EVA PAULINO BUENO

Eva Paulino Bueno é paranaense de Cafeara. Morou em Maringá até 1975, e se graduou em Letras pela UEM (1975). Tem mestrado em Língua Inglesa pela UFRJ (1986), e Ph. D. em Hispanic Languages and Literatures pela Universidade de Pittsburgh (1991). Atualmente é professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women Writers, An Encyclopedia (Routledge).

 

De volta à “Big Easy”: quase três anos depois de Katrina

por Eva Paulino Bueno*

 

SperdomeQuando o furacão Katrina alcançou a costa em 29 de agosto de 2005, afetando os estados da Luisiana, Alabama e Mississipi, matando umas 1.200 pessoas e custando (até agora) por volta de 82 bilhões de dólares, este tipo de fúria da natureza não era o primeiro a chegar aos Estados Unidos. Como a história nos mostra, quase todos os anos existem furacões neste país, e os mais destrutivos são os que se destacam. Por exemplo, em 1900 um furacão de categoria 4 praticamente destruiu a cidade de Galveston, no Texas, matando 8.000 pessoas e custando (em valores aproximados para hoje), uns 80 bilhões de dólares. Em 1926 outro furacão de categoria 4 custou o equivalente a 90 bilhões e matou cerca de 800 pessoas da cidade de Miami. A Flórida, como se sabe uma península localizada em um dos corredores mais ativos para furacões, tem sido vítima de muitos destes fenômenos, que aparecem quase todos os anos, mas outros estados sulistas, como as Carolina do Norte e do Sul, também já sofreram devastações causadas pelos ventos e a chuva torrencial que caracterizam os furacões. E, para quem pensa que os ventos fazem estragos só na região costeira, basta lembrar que as nuvens seguem seu caminho para o norte, levando em seu rastro de morte, destruição e grandes prejuízos. Esta parte da história de um furacão raramente chega aos noticiários nacionais, muito menos aos internacionais.

Mas Katrina ainda continua, pelo menos no imaginário americano, como um exemplo à parte, como uma ferida ainda aberta. Em minha recente visita à cidade de Nova Orleans, na Louisiana, a primeira que fiz desde 2004, antes do furacão, foi inevitável tentar ver algo sobre os efeitos de Katrina, e sobre o que está acontecendo na cidade.

Primeiro, preciso esclarecer que passei somente dois dias na cidade, e que fui a trabalho. Isto significa que não pude caminhar com folga conversando com as pessoas locais, como é de meu costume. Mas é impossível ir-se a New Orleans e não visitar o famoso French Quarter, que é considerado o “coração cultural” da cidade. Ali estão os músicos nas ruas, as lojas de bugigangas de carnaval, os restaurantes com a deliciosa comida “cajun,” os bares que ficam abertos a noite inteira.  E, logicamente, ali se concentram os turistas.

Nesta parte do French Quarter, não se vê nenhum sinal de Katrina. Algumas vezes, um cheiro meio azedo se levanta do chão. Talvez seja um resquício da inundação. Talvez seja o sempre presente cheiro causado pela umidade e pelo calor. Mas os prédios não têm, na superfície, nenhum sinal do que aconteceu em agosto de 2005, e que vimos pela televisão por dias e dias naquelas fatídicas semanas de fins de agosto e de setembro.

Mas houve grandes estragos na cidade. Onde estão os sinais? Para entender o nível da devastação em New Orleans, devemos recordar que uma parte da cidade está construída abaixo do nível do mar. Esta parte é mantida seca pelo sistema de barragens construídas pelo Army Core of Engineers, e coincidentemente, esta parte é habitada em sua maioria pela população negra e pobre. E foi justamente esta região de New Orleans que inundou com o rompimento das barragens. Das cerca de 800 pessoas que morreram na cidade, a grande maioria estava nesta parte. Hoje em dia, o turista com mais tempo e mais curiosidade, pode ir “visitar” esta parte destruída se pagar no mínimo trinta e cinco dólares por uma tour de uma hora e meia. Ou, para os ainda mais afoitos e com mais dinheiro, pode-se pagar até 80 dólares para uma tour de três horas. Conversando com uma pessoa que oferece tais tours, ela disse que parte do dinheiro arrecadado é doado para o esforço de reconstrução. Acredite quem quiser.

Uma das pessoas com quem tive a oportunidade de conversar longamente sobre a tempestade e seus efeitos foi uma brasileira que mora com a família em New Orleans há 16 anos. Juntamente com seu marido e dois filhos, ela esteve entre os que conseguiram sair da cidade antes que o furacão chegasse. Ela disse que no começo se sentiu aliviada por ter conseguido salvar sua família. Mas este sentimento foi quase concomitantemente substituído pela preocupação com amigos e vizinhos que tinham resolvido não sair da cidade, e depois pela preocupação com o que poderia estar acontecendo com sua casa. Ela foi com a família inicialmente ao Mississipi, onde tinham Estádio Astrodome durante o Katrinaparentes, mas depois tentaram encontrar um lugar mais permanente para morar no norte da Luisiana até que New Orleans se normalizasse. Seu marido fez várias viagens de volta assim que as águas baixaram, para certificar-se que a casa estava intacta. Mesmo depois de quase três anos, esta mulher disse que às vezes acorda durante a noite e fica com medo de outro furacão chegando, sem aviso, e levando tudo.

Logicamente, basta ler-se uma revista sobre Katrina, ou dar uma busca na internet, ou no youtube, e se podem ler e ver comentários, imagens, depoimentos sobre o que o furacão fez com a vida de tantos. Mas é diferente quando se está conversando com alguém que passou pelo trauma da  quase destruição da cidade. Para aquela brasileira, a experiência foi extremamente dolorosa, e ela disse, várias vezes, que ela e sua família foram privilegiados, porque tinham carro, dinheiro, e saíram a tempo. Mas eles também tiveram seu sofrimento, e não pouco dele um sentimento de culpa, porque outros ficaram para trás, e outros morreram.

E quem ficou para trás tinha a opção de buscar refúgio no estádio Astrodome. Infelizmente, como sabemos, a força dos ventos arrancou parte do telhado da estrutura, causando ainda mais pandemônio às milhares de pessoas que não tinham podido fugir a tempo. Para quem tinha parentes e amigos em New Orleans, deve ter sido excruciante ver as imagens na televisão, e não poder fazer nada. Foi excruciante para todos nós, com certeza.

Algumas coisas foram ditas durante aquele período e ficaram na memória. Uma delas foi o inepto presidente George W. Bush congratulando Mike Brown, o diretor da FEMA—Federal Emergency Management Agency (Agencia Federal para o Gerenciamento de Emergências) enquanto a desordem e a falta de gerenciamento era gritante na cidade: “You’re doing a hell of a good job” — “Você está fazendo um excelente trabalho.” (Mike Brown acabou demitindo-se dia 12 de setembro, sob pressão pela incompetência durante a crise). Outra coisa que foi dita, e que a brasileira me recordou, apareceu em alguns jornais, em cartas dos leitores. Alguns deles disseram que o que tinha acontecido em New Orleans era punição divina pelos pecados da cidade.

Para a brasileira que mora em New Orleans, tal idéia revela uma estupidez e uma ignorância sem tamanho. A maioria dos mortos na cidade não foram as prostitutas, nem os vendedores de drogas, nem os cafetões, nem os ladrões e outros bandidos. Foram os pobres, os velhinhos, os abandonados pelo sistema, que não tinham nem dinheiro nem condições de se locomover até algum lugar para serem resgatados das águas. Muitos dos que morreram foram encontrados nos sótãos de suas casas, para onde tinham fugido quando as águas subiram. Se o furacão foi punição, puniu os mais inocentes.

Caminhando pelas ruas do French Quarter, olhando as lojas de camisetas coloridas apregoando o seu carnaval (Mardi Gras), ou experimentando as maravilhosas máscaras feitas de pena, ou rindo dos copinhos contendo partes genitais, ou entrando em algum dos inúmeros bares e restaurantes, ou se maravilhando com a música tocada nas ruas, o turista pode momentaneamente esquecer o que se passou nesta cidade. Mas para muitos, ainda continuam vívidas as imagens de gente tentando alcançar um lugar mais alto, ou das enormes filas de pessoas esperando pelo resgate enquanto a câmera se dirigia a uma cadeira de rodas contendo uma pessoa morta. A lembrança do desespero de gente que merecia ter sido ajudada mais cedo, mais eficientemente, com mais respeito.

New Orleans é chamada carinhosamente “The Big Easy” — “A Grande Fácil” — por causa de um salão de danças que existia na cidade por volta de 1900. Mas a cidade tem outros apelidos, entre eles, “O Berço do Jazz”, “A Cidade dos Chefs”, “Paris do Sul”, Rainha do Sul”, “NOLA”, e outros que enfatizam como a cidade é vibrante, “européia”, interessante, e misteriosa.[1]

Entretanto, hoje em dia não tem mistério: a cidade está lutando para recuperar-se financeiramente, e para atrair de volta as milhares de pessoas que fugiram durante Katrina, para recompor-se e fazer jus à sua fama. Mas a brasileira que conheci em New Orleans me disse que os moradores ainda não têm confiança nas barragens que estão sendo construídas, e que muitos dos que se foram para outros estados resolveram ficar por lá mesmo e não arriscar mais viver em uma cidade parcialmente abaixo do nível do mar.

Enquanto isto, as pessoas que têm carinho por New Orleans, e tudo o que a cidade representa, estão voltando aos poucos para visitar, para ajudar a estimular o comércio, para apreciar a comida e a música e para desfrutar de outros deleites que a cidade oferece. Talvez em uma ou duas gerações as imagens de Katrina e do sofrimento dos habitantes da cidade tenham esmaecido. Talvez.

 


* Ph. D. em Hispanic Languages and Literatures pela Universidade de Pittsburgh (1991). Atualmente é professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women Writers, An Encyclopedia (Routledge).

[1]  Ver a página oficial da associação do comércio da cidade em http://www.neworleanscvb.com/static/index.cfm/contentID/555/sectionID/1/subsectionID/0

 

 

 

 

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