por ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e Pós-graduado em História das Religiões (DHI/UEM)

 

 

 

 

 

Religião e Política:

Memória e História da Renovação Carismática Católica em Maringá (PR) – Parte final*

por Antonio Ozaí da Silva

[parte I e II]

 

para Auxiliadora Maria da Silva

 

A liderança da RCC em Maringá, e no Paraná, empreendeu todos os esforços possíveis para tornar possível a existência do PSN. A idéia era formar um partido que melhor se adaptasse à uma política fundamentada na Doutrina Social da Igreja. Não se pode afirmar que o PSN era o partido da Renovação Carismática, mas é fato que alguns dos seus principais líderes se envolveram com o projeto de formar e consolidar o partido.

Neste intermédio, entre a eleição de Emerson Nerone e a formação do PSN/PHS, a RCC Maringá apoiou a candidatura de Shinji Gohara à Câmara Municipal. Eleito em 1996 pelo PHS, Shinji Gohara incorporou à sua assessoria Valter Viana e Ierecê Jussara Correia Gilberto (fundadora do PSN, compôs a sua primeira direção executiva e é Coordenadora Nacional do Ministério Universidades Renovadas). Na avaliação de Ierecê:

“Esta experiência foi muito rica. Rica e dolorosa. Nós tínhamos um sonho de criar algo novo através da política, mas a gente percebe que a geração de hoje já está contaminada pela maneira como se vive a política. Ela foi dolorosa porque muitas coisas experimentou de pessoas que a gente imagina que pensasse diferente, que tivesse uma visão diferente. Mas quando você vê que, na verdade, vivem o seu mundo pessoal, são egoístas e exatamente igual a todas os outros. Somo exatamente a mesma matéria de todos os que estão no mundo. O Shinji em alguns momentos dizia que tinha vontade de desistir, porque é muito difícil. Eu dizia, nós não podemos desistir. E eu estou aqui, com você, porque acredito que esta mudança é real, ela pode acontecer. Só que não é pra minha geração, a sua, nem dos nossos filhos. Mas é pros nossos netos, pros nossos bisnetos. Demora algumas gerações pra essa coisa mudar. Acredito nisso até hoje. É por isso que trabalho com o Ministério Universidades Renovadas.” (entrevista, 21.02.07).

Eis um aspecto interessante da RCC em Maringá. Alguns dos vocacionados à política, inicialmente eram filiados ao Partido dos Trabalhadores, legenda sabidamente preferencial dos cristãos vinculados à Teologia da Libertação. Talvez isto sugira que as diferenças entre os carismáticos e a Teologia da Libertação, do ponto de vista da política, não eram, afinal, tão intensas. Talvez indique maior flexibilidade política do PT maringaense, capaz de incorporar setores moderados e até mesmo considerados conservadores pelos críticos à esquerda. O fato é que o PT em Maringá incorporou, sem grandes traumas, lideranças carismáticas que na perspectiva interna da igreja eram considerados “alienados”, “rezadores”, “intimistas” etc.[1] É preciso também considerar o caráter de massas do PT, capaz de integrar diferentes forças políticas e que, por outro lado, os cristãos vinculados à Teologia da Libertação também eram vistos pejorativamente como “papa-hóstias”, “reformistas” e outros epítetos que a esquerda petista de viés trotskista e marxista lhes lançavam à face. Mas, vejamos o que pensam sobre isto os diretamente envolvidos:

“O primeiro partido que eu me filiei foi o PT. Me filiei por causa de duas pessoas. Um amigo que me fez enxergar um PT diferente e por causa do falecido José Cláudio, que tinha um jeito diferente de ser político, de agira politicamente. Aí eu passei a acreditar que o PT seria um partido diferente daquele que vinha sendo, só estimulava greves e não sei o que e tal, aquele radicalismo nos seus posicionamentos como oposição. E não era isso que o povo queria, mas o PT de Maringá era diferente” (José do Nascimento Neto. Entrevista ao autor, 14.02.07).

“Dentro do PT eu sofri imensamente exatamente pelos irmãos de fé. Os outros grupos, o PT é formado por muitos grupos internamente, quem conhece o PT sabe do que estou falando, os outros grupos, não se importavam com isso. Muitos deles até eram ateus, mas tinha grande abertura e facilidade para a gente poder trabalhar, sonhar com um país, um país mais democrático, um país a partir dos conselhos sociais, a partir das organizações sociais. Mas aqueles que vinham da igreja continuavam nos achando como inimigos, sempre com o embate interno, desgastante. Eu até atribuo a minha primeira derrota política, quando fui candidato a deputado federal e fiquei como segundo suplente, terceiro suplente, a situação de não ter recebido o apoio da igreja, em especial dos membros que vinham da experiência da Teologia da Libertação” (Sidnei Telles. Entrevista ao autor, 15.02.07).

“Participar do PT foi para mim uma experiência fantástica. Aliás, não me arrependo em nenhum momento de ter sido petista. Foi uma das boas fases da minha vida enquanto pessoa na política. O Partido dos Trabalhadores marcou a minha vida. Isso foi um ponto muito positivo pra mim. Acontece que, ao participar da Igreja e da Renovação, ao pedir votos para o Nerone ou alguém da igreja, você encontrava algumas barreiras. É verdade que o PT defende, por exemplo, o aborto, ou por questões de alguns membros, a união civil dos homossexuais. Não vamos entrar no mérito, mas nas dificuldades que tínhamos em estar na Renovação com esses pontos de interrogação. Havia resistência. Paralelamente a isso, havia o Movimento Solidarista Brasileiro, que é um movimento que pensa num outro sistema para o Brasil. Contrapõe ao neoliberalismo e a esse sistema que está aí. Esse movimento, eu, o Nerone, Sidnei e outras pessoas, não só no Paraná, mas no Brasil inteiro. Homens e mulheres de diferentes partidos: do PT, do PC do B, do PFL, do PMDB. Tinha gente de todos os partidos. Se estamos num movimento grande no Brasil, por que não formar um partido político? Foi daí que nasceu o sonho de criar um partido político. E aí saímos pegando assinatura para formar este partido político, mesmo estando no PT. No Paraná, diferente de outros estados, por sermos todos da Renovação, foi a forma mais rápida e fácil para pegar assinaturas e fazer o partido político. O Nerone tinha o mandato de deputado, foi colocado a estrutura do seu gabinete, através do seu Israel Pinheiro, pra coordenar este trabalho no Estado do Paraná, e a gente ficou responsável por Maringá e região. Eu e outras pessoas, como o Osvaldo Reginato, para pegar essas assinaturas e formar o PSN. Ao conseguir as assinaturas, nós demos entrada em nível nacional e formou-se o PSN. Eu, o Nerone e outros companheiros deixamos o PT e fomos para o PSN. Mas, por falta de estrutura e de organização partidária alguns membros ainda ficaram noutro partido. Foi o caso do ex-vereador Shinji Gohara que permaneceu no PSDB. Eu por exemplo estava no PSN, mas ajudei a eleger o Shinji Gohara a vereador em Maringá pelo PSDB. Depois ele mudou para o PSN, também nessa construção partidária. A minha experiência passa partidariamente por estes dois partidos políticos: PT e PSN (Valter Viana. Entrevista ao autor, 23.02.07).

Valter Viana se tornou assessor do vereador Shinji Gohara e, no último mandato deste, afastou-se da assessoria e das funções que desempenhava na RCC Maringá (era membro da Equipe de Serviço e Coordenador da Secretaria de Fé e Política) para candidatar-se a vereador nas eleições de 2000. Foi eleito com 1.112 votos, sendo o último eleito dos 21 vereadores que compunham o poder legislativo municipal. Ele foi eleito pelo Partido Humanista da Solidariedade (ex-PSN), coligação PPS / PHS / PMN / PCB / PC do B / PSB, cujo candidato a prefeito foi Ulisses de Jesus Maia Kotsifas (PPS) e Osvaldo Reginato (PHS) a vice-prefeito.[2] Contra as expectativas gerais, foi eleito o petista José Cláudio Pereira Neto. Valter Viana apoiou o petista no segundo turno e, quando este assumiu a prefeitura, passou a fazer parte da sua base aliada. No segundo ano de mandato, ele foi convidado a ocupar o cargo de líder de governo na Câmara Municipal de Maringá. A proximidade com o PT se manteria durante o mandato do governo petista.

Podemos observar pelos depoimentos, e o que foi exposto até aqui, que membros destacados da Renovação Carismática Católica de Maringá se envolveram ativamente com a militância política partidária, em consonância com as orientações, princípios e projeto político do Ministério Fé e Política, analisados anteriormente. E este envolvimento político não se dá apenas entre os mais destacados, ou seja, os que se candidatam e aparecem para o público externo à RCC e à Igreja Católica. Uma campanha política eleitoral, ainda que restrita ao município, ou, ainda, a organização de um partido e a disputa de cargos estaduais (representação na Assembléia legislativa e/ou no Congresso Nacional), tudo isso envolve dezenas de pessoas irmanadas num projeto que também se vincula à fé, à espiritualidade.

Enquanto os carismáticos dão os primeiros passos na direção de incorporar a política à fé, como complementares e não antagônicos, há maior unificação de forças em torno dos objetivos políticos –– por exemplo, eleger um dos seus membros à câmara municipal, à deputado federal e/ou estadual. Não obstante a desconfiança e resistência interna. Contudo, na medida em que essas ações passam a apresentar resultados, a nova realidade instituída tende a influenciar as relações internas e a própria Renovação Carismática em seu conjunto. Por exemplo, já não é mais possível ignorar o mundo da política e os males que este encerra. A relação da RCC com os mandatários, e vice-versa, também exige maior atenção.[3]

A realidade é que o crescimento da RCC e da participação dos seus líderes na política causaram impactos talvez imprevistos. Tudo indica que não se concretizou a tendência observada por Miranda (1998) de unificação de atuação política dos leigos carismáticos no PSN/PHS. Ela analisa a política cearense e seria o caso de pesquisar em termos nacionais (o que foge ao escopo deste trabalho). Porém, pelo menos a partir da realidade política maringaense que envolve a atuação dos líderes da RCC, é possível afirmar que a unidade dos carismáticos se mantém apenas no discurso unânime da necessidade do comprometimento cristão com a política, isto é, da vinculação fé e política. As divergências se dão em relação às opções partidárias e ideológicas e, em especial, quanto à prática política.

Assim, temos em Maringá a divisão dos líderes em partidos e posições opostas em relação ao poder municipal. Valter Viana, ex-PT e vereador pelo PHS, é oposição ao prefeito Silvio Barros II, eleito pelo PP em coligação com o PDT / PRTB / PSDB. Do outro lado, Sidnei de Oliveira Telles Filho, ex-PSDB, ex-PT, ex-PSN/PHS, ex-PSDB novamente e, atualmente, no PPS, apóia o prefeito e compôs o seu secretariado. Não foi por acaso que, na última eleição, em 2006, ambos concorreram a deputado federal por partidos e coligações diferentes. São trajetórias e histórias de vida diferenciadas, mas que expressam bem os impasses da RCC diante da pluralidade de opções políticas dos seus membros. Portanto, surge a necessidade de buscar o equilíbrio entre a militância partidária e a Renovação Carismática, de forma que, por exemplo, as divergências políticas entre os seus líderes não interfiram e/ou causem constrangimentos internos.

Esta realidade leva a Renovação Católica Carismática em Maringá a adotar um documento interno, com o objetivo de estabelecer parâmetros comuns.[4] As diretrizes visam eliminar “o risco de abuso e instrumentalização (uso indevido) da RCC”. Entre outras determinações, indica-se que: “Não se promova campanha eleitoral no Grupo de Oração e nos eventos destinados à dimensão do anúncio (querigma), sob pretexto algum”; “Os materiais destinados à divulgação de eventos e à evangelização em geral não deverão conter nomes ou símbolos que caracterizem campanha eleitoral”; “Não se proceda no Grupo de Oração e nos locais de encontro da RCC, a colagem de cartazes, colocação de banners e outros meios de divulgação eleitoral”. Afirma-se também que os candidatos devem se licenciar de funções que desempenhem na Renovação e pede-se que seja evitada a concorrência por votos em relação aos grupos de oração. Contudo, defende-se o engajamento político, desde que de acordo com as diretrizes.

A RCC, do âmbito nacional ao local, procura garantir a unidade interna através de orientações e procedimentos que propiciem a convivência e a não interferência dos interesses políticos na dinâmica dos grupos de oração e em sua estruturação. O Ministério Fé e Política também desempenha esse papel. Porém, não é tão simples harmonizar e manter parâmetros. Para além do discurso religioso, permanece a situação de tensão. Os depoimentos transcritos a seguir nos permitem visualizar estes dilemas. Comecemos pela fala do José do Nascimento Neto:

“Oficialmente, a RCC de Maringá não apoiou nenhum candidato. Foi interessante a estratégia, mesmo porque se ela apóia um pode ficar contra outro e nunca sabe como as pessoas vão reagir a isso. Como tinha vários candidatos ligados à RCC, não só aqui na região, mas em outras regiões do estado, em partidos diferentes, optou-se por não apoiar nenhum oficialmente. A RCC não podia abraçar uma causa. Mesmo porque se ela começa a abraçar muito uma causa política, ela fica pelo menos três quatro meses sem fazer o seu papel. O papel dela não é esse, de política. Ela pode motivar, pode ter conscientização política. Mas o movimento em si não pode ficar vestindo essa camisa política. Esse é o nosso candidato, aquele é o nosso candidato. Tanto o Valter Viana, quanto Sidnei Teles fizeram as suas campanhas. Tinham os seus apoios dentro dos grupos de oração? Tinham. Mas eram contatos entre eles e as pessoas dos grupos. A RCC orienta que não haja aproveitamento de encontros, dentro das reuniões, pra não ir um candidato com camiseta ou mesmo pregar, por melhor pregador que seja, porque ele está em campanha política. Antes da campanha, beleza. Mas até a campanha ele não pode. É orientado que ele não faça isso, que os grupos não recebam. Inclusive nós temos orientações para época de campanha política, como os coordenadores de grupos e os candidatos devem proceder. Então a gente procura pautar por isso. Sabe porque, começou a ficar muita ligação. Neguinho fala, ‘é o partido da RCC’. Não é o partido da RCC, porque não é só gente da RCC que faz parte deste partido, principalmente do PHS. Não, a RCC não tem um partido” (Entrevista ao autor, 14.02.07).

Nestes termos, pode parecer que o problema político se restringe à rivalidade Valter Viana versus Sidnei Telles. Como ambos foram candidatos a deputado federal no mesmo ano eleitoral e por partidos diferentes, a dicotomia parece lógica. Mas, seria reducionismo apresentar os fatos desta maneira. Os membros da RCC chamados à política apresentam diversidade mais abrangente no tocante às suas opções política-partidárias. O próprio Nascimento, Coordenador do Ministério de Comunicação Social da RCC Maringá, informa que nas eleições de 2004 haviam militantes vinculados ao PT e PV, além do PHS, e que foram candidatos a vereadores. Diante disso, a RCC promoveu um debate entre os diversos candidatos. Há quem duvide da eficácia de eventos como esse e pensem que, na prática, terminam por reforçar um candidato específico, dependendo de como a discussão é estruturada.[5] Vejamos, agora, a análise do professor Antonio Carlos Lugnani:

“Na eleição passada de prefeito, tínhamos seis/sete pessoas que eram candidatas a vereador. Um era candidato a vereador em Marialva, outro em Sarandi, dois ou três em Maringá, outro em Paissandu, outro não sei aonde. Então reunimos, conversamos claramente, expomos. A Renovação não apóia um ou outro candidato. Nós estabelecemos claramente: o caminho tem que ser esse, ter visão ética. A pessoa pode dizer ‘eu sou da R’. A gente observa muito nêgo que entra no grupo de oração poucos dias antes, entendeu? ‘Sou do grupo tal’ e põe lá no santinho ‘pertenço ao, tem um grupo meu grande e tal’. Olha a história, se ele tem um começo, meio, dentro da Renovação. e aí nós apoiamos. Pode contar com o nosso apoio. Ele não pode fazer campanha dentro do grupo de oração, enquanto candidato não pode nem entrar no grupo de oração pra pregar. Mesmo que ele seja pregador. Ao final do grupo de oração, os candidatos podem chegar na porta e fazer a panfletagem, aquela coisa toda. Se ele quiser conversar contigo, ele convoca uma reunião. Vão os líderes que querem. Mas nós não envolvemos a Renovação como movimento. Ao contrário dos pastores [evangélicos] que chamam ‘olha, vocês vão votar no fulano, sicrano’. Nós, não” (Entrevista ao autor, 15.02.07).

Perguntei ao professor Lugnani se o fato da liderança “x” apoiar este ou aquele candidato não influencia e induz o voto das bases da RCC, ou seja, os grupos de oração. Eis a argumentação dele:

“O geral, o máximo que a gente pode fazer, é esse trabalho que é feito. Agora, a minha esposa por exemplo era coordenadora diocesana. Então quem que a Jose está apoiando? É delicado. Mas ela evita, por exemplo, de assumir em público. Se têm dois ou três candidatos que é de Maringá, enquanto coordenadora ela não fala se está apoiando ‘B’. Enquanto pessoa, ela tem a sua preferência. É complicadíssimo este processo” (idem).

Comentando a experiência eleitoral recente, Sidnei Telles admite que foi um processo complicado:

“Demonstrou as nossas dificuldades de se ter um projeto único. A Renovação, na minha opinião, deveria ter um projeto corporativo, mas ela não tem. Ela se coloca como igreja que forma o seu povo e a sua liderança, e oferece para a sociedade. Ela oferece todos os seus quadros. Isso nos divide em termos eleitorais, mas nos diferencia também em termos de formação. Eu sou uma liderança da RCC histórica, presente no Brasil todo e de uma formação de centro-esquerda. O Viana é uma pessoa da Renovação que se tornou político e continuou participando da Renovação. Temos uma trajetória histórica distinta. E por não haver uma ação corporativa, as candidaturas surgem e os grupos vão se acomodando ao redor das pessoas com que eles vão sentido a confiança e a confiabilidade no tipo de projeto que cada um representa. (...) A Renovação, por não ter um processo ideológico, ficou mais aberta a várias experiências, da esquerda a mais à direita. Pra se ter uma idéia, Minas Gerais tem dois deputados federais da RCC, um do PT e um de oposição ao PT. Tem dois candidatos a deputado estadual, um do PT e outro de oposição. A Renovação abriga isso e consegue lutar por várias coisas comuns e manter também a práxis de cada um a partir da visão do seu partido. Na Renovação esse é um processo que em alguns lugares está mais amadurecido. Acabei de exemplificar Minas Gerais. Agora, há outros estados onde isso é mais lento. O Paraná é um estado conservador, por natureza conservador. Então é um estado que leva mais tempo pra ir recebendo as mudanças que precisa” (Entrevista, 15.02.07).

Indaguei o vereador Valter Viana sobre a repercussão da sua experiência política na RCC. Sua resposta também nos ajuda a compreender os dilemas da Renovação quando se trata das difíceis relações entre fé e política na prática:

“Não só na Renovação, mas também na Igreja. Todo mundo é unânime na questão da participação nossa. Mas, quando você sai para uma campanha política, você vai encontrar muitas barreiras. Encontrar pessoas na Renovação que concorda com o mandato, com a forma de se fazer o mandato, com a forma de trabalho. Mas tem pessoas também que não concordam. Que mesmo tendo a visão de que o cristão, membro da Renovação, tem que participar do processo político, ele considera que, por exemplo, não devemos pedir votos no grupo de oração, que não devemos nos identificar enquanto cristão e membro da Renovação. Você encontra pessoas com essa visão. E você encontra outros que pensa o contrário, que temos que pedir votos na Renovação e na Igreja. Como não é um processo do dia pra noite, desde 1992 que estamos neste processo político, há também o desgaste. Você não cria inimigos religiosos e nem inimigos pessoais. Mas você encontra inimigos políticos, que não está no mesmo partido que o seu, que são candidatos a vereador e concorrentes. Então, você vai conseguindo ganhar respeito, mas também desgaste. Pessoas que não concordam com o meu voto aqui na Câmara; que não concordaram, por exemplo, que eu fosse líder do prefeito, porque não gostavam do PT; outras pessoas que não concordam por eu ser oposição ao Silvio Barros. É uma questão muito complicada. (...) Eu não queria estar no lugar do Coordenador Diocesano, nem do Coordenador Estadual e nem do Coordenador Nacional da Renovação. É uma situação muito complicada. Porque no mesmo momento em que eles têm que incentivar a participação política dos seus membros, eles têm que administrar os conflitos internos entre pessoas da Renovação que são de diferentes partidos, que não pensam iguais politicamente, que pensam diferentes. Têm pessoas da Renovação que pensam de uma forma neoliberal. Eu, por exemplo, me considero de esquerda, meu partido é um partido de esquerda. Tem gente que não aceita isso. Os coordenadores têm que administrar esses conflitos. Uma situação muito difícil para todos eles, os quais têm a responsabilidade de administrar a Renovação diante do clero e da Igreja, e diante da responsabilidade que Deus deu a eles, que é cuidar primeiramente da obra de evangelização da Renovação. E eles têm que administrar os conflitos internos, que, por erros nosso não conseguimos nos entender politicamente, partidariamente, ideologicamente. É uma situação muito difícil. Só aqui em Maringá, por exemplo, nós temos membros do PPS, do PHS, do PT, do PSB... São partidos que na hora eleitoral têm os seus interesses eleitorais e as pessoas têm todo o direito de se candidatarem. Assim, como eu tenho esse direito, outro também tem. Então, eu não queria estar no papel dos coordenadores, que têm que administrar estes conflitos e resguardar a obra de evangelização, para que esta não seja atingida por causa do processo político” (Entrevista ao autor, 23.02.07).

Se uma das características marcantes da Teologia da Libertação era a opção preferencial pelo PT, tornando-se quase uma exigência que o cristão politicamente engajado participasse ou, no mínimo, simpatizasse com este partido, a RCC mostrou-se mais pluripartidária em sua trajetória. Um dos aspectos que explica esta característica é a não premência da questão política internamente à mesma. De certa forma, e por muito tempo, a opção política das lideranças carismáticas foi muito mais uma questão de fórum íntimo, de escolha individual. As afinidades ficavam por conta do discurso ético fundado na moral religiosa e na Doutrina Social da Igreja. Dessa forma, prioriza-se o indivíduo em relação às estruturas partidárias. A idéia subjacente a esta prática é que as exigências éticas dizem respeito aos indivíduos, independente se eles se filiam a este ou àquele partido. O que importa é o comportamento e a coerência cristã.

Porém, essa mesma diversidade também se revelou problemática. Ao contrário do que imaginam os espíritos bem-intencionados, a política tem uma dinâmica própria, o campo político tem uma autonomia relativa e impõe opções concretas que nem sempre se harmonizam com a moral religiosa. Os interesses políticos divergentes entre lideranças podem influenciar a dinâmica do campo religioso, na medida em que este não está isolado e encontra-se em inter-relação com os campos da sociedade. Em termos simples, isto significa que a RCC não está imune às dissensões entre seus líderes manifestadas na política. Como agir diante desta realidade? Os depoimentos acima mostram que este é um tema delicado e complicado.

Por outro lado, a dimensão política não se restringe à política-partidária. Em certo sentido, e até mesmo pelas características religiosas, a práxis política dos carismáticos também incorpora a dimensão da promoção humana. Em Maringá, por exemplo, a RCC mantém projetos de atendimento aos idosos (Centro de Convivência João Paulo II) e às famílias carentes.[6] Com efeito, uma das críticas aos carismáticos, estendida à Igreja em geral, diz respeito à caridade religiosa. Esta seria paliativa e assistencialista. Não há condições de se estender sobre este tema. Porém, para além da questão de atender às necessidades prementes dos que sofrem por falta de recursos e amparo do próprio Estado, ações para a promoção humana, quer as consideramos positivas e/ou negativas, também têm significado político. E, para a Renovação Carismática, o significado é integral, o que inclui o aspecto espiritual.[7]

Também devemos considerar que a dimensão política, para além da política partidária, mas também relacionada a esta, inclui posicionamentos sobre os temas gerais presentes na sociedade brasileira (como por exemplo, a polêmica sobre o aborto, eutanásia, bioética, homossexualismo, família, casamento, anticoncepcional etc.). Neste campo, a posição da RCC é a mesma da Igreja Católica, em especial considerando-se o pontificado do atual papa.

A influência política da RCC também se faz presente nas Universidades (vide o Projeto Universidades Renovadas), no meio empresarial e através da ocupação de posições de destaque nas organizações civis. Isto é significativo porque os carismáticos, ao contrário dos católicos em geral, buscam a coerência entre os princípios religiosos que regem suas vidas e as experiências cotidianas que vivenciam nos locais de trabalho, estudos, entidades etc. Ao buscar a coerência entre comportamento social, compromisso político e a espiritualidade, os carismáticos tendem a influenciar moral, política e socialmente os espaços nos quais se fazem presentes. Pode-se afirmar que sua religiosidade se traduz numa pedagogia de vida, que busca o equilíbrio entre fé e política. Buscam a santidade, ainda que pecadores, perseguem o exemplo de Jesus e acreditam na possibilidade de transformar o indivíduo, e através dele as estruturas sociais, pela conversão e mensagem moral religiosa. E, ao agirem no mundo, informados e formados por tais concepções, concedem à religiosidade que professam um profundo sentido político.

Considerações conclusivas

A concepção política da Renovação Carismática Católica que sobressai das entrevistas, documentos e textos publicados sob sua chancela, não constitui novidade. A RCC compartilha da visão de que a política tem como objetivo a promoção do bem comum. Note-se que esta concepção está presente nos textos oficiais da Igreja Católica.

Mas o que é o “bem comum”? Conhecemos a resposta da RCC. Mas será que ela dá conta da complexidade que envolve a esfera da ação política. A sociedade é cindida em grupos e classes sociais com interesses divergentes, contraditórios e antagônicos. A característica principal da nossa sociedade é a competição pautada no individualismo. Será possível harmonizar demandas tão díspares? Na verdade, é a desarmonia, os conflitos, as diferença e as desigualdades sociais que tornam a política necessária. São diversos interesses econômicos, sociais etc., em permanente colisão. A política é um recurso, uma tentativa de garantir a ordem e impedir a desagregação da sociedade enredada, como diria o filosofo inglês Thomas Hobbes, na guerra de todos contra todos.

A concepção de que a política é a busca permanente pelo bem comum, pela justiça, o bom governo etc., remonta à tradição aristotélica, à filosofia política de Platão e ao pensamento cristão medieval. Trata-se de uma concepção política que indica o ideal, a utopia (no caso da RCC, a “civilização do amor”, o “Reino de Deus”). Também não deixa de ter caráter republicano. Com efeito, res publica significa “coisa pública”. A república põe em relevo a comunidade, o público, o bem comum e afirma a predominância destes em relação aos interesses particulares. O Estado consubstancia o bem comum, a coisa pública; é a sua expressão. Era assim que os romanos concebiam a política à época do Império.

Enquanto idéia que nutre as utopias, a concepção da política como busca do bem comum é belíssima. Não deixa de ser sensibilizante a idéia de que dedicamos nossa vida ao bem comum, para que todos tenham vida e possam viver dignamente. Mas a realidade é cruel e o que ela nos mostra é o antagonismo entre os diversos interesses. A universalização produzida pelo Estado é uma tentativa de ocultar o real. Já no século XVI, Maquiavel observava que a política é sobretudo a arte de conquistar, dominar e manter o poder político. E o poder político, nos ensina Norberto Bobbio, outro filósofo italiano, se caracteriza pela coerção, pelo uso legitimado da violência:

“O que caracteriza o poder político é a exclusividade do uso da força em relação à totalidade dos grupos que atuam num determinado contexto social, exclusividade que é o resultado de um processo que se desenvolve em toda sociedade organizada, no sentido da monopolização da posse e uso dos meios com que se pode exercer a coação física” (BOBBIO, 1992: 956).

A visão ingênua sobre a política desconsidera que esta pressupõe não apenas meios persuasivos, mas também meios violentos. Na verdade, o Estado, e por conseguinte, a política, tem como fundamento a violência, a força, a capacidade de coerção física. A idéia do bem comum não contradiz esta lógica, antes a legitima. Como nota Bobbio, as definições teleológicas sobre a política são prescritivas, isto é, referem-se a como deveria ser o bom governo, o bem comum, e a justiça. Não é uma concepção realista, isto é, expressão do real. Bobbio considera que os fins, os objetivos da política, são definidos de acordo com os interesses dos grupos e classes dominantes. “Os fins da política são tantos quanto as metas que um grupo organizado se propõe, de acordo com o tempo e as circunstâncias”, afirma. Ele questiona a noção de bem comum, um conceito de “extrema generalidade, pela qual pode significar tudo ou nada”. O bem comum, “se quisermos atribuir um significado plausível, ele nada poderá designar senão aquele bem que todos os membros de um partilham e que não é mais do que a convivência ordenada, numa palavra, a ordem” (Id: 957-958).

Enquanto a política se fizer necessária, seus fins serão tantos quanto os objetivos que os grupos econômicos e políticos se coloquem. E isso, de acordo com a época histórica e as circunstâncias nas quais os sujeitos políticos representativos destes interesses atuam. A política não tem fins estáticos e perpetuamente definidos.

Nessa concepção, o bem comum cumpre função retórica e meio ideológico de que se servem tanto os idealistas quanto os grupos econômica e politicamente dominantes na sociedade. Estes, permanentemente, procuram nos fazer acreditar que seus interesses particulares são universais e que também nos dizem respeito. Vivenciamos isto através da ilusão do Estado enquanto guardião dos interesses comuns, como se este fosse neutro no jogo político entre as classes e grupos sociais. É o mito do Estado. Se na religião o vinho e o pão se transubstanciam no sangue e carne de Jesus Cristo e constitui o mistério da fé; na política, o Estado se transubstancia em universal que expressa o bem comum, fazendo com que nos identifiquemos e nos submetamos. A representação política é parte deste processo pelo qual nos reconhecemos no Estado, enquanto indivíduos com direitos políticos, mas em permanente conflito de interesses exclusivistas e individualistas. Porém, todos temos o status de cidadãos. Eis o mistério da política.

Ao afirmar a concepção do bem comum na perspectiva cristã, a RCC também resgata o fundamento moral da política. A política é vista como extensão da ação evangelizadora, ou seja, a ação política é concebida de maneira religiosa. Trata-se de um retorno à concepção medievalista sobre a política, na medida em que se amalgama política e religião e desconsidera as esferas próprias e relativamente autônomas de cada uma delas. O resultado é a vinculação da política à moral religiosa, transformando esta numa espécie de missão evangelizadora, cujo objetivo é santificar o mundo. Os vocacionados à política são concebidos como os “escolhidos do Senhor” e, dessa forma, imaginam-se executores do plano divino na ordem política e meros instrumentos da Sua vontade.

O problema é que também há a vontade humana, os interesses específicos dos que atuam na política. O político carismático, como qualquer outro que fundamente a sua ação em valores religiosos, acaba por se colocar na posição de intérprete dos desígnios divinos e a justificar as suas ações e interesses a partir da identificação com estes.

Porém, isto não é tão simples e fácil. Uma coisa é o discurso, outra a prática. Não se analisa um indivíduo pelo que ele fala de si próprio e das suas crenças, mas por suas ações. Este indivíduo pode, até mesmo, acreditar que o pronunciado é a pura expressão da verdade. Não obstante, devemos reconhecer que se trata de um indivíduo concreto que age na realidade material e num campo específico, o campo da política. Esta tem uma dinâmica própria, relativamente autônoma, que se subtrai à moral religiosa.[8]

A política é, e espero não ser redundante, uma atividade humana. Os carismáticos engajados na política estão submetidos aos mesmos riscos e pecados dos demais. Seus valores e crença religiosa não são garantia de imunidade e pureza no ambiente em que se movem. Eles não estão livres de “cair em tentação” e se verem envolvidos na lama à qual se referiu o Pe. Zezinho. Em outras palavras, não estão isentos de se seduzirem pelos meios do poder. Não há qualquer garantia de que também não se vejam enlameados em denúncias de corrupção e do uso ilícito do cargo público. E ainda que resistam a todas as tentações, terão que, na disputa política, usar meios que podem contradizer a moral que defendem.

O discurso do bem comum na perspectiva da RCC também é universalista, mas vincula-se à religiosidade. É um discurso que submete a política à religião. Esta aparece aos olhos do carismático como parte da obra de Deus, e ele é apenas o instrumento para realizá-la, isto é, a implantar o “reino de Deus” na terra. Na prática, porém, o carismático que atua na política precisa responder a questões e dilemas que estão diretamente vinculados ao âmbito terreno. E, enquanto tal, ele se vê enredado pelos riscos inerentes à atuação política. Daí, por exemplo, é possível compreender as divergências política entre as lideranças carismáticas e, também, as frustrações com a política. A política, bem claro, não é necessariamente o campo do vício, da imoralidade, da corrupção, enfim, da lama. Mas seria ingenuidade acreditar que todos os homens e mulheres são bons. Se fossemos anjos, não precisaríamos atuar politicamente.

A vinculação que a RCC promove entre política e moral religiosa incuba o risco da teocracia. Em primeiro lugar, porque é uma concepção maniqueísta, pois concebe o mundo enquanto dualidade bem/mal. O discurso carismático da santificação, como se o indivíduo fosse o “escolhido” para realizar a obra sagrada, estabelece uma distinção perigosa, na medida em que os eleitos são os que se elegem, ou seja, os que se consideram servos do Senhor, intérpretes e instrumentos da sua obra. Se atuam “em nome de Deus” e são legitimados por esta vinculação, são o “Partido de Deus”, ainda que estejam dispersos em vários partidos dos homens e mulheres. E se o “Reino de Deus” inclui apenas os escolhidos e os convertidos, serão excluídos os que são identificados com o “mal”. Projetos de salvação da humanidade, na perspectiva teocrática, historicamente se revelaram inquisitoriais e conservadores.

Segundo, ainda que se tenha a cabeça no céu, não se pode evitar que os pés toquem o chão. A política é própria dos seres humanos, já existia antes mesmo do monoteísmo judaico e cristão. Somos seres frágeis, passíveis de cometer erros – que na perspectiva religiosa são concebidos como “pecados”. A moralização da política, no sentido religioso, tende a submeter a todos a uma determinada concepção moral-religiosa. Quanto mais a religião avança sobre a esfera da política mais esta se torna sua prisioneira. A religião pretende domar a política, moralizá-la. Ela usa de meios próprios para impor as suas concepções e interesses, como se fossem naturais, sagradas e pertinentes à sociedade em geral. E na medida em que tais valores trazidos para a política são considerados sagrados, a tradução do projeto de Deus, estamos a um passo da intolerância religiosa potencializada pela política teocrática.

A perspectiva política carismática centra-se no indivíduo. É este que consegue – ou não – a salvação; é este que é chamado a realizar a obra de Deus na terra, etc. O discurso subjacente é o de que não importam os meios utilizados, ou seja, é indiferente se o político carismático está no partido A, B ou C. O que importa é que ele se mantenha fiel aos princípios cristãos. Dessa forma, é o partido e os meios políticos que se adaptam ao indivíduo. Não é preciso ser muito perspicaz para perceber que o discurso religioso também pode legitimar interesses individuais, particularistas e mesmo carreiristas. O discurso religioso pode ocultar práticas políticas não necessariamente conseqüentes. Por outro lado, o individualismo fundado na moral religiosa faz tábua rasa das ideologias políticas. Anulam-se as diferenças entre direita, esquerda. Na verdade, estas passam a nem existir, já que o que importa é o projeto cristão. O político carismático pode, portanto, se sentir completamente à vontade na oposição ou situação.

Os dilemas da RCC são os da Igreja em geral, na medida em que partilham a mesma concepção filosófica sobre a política enquanto a promoção do bem comum e uma certa naturalização da moral, que se pretende universal e natural. Sua prática política também segue a instituição católica nos temas que polemizam a sociedade atual: a questão do aborto, eutanásia, homossexualismo, família etc.

É de se perguntar, ainda, as relações entre os mandatários de cargos políticos e a RCC não se tornam ainda mais complexas, na medida em que a interdependência produz o risco mútuo da instrumentalização, do mandatário em relação à ela e desta no tocante ao uso do mandato como meio de realização dos seus interesses. A Renovação Carismática também não está isenta de contribuir para a reprodução de práticas políticas historicamente presentes na cultura nacional, como o clientelismo, paternalismo e a instrumentalização política da caridade. Como evitar que seus líderes não se misturem na lama da politicagem? Como garantir que a santidade da espiritualidade não se contamine com o pecado do campo político? Em certos momentos, a impressão que se tem é que o político carismático é candidato à santificação e não a cargos eletivos em instituições que teimam em freqüentar as páginas policiais.

Concluímos, então, que a prática política da RCC se orienta pela moral religiosa e uma espiritualidade que inclui o risco de afastar o fiel do mundo, restrito à relação direta com o sagrado, ainda que o discurso da liderança também enfatize a necessidade do compromisso político e social. A busca do sagrado na perspectiva do carismático pode representar simplesmente a resolução de problemas imediatos e de caráter psíquico individualizados. Assim, embora o discurso contra a estrutura social injusta apareça com ênfase, as características que definem a identidade espiritual da Renovação Carismática indicam dificuldades para incluir na pauta a política. Esta entra pela porta da moral, e no binômio fé e política, muitas vezes parece que é a primeira que prevalece. A concepção moralista da política embute o risco da frustração, na medida em que a política é o campo próprio do profano.

Em relação a Maringá, a história da RCC reproduz um padrão no que diz respeito às relações e resistências da hierarquia eclesial. Mesmo assim, ela conquistou o seu espaço, influiu e influi sobre a diocese, no cotidiano das paróquias e nas relações de poder presentes na instituição. Por outro lado, também influencia sobre os rumos da cidade, na medida em que seus membros se fazem presentes, em especial sua liderança, em posições importantes no poder público, universidade e entidades da sociedade civil.

E, no entanto, parece-nos que sua história foi negligenciada. Ao tomarmos a Renovação Carismática Católica de Maringá como objeto de pesquisa, desejamos não apenas compreender a sua trajetória e presença na sociedade maringaense, mas também humildemente contribuir para o registro da sua história. Por isso, optamos por enfatizar a voz dos diretamente envolvidos.

A exposição se concentrou nos depoimentos das lideranças e documentos oficiais. Os próprios entrevistados reconhecem que, no tocante à relação fé e política, há um descompasso. O nível de consciência demonstrado pelos líderes carismáticos quanto ao compromisso dos leigos cristãos em relação à política, não é necessariamente o mesmo nos grupos de oração. A nosso ver, este é um tema merecedor de pesquisa e aprofundamento. Porém, ainda que a dinâmica da reflexão sobre as relações fé e política, e mesmo o envolvimento na militância política, não sejam na mesma intensidade, é importante ter acesso ao pensamento das lideranças e, em especial, como concebem a política. Afinal, são eles os dos formadores da RCC e da opinião externa a esta.

Ainda sobre os depoimentos, em alguns casos há ênfase na relação conflituosa entre a RCC e a Teologia da Libertação. É necessário relativizar, pois há o risco de superdimensionar a presença e força política desta última na Igreja e sociedade local. Também é preciso aprofundar a pesquisa sobre esta relação e a atuação da Teologia da Libertação na Igreja e política maringaenses. De qualquer forma, o que sobressai quanto à Renovação Carismática é o conflito com a hierarquia eclesiástica.

Não há neutralidade axiologia e, portanto, a perspectiva da minha análise é determinada pela minha história de vida e pelas posturas teóricas e políticas que assumo. No entanto, procurei manter o distanciamento necessário para que o desenvolvimento do trabalho. Não foi um exercício fácil. Contudo, a adoção de uma postura intelectual fundada na tolerância e que recuse o maniqueísmo simplista contribuiu. Não pretendi agradar a gregos, troianos ou baianos, mas simplesmente entender a RCC e, em especial, sua trajetória em Maringá. Uma forma de avaliar um trabalho acadêmico é observar se este acrescentou e o que acrescentou ao aprendizado do seu autor. Dessa perspectiva, minha avaliação é positiva. Aprendi muito!

A leitura da bibliografia sobre a RCC (e desta), bem como as entrevistas etc., confirmaram que mesmo um movimento religioso com posturas conservadoras, também pode apresentar aspectos críticos. A concepção moral religiosa sobre a política também pode ser questionadora, por exemplo, do neoliberalismo e da injustiça e, neste sentido, também tem potencialidade positiva.

A afirmação de que a religião é uma forma particular de ideologia não significa que ela cumpre apenas uma função conservadora. A famosa frase de Karl Marx de que ‘a religião é o ópio do povo’, repetida por marxistas e não-marxistas, muitas vezes sem a necessária reflexão e contextualização, diz apenas parte da verdade.[9] Se restringir à mesma, como uma espécie de sentença definitiva, é reducionismo; como também o é quando se restringe o fenômeno religioso a mero reflexo da base econômica. A religião, na medida em que ela coincide e se nutre do senso comum e da naturalização das relações e fenômenos sociais, cumpre uma função conservadora.

Porém, da mesma forma que a realidade social é um complexo contraditório, a religião também expressa essa diversidade. Assim, ela também pode cumprir um papel de questionamento e crítica da estrutura social. Como nota Portelli (1984: 31), em seu estudo sobre Gramsci e a religião, “A ideologia religiosa como concepção do mundo das classes subalternas, pode desempenhar – e no passado desempenhou – um papel progressivo fornecendo a estes grupos sociais uma base ideológica para uma ação prática positiva”. Um exemplo é a Teologia da Libertação. Mesmo a Renovação Carismática Católica de Maringá pode desempenhar um papel político crítico. Não obstante, em geral e predominantemente, a religião conserva e legitima a ordem social vigente. Em sua análise sobre o campo religioso, Bourdieu conclui que:

“A Igreja contribui para a manutenção da ordem política, ou melhor, para o reforço simbólico das divisões desta ordem, pela consecução da sua função específica, qual seja a de contribuir para a manutenção da ordem simbólica: (I) pela imposição e inculcação dos esquemas de percepção, pensamento e ação objetivamente conferidos às estruturas políticas e, por esta razão, tendentes a conferira tais estruturas a legitimação suprema que é a “naturalização”, capaz de instaurar e restaurar o consenso acerca da ordem do mundo mediante a imposição e a inculcação de pensamentos comuns, bem como pela afirmação ou reafirmação solene de tal consenso por ocasião da festa ou da cerimônia religiosa, que constitui a ação simbólica dos símbolos religiosos com vistas a reforça sua eficácia simbólica reforçando a crença coletiva em sua eficácia; (II) ao lançar mão da autoridade propriamente religiosa de que dispõe a fim de combater, no terreno propriamente simbólico, as tentativas proféticas ou heréticas de subversão da ordem simbólica” (1974: 70).

 

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Entrevistas

Antonio Carlos Lugnani – 15.02.07

Ierecê Jussara Gilberto – 21.02.07

José do Nascimento Neto – 14.02.07

Padre Pedro Jorge Delgado Bento – 29.03.07.

Sidnei de Oliveira Telles Filho – 15.02.07

Valter Viana – 23.02.07


 

* Trabalho apresentado como requisito de conclusão da Pós-Graduação em História das Religiões, do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá (DHI/UEM), sob a orientação do Prof. Dr. Reginaldo Dias (DHI/UEM). Agradeço a todos que contribuíram direta ou indiretamente para a pesquisa e realização deste projeto, em especial aos entrevistados e responsáveis pelo escritório da RCC/Maringá.

[1] Não tenho dados para informar se isto se repetiu em outros locais. Mas, a partir da minha experiência pessoal, não me parece comum a participação dos carismáticos no PT. Porém, devo admitir que a minha referência é os primeiros anos de formação do PT. No início da década de 1990, o PT já estava mais maleável à participação de setores antes considerados politicamente mais à direita, considerando-se, é claro, a correlação de forças internas.

[2] A coligação obteve 6.371 votos, 4% dos votos válidos. Fonte: http://www.tse.gov.br/sieeseireweb/seire.jsp?modulo=RE&anoConexao=2000

[3] O Projeto do Ministério Fé e Política, por exemplo, indica a necessidade de acompanhamento dos políticos vinculados à RCC, seja na fase em que disputam eleições ou na posição de mandatários: “Num primeiro momento através de assessoramento ao entendimento das leis eleitorais e das ideologias partidárias. Num segundo ato através de acompanhamento do mandato do político eleito”. (In: NASCIMENTO, LACERDA et alli, 2007: 135-136). A Coordenação e Equipe Nacional do Ministério Fé e Política divulgaram várias orientações, acompanhadas de restrições a quem não acatá-las. Prega-se, por exemplo, a fidelidade partidária. A 5ª orientação afirma: “A troca de partido só será aceita por motivo justificado”. Pede-se que se evite concorrência e competições entre os membros da RCC e que estabeleçam “um vínculo fraterno em busca do bem comum” (8ª orientação). A 10ª orientação é incisiva: “É obrigação dos mandatários escutar, discutir, avaliar e acatar as diretrizes emanadas do ministério”. A última talvez seja a mais difícil de cumprir, considerando-se o campo específico da política: “Durante as eleições é obrigação do candidato manter a ética e o zelo pelas coisas de Deus. Isto não acontecendo, o movimento poderá retirar o apoio, comunicando à Igreja o motivo desta decisão, por escrito, com a assinatura do Coordenador Estadual e Diocesano ao qual o candidato faz parte” (idem, pp. 115-118). As orientações indicam a necessidade de controle político da atividade política dos membros da RCC, próprio dos melhores partidos cujos princípios se baseiam no centralismo-democrático. A diferença é que aqui é em nome da Ética e, claro, de Deus. De qualquer forma, a impressão que se têm é que, diante da impossibilidade de concentrar a ação política dos carismáticos numa única organização partidária, é preciso unificar a sua ação. Dessa forma, a RCC paira como uma espécie de “partido de Deus” sobre as várias denominações terrenas que costumamos chamar “partidos políticos”.

[4] Trata-se de “Reflexões e Diretrizes Sobre a Ação Política Eleitoral na Arquidiocese de Maringá”, mimeo., 4 páginas, de dezembro de 2003.

[5] O próprio Nascimento era pré-candidato, mas foi preterido na discussão interna do PHS. Osmar Murassaki, que militou no PHS, tornou público em seu blog as divergências ocorridas neste processo. A sua versão está disponível em: http://osmarmura.blogspot.com/2006/12/comentando-o-comentrio.html (acesso em 29.01.07).

[6] Mais informações sobre estes projetos, acesse a página da RCC Maringá, Ministério da Promoção Humana: http://www.rccmaringa.com.br/index.php?sub=ministerios&ministerio=10

[7] A RCC também afirma a “opção preferencial pelos pobres” no sentido de Puebla. Em cartilha sobre a Promoção Humana, procura diferenciar esta do mero assistencialismo e, por outro lado, afirmar o compromisso com os pobres: “Do latim ad = junto de + sistere = estar, por-se. Estar junto de alguém, assisti-lo. Denota uma tendência a prestar auxílio para atenuar males individuais ou coletivos. Aquilo, porém, que caracteriza o assistencialismo é o fato de não se preocupar com a erradicação das causas desses males. É bom ocupar-se de uma atividade assistencial a favor dos pobres, mas é melhor colaborar em atividades promocionais que eliminem as próprias causas da pobreza, através de reformas corajosas e radicais” (Pequena Enciclopédia de Doutrina Social da IGREJA; citado em PIMENTA, s.d., p. 21). A RCC também se pronuncia sobre este tema em outros textos oficiais. Eis um trecho do livro “Ofensiva Nacional”, que também pode ser considerado uma resposta aos críticos: “A RCC, como Igreja, também deve anunciar e se empenhar na construção de uma nova humanidade, fundamentada na justiça e na fé. Não podemos nos furtar a esta tarefa e nem nos omitir, contentando-nos com uma falsa espiritualidade alienante. Não devemos ter medo de assumir os campos que são próprios para ação do leigo cristão: o mundo do trabalho, da política, da economia e da cultura” (RCC, 1993: 52). Para a RCC, estas questões também estão vinculadas à promoção humana.

[8] As relações entre moral, ética e política merecem um estudo aprofundado, o que não cabe neste espaço. Tratei deste tema em: “Ética na política? Da sagrada ingenuidade dos céticos ao realismo maquiavélico”. Revista Espaço Acadêmico, nº 15, agosto de 2002. Disponível em http://www.espacoacademico.com.br/015/15pol.htm

[9] Ver a interessante exposição de Rubem Alves (1984, p. 68 e segs.).

   

 

 

 


* Trabalho apresentado como requisito de conclusão da Pós-Graduação em História das Religiões, do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá (DHI/UEM), sob a orientação do Prof. Dr. Reginaldo Dias (DHI/UEM). Agradeço a todos que contribuíram direta ou indiretamente para a pesquisa e realização deste projeto, em especial aos entrevistados e responsáveis pelo Escritório da RCC/Maringá.

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