por EVA PAULINO BUENO

Eva Paulino Bueno é paranaense de Cafeara. Morou em Maringá até 1975, e se graduou em Letras pela UEM (1975). Tem mestrado em Língua Inglesa pela UFRJ (1986), e Ph. D. em Hispanic Languages and Literatures pela Universidade de Pittsburgh (1991). Atualmente é professora de Espanhol e Português na St. Mary’s University, em San Antonio, Texas. É autora de vários livros e artigos sobre literatura brasileira, cultura popular, e estudos da mulher. Seu livro mais recente é uma enciclopédia, Latin American Women Writers, An Encyclopedia (Routledge).

 

Algo de novo no front?

 

A campanha eleitoral para presidente nos Estados Unidos está pegando fogo. Em termos.

A cada dia temos notícias do que os candidatos estão fazendo, dizendo, propondo, e de vez em quando temos o “prazer” de acompanhar seus debates. Este ano, há algumas novidades.

A mais interessante, em termos de estilo e técnica, é o uso de vídeos enviados através de youtube para os debates. Os democratas usaram este recurso, e esta semana passada também os republicanos se utilizaram dele. Durante o debate, a CNN mostrava os vídeos com as perguntas, e os candidatos respondiam. A vantagem, para o ponto de vista do/a eleitor/a, é que cada um pode preparar a sua pergunta com antecedência, e inclusive “ilustrar” a pergunta com música, fantasias, e outros recursos. Mas, no fim das contas, tanto no debate dos candidatos democratas como dos republicanos, as pessoas ainda não têm certeza de qual candidato escolher.

Isto me traz à memória histórias de outras eleições, em um outro planeta, chamado Brasil. Não tinha youtube. Não tinha internet. Não tinha nem telefone! Os políticos subiam no palanque, e se “esgoelavam” por horas, fazendo promessas, fazendo críticas dos outros candidatos, e gastando o verbo e suas economias, literalmente. Qualquer brasileiro ou brasileira da minha idade tem histórias de campanhas políticas antes de elas serem a província de companhias de propaganda, de indústrias de comerciais.

Uma vez, em Marialva, não me lembro em que ano, fui com minha família a um comício do candidato a prefeito. Como todas as crianças da época, eu gostava muito destes eventos, porque sempre tinha alguém distribuindo doces, ou lápis, ou cadernos, ou balões. Na nossa inocência, já íamos sendo formados como potenciais eleitores, e muitos pais eram influenciados pela alegria dos filhos pelos presentinhos recebidos deste ou daquele candidato. Mas, naquele comício em Marialva, feito no fim da avenida que passa diante da igreja Nossa Senhora de Fátima, o presente maior para a garotada foi o tombo de várias pessoas que tinham subido no caminhão em que estava o candidato naquela noite, trovejando pelo microfone. Nada nos divertiu mais naquela noite que ver muitos adultos, todos se levantando do chão, sujos de poeira. Felizmente ninguém se machucou. Mas todos rimos por dias com o fiasco.

E também se ouvia muito a história de um candidato que dava um pé de botina ao eleitor, e dizia que daria o outro pé se ganhasse a eleição. Não sei se isto foi verdade, mas sempre se contava esta história. O que mais havia, também em Maringá, eram os cabos eleitorais levando os eleitores em seus carros até o lugar da votação. Para a população que não tinha carro, dia de eleição, além de ser um dia de cumprir o dever cívico, era também um dia de participar do conforto de outros. Como criança não vota, eu não deveria ter aproveitado as caronas, mas como estava com meus irmãos e irmãs mais velhos, todos eleitores, eu também me divertia passeando de carro pela cidade. E quem não faria a mesma coisa?

Mas enfim chega o dia em que a eleição passa a ser coisa mais séria, e temos que escolher um candidato, pesar as opções, pensar no que significa votar. Verdade? Para mim, e muitos da minha geração, esta era uma verdade relativa, já que não pudemos votar para presidente durante vinte anos, e sabíamos que muitos dos candidatos já vinham pré-eleitos para os cargos de governador e senador. Além do mais, no meu caso, desde minha primeira vez como eleitora, fui chamada para trabalhar na mesa da minha secção. Isto significava, como todos sabemos, um dia inteiro de trabalho. Quando se é jovem, tudo é festa, e foi muito interessante trabalhar para a eleição recolhendo os documentos e assinaturas dos demais eleitores. Lembro-me bem que tudo era muito organizado, e sempre o/a chefe da minha secção era uma pessoa competente e cuidadosa com o processo, que nos orientava aos mais novos na mesa. No fim do dia, saía da função contente por poder dar a minha contribuição para que os demais eleitores tivessem uma boa experiência. E era divertido passar as horas conversando com as pessoas.

Aqui nos Estados Unidos, com toda a tecnologia que precede a eleição, com todos os milhões de dólares gastos nas campanhas, no dia da eleição é surpreendente ver que a maioria de quem cuida das mesas em geral são umas senhoras bem velhinhas da “Liga das Mulheres Eleitoras”. A primeira vez que votei aqui fiquei surpresa com o ambiente de sala de estar, relaxado, da sala de eleições. Até bem recentemente, os votos eram todos em papel, então as senhoras coordenadoras das mesas verificavam os documentos de identidade, distribuíam lápis, batiam papo com os eleitores, tudo como se fôssemos seus sobrinhos ou netos. Hoje, com a eleição eletrônica, elas continuam orientando. Nunca tive nenhuma experiência negativa com a eleição. De fato, a “Liga das Mulheres Eleitoras”, se encarrega do processo de maneira perfeita.

O voto, aqui, como todos sabem, não é obrigatório. Isto pode parecer incompreensível para muitos nós brasileiros, que podemos (ou podíamos, antes) ser recusados um emprego se não tivermos comprovante de votação. Isto é um dos paradoxos da nossa vida política: durante a ditadura, quem não era eleitor comprovado, podia ser punido. Todos sabiam que a maioria das eleições, ou pelo menos as mais importantes, eram de mentirinha. Aqui, porque o voto não é obrigatório, às vezes um candidato pode ser eleito por uma diferença de meia dúzia de votos. Nas eleições de George W. Bush, a diferença foi mínima, por exemplo. Ninguém pergunta a ninguém se votou ou se vai votar. É questão pessoal, e nem o seu empregador, nem o seu confessor, tem nada com isto.

Mas dentro de um ano, um novo presidente terá sido escolhido. Os dois partidos principais querem que seus eleitores participem em grandes números. Os candidatos ainda estão na fase inicial de jogar acusações uns nos outros de seu próprio partido. As pesquisas de opinião têm flutuado um pouco, e ainda é possível que haja algumas mudanças antes dos republicanos e os democratas escolherem seus candidatos nas eleições primárias. Enquanto isto, nós eleitores temos que seguir as notícias, assistir alguns debates no youtube, e esperar que os candidatos falem pelo menos 50% da verdade, para podermos fazer uma escolha bem informada.

Acho que nós eleitores nos Estados Unidos não podemos ter esperança de ganhar um pé de botina, ou algum doce, ou uma carona até o local da votação. Mas podemos ter esperança de que o próximo presidente aqui será melhor que o atual. Se bem que, pensando bem, qualquer que seja o próximo presidente dos Estados Unidos, vai herdar a maior confusão política, a guerra mais estúpida da sua história, a pior situação econômica, e a mais baixa estima internacional que este país já teve. O que o país precisa não é um presidente: é um milagre! Isto, nem youtube, nem internet,  nem todas as companhias de propaganda, nem todas as botinas juntas podem fazer.

 

por EVA PAULINO BUENO

 

 

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