por RUDÁ RICCI

Sociólogo, Mestre em Ciência Política e Doutor em Ciências Sociais. Coordenador do

Instituto Cultiva e membro da Executiva Nacional do Fórum Brasil do Orçamento. Membro do Observatório Internacional da Democracia Participativa

 

 

 

 

Mais um Kirchner no poder

 

Cristina Kirchner venceu as eleições para a Presidência da República da Argentina. Uma vitória no primeiro turno das eleições, que remeteu a grande imprensa do seu país a comparar sua vitória ao poder de Evita e Isabela Perón. O jornal O Estado de São Paulo chegou a citar uma possível “dinastia Kirchner” em processo. Um exagero. Mas também uma polêmica. O fato é que os eleitores mais pobres cravaram seu voto na continuação dos Kirchner, família da elite da Patagônia.

Mas a situação mais comentada foi o clima “frio” da eleição, sem entusiasmo, que gerou um índice de abstenção histórico. Os jornais argentinos disseram que a população do país descrê dos políticos.

Cristina, 54 anos, tem luz própria. Candidata pela Aliança Frente para a Vitória era senadora pela província de Buenos Aires desde 2005 (lembremos que recentemente um candidato de direita ganhou as eleições em Buenos Aires). É conhecida por sua defesa dos direitos humanos e das mulheres. Com temperamento forte, seus oposicionistas criticam sua excessiva preocupação com a imagem. Tema, aliás, que foi citado pela quase totalidade dos analistas do processo eleitoral: o marketing venceu o debate e as propostas de governo.

Já Elisa Carrió, 51 anos, candidata pela Coalizão Cívica, de centro-esquerda, conseguiu atrair o eleitorado de classe média e alta, moradores de centros urbanos e oposicionistas da política atual do governo federal. Seu discurso moralista concentrou-se na denúncia de corrupção governamental. Herdeira de uma família de líderes radicais (do Partido Radical, do ex-Presidente Raúl Alfonsin) e, portanto, oposicionistas ao peronismo. É doutora em Direito Público e foi deputada pela província do Chaco até 2003. Como candidata à Presidência naquele período, obteve 3 milhões de votos, perdendo para o atual Presidente Kirchner.

O terceiro candidato foi o neoliberal Ricardo Murphy, da frente Recriar pelo Crescimento, de direita. Também obteve adeptos entre setores da classe média e empresariado. Também foi candidato em 2003 e ficou em terceiro lugar. Sua crítica ao governo Kirchner se concentrou nos gastos públicos e finanças federais. Sua participação no governo Fernando de la Rua (1999-2001), um dos períodos mais conturbados da história política argentina, foi um peso negativo que o perseguiu durante toda a campanha.

Disputou, ainda, o governador da província de São Luís, Alberto Rodríguez Saá (Coalizão Frente Justiça, União e Liberdade, peronista anti-Kirchner, apoiado por Carlos Menem) e o ex-ministro Roberto Lavagna (do governo Eduardo Duhalde, que enfrentou uma profunda crise iniciada em 2001, tendo o apoio de Raúl Alfonsín).

Em seu artigo para o site rebelion.org, Camilo Cienpasos se pergunta o que foi a eleição presidencial de 28 de outubro último. Seu ponto de apoio é a participação de apenas 70% do eleitorado às urnas, sendo que apenas metade desses lembrava-se do nome de algum candidato a vice-Presidente. Cienpasos procura aprofundar esta constatação. Destaca a Província de Buenos Aires (40% dos votantes do país residem nesta província) e sugere uma dificuldade adicional aos eleitores: 58 partidos participaram das eleições, 27 listas de deputados, 20 mil candidatos para 2.500 postos eletivos. Em todo país, afirma, 100 partidos participaram com 55 mil candidatos, sendo a grande maioria absolutamente desconhecidos. Uma realidade, convenhamos, que perpassa quase todo o continente.

Mas o que chama a atenção na análise de Cienpasos é que os eleitores não conseguem distinguir as plataformas dos candidatos a Presidência da República. Ouvi a mesma análise de líderes socialistas franceses, quando das últimas eleições na França: os socialistas não se diferenciavam de Sarkozy, o candidato conservador eleito. Pergunta-se o que significaria “pacto social” ou “modelo capitalista com inclusão”, proposto pela candidata de oposição. Ou ainda o que significaria “progressista”, auto-denominação da vitoriosa Cristina Kirchner. Revela que a Unión Cívica Radical encontra-se rachada em múltiplos pedaços. Restou à esquerda argentina (liderada pelo cineasta Pino Solanas) uma repartição de votos que não superou 2% dos votos por partido. O Movimiento Socialista de los Trabajadores (MST) atingiu 1% dos votos. A esquerda se dividiu ainda em dezenas de facções: Movimiento Independente de Jubilados y Desocupados; FRAL, MIJD, FITS, Proyeto Sur, para citar algumas forças.  O que não deixa de ser impressionante, frente à força dos piqueteros e assembléias populares, tão recentes na vida dos grandes centros urbanos da Argentina.

O site Pagina 12 divulgou a opinião de alguns analistas políticos, momentos antes das eleições:

- Hugo Haime, de Hugo Haime y Asociados: “Se confirma la gran diferencia de Cristina Kirchner sobre la segunda, que es Elisa Carrió. Percibimos un nítido sesgo por nivel social en la composición del voto. En los centros urbanos, el oficialismo tiene problemas. En Capital Federal tiene el nivel de los últimos comicios, en Mar del Plata, Bahía Blanca, Azul y Córdoba capital, o sea ciudades de mucha presencia de la clase media, está en dificultades. Las victorias muy amplias se dan en Tucumán, Salta, Santiago del Estero, Misiones, Formosa, La Rioja, Jujuy. Lo que yo estoy evaluando no es si habrá o no habrá ballottage, sino si Cristina Kirchner va a estar por debajo o por encima del 50 por ciento de los votos”.

- Rosendo Fraga, del Centro de Estudios para la Nueva Mayoría: “Si hubiera necesidad del 50 por ciento de los votos como en Francia o Brasil, por ejemplo, habría segunda vuelta. Pero con el sistema argentino, mi opinión es que no hay segunda vuelta. El apoyo de 20 de los 24 gobernadores y de mil de los mil doscientos intendentes de todo el país le da al oficialismo una base social que hace difícil que esté por debajo del 40 por ciento. A eso hay que agregar la dispersión de los opositores, lo que hace que también exista una diferencia superior a los diez puntos respecto del segundo”.

- Artemio López, de Equis: “La situación es estable, sin grandes variaciones, salvo en algunos distritos: Capital Federal, Córdoba capital y Rosario. Esas alteraciones no cambian el cuatro nacional. El triunfo de Kirchner-Cobos se asienta en el segundo cordón del Gran Buenos Aires y en las provincias del Noroeste y Noreste donde saca por encima del 60 por ciento de los votos”.

- Analía Del Franco, de Analogías: “Sigue atomizada la oposición. No hubo un crecimiento significativo de ninguna de las alternativas. A 72 horas no cambia demasiado lo que veníamos teniendo. Hay una diferencia de entre 28 y 30 puntos. El orden de los candidatos tampoco se alteró: segunda Carrió y tercero Lavagna. Hace un mes que vienen perfilándose estos datos. Lo fuerte de Cristina es en la Provincia de Buenos Aires y en todo el Norte y todo el Sur. Los lugares más críticos son Capital Federal y Córdoba capital”.

- Enrique Zuleta Puceiro, de OPSM: “Se consolida un esquema en el cual Cristina Kirchner consigue el voto tradicional del peronismo, en la época post-Perón. No es una elección cómoda desde el momento en que hace un mes Cristina estaba en un 50 por ciento. Se fue deteriorando. Si no hubiera existido la Concertación Plural, con el radicalismo que gobierna, nos encontraríamos en escenario de ballottage. Fue una alternativa estratégica de Kirchner, que resultó fundamental”.

- Roberto Bacman, del CEOP: “Estructuralmente no ha cambiado. Seguimos teniendo la misma proyección que hace una semana. No hay escenario de ballo-ttage. Cristina tiene el 44 por ciento del voto decidido y puede llegar al 48 o 49. Sí ha crecido Elisa Carrió, especialmente en las grandes ciudades como Capital, en la primera sección electoral del Gran Buenos Aires y en Rosario. Por eso la proyección supera en un par de puntos la que teníamos la semana pasada. Ha capitalizado gran parte de los votos de centroderecha. Por ejemplo, se llevó casi todo el voto de López Murphy”.

Finalmente, vale registrar a opinião do psicólogo Daniel Benadava, publicado no Correio da Cidadania de 01 de novembro. Ao comentar a vitória de Cristina Kirchner, destacou sua promessa de continuar com a mesma linha político-econômica observada durante a gestão do ainda presidente Nestor Kirchner, seu marido. O que leva o autor a se perguntar se a nova Presidenta não manteria uma velha política, ambígua e contraditória.

Cita os dados de desemprego e outros dados da saúde econômica da Argentina:

De acordo com os últimos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censo da República Argentina (INDEC), 42% da população do país encontra-se empregada. Não menos verdadeiro é que, por um lado, nos últimos anos ocorreu uma precarização tanto nas condições de trabalho quanto na renda dos trabalhadores e, por outro lado, segundo a mesma fonte oficial, o desemprego no país é de 8,5% e 10% dos argentinos possuem subempregos. Além disso, custa crer que na Argentina exista uma “eficaz” política para melhorar a situação dos que nada têm, já que, de acordo com as últimas cifras do INDEC, 23,4% da população argentina se encontra abaixo da linha da pobreza e 8,2% da mesma encontram-se abaixo da linha de indigência. Assim, é certo que nos últimos anos diminuiu a porcentagem de pessoas nessas condições, mas ainda há argentinos que, excluídos da sociedade, vivem em condições subumanas, comendo como animais aquilo que encontram no lixo e sendo tratados como seres “execráveis e marginais”, sobre os quais ninguém parece se preocupar.

Mas também é verdade que Kirchner enfrentou o FMI, aproximou-se de Evo Morales, Hugo Chavez e Rafael Correa, não se opôs à ofensiva contra líderes (inclusive um padre) envolvidos com o regime militar.

O que fez a Argentina não votar ou vota na continuidade dos Kirchner?

Esta seria mais uma sinalização da cultura política latino-americana dos últimos anos? A democracia formal ou neo-populista ganha os corações (e algumas mentes) no continente? Ou seria reflexo do esfacelamento gradual das oposições, incluindo aquelas mais à esquerda?

Estaríamos fadados à falta de projeto nacional?

São algumas das perguntas que teremos que responder com urgência. Para nós, brasileiros, com certa ansiedade, dada nossa liderança no continente e a proximidade das eleições e arranjos eleitorais presidenciais.

 

por RUDÁ RICCI

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