RUDÁ RICCI

Sociólogo, Mestre em Ciência Política e Doutor em Ciências Sociais. Coordenador do

Instituto Cultiva e membro da Executiva Nacional do Fórum Brasil do Orçamento. Membro do Observatório Internacional da Democracia Participativa

 

 

Um Paraguai de Esquerda

Rudá Ricci*

 

Fernando Lugo, ex-bispo da Igreja Católica e seguidor da Teologia da Libertação, é o novo Presidente do Paraguai. O Tribunal Superior de Justiça Eleitoral divulgou por volta das 21 horas (22h00, no horário de Brasília) do domingo (21 de abril) a vitória de Lugo por 40,8% dos votos, contra 30,7% do segundo lugar, a candidata governista, Blanca Ovelar. Foi uma vitória emocionante, porque colocava por terra 61 anos de hegemonia do Partido Colorado.

 

Gráfico 01: Resultado Final das Eleições Paraguaias

Fonte: TSJE/Paraguai

Uma breve nota no site do jornal ABC Color, no final do processo eleitoral do domingo, dava o tom do desespero de quem perdia o poder:

16:23 La inducción al voto, la propaganda en el local de votación, conatos de violencia, la aglomeración personas o instalación de mesas de consultas en un radio inferior a 200 metros de los centros de votación, la compra o retención de la cédula de identidad, carteles políticos en las cercanías de los locales de votación, intento de soborno, votación con cédula de otro, etc. son las denuncias que registró el Centro de Monitoreo del Ministerio Público en Asunción, Caaguazú, Paraguarí y Cordillera.

Frei Betto, amigo pessoal de Lugo, nos conta (em seu artigo “Eleições no Paraguai”) que o agora Presidente teve se pai preso 20 vezes, três irmãos torturados e expulsos do país. Ele mesmo foi expulso em 1983, retornando quatro anos depois. Apoiado pela Aliança Patriótica para a Mudança (aliança com nove partidos) e a articulação de movimentos sociais denominada Tekojojá (que significa “vida partilhada”), o ex-bispo propõe implantar um programa de governo à esquerda, muito próximo da proposta de Lula na campanha de 1989.  A começar pela energia vendida ao Brasil, cujo preço contesta e pretende elevar em sete vezes. Propõe, ainda, a reforma agrária que beneficiará 300 mil famílias (70% das terras agricultáveis estão nas mãos de 2,5% dos proprietários rurais do país). Em sua campanha, destacou a necessária despartidarização da burocracia estatal e a garantia de autonomia do Poder Judiciário. Com este programa, colore ainda mais o mapa político da América do Sul com tintas mais próximas do vermelho utilizado historicamente pela esquerda. Lugo se declarou, logo após a proclamação do resultado final, um político programaticamente “entre Lula e Chávez”

América do Sul: matizes de vermelho

O novo Presidente do Paraguai iniciou sua trajetória de vitória num comício realizado na praça do Congresso, em Assunção, a partir do qual forjou uma aliança de organizações camponesas, de trabalhadores urbanos, movimentos sociais minoritários, e do Partido Liberal, de amplo espectro (entre centro-direita e centro-esquerda, segundo os próprios analistas paraguaios), que conquistou a maioria no parlamento. Já candidato, adotou uma metodologia muito próxima da empregada pela educação popular par construir seu programa de governo. Percorreu 207 localidades recolhendo depoimentos sobre os problemas da população que deu origem ao documento "A Dor do Povo". Com o documento em mãos, retornou às comunidades e discutiu soluções que foram condensadas em 500 páginas, entregues à sua assessoria de campanha que formulou o programa de governo.

No mapa acima, todo Cone Sul da América passa a ser definido como de centro-esquerda (em rosa). Peru e Guianas aparecem com posições mais ao centro (amarelo), estando a Bolívia e Venezuela mais à esquerda (vermelho). Equador está configurado como oscilante (amarelo), por permanecer, por vezes, entre a posição centro-esquerda e esquerda. Finalmente, cada vez mais isolado na América do Sul, figura o governo colombiano de Alvaro Uribe.

País frágil economicamente: o fundamental apoio brasileiro

As eleições de domingo definiram uma nova pauta de governo para os próximos cinco anos, que iniciará um novo ciclo a partir da posse de Lugo, em agosto.  O Brasil estará no centro das ações do novo governo. Assim como os uruguaios, os paraguaios contestam a desigualdade no interior do Mercosul e reclamam medidas que sejam mais equânimes entre os parceiros. Citam que o Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEN) como interessante, mas tímido e pequeno.

O país possui 6,5 milhões de habitantes, reservas de US$ 2,5 bilhões (à título de ilustração, o Brasil possui 195 bilhões de dólares de reservas cambiais), e possui uma economia exportadora de produtos primários, dependente da Argentina e Brasil. Mais de 50% da população vive abaixo da linha da pobreza, e 35% na  miséria absoluta.

A economia paraguaia é essencialmente agrícola, envolvendo metade da população do país, com destaque para as culturas da soja, milho, mandioca, cana-de-açúcar, banana e algodão. Possui deficiências estruturais graves, como transporte, falta de técnicos especializados e equipamentos mecânicos. O algodão não é beneficiado em função destas deficiências. O setor industrial é praticamente dominado pelo segmento alimentício e de bebidas.

Um dos grandes temas de Lugo é o pagamento de “preço de mercado” pela energia vendida ao Brasil. Até 1970 a energia do Paraguai era originária de termelétricas, situação que foi alterada a partir da inauguração da usina hidrelétrica de Acaray. A partir daí, o país passou a exportar energia para o Brasil e Argentina. Com Itaipu (1984), o Paraguai tornou-se um dos maiores exportadores de energia elétrica do mundo.

Assim, a vitória de Lugo define mais claramente uma nova relação de liderança regional a ser imposta para nosso país. Assim como Evo Morales, na Bolívia (o país mais pobre da América do Sul), Lugo (o Paraguai é o segundo país mais pobre da América do Sul) indica este novo papel ao país mais rico da América Latina, o Brasil. É evidente que Evo Morales tem razão em tentar diminuir a dependência da economia de seu país à uma empresa estatal de outro país. E também parece evidente e legítimo que Lugo queira rediscutir o valor que pagamos para a energia paraguaia de Itaipu. É certo que o Brasil emprestou o dinheiro para o Paraguai construir sua parte de Itaipu. Mas também é verdade que os juros explodiram nos anos 80 e a dívida conosco passou a ser de 18 bilhões de dólares. Se nós, brasileiros, sempre criticamos o tratamento dos impérios ou potências internacionais para conosco, chegou a hora de vestirmos a carapuça e repensarmos nossas responsabilidades para com nossos vizinhos.

 


* Doutor em Ciências Sociais, Diretor Geral do Instituto Cultiva, Executiva do Fórum Brasil do Orçamento.

 

 

 

 

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