizar que o trade maximize seu lucro nos períodos de baixa estação. Por meio da falsa idéia, de que todos devem fazer algum sacrifício para diminuir os custos operacionais, como programas temporários e perenes para a terceira idade.

 Com referência a programas para o turismo receptivo o Estado investe massiçamente em programas de Marketing, infra-estrutura e nos escritórios internacionais comandados por pessoas não concursadas e indicadas politicamente. O que comprova que o Estado desenvolve uma Política Nacional de Turismo de exclusão no que se refere ao turismo doméstico. 

 

Referências

BOYER, Marc. História do Turismo de Massa. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2003

MARX, Karl. Manifesto Comunista. São Paulo: CHED, 1980, p. 8.

PETRAS, James. Modernidad versus comunidad. In. Interrogantes de la Modernidad. Cuba: Ediciones Tempo, s/d: 25

SANTOS FILHO, João dos. Ontologia do Turismo: estudos de suas causas primeiras. Caxias do Sul: Educs, 2005.


* Bacharel em Turismo pelo Centro Universitário Ibero-Americano de São Paulo (Unibero) e bacharel em Ciências Sociais pela PUC/SP. Mestre em Educação: História e Filosofia da Educação pela PUC/SP. Professor-convidado na Faculdad de Filosofia e Letras da Universidad Nacional de Heredia (UNA), em San José da Costa Rica. Professor concursado pela Universidade Estadual de Maringá. Autor do livro Ontologia do turismo: estudo de suas causas primeiras, EDUSC, Universidade de Caxias do Sul.  E-mail joaofilho@onda.com.br

[1] Estudo aprofundado sobre essa questão pode ser encontrado no meu livro: SANTOS FILHO, João dos. Ontologia do turismo: estudos de suas causas primeiras. Caxias do Sul, RS: EDUCS, 2005.

[2] Esse assunto foi por mim amplamente discutido em trabalho apresentado no III Seminário de Pesquisa em Turismo do Mercosul na Universidade de Caxias do Sul e publicado pela Revista de Turismo y Patrimônio Cultural – Pasos -, em Janeiro de 2007 – Espanha. Acesse info@pasosonline.org volume 5. Número 1 e consulte o artigo Espelho da história: o fenômeno turístico no percurso da humanidade.

   

 

 

 

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