EVA PAULINO BUENO

Eva Paulino Bueno é paranaense de Cafeara. Morou em Maringá até 1975, e se graduou em Letras pela UEM (1975). Tem mestrado em Língua Inglesa pela UFRJ (1986), e Ph. D. em Hispanic Languages and Literatures pela Universidade de Pittsburgh (1991). Atualmente é professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women Writers, An Encyclopedia (Routledge).

 

O homem que explodiu

por Eva Paulino Bueno*

 

O que leva um homem cuja vida pública sempre foi envolvida com política, e que chegou a um dos postos mais visíveis da administração de seu país, e que era conhecido durante toda sua carreira em Washington como “o homem que dava não-respostas”, a abrir o peito e dizer tudo o que estava arrolhado lá dentro? Não sou psicóloga, nem conselheira, mas tenho algumas idéias do que fez com que o ex-porta voz da Casa Branca, Scott McClellan, escrevesse um livro mostrando como as coisas funcionam “por dentro”. What Happened: Inside the Bush White House and Washington’s Culture of Deception (O que aconteceu: Dentro da Casa Branca de Bush e a cultura do engano em Washington) só atinge as prateleiras das livrarias nos últimos dias de maio de 2008, mas as explosões causadas pelas palavras de McClellan começaram antes do público ler o livro. O antigo secretário de imprensa, que ocupou este posto de julho de 2003 a abril de 2006, tem sido objeto de inúmeras entrevistas e comentários em toda a imprensa americana e mesmo para os que, como eu, ainda não leram o livro, é possível ter-se uma idéia do seu conteúdo e da batalha interior que levou o seu autor a escrevê-lo.

Mas primeiro, um pouco da história de Scott McClellan. Ele nasceu animal político, filho da três vezes prefeita da cidade de Austin, no Texas. Durante sua infância, sua mãe sempre lhe disse que o que seus amigos fizessem era uma coisa, mas o que ele e seus irmãos fizessem apareceria na primeira página dos jornais.[1] Assim ele aprendeu a ser reservado ao extremo, a não expor suas opiniões abertamente de forma nenhuma, e a ser um modelo de discrição na sua vida profissional e pessoal. McClellan trabalhou com Bush no Texas, quando ele era governador, e juntou-se ao “time” de Bush outra vez em Washington. De uma certa maneira, este homem extremamente consciente de que qualquer coisa que dissesse teria conseqüências era a pessoa indicada para ser a capa da administração de Bush. Durante suas falas diárias com a imprensa americana, ele se apegava à linha do partido, à linha do presidente, e não abria o bico, limitando-se a repetir a mesma frase e sempre que podia, criticava a imprensa por ser muito insistente e agressiva.

Mas houve uma ocasião em que os repórteres notaram algo interessante: quando estourou o escândalo causado pela revelação que a mulher de um diplomata era uma agente da CIA,[2] Scott McClellan disse aos repórteres que Karl Rove e Scooter Libby (ambos homens de muito poder, e de confiança do presidente), "have assured me they were not involved in this" (“me garantiram que eles não estavam envolvidos nisto”). Na época, os jornalistas notaram a escolha das palavras: McClellan não disse que “Rove e Libby não estão envolvidos nisto”, mas que eles “tinham garantido que” não estavam envolvidos. Hoje, ambos Rove e Libby estão fora da administração, e depois de terem sido julgados e julgados culpados de perjúrio, obstrução da justiça, e de darem declarações falsas aos investigadores federais, foram perdoados pelo presidente. Não ficaram nem um segundo na cadeia. As chances de que eles algum dia paguem pela sua atuação são mínimas neste clima estabelecido por George W. Bush, mas pelo menos suas caras arrogantes não têm que ser vistas diariamente na televisão como arautos de honestidade e desinteresse. Talvez este momento em que a podridão bushiana se revelou com toda sua glória tenha sido um dos principais motivos da ruptura da casca de McClellan.[3]

Outro momento foi durante o desastre de Katrina. Não o furacão, mas a atitude do governo, que levou vários dias para assumir o controle da situação, e até hoje New Orleans continua sofrendo as conseqüências do desmazelo e falta de organização. Qualquer pessoa com um mínimo de senso crítico pôde ver que o atendimento ao público foi mínimo, fora de hora, sem coordenação e os resultados foram desastrosos. McClellan participou de perto e foi o porta-voz do governo, transmitindo o que lhe diziam que transmitisse, vendo pau e dizendo que era pedra, vendo devastação e usando eufemismos, tapinhas nas costas.

Mas, quem sabe mesmo o que terá feito com que este homem tenha compreendido o quanto estava causando de mal não só ao povo americano, mas, de uma certa forma, ao mundo inteiro, ao ser conivente com as mentiras que o governo lhe fazia falar à imprensa? O Washington Post do dia 29 de maio de 2008 tem um interessante artigo em que contrapõe o que McClellan disse enquanto era secretário de imprensa, e o que ele escreve no livro. Aqui está uma amostra:

Press briefing (Nov. 14, 2002)

"The president seeks a peaceful resolution. War is a last resort. But the choice is  Saddam Hussein. And we don't want any game-playing, and we've made that abundantly clear."

Comunicado à imprensa (14 de novembro de 2002)

“O presidente busca uma solução pacífica. A guerra é um último recurso. Mas a escolha é de Saddam Hussein. E não queremos nenhum truque, como já fomos bastante claros.”

Memoir

"Though I sensed we were on the verge of war, I didn't fully appreciate how clearly yet subtly our messages demonstrated that Bush had been set on regime change from the earliest days of his decision to confront Iraq. . . . President Bush managed the crisis in a way that almost guaranteed that the use of force would become the only feasible option."

Memórias

“Embora eu sentisse que estávamos à beira da Guerra, eu não entendia ainda como as nossas mensagens demonstravam claramente e sutilmente que Bush havia tomado a decisão de mudar o regime desde os primeiros dias em que decidiu confrontar o Iraque... O presidente Bush gerenciou a crise de uma forma que praticamente garantia que o uso da força seria a única opção possível.”[4]

A reação ao livro, como já disse acima, está sendo estrondosa, com vários membros do governo Bush imediatamente saindo à luta para defender o chefe, seu governo, sua política, e dizendo-se “boquiabertos” com Scott McClellan. Uma das principais defensoras de Bush, sua secretária da Defesa, Condoleezza Rice, por exemplo, enquanto recusando-se a comentar o livro (que ainda não leu), disse em Estocolmo que a guerra era justificável para liberar o povo iraquiano do “monstro Saddam Hussein.” Rice, que está na Suécia participando em uma conferência cuja função não é outra senão conseguir aliados para a continuação da guerra no Iraque, obviamente iria defender as razões da guerra, mesmo que, ela mesma admite, “não existissem armas de destruição massiva.” Para McClellan, o presidente queria derrubar Saddam "primarily for the ambitious purpose of transforming the Middle East" (“principalmente pelo propósito ambicioso de transformar o Oriente Médio”), mas ele “knew that the US public would never agree to send troops into harm's way for that purpose” (“sabia que o público americano jamais concordaria em colocar as tropas em perigo para aquele propósito”).

Mas Rice não é a única pessoa que está se manifestando sobre este livro. Outros, também ligados ao governo Bush, têm se manifestado, todos contra McClellan. Isto, obviamente, não surpreende ninguém. Os bois de presépio gostam de estar juntos, e se protegem, se aquecem uns aos outros com seu hálito. Este governo criou toda uma manada destes bois. O clima de retaliação, de vingança e de segredos que se criou neste país desde a tomada de poder (“tomada” é a palavra correta aqui) por George W. Bush e seu parceiro, Dr. Dick “Death” Chenney, faria Maquiavel sentir-se como um menininho da escola primária. Este presidente, que disse ao chegar a Washington que vinha para unir, veio com as armas da discórdia, da insegurança, do poder da panelinha. Hoje, os cidadãos americanos, quando atendem o telefone e escutam um discreto “clic”, podem ter certeza que estão grampeados. E aqueles que têm que viajar de avião, sabem que podem ser submetidos a todas as humilhações em público, nos aeroportos, em nome da “segurança nacional”, e não podem falar nada, não podem reclamar, senão serão sumariamente presos. Enquanto isto, milhões são gastos na construção de uma cerca separando Estados Unidos e México. Enquanto isto, menos de 5% dos containers que chegam de todas as partes do mundo são inspecionados nos portos. Enquanto isto, muitas cidadezinhas estão sem dinheiro para por gasolina nos carros de polícia. O país está à beira da falência, mas o governo continua a gastar como se ainda tivesse os trilhões de superávit que recebeu do governo Clinton em 2000. E, enquanto isto, somos forçados a digerir diariamente na televisão e no cinema imagens de jovens vestidos com roupa militar e a propaganda, que faria qualquer ditador invejoso, dizendo aos jovens que podem ser mais fortes, com o exército, com os marines. Como qualquer ditadorzinho da América Latina entende muito bem: quando as coisas não estão bem dentro de casa, arrume uma briga com alguém de fora para galvanizar a atenção do povo e fazê-lo esquecer do dia-a-dia. Basta perguntar a Leopoldo Galtieri, da Argentina.[5]

Voltando à minha primeira pergunta, como podemos entender o que levou Scott McClellan a revelar – por escrito – aquilo que todos os americanos de consciência já sabem (e os malucos direitistas jamais vão ver), que esta administração é a mais desastrada e a mais desastrosa da história do país? Como pode um homem que claramente tem laços de amizade pessoal com George W. Bush, e que sabe que este livro vai destruir toda e qualquer possibilidade de uma carreira pública na sua vida? Ele é, afinal, alguém ligado aos republicanos, e, pior ainda, a Bush. Mesmo com este livro revelador, ele jamais seria considerado para um cargo em uma administração democrata.

Talvez o que levou este homem de maneiras calmas e fala tranqüila a se expor desta maneira seja aquilo que chamamos de caráter.

Ou, talvez, como todos os marinheiros experientes sabem, seja porque quando o navio está para afundar, os ratos são os primeiros a abandoná-lo. O complicado, neste caso, é que neste navio só tem ratos.

 

* Ph. D. em Hispanic Languages and Literatures pela Universidade de Pittsburgh (1991). Atualmente é professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women Writers, An Encyclopedia (Routledge).

[1] Ver o artigo na Washington Post, de 22 de dezembro de 2005, “Unanswer Man,” em http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2005/12/21/AR2005122102272.html. Neste artigo, Mark Leibovich conta, entre outras coisas, que uma vez o presidente Bush agradeceu Scott, seu secretário de imprensa, por “não dizer nada.”

[2] Esta revelação teve caráter de punição para o Joseph Wilson, ex-embaixador que havia dito que, depois de uma visita ao Iraque, tinha constatado que não havia “armas de destruição massiva” do Iraque. A revelação que sua mulher, Valerie Plame Wilson era agente da CIA colocou em perigo a vida de muitas pessoas que haviam estado em contato com ela. A questão, neste caso, foi a completa falta de respeito pela vida das pessoas, a vingança política `a toda custa, sem ver-se as conseqüências. E, naturalmente, a crença do grupo de Bush que seus interesses estão além do interesse nacional.

[3]  Num artigo da Yahoo, Connie Cass cita McClellan dizendo que a questão da CIA foi realmente o momento em que ele começou a mudar de opinião sobre o presidente. Ver mais detalhes em http://news.yahoo.com/s/ap/20080529/ap_on_go_pr_wh/mcclellan_book

[4] Ver o texto completo com outros exemplos desta comparação, em  http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/05/28/AR2008052803094.html?sub=new

[5] Se bem que, como vimos no caso das Guerra das Malvinas/Falklands, o tiro saiu pela culatra, e a guerra apressou o fim da ditadura militar naquele.

 

 

 

 

versão para imprimir (arquivo em pdf)

incluir email
cadastre seu email e receba a REA
E-mail:
participe
 

clique e acesse todos os artigos publicados...

http://www.espacoacademico.com.br - © Copyleft 2001-2008

É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída