EVA PAULINO BUENO

Eva Paulino Bueno é paranaense de Cafeara. Morou em Maringá até 1975, e se graduou em Letras pela UEM (1975). Tem mestrado em Língua Inglesa pela UFRJ (1986), e Ph. D. em Hispanic Languages and Literatures pela Universidade de Pittsburgh (1991). Atualmente é professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women Writers, An Encyclopedia (Routledge).

 

Debris e hubris, ou: quanto custa e quanto custará a “vitória”

por Eva Paulino Bueno*

 

Na última semana de abril, na rede pública nacional de radio (NPR) teve várias entrevistas com especialistas, parentes, e até com soldados retornados das guerras no Iraque e no Afeganistão. O assunto, desta vez, é a precária situação dos que retornam com doenças psicológicas, e não conseguem receber ajuda adequada do sistema de apoio aos veteranos. A situação é extremamente complicada, por várias razões.

Uma delas, tem que ver com a falta de “glamour visual” de uma doença mental ou psicológica. Se um/a soldado volta da guerra com braços ou pernas faltando, ele/a pode se transformar numa espécie de garoto/a de propaganda do poderio tecnológico do país, ao mostrar os membros eletrônicos, produzidos em laboratório, que substituem os que foram perdidos. Já os que voltam com a desordem pós-traumática, ou com ataques de ansiedade, ou crises de depressão, não são fáceis de mostrar para ilustrar o que se pode fazer para ajudá-los, porque sua doença não é visível da mesma forma que um membro faltando é visível. Mas as doenças mentais e a psicológicas são tão reais como as doenças físicas. A página do grupo Antiwar (Contra a Guerra), dá o número de 320.000 soldados com ferimentos cerebrais, e de 20.000 o número de soldados que não informam jamais sobre seus problemas e que preferem tentar resolver isso por conta própria.

Outra razão da falta de atendimento está relacionada com a novidade destas doenças para as forças armadas. Esta é praticamente a primeira vez em que tantos retornam do campo de batalha com tais problemas. Antes, os soldados morriam em grande número. Agora, com a melhora dos veículos e dos equipamentos de proteção pessoal, e a possibilidade de tratamento de primeiros socorros praticamente ao lado dos campos de batalha, muitos não morrem, apesar dos ferimentos. E voltam muitas vezes aparentemente sãos, mas feridos por dentro, doentes da alma.

A estatística mais recente sobre o número de suicídios entre os soldados retornados do Iraque e do Afeganistão mostra que o retorno à vida normal, mesmo para os que não têm ferimentos físicos, é muito difícil. Em um programa de televisão recentemente (CBS News), foi dito que há 18 suicídios por dia entre os veteranos. Este é um número altíssimo. Mas, alguém poderia perguntar, se existe tratamento para a depressão e outras enfermidades psicológicas, por que estas pessoas não pedem ajuda antes de cometer o ato final?

Quem poderia dizer exatamente por que estas pessoas estão resolvendo se matar ao retornar à segurança de suas casas, suas famílias? Considerando que o lugar de onde voltam pode ser visto como um verdadeiro inferno, é de se imaginar que voltar para a família seria a melhor coisa do mundo. Mas não é assim. Após a euforia inicial de estarem em suas casas, com seus parentes e amigos, entram em uma agonia interna. Seria remorso pelo que fizeram no Iraque ou Afeganistão? Seria o horror às imagens do que presenciaram por lá? Seria o desespero por terem ido, feito o que tinham sido ordenados a fazer, e visto que não tinham conseguido nada, além de terem cometido atos criminosos? Imagino que um painel de psicólogos e psiquiatras poderia dar muitas outras idéias para estes quadros, e insistir que cada caso é especial e separado.

Mas a verdade é que não existe um painel de psicólogos e psiquiatras para cuidar destes veteranos. O que existe, desde 2005, é uma falta de profissionais capacitados para cuidar dos que voltam mentalmente e emocionalmente estraçalhados. Também existem formulários para emprego civil e para avanço na carreira militar que contêm uma pergunta se a pessoa já recebeu tratamento por problemas mentais ou psicológicos. Fazer tais tratamentos, então, reduziria a empregabilidade da pessoa. É compreensível que muitos preferem resolver os problemas por si mesmos, e não procurar ajuda de profissionais.[1]

Depois tem uma outra razão importante para esta situação: falta de dinheiro. Embora muitos dos que se alistam o fazem devido às promessas de bolsas de estudo e outras ajudas financeiras, o que eles não esperavam era que este dinheiro não ia vir, e que teriam que deixar suas famílias praticamente à míngua, enquanto vão ao exterior lutar por uma guerra impopular. Outros noticiários na rede NPR deram a informação de que muitos soldados retornam às suas famílias e encontram suas casas tomadas pelos bancos credores. Nestes últimos dias, começaram a falar de criar uma assessoria financeira dentro das forças armadas para ajudar os soldados e suas famílias a resolverem estes problemas para que eles não percam suas casas.

O pior é que, pelos menos para estes soldados que voltam fisicamente feridos, faltando partes, com problemas psicológicos, existe no mínimo um reconhecimento de que eles merecem tratamento. E quanto aos que já morreram na guerra? Margaret Griffis, da Antiwar.com, diz que de 19 de março de 2003, até maio de 2008, morreram 4.065 americanos no Iraque, e 29.911 ficaram feridos (não indica se entre estes estão os feridos mental e psicologicamente). No Afeganistão, morreram já 495 americanos[2]. Mas o pior de tudo é que estes números são uma gota d’água quando comparado ao número de iraquianos mortos: 1.205.025 pessoas! Embora estes números tenham sido obtidos somente através de cálculos feitos a partir de notícias, e possam portanto não ser 100% corretos, de todas as formas, mais de um milhão de mortos é um número impressionante.

*

No seu discurso “Por que a guerra do Iraque é desnecessária e insensata”, proferido em 12 de fevereiro de 2003, na University of Pennsylvania, Stephen M. Walt divide sua apresentação em três partes: 1. uma crítica para as razões dadas para que se fizesse a guerra, 2.a guerra não traria os benefícios apregoados pelos seus defensores, e 3.os custos da guerra.[3] Na terceira parte, ele calcula que a guerra custaria 100 bilhões de dólares se tudo saísse bem, e que o custo final, se as coisas não saíssem tão bem, seria de 1,9 trilhões de dólares. Depois de cinco anos de crescentes custos financeiros, já começam surgir cálculos baseados em pesquisas mais empíricas. Bill Sardi, em seu artigo “How Much Does It Cost Your Household for War?” (“Quanto a sua família paga pela Guerra”)[4], admite que existe tanta desinformação, que se torna quase impossível chegar-se a um número completamente crível. Mas ele de todas as formas faz comparações e apresenta gráficos com os números a que chegaram vários grupos que estudaram a percentagem dos gastos com a defesa: Independent Institute: 27%; Los Alamos Study Group: 38,4%, Friends Committee on National Legislation:42%, e The War Resisters League: 49%. Sardi enfatiza que, realmente, os gastos com a guerra são muito mais altos que 49%, porque esta percentagem é calculada sobre os gastos federais, não na possível receita que a guerra torna impossíveis.

Mas, logicamente, o governo de George W. Bush não quer que o público saiba destas coisas, e também não quer que o dinheiro para custear a guerra falte. O que faz então? Começa uma campanha para privatizar o sistema de seguro social, corta verbas para a educação, corta verbas para a defesa do território nacional, corta verbas para vários programas que beneficiariam os próprios soldados que foram lutar a guerra inglória. O escândalo da semana foram fotos de soldados recém-chegados da frente de guerra para serem alojados no Forte Bragg, na Carolina do Norte, e terem que desentupir os banheiros, dormir em alojamentos imundos, cheios de mofo.[5]

*

No dia primeiro de maio de 2003, George W. Bush teatralmente se apresentou num porta-aviões americano e disse que a missão estava cumprida. Fez sinal de positivo, e aceitou os aplausos dos militares presentes, enquanto que ao fundo uma faixa dizia, “Missão cumprida.” Desde aquele dia, 3.926 soldados americanos, e um milhão de iraquianos foram mortos. Qual seria a missão a que ele se referia, e que estava cumprida?

Se retomamos por um momento o discurso feito por Stephen M. Walt em 2003, a missão no Iraque não era exatamente “liberar” o povo de Saddam Hussein (que havia sido apoiado, treinado e mimado pelos Estados Unidos enquanto ele atacava o Iran). Também não era encontrar as famosas armas de destruição massiva, a não ser que Bush se referisse às armas levadas até lá pelas forças armadas americanas, que seguiram destruindo aldeias, bairros inteiros, e seus próprios soldados. Também não era para impedir a proliferação de terroristas de Al-Qaida, porque como vemos, esta guerra do Iraque funciona como a maior arma de propaganda para o aliciamento de pessoas para Al-Qaida.

A missão cumprida à qual George W. se referia talvez fosse algo assim muito simples: ele tinha definitivamente comprometido o país em uma guerra cujo fim se torna cada dia mais impossível, cujas perdas em vida, propriedade, se tornam cada dia mais incalculáveis. Quais os ganhos desta guerra? Para mim, para você que lê este texto, para os estudantes que vêem as verbas para a educação desaparecendo, para os velhinhos de baixa renda que não têm mais dinheiro para comprar remédios,para a mãe que viu seu filho ou sua filha partir, uniformizado, para viver em um lugar com temperaturas de 48 graus centígrados, para os esposos e esposas, para os namorados, que sabem que ao deixar seu ente-querido no aeroporto podem nunca mais ver estas pessoas, para aqueles soldados que perdem pernas e braços, que ficam com seqüelas físicas e mentais para o resto da vida, para o povo iraquiano que vê seu território invadido, que é morto nas ruas como cães sem dono, para o povo americano que assiste pela televisão imagens editadas, para o mundo inteiro que tem que sofrer mais esta agonia desta guerra de pode se transformar num conflito final em que toda a raça humana pode perecer, nós não ganhamos nada. Perdemos, e muito.

Mas alguém está ganhando. São os fabricantes de armas. São os compadres de Bush que têm contratos bilionários e que raramente prestam contas, e quando prestam, as contas vêm tão alteradas que ninguém sabe ao certo o que está lendo.

*

Quando houve a guerra do Vietnã, os protestos nas ruas se transformaram em eventos memoráveis. Para os americanos mais velhos, que viveram aquela época conturbada, uma coisa surpreende com a guerra do Iraque: a quase inexistência de protestos públicos. Há várias opiniões sobre este fato, mas eu pessoalmente acho que esta inércia se deve a que durante a guerra do Vietnã, servir como soldados era obrigatório para os que eram sorteados. Hoje, os soldados se alistam voluntariamente. As razões são em sua grande maioria financeiras: eles querem ter bolsas de estudo para fazer a faculdade. Então, a maioria deles vem da classe pobre e vêem nesta troca uma oportunidade de subir na vida quando voltarem para casa. O que acabam descobrindo, ao retornar, é que não têm ajuda financeira, têm problemas físicos e mentais que serão tratados mal, ou serão ignorados pelas autoridades médicas militares.[6] Suas famílias se sentem amordaçadas pelo medo de fazer algo que vai custar àquele soldado o pouco que obtêm. E daí o silêncio, a falta de protestos gerais e marchas no país.

Na última semana de abril, os noticiários começaram a mostrar imagens do desenvolvimento nuclear do Iran. E, concomitantemente, imagens de aviões caça que podem bombear aquelas instalações. É bem possível que George W. Bush, antes de terminar seu malfadado governo, queira deixar como herança a volta do “draft” — conscrição obrigatória — e outra guerra de conseqüências incalculáveis. Nada seria menos surpreendente, considerando-se o seu governo até agora.

*

Durante o tempo que me levou para escrever este artigo — dois dias lendo material, um dia pensando em como escrevê-lo de forma sucinta, e duas horas para digitá-lo — 54 veteranos da guerra do Iraque se suicidaram, uns 7 soldados morreram no Iraque, e 658 iraquianos foram mortos. Pode ser que estes cálculos (baseados em números fornecidos nos artigos mencionados, e simples divisões de dias por números de mortos até agora) não estejam completamente corretos. Mas o que está correto é o fato do enorme sofrimento que esta guerra causa ao povo americano e ao povo iraquiano, e à própria nação, que sofre uma perda diária de moral aos olhos do mundo.

*

Enquanto isto, a imprensa americana se dedica a debater se o fato do candidato a candidato a presidente Barak Obama não usar uma bandeirinha americana na lapela significa que ele não é patriota.

 


* Atualmente é professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women Writers, An Encyclopedia (Routledge).

[1] Esta é a chamada “pergunta número 21,” que indaga sobre tratamentos para problemas mentais. De acordo com os participantes de uma discussão em NPR, esta pergunta vai ser retirada dos formulários, para evitar que os que buscan tratamento fiquem com o estigma.

[2] A página de Antiwar.com diz que compilou estes números através de informação obtida na própria página http://www.defenselink.mil, e que o Departamento de Defesa não mantêm relatórios antigos.

[3] Leia o discurso na íntegra em http://ccat.sas.upenn.edu/fsawi/walt.html

[4] Leia este excelente artigo em http://www.lewrockwell.com/sardi/sardi59.html e veja as estatísticas completas, assim como as projeções do que esta guerra está causando em termos de estragos a todo o sistema financeiro do país.

[5] Ver na Youtube fotos e entrevista com o pai de um destes veteranos, que colocou na internet fotos dos alojamentos de Fort Bragg.

[6] Ou, às vezes, o tratamento é feito por diferentes médicos que receitam drogas para a doença de que tratam, sem tentar coordenar o tratamento e pesquisar o efeito da interação das drogas. Tal foi o caso do sargento Robert Nicholls, que morreu como resultado de um coquetel de drogas prescritas pelos médicos. (Ver mais detalhes em http://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=90009525). Recentemente, devido a estas mortes, foram feitas mudanças no sistema de tratamento, para que cada soldado tenha um supervisor de seu caso, para evitar estas combinações letais.

 

 

 

 

versão para imprimir (arquivo em pdf)

incluir email
cadastre seu email e receba a REA
E-mail:
participe
 

clique e acesse todos os artigos publicados...

http://www.espacoacademico.com.br - © Copyleft 2001-2008

É livre a reprodução para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída