por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA

Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos sobre relações internacionais e política externa do Brasil

 

 

Crônica do petismo universitário: dissolução de uma redundância?

 

Referir-se ao “petismo universitário” soa, de fato, quase como uma redundância, tantas são as superposições entre o conceito e este seu adjetivo (que poderiam ser intercambiáveis, diga-se de passagem). Trata-se, em todo caso, de um lugar comum na cultura universitária das últimas duas décadas, pelo menos explicitamente (e talvez implicitamente e por um período mais longo, se de verdade for possível considerar essa identidade como típica do mores universitário, operando um tipo de “retroprojeção histórica” desde algumas décadas). Ou seja, o petismo universitário ou, inversamente, o universitário petista estão tão casados e identificados um ao outro, no plano conceitual, quanto, por exemplo, identificar a “nova Roma” com a “arrogância imperial” do único hiperpoder unilateral de nossos dias, quanto referir-se ao “capitalismo mafioso” da transição russa do socialismo ao capitalismo, ou ainda apostar na desonestidade congenital de políticos italianos, japoneses e de algumas outras nacionalidades também.

O petismo ordinário, no bom sentido deste adjetivo, é universitário por excelência, ainda que este seja apenas um dos seus componentes sociais e ideológicos mais comuns, junto com outros, que fazem parte de sua “essência ontológica”, desde o tempo das “cavernas” (no sentido, digamos assim, platônico deste termo). As outras componentes do petismo são compostas por uma assemblagem algo heteróclita de extratos sociais ditos “populares” e representantes difusos de uma velha esquerda que lidava com conceitos-chave – luta de classes, imperialismo, burguesia e outros do mesmo gênero – que já eram anacrônicos em seu próprio contexto histórico de formação (isto é, o marxismo latino-americano do segundo pós-guerra).

Um dos núcleos centrais do petismo histórico foi constituído, obviamente, pelo chamado sindicalismo alternativo, que foi progressivamente convertido ao peleguismo oficial, à medida que ia conquistando posições no establishment sindical oficial e se amarrando umbilicalmente ao Estado “burguês”, que dizia combater. Outro dos núcleos relevantes do petismo essencialista é aquela nebulosa diferenciada que poderia ser identificada com os “guerrilheiros reciclados”, ou seja, bravos combatentes da luta armada de resistência ao regime militar, que fizeram (ou não) estágios nas prisões da ditadura ou estadias no exílio, mas que decidiram retomar a militância pelas vias da luta política “legal”. O conceito de “nebulosa diferenciada” se explica pelo fato que eram (e continuam) muito diversas as tendências da esquerda armada (e aquela menos armada) que fez frente ao regime militar e que depois veio se abrigar no partido em construção. São poucos, contudo, os ex-guerrilheiros verdadeiramente “reciclados”, sendo mais numerosos os que nem foram guerrilheiros, nem se reciclaram, mas que ainda assim pretendem construir o “poder popular” como nos velhos tempos. Em todo caso, estes conhecem a literatura pertinente e alguns truques da clandestinidade que continuam servindo em tempos mais amenos.

Também fazem parte do agregado petista movimentos sociais de diferentes gêneros e espécies, sendo um dos mais importantes aqueles vinculados às pastorais operárias da Igreja católica e às comunidades eclesiais de base, ambas de nítida extração popular e que constituem, por assim dizer, os rank and files das hostes petistas, abaixo e aquém dos típicos militantes universitários, que estão acima e além destes simples militantes de base, geralmente de chinelo de dedo e boné e camisetas berrantes. Há uma grande osmose destes com outros militantes de base, de tendência mais laica, alguns até ostensivamente ateus, que pensam que estão em Petrogrado em 1917, e que pretendem constituir sovietes de um novo tipo, geralmente integrados por um equivalente funcional do lumpesinato – mas alimentado, transportado e organizado sem qualquer improvisação – e mobilizado numa verdadeira cruzada neobolchevique.

Mas a componente mais importante do petismo, aquela que permitiu a rápida ascensão social, ideológica e política deste fenômeno absolutamente excepcional na história política do Brasil contemporâneo é, sem dúvida alguma, o arquipélago universitário que figura no centro da vida política nacional nas últimas décadas. Esse arquipélago possui várias ilhas, promontórios, enseadas e arrecifes, nenhum deles parecido um com o outro, mas todos ostentando traços em comum, que os distinguem dos demais animais políticos do habitat brasiliensis. Em primeiro lugar, existe, está claro, o intelectual gramsciano, que não pertence, de fato, às fileiras do partido, mas que empresta sua “inteligência” – se tal é possível – e colabora com a organização em todas as boas causas para as quais fellow travellers verdadeiros são suscetíveis de cooperar. Figura, em seguida, o universitário típico, geralmente um acadêmico das ciências humanas, empenhado em libertar a humanidade das suas muitas mazelas, todas elas causadas pelo imperialismo opressor e pelo capitalismo explorador. Em outros tempos, esse personagem tinha lido o essencial de Marx e Engels e pelo menos uma ou duas obras de Lênin – as mais operacionais, por certo – mas agora ele se contenta com algumas vulgatas que resumem o que é preciso aprender para afiar o discurso contra os inimigos presumíveis. Existem também universitários sindicalistas puros, empenhados na denúncia da mercantilização do ensino e na conquista de novos territórios liberados dentro dos próprios campii, com táticas bem elaboradas de corporativismo, democratismo, assembleísmo, grevismo e “ocupacionismo”. Estes reclamam que o governo se rendeu às receitas neoliberais do Banco Mundial e que ele está hoje sufocando a comunidade universitária, da mesma forma como a ditadura militar tinha arrochado no passado a classe operária.

Independentemente das distinções internas, das diferenças de classe e de estamento social entre essas várias categorias de petistas universitários, o fato é que eles constituíram, durante duas décadas pelo menos, a alma do petismo político, os hearts and minds da grande engrenagem de mobilização social que permitiu ao partido galgar as escarpas íngremes da política brasileira e de chegar assim ao cume da dominação estatal. Foram eles que redigiram os discursos, os textos e teses dos debates programáticos, as plataformas eleitorais que rechearam as mensagens políticas que, pouco a pouco, numa espécie de acumulação primitiva partidária, permitiram ao partido em questão romper os grilhões da velha dominação de classe – burguesa, cela va de soi – e instalar a sua própria dominação de classe, comprometida obviamente com os interesses populares.

Pois bem, o que está acontecendo nos últimos tempos, a julgar pelos pronunciamentos e escritos de certos personagens emblemáticos dessa importante corrente de pensamento político e social, é uma verdadeira ruptura entre o estamento em questão e o seu partido preferido, um divórcio de opinião que, se não corre o risco de tornar-se definitivo, pode pelo menos retirar os elementos mais significativos do charme muito pouco discreto que mantinha esse grupo no topo das preferências eleitorais em amplas camadas da classe média urbana. Se o meu subtítulo está correto, ou seja, se ele interpreta bem as tendências correntes que se observam nesses meios, o que estamos assistindo é a dissolução da redundância política apontada ao início, aquela que unia de modo quase que natural o petismo a seus promotores e intérpretes acadêmicos. Existem aqueles que ousam falar em “Estado Novo” do partido em questão, lançando sombras e dúvidas sobre a nova dominação de classe, outros que denunciam a traição conduzida contra resoluções aprovadas em congresso, e que previam a ruptura radical com o neoliberalismo e o imperialismo.

Pode ser dito que essa tendência  não é nova, pois ela começou ainda antes da campanha eleitoral, tomou corpo no seu desenrolar e encontrou novo alento na equipe de transição para o nouveau régime. Dessa equipe ainda chegaram a fazer parte representantes distinguidos da classe universitária, todos empenhados em transpor todo o programa de campanha para projetos de tipo operacional, diretrizes administrativas, macroeconômicas e setoriais, que deveriam guiar o novo governo na direção da redenção por muitos esperada. Foi uma decepção quando se constatou que a nova equipe de governo comportava poucos universitários gramscianos, e mais representantes dos outros grupos e estamentos sociais e, sobretudo, personagens ditos do “baixo clero” que não eram especialmente conhecidos por sua perícia no manejo da coisa pública. O fato é que os aliados de tanto tempo da causa petista foram – e se sentiram – alijados da obra de redenção nacional, que eles logo perceberam que não seria exatamente a redenção sonhada e acalentada, mas uma operação de retomada da velha dominação de classe em novas bases.

Da decepção à ruptura foi um passo, logo efetivado sob a forma de manifestos, cartas e declarações mais ou menos lamuriosas, ou passavelmente enraivecidas, nos quais se tentava compreender as razões da continuidade com tudo aquilo que estava ali: o neoliberalismo, o FMI, os banqueiros e industriais, o agronegócio e, sobretudo, a velha maneira de fazer política, isto é, pela cooptação fisiológica, pelo adesismo sem princípios, pelo toma-lá-dá-cá que sempre marcou o cenário parlamentar e o ambiente partidário. Nunca foram tão numerosos os manifestos da elite universitária; nunca eles foram tão ignorados por aqueles mesmos que, no passado, solicitavam a redação de estridentes manifestos contra o ancien régime. Gramscianos ou trotsquistas, velhos ou novos stalinistas – porque ainda os há –, guevaristas ou maoístas, enfim, candidatos a Pasionaria e a novos communards gritam contra o fascismo e o golpismo da direita, quando, na verdade, eles rangem os dentes de frustração contra o continuísmo ordinário. Houve até uma infeliz filósofa uspiana, que se desacreditou totalmente junto aos seus próprios colegas acadêmicos, ao pretender explicar o festival de corrupção a que se assistiu no período recente como uma espécie de complô da grande imprensa e do capital monopolista contra o partido dos bravos e impolutos. Patético!

O fato é que, o que antes parecia indissolúvel se dissolve no ar: a associação natural entre uma corrente e uma categoria social não resiste ao teste da realidade e começa a se esgarçar até o ponto da ruptura. Não há, contudo, direções unívocas nesse divórcio entre a suposta inteligência e o suposto pragmatismo; não há, sobretudo, heróis e vilões nesse jogo de esconde-esconde entre o que se acreditava válido, em quaisquer circunstâncias, e o que se teve de fazer, uns fingindo que ainda defendem as velhas idéias, outros aparentando implementá-las, apenas que pelas “únicas vias possíveis”.  Os que não romperam em face das novas realidades, estão provavelmente agindo em defesa de um emprego, mais do que de uma idéia, segundo a conversão já anunciada da “nova classe” – ou nomenklatura – em “ornitorrinco” do novo regime social e político. Nada mais os move, senão a imobilidade a mais completa, a defesa do status quo.

Aqueles que, por outro lado, decidiram romper com as velhas e as novas causas, exibem disposições diversas, segundo se situam num ou noutro lado do espectro ideológico. Existem os que poderiam ser chamados de true believers, os últimos crentes da velha liturgia, que pretendem conservar a pureza da religião revelada e estão prontos a denunciar todos os demais como os traidores do dogma sagrado, que é o “socialismo do século XIX”. Existem também aqueles que pretendem construir o “socialismo do século XXI”, sem se dar conta que enveredam pelo mesmo caminho que conduziu ao stato totale de tão sinistra memória para os que combateram o velho fascismo e se empenham agora na edificação de um novo, rutilante de velharias fracassadas na promoção do Estado totalitário.

Há também aqueles, aparentemente mais sensatos e razoáveis, que retomam velhos projetos de construção de um “capitalismo nacional”, sem se dar conta que o poder de fato já está empenhado em construir o novo capitalismo internacional brasileiro, seguindo escrupulosamente tendências da globalização, que os primeiros fingem desprezar e condenar, mas das quais se servem todos os dias em serviços e produtos indispensáveis. Trata-se da expressão contraditória de conhecidas reações de amor e ódio que acompanham a difícil adaptação pessoal a um processo complexo de interações econômicas e sociais que não mais correspondem ao mundo em preto e branco das dicotomias existentes anteriormente. Nem tudo o que provém do mercado é desigual e concentrador, nem tudo o que provém do Estado é igualitário e libertador.

Existem novas realidades que universitários inteligentes devem estar prontos a reconhecer e a saudar como positivas e promotoras de uma nova ordem econômica e social. Existem, claro, velhas realidades cuja verdadeira natureza acabará refletida em seu discurso defasado: uma ordem reacionária e avessa a mudanças. O mais importante é que o universitário dotado de livre arbítrio se reconheça pelo que ele deve ser, verdadeiramente: um ser livre de qualquer adjetivo, apenas pensante, como corresponde a um bom ambiente acadêmico. Inch’allah!

 

PS.: Os muito incomodados com os argumentos defendidos neste ensaio deveriam responder, não contra um autor que apenas exerce conscienciosamente as armas da crítica, mas dirigindo um olhar tão ou mais critico a um grão-vizir do grupo em questão, que viaja de jatinhos executivos em busca de um outro tipo de acumulação primitiva, aquela que beneficia o grande capital. O que diriam os estatutos sobre isso?

 

por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA

   

 

 

 

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