por HENRIQUE RATTNER

Professor na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA/USP); e na pós-graduação no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Fundador do Programa LEAD Brasil e da ABDL - Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças

 

 

Educação para a democracia

 

O debate sobre a educação tem-se polarizado em duas posições doutrinárias bem distintas: por um lado, os defensores do paradigma de “recursos humanos” para o desenvolvimento, associados aos tecnocratas preocupados com o crescimento econômico a fim de alimentar o sistema produtivo com mais um “insumo”. Do outro lado, alinham-se idealistas e visionários que encaram a educação como o caminho predileto de democratização, de mudança social e de realização pessoal.

A polêmica ressurgiu na década dos oitenta, com o avanço impetuoso de tecnologias derivadas da microeletrônica (comando numérico, automação e informatização na indústria e nos serviços) e seus impactos sobre nível de emprego, a qualificação e desclassificação de amplos segmentos da força de trabalho, bem como em termos de seus requisitos de reorganização das linhas de produção nas fábricas, seus sistemas técnicos e hierárquicos e de comunicação.

A teoria do capital humano encara a produtividade como função derivada da formação e qualificação profissionais e procura justificar os investimentos os em educação de um ponto de vista econômico, não se preocupando com as dimensões psicossociais e de motivação da força de trabalho. Esse reducionismo encara a educação como investimento em mão-de-obra face às demandas do mercado de trabalho. Por abstrair das necessidades, valores e tradições da população inviabiliza a melhoria das condições de vida dos trabalhadores.

A adoção de políticas nacionais de formação que não atendem às especificidades dos problemas de países em desenvolvimento, caracterizados por uma carência tremenda de ensino básico e pela formação insuficiente dos professores, inviabilizam a formação profissional posterior.

Por outro lado, a concepção idealista atribui à educação (entendida como escolarização em diversos graus) a função de mudança social. Reflete assim, uma visão histórica e distorcida da evolução e da organização sociais. Escolas – como instituições de instrução formal – constituem um fenômeno relativamente recente nas sociedades ocidentais e o ensino universal, público e gratuito foi conquistado somente no fim do século XIX nos países hoje industrialmente mais desenvolvidos.

Durante o mais longo período da História, educação entendida como socialização ou transmissão de costumes, normas de conduta e valores sociais, tem sido proporcionada informalmente pela família, pelos pares de grupos de idade e pelos membros do clã ou da tribo. Nesse sentido, coube à educação apenas a função de manter, perpetuar e reproduzir as estruturas sociais, à medida que transmita padrões de conduta e treine para os papéis socialmente desejáveis de indivíduos dóceis e submissos, sendo insuficiente para uma formação crítica e transformadora.

Foi, todavia, nas últimas décadas, à luz da aceleração de inovação e difusão de conhecimentos científicos e tecnológicos, que o modelo convencional de uma educação que conserva, reproduz e transmite um saber e uma cultura “acabados”, passou a sofrer críticas mais profundas, dirigidas também às instituições que a sustentam. Não se afigura mais possível “educar” despejando informações para formar leitores de catálogos ou de manuais de instruções. Se o objetivo for preparar trabalhadores para uma participação ativa e responsável, é necessário criar condições mediante a difusão de informações e de conhecimento para a democratização da sociedade, oposta à centralização do saber que constitui a base do poder da tecnocracia.

Caberia à universidade um papel central na criação e difusão de um potencial científico e tecnológico que, por sua vez, induziria maior racionalidade no sistema produtivo, na administração pública e à vida da sociedade em geral.

Será possível produzir conhecimentos objetivos, politicamente neutros e, portanto, “racionais”, a partir dos quais poderíamos realizar as transformações necessárias para o advento de uma sociedade democrática? Vista em retrospectiva histórica, a difusão do modo tecnocrático e autoritário da organização do trabalho nos leva a duvidar da eficiência dessa suposta racionalidade. Como assegurar a utilização prioritária da racionalidade técnica para a solução dos problemas que afligem três quartos da população mundial? Ou, devemos aceitar a premissa que o objetivo principal da racionalização crescente do sistema produtivo seja uma maior acumulação de riquezas nas mãos de poucos? A pretensa neutralidade da ciência e a instrumentalidade da tecnologia parecem ilusões e fazem parte do imaginário de nossa época, que promete a expansão ilimitada do bem estar para todos, enquanto serve à exploração e dominação.

A suposta racionalidade da educação e profissionalização serve à generalização de padrões de comportamento individualista, contrários à participação e cooperação em atividades coletivas, falta de consciência crítica quanto às fontes das informações e total ausência de sentimentos de compaixão e solidariedade.

Em um mundo de mudanças rápidas e contínuas, nem os conhecimentos acumulados, nem a conduta “correta” são tão importantes quanto a capacidade crescente do estudante de identificar os problemas existenciais e de pesquisar por soluções originais e criativas.

Observações e interpretações coletivas constituem experiências de aprendizagem valiosas e conduzem à comunicação, participação e interação solidárias, baseadas em consenso e “eficiência coletiva”.

Entre os resultados mais prováveis dessa abordagem coletiva encontraremos uma forte motivação para a cooperação em busca de soluções para os problemas comuns; a utilização de tecnologias “apropriadas” e/ou a criação de tecnologias culturalmente compatíveis com as tradições e, sobretudo, a resistência do grupo à dominação autoritária, interna ou externa à comunidade, reforçando os laços de solidariedade e assim, as tendências à autonomia, democracia e sustentabilidade.

 

por HENRIQUE RATTNER

   

 

 

 

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