por ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e Pós-graduado em História das Religiões (DHI/UEM)

 

 

 

 

 

Edward W. Said: sobre a militância do intelectual

por Antonio Ozaí da Silva*

 

SAID, Edward W. Representação do Intelectual: as Conferências Reiht de 1993. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.Há uma certa concepção política, presente no campus e na sociedade em geral, que reduz a práxis política à militância partidária e/ou em grupos que se organizam para fazer a “política universitária”, isto é, disputar os cargos e os recursos disponibilizados pela sociedade através do gestor estatal. Claro, esse tipo de participação é legítima! Numa sociedade cujos fundamentos são a desigualdade, o individualismo e os interesses corporativos e particulares, torna-se necessário organizar-se para defender-se e aos “nossos”. É legítimo, portanto, organizar-se em partidos, sindicatos, associações ou até mesmo um grupo específico de caráter acadêmico.

É um equivoco, porém, reduzir a política ao partidarismo e grupismo corporativista e/ou sob a capa da retórica universalizante. Isso não seria um problema se não houvesse quem se imagina o redentor da humanidade e mantém uma atitude arrogante para com aqueles que não trilham os mesmos caminhos. Se ser filiado e militante do partido “x” ou “y” é aceitável, não deveria causar estranheza o fato de que determinados indivíduos manterem uma postura independente e distanciada em relação à organização partidária e também dos grupos e “panelinhas”. É razoável esperar que o militante que se engaja nesse tipo de política reconheça a legitimidade de outras formas de engajamento político, ainda que individuais e que, a seus olhos, pareça ineficazes e criticável.

Isso, contudo, nem sempre acontece. O intelectual independente, em relação aos partidos e outros ismos, corre o risco de ser desconsiderado e mesmo desrespeitado. Os críticos mais benevolentes cobram-lhe engajamento – não aceitam que a política tem outros meios e que o indivíduo pode manifestar-se e contribuir politicamente sem que, necessariamente, se engaje em estruturas e espaços de poder. Os críticos mais exigentes vêem-no como uma espécie de franco atirador, alguém em quem não se pode confiar e, no limite, descomprometido com as causas dos oprimidos e os rumos da sociedade e da universidade. Em qualquer dos casos, o equívoco da crítica está em restringir a política ao âmbito institucional do aparato estatal.

Edward W. Said (1935-2003)Edward W. Said: intelectual militante

A obra de Representações do Intelectual, de Edward W. Said, resultado das “Conferências Reith de 1993” proferidas para a BBC de Londres, expressa os dilemas vividos pelo intelectual e contribui para a reflexão sobre o lugar e o significado do seu pensamento e ação nos contextos sociais e políticos nos quais se insere. O convite da BBC para que proferisse as conferências foi alvo de críticas:

“Fui acusado de ser um ativista na luta pelos direitos palestinos e, portanto, desqualificado para qualquer tribuna séria ou respeitável. Esse foi apenas o primeiro de uma série de argumentos totalmente antiintelectuais e anti-racionais, todos eles, ironicamente, apoiando a tese das minhas conferências sobre o papel público do intelectual como um outsider, um “amador” e um perturbador do status quo” (Said, 2005, p.10).

Ora, o intelectual é criticado precisamente por fazer o que tem de ser feito, isto é, por se comprometer e não abdicar do seu papel de instigar e desestabilizar a ordem. Como afirma Said: “Uma das tarefas do intelectual reside no esforço de derrubar os estereótipos e as categorias redutoras que tanto limitam o pensamento humano e a comunicação” (Id.).

Essa concepção sobre a práxis do intelectual e seu compromisso político, que expressa uma postura contrária à falácia da neutralidade do saber e a resistência à pressão para que se adapte às estruturas de poder, está presente em vários momentos da fala de Said, reproduzida em Representações do Intelectual. Reproduzo alguns trechos com o objetivo de estimular a reflexão sobre o tema:

“Todos nós vivemos numa sociedade e somos membros de uma nacionalidade com sua própria língua, tradição e situação histórica. Até que ponto os intelectuais são servos dessa realidade, até que ponto são seus inimigos. A mesma coisa acontece com a relação dos intelectuais com as instituições (academia, Igreja, entidade profissional) e com os poderes de um modo geral, os quais, na nossa época, cooptaram a intelectualidade em grau extraordinariamente alto. Como assinala o poeta Wilfred Owen, o resultado é que “os escribas impõem sua vozes ao povo / E apregoam obediência ao Estado. Por isso, a meu ver, o principal dever do intelectual é a busca de uma relativa independência em face de tais pressões. Daí minhas caracterizações do intelectual como um exilado e marginal, como amador e autor de uma linguagem que tenta falar a verdade ao poder” (p.15).

“Ao sublinhar o papel do intelectual como um outsider, tenho tido em mente o quão impotente nos sentimos tantas vezes diante de uma rede esmagadoramente poderosa de autoridades sociais – os meios de comunicação, os governos, as corporações etc. – que afastam as possibilidades de realizar qualquer mudança. Não pertencer deliberadamente a essa autoridade significa, em muitos sentidos, não ser capaz de efetuar mudanças diretas e, infelizmente, ser às vezes relegado ao papel de uma testemunha que confirma um horror que, de outra maneira, não seria registrado” (p. 16).

“E há algo fundamentalmente desconcertante nos intelectuais que não têm nem escritórios seguros, nem territórios para consolidar e defender; por isso, a auto-ironia é mais freqüente do que a pomposidade, a frontalidade melhor que a hesitação e o gaguejo. Mas não há como evitar a realidade inescapável de que tais representações por intelectuais não vão trazer-lhes amigos em altos cargos nem lhes conceder honras oficiais. É uma condição solitária, sim, mas é sempre melhor do que uma tolerância gregária para com o estado das coisas” (p. 17).

“Não existe algo como o intelectual privado, pois, a partir do momento em que as palavras são escritas e publicadas ingressamos no mundo público. Tampouco existe somente um intelectual público, alguém que atua como uma figura de proa, porta-voz ou símbolo de uma causa, movimento ou posição. Há sempre a inflexão pessoal e a sensibilidade de cada indivíduo, que dão sentido ao que está sendo dito ou escrito. O que o intelectual menos deveria fazer é atuar para que seu público se sinta bem: o importante é causar embaraço, ser do contra e até mesmo desagradável” (p.26-27).

“Mas o que representa o intelectual hoje? Penso que uma das melhores e mais honestas respostas a essa questão foi dada pro C. Wright Mills, um intelectual ferozmente independente, com uma visão de mundo social apaixonada e uma capacidade notável de expressar idéias numa prosa clara e envolvente. Em 1944, ele escreveu que os intelectuais independentes se confrontavam com uma espécie de sentimento melancólico de impotência em face de sua posição à margem da sociedade, ou com a opção de se juntar às fileiras de instituições, corporações ou governos, enquanto membros de um grupo relativamente pequeno de insiders que tomavam decisões importantes de forma isolada e irresponsável” (p.33-34).

“Não tenho dúvida alguma de que o intelectual deve alinhar-se aos fracos e aos que não tem representação. Robin Hood, dirão alguns. No entanto, sua tarefa não é nada simples e, por isso, não pode ser facilmente rejeitada como se fosse idealismo romântico. No fundo, o intelectual, no sentido que dou à palavra, não é um pacificador nem um criador de consensos, mas alguém que empenha todo o seu ser no senso crítico, na recusa em aceitar fórmulas fáceis ou clichês prontos, ou confirmações afáveis, sempre tão conciliadoras sobre o que os poderosos ou convencionais têm a dizer e sobre o que fazem” (p. 35-36).

“Penso que a escolha mais importante que se depara o intelectual é aliar-se à estabilidade dos vencedores e governantes ou – o caminho mais difícil – considerar essa estabilidade um estado de emergência que ameaça os menos afortunados com o perigo da extinção completa e levar em conta a experiência da nossa própria subordinação, bem como a memória de vozes e pessoas esquecidas” (p. 46).

“... os intelectuais se situam em dois extremos: ou são contra as normas vigentes ou, de um modo basicamente acomodado, existem para garantir “a ordem e a continuidade da vida pública”. Na minha opinião, apenas a primeira dessas duas possibilidades descreve, de fato, o papel do intelectual moderno, ou seja, questionar as normas vigentes...” (p.46-47).

“Muitos intelectuais, levados por uma tentação fácil e de apelo popular, sucumbem a uma retórica justificativa e hipocrisia que os torna cegos diante de um mal ou barbaridade perpetrado em nome da sua própria comunidade ética ou nacional. (...) No entanto, embora nada possa torná-lo mais impopular, o intelectual tem o dever de manifestar-se contra essa posição gregária – e que o custo pessoal dessa atitude vá para o diabo” (p. 54-55).

“Mesmo os intelectuais que são membros vitalícios de uma sociedade podem, por assim dizer, ser divididos em conformados e inconformados. De um lado, há os que pertencem plenamente à sociedade tal como ela é, que crescem nela sem um sentimento esmagador de discordância ou incongruência e que podem ser chamados de consonantes: os que sempre dizem “sim”; e, de outro, os dissonantes, indivíduos em conflito com sua sociedade e, em conseqüência, inconformados e exilados no que se refere aos privilégios, ao poder e às honrarias. O modelo do percurso do intelectual inconformado é mais bem exemplificado na condição de exilado, no fato de nunca se encontrar plenamente adaptado, sentindo-se sempre fora do mundo familiar e da ladainha dos nativos, por assim dizer, predisposto a evitar e até mesmo a ver com maus olhos as armadilhas da acomodação e do bem-estar nacional. Para o intelectual, o exílio nesse sentido metafísico é o desassossego, o movimento, a condição de estar sempre irrequieto e causar inquietação nos outros” (p.60).

“Um intelectual é como um náufrago que, de certo modo, aprende a viver com a terra, não nela; ou seja, não como Robinson Crusoé, cujo objetivo é colonizar sua pequena ilha, mas como Marco Pólo, cujo sentido do maravilhoso nunca o abandona e que é um eterno viajante, um hóspede temporário, não um parasita, conquistador ou invasor” (p. 67).

“Para o intelectual, o deslocamento do exílio significa ser libertado da carreira habitual, em que “fazer sucesso” e seguir a trilha das pessoas consagradas pelo tempo são os marcos principais. O exílio significa que vamos estar sempre à margem, e o que fazemos intelectuais tem de ser inventado porque não seguimos um caminho prescrito. Se pudermos tentar esse destino não como uma privação ou algo a ser lastimado, mas como uma forma de liberdade, um processo de descoberta no qual fazemos coisas de acordo com nosso próprio exemplo, à medida que vários interesses despertarem nossa atenção e segundo o objetivo particular que nós mesmos ditamos, então será um prazer único” (p.69).

O exílio é um modelo para o intelectual que se sente tentado, ou mesmo assediado ou esmagado, pelas recompensas da acomodação, do conformismo, da adaptação. Mesmo que não seja realmente um imigrante ou expatriado, ainda é possível pensar como tal, imaginar e pesquisar apesar das barreiras afastando-se sempre das autoridades centralizadoras em direção às margens, onde se podem ver coisas que normalmente estão em perdidas em mentes que nunca viajaram para além do convencional e do confortável. (...) O intelectual que encarna a condição de exilado não responde à lógica do convencional, e sim o risco da ousadia, à representação da mudança, ao movimento sem interrupção” (p. 70).

“A ameaça específica ao intelectual hoje, seja no Ocidente, seja no âmbito não ocidental, não é a academia, nem os subúrbios, nem o comercialismo estarrecedor do jornalismo e das editoras, mas antes uma atitude que vou chamar de profissionalismo. Por profissionalismo eu entendo pensar no trabalho do intelectual como alguma coisa que você faz para ganhar a vida, entre nove da manhã e cinco da tarde, com um olho no relógio e outro no que é considerado um comportamento apropriado, profissional – não entornar o caldo, não sai dos paradigmas ou limites aceitos, tornando-se, assim comercilizável e, acima de tudo, apresentável e, portanto, não controverso, apolítico e “objetivo” (p. 78).

“A sociedade atual ainda enclausura e cerca o escritor, às vezes com prêmios e recompensas, muitas vezes rebaixando ou ridicularizando totalmente o trabalho intelectual e, ainda com maior freqüência, dizendo que o verdadeiro intelectual, homem ou mulher, deveria ser apenas um profissional experimentado em seu campo. (...) Apesar da sua difusão. Cada uma dessas pressões pode ser contestada pelo que chamo de amadorismo, o desejo de ser movido não por lucros ou recompensas, mas por amor e pelo interesse irreprimível por horizontes mais amplos, pela busca de relações para além de linhas e barreiras, pela recusa em estar preso a uma especialidade, pela preocupação com idéias e valores apesar das restrições de uma profissão” (p. 80).

“O intelectual hoje deve ser um amador, alguém que, ao considerar-se um membro pensante e preocupado de uma sociedade, se empenha em levantar questões morais no âmago de qualquer atividades, por mais técnica e profissional que seja. (...) Além disso, o espírito do intelectual como amador pode transformar a rotina meramente profissional da maioria das pessoas em algo mais intenso e radical; em vez de se fazer o que supostamente tem que ser feito, pode-se perguntar por que se faz isso, quem se beneficia disso, e como é possível tornar a relacionar essa atitude com um projeto e pensamentos originais” (p.86-87).

“Cada intelectual tem uma audiência, um público. A questão é se essa audiência está lá para ser satisfeita, e, consequentemente, manter-se feliz, ou se ela existe para ser desafiada e, portanto, instigada a uma oposição direta ou mobilizada para uma maior participação democrática na sociedade. Mas, em qualquer dos casos, não há como se desviar da autoridade e do poder, nem da relação intelectual com ambos. De que forma ele se dirige à autoridade: como um bajulador profissional ou como uma consciência crítica dessa autoridade, ou seja, um amador que não espera recompensas” (p.87).

“Em outras palavras, o intelectual propriamente dito não é um funcionário, nem um empregado inteiramente comprometido com os objetivos políticos de um governo, de uma grande corporação ou mesmo de uma associação de profissionais que compartilhem uma opinião comum. Em tais situações as tentações de bloquear o sentido moral, de pensar apenas do ponto de vista da especialização ou de reduzir o ceticismo em prol do conformismo são muito grandes para serem confiáveis. Muitos intelectuais sucumbem por completo a essas tentações e, até certo ponto, todos nós. Ninguém é totalmente auto-suficiente, nem mesmo o mais livre dos espíritos” (p. 90).

“No mundo secular – nosso mundo, o mundo histórico e social feito pelo esforço humano –, ele tem apenas meios seculares para trabalhar, a revelação e a inspiração divinas, embora perfeitamente plausíveis como modos de compreensão na vida privada, são desastrosas e mesmo bizarras quando usadas por homens e mulheres de espírito especulativo. Na verdade, eu iria mais longe, a ponto de dizer que o intelectual deve ser envolver numa disputa constante contra todos os guardiões de visões ou textos sagrados, cujas depredações são enormes e cuja mão pesada não tolera o desacordo e, certamente, nenhuma diversidade. A liberdade de opinião e de expressão é o principal bastião do intelectual secular: abandonar sua defesa ou tolerar adulterações de qualquer dos seus fundamentos é, com efeito, trair a vocação do intelectual” (p.92).

“... a busca do debate árduo é o centro da atividade, o verdadeiro palco e contexto onde atuam os intelectuais seculares” (p.93).

“”Talvez essa seja também a razão da minha falta de vontade de ir tão longe quanto forma muitos dos que se comprometeram com uma causa ou partido, indo até o fim em termos de convicção e engajamento. Simplesmente não tenho sido capaz de fazê-lo, preferindo a dupla autonomia do outsider e do cético à qualidade vagamente religiosa revelada pelo entusiasmo dos convertidos ou dos verdadeiros crentes. Descobri que esse sentido de distanciamento crítico me foi útil...” (p.100).

“... sou contra a conversão e a crença em qualquer tipo de deus político” (p. 100).

Não se pode e não se deve dizer que acreditar no intelectual que afirma escrever apenas para si mesmo ou em benefício do puro aprendizado ou da ciência abstrata. Como disse certa vez Jean Genet, um dos grandes escritores do século XX: no momento em que alguém publica ensaios numa sociedade, significa que ingressou na vida política; portanto, quem não quiser ser político não deve nem deve escrever ensaios nem falar publicamente” (p.111).

“A crença religiosa, em si mesma, é para mim tão compreensível como profundamente pessoal. Quando um sistema de todo dogmático, em que um lado é inocentemente bom e o outro é irredutivelmente mau, é substituído pelo processo, pelo dinamismo do intercâmbio vital, o intelectual secular sente a indesejável e inapropriada invasão de um domínio sobre outro. A política torna-se um entusiasmo religioso...” (p.114).

“A ironia é que, com muita freqüência, os ex-convertidos e os novos crentes são igualmente intolerantes, igualmente dogmáticos e violentos” (p.115).

“Porque, quando se serve a um deus sem qualquer visão crítica, todos os demônios vão estar sempre do outro lado...” (p.119).

A análise verdadeiramente intelectual proíbe chamar um dos lados de inocente, e o outro, de perverso” (Id.).

“Mas, se nossos olhos estão fixados em nossos protetores, não podemos pensar como intelectuais, mas apenas como discípulos ou acólitos. No fundo do nosso inconsciente há o pensamento de que se deve agradar, e não de desagradar” (Id.)

“O verdadeiro intelectual é, por contraste, um ser secular” (p.120).

“Quanto a abstrações ou ortodoxias, o problema é que elas são patrocinadoras que precisam ser apaziguadas ou protetoras o tempo todo. Os princípios e a envergadura moral de um intelectual não deveriam constituir uma espécie de caixa lacrada, que impele o pensamento e a ação numa direção e é movida por uma máquina com apenas uma fonte de combustível” (Id.).

“... enquanto intelectual, você tem escolha: representar a verdade de forma ativa e da melhor maneira possível, ou então se permitir, passivamente, ser dirigido por uma autoridade ou um poder. Para o intelectual secular, esses deuses sempre falham” (p.121; os grifos são nossos).

Concluindo...

A recusa do intelectual em se vincular a partidos e/ou grupos políticos, internos ou externos à universidade, acarreta ônus. Diminuem as chances de compartilhar dos meios e recursos públicos; verá dificultado o acesso aos meios materiais e simbólicos que propiciam as condições necessárias à visibilidade e, mesmo, à melhoria financeira. Se ele é coerente com a sua postura política, não terá a ilusão de constituir o séqüito de seguidores e nem formará discípulos. Alijado das estruturas e espaços de poder, nada terá a oferecer como recompensa às necessidades materiais e simbólicas dos epígonos. Não inspirará confiança nos que pautam sua práxis política pelo espírito gregário – o partido e/ou grupo político exige identificação e fidelidade praticamente religiosa. Seu espírito independente o põe em choque com as verdades formuladas pelos “ismos”. A recusa em fazer o sacrifício do intelecto e da liberdade de crítica o torna uma espécie de “metamorfose ambulante” que dificilmente se adaptará ou será se sentirá à vontade diante do espírito de grupo e do partidarismo. Ele ficará só e deverá se acostumar à condição de exilado.

Apensar das dificuldades, a militância política não-partidária ou vinculada a grupos políticos organizados representa uma opção ao intelectual comprometido. A consciência inquieta e crítica levam-no a se responsabilizar diante do mundo real e dos dilemas da sociedade em que vive. A militância política do intelectual independente é, sobretudo, uma atitude, uma práxis comprometida socialmente e que se manifesta em seu cotidiano nos espaços em que atua.

O intelectual que não se vincula a partidos e/ou grupos políticos vive intensamente dilemas que se traduzem numa certa sensação de impotência, incompreensão e até mesmo de auto-culpabilização – na medida em que as pressões e cobranças o fazem refletir sobre a qualidade e intensidade da sua contribuição à transformação social.[1] A solidão acarreta sofrimento, questionamento e reflexão sobre si e o ser no mundo. Os exemplos e as reflexões de intelectuais como George Orwell, Maurício Tragtenberg, Edward W. Said, etc., nos fazem perceber que não estamos sós, que os atos cotidianos, por mais simples que sejam, têm significados políticos e o que o ceticismo também desempenha um papel importante para o desvendamento dos discursos e práticas que se pretendem os únicos verdadeiros e legítimos.

As palavras de Edward W. Said falam por si mesmas. Cabe a cada um de nós pensar criticamente sobre elas. Não há um só caminho a seguir e as escolhas que fazemos indicam opções políticas e ideológicas que nos definem como intelectuais ou simplesmente enquanto especialista e profissionais, adaptados e conformados. Claro, essa escolha tem suas vantagens e representa uma tentação permanente ao intelectual. Até porque ele também compartilha o “reino da necessidade” e precisa trabalhar para “ganhar a vida”. Sua autonomia é relativa e, como diz o ditado popular, o inferno está cheio de gente de boas intenções. No fundo, o que conta mesmo é a prática e as atitudes, mais do que o discurso e a representação que o intelectual, e seus pares, tem de si mesmo.

 

Referência bibliográfica

SAID, Edward W. Representação do Intelectual: as Conferências Reiht de 1993. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

 


* Docente no Departamento de Ciências Sociais (UEM). Blog: http://antonioza.blogspot.com

[1] Escrevi algumas reflexões sobre isto no blog. Ver: Sonhei que eu era de direita! e Dilemas de um cético. Ver também “CENTENÁRIO DE GEORGE ORWELL - Os dilemas do intelectual militante de esquerda” (REA, nº 26, julho de 2003) e “Os intelectuais diante do mundo: engajamento e responsabilidade” (REA, nº 29, outubro de 2003).

 

 

 

 

 

 

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