por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. É autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Artes mulheris

 

Tapetes feitos por Oscarina B. Bueno (Foto da autora) Minha mãe foi costureira, a vida inteira. Quando ela se casou, aos 17 anos, trouxe no seu enxoval uma máquina de costura, como era de costume entre as famílias de alguma posse naquele tempo. Os pais sabiam que aquela máquina de costura seria para a sua filha uma espécie de seguro: ela poderia costurar para os filhos e o marido, além de para si mesma, e, se as coisas apertassem, ela poderia vender a máquina para ajudar o marido a sair de algum aperto.

Assim foi com minha mãe. Em menos de 5 anos depois do casamento, com as fortunas de meu pai desaparecendo junto com as plantações comidas pela seca, se foi a máquina de costura, vendida para pagar dívidas, custear as sementes do ano seguinte, comprar remédio para as duas crianças.

Mas minha mãe continuou sendo costureira. Só que, agora, costurava tudo à mão. Fazia roupas para todos da casa, e mais lençóis, toalhas de mesa, panos de prato. Logo começou a costurar para os vizinhos, que admiravam as roupas bem feitas que a família, embora pobre, sempre usava. Admiravam até os remendos, feitos com tanto capricho que pareciam parte do desenho da roupa.

E não demorou muito, minha mãe estava costurando vestidos de noiva, ternos completos, roupas de batizado, e até mortalhas que, de acordo com ela, eram as piores, porque tinham que ser feitas em poucas horas. “A sorte,” minha mãe dizia com um sorriso, “era que o cliente nunca reclamava...” Meus pais moravam em Goiás, “no meio do mato”, como eles mesmos contavam. Meu pai trabalhava ora na lavoura, ora cuidando de gado alheio, a vida que muitos brasileiros pobres levavam. A falta da máquina de costura na verdade era uma vantagem, porque com as mudanças constantes de um lugar ao outro, seria difícil carregar tal trambolho. Tudo que minha mãe precisava era uma tesoura, um metro, agulhas e linhas para trabalhar.

Depois de algum tempo, meu pai lhe comprou outra máquina, que também teve que ser vendida para pagar contas. Com o passar dos anos, várias máquinas vieram e se foram, um tipo de “fusquinha” que era convertido em dinheiro quando era necessário. Desde nossa infância, eu e meus irmãos nos acostumamos a ver nossa mãe costurando, tanto para nós como para nossos amigos, vizinhos, conhecidos. E nos acostumamos a ver sacos de retalhos coloridos que os clientes deixavam com ela. E nos acostumamos a ver nossas camas cobertas com as colchas de retalho que ela fazia. Às vezes eu e ela nos detínhamos olhando uma colcha e lembrando de onde tinha vindo um retalho. Eram mais que simples pedaços de pano: eram histórias da nossa vida de família, e das nossas conexões com a nossa vizinhança.

Mas para nós as colchas de retalhos tinham somente um valor prático: serviam para cobrir a cama, nos aquecer no inverno. Tínhamos, como todos que conhecíamos, uma cegueira estética, e não víamos a beleza daqueles objetos que nossa mãe fazia com cuidado e gosto. Enquanto alguns de nós cortávamos recortes de revista contendo reproduções de Rembrandt, ou de Van Gogh, ou de outros europeus, nossa mãe costurava peças coloridas, vibrantes, que se destinavam a cobrir camas, ou a limparem nossos pés.

Um dia, ao voltar à casa de meus pais depois de 2 anos fora, vi que minha mãe tinha feito uma série de pequenos tapetes de retalho para sua cozinha, banheiro, área de serviço. Não sei se foi porque eu tinha estado fora tanto tempo, ou se foi porque eu tinha vivido em uma cultura em que este trabalho “de mulher” tem outra conotação, muito mais positiva, ou simplesmente porque quando a gente vê uma coisa conhecida depois de tanto tempo é como se a visse pela primeira vez, de todas formas eu não me contive, e pedi a minha mãe que me desse todos os tapetes que ela tinha feito, porque queria colocá-los na parede em minha casa.

Minha mãe achou a idéia, como ela dizia, “um despropósito.” Onde já se viu tal coisa? Mas, na verdade, acho que ela sentiu que eu tinha visto, pela primeira vez, o valor além do material que daqueles objetos criados por ela. Imediatamente, ela apanhou o tapete que estava perto da pia, e colocou na máquina de lavar, de onde eu o retirei imediatamente. “Está sujo!” ela disse. “Veja, tem uma manchinha de barro aqui.” E apontou para uma pequena mancha marrom. “Eu quero o tapete e a mancha de barro”, expliquei a ela.

Como sempre fazia quando eu vinha com uma idéia assim, minha mãe riu, e disse que isto era uma grande bobagem, mas aceitou que eu trouxesse o tapete e a mancha de terra de Maringá. Também consentiu em me mostrar as outras coisas que tinha feito com os retalhos nos últimos anos.

Já naquele tempo, apesar da vista falhando, ela tinha feito colchas de retalho para todas os filhos, e para as netas mais velhas. Eram dezenas de colchas, todas feitas com o mesmo estilo, mas cada uma diferente da outra, usando retalhos que amigas e vizinhas lhe davam. E a máquina de costura de pedal, não elétrica, cúmplice de todo este trabalho, estava sempre no seu quarto, esperando mais projetos. Ela selecionava os tecidos, cortava, passava, e colocava em caixas de papelão, esperando uma chance para costurá-los.

Hoje, quatro anos depois da morte da minha mãe, eu olho estes tapetinhos que ela me deu, e que agora estão na parede do meu quarto, e olho a colcha que ela fez para mim há muitos anos, e me admiro da sofisticação do seu conhecimento de cor, de harmonia. O desenho é simples, somente quadradinhos, ou o entrelaçado começando com um centro vermelho. Mas as cores dançam, se comunicam, e formam um todo que não fica a perder de muitos dos quadros mais famosos do mundo.

Como minha mãe, muitas mulheres no Brasil se dedicam a esta arte humilde de juntar pedacinhos de pano e formar objetos de uso para a casa. Assim como muitos ceramistas fazem suas panelas, tigelas, e outros objetos de barro para uso da família, assim como muitas mulheres que tecem, que fazem crochê, que fazem tricô, que fazem bordados, estas costureiras não recebem nenhum elogio à sua arte que protege o corpo do frio e nutre o sentido estético, fazendo a casa mais agradável, mais bonita, e seu usuário portanto mais feliz. Nem só de pão e política vivem os seres humanos.

Então temos que enfrentar a questão: Por quê?

Isto me faz traz à memória os anos em que estávamos “nos formando” e aprendendo o que significava ser o quê no Brasil dos anos 60 e 70. Todas as artes eram ou pintura, ou escultura, ou música, ou teatro. Cada uma destas artes requer materiais ou instrumentos, e mais lazer, para serem feitas. E estas artes estão codificadas maiormente como “cultura” porque são praticadas geralmente por homens. Como muitas meninas da minha classe social, eu também não tinha dinheiro para comprar telas, nem um violão (piano é instrumento de menina rica que também fala francês e tem unhas compridas, se dizia), nem dias pra treinar uma peça de teatro. Eu tinha o exemplo de minha mãe costurando roupas e fazendo colchas com o tecido que sobrava, e minhas irmãs fazendo roupas de crochê e tricô. Mas isto não era arte, era?[i]

As artes mulheris, tais como a arte de fazer colchas, ou lidar com linhas, têm sido degradadas por séculos. Até muito recentemente, nenhum museu tinha uma colcha, e até muito recentemente, qualquer mulher que tivesse uma gota de aspiração intelectual não seria pega morta com uma agulha na mão.

Mas as coisas estão mudando. Já podemos, nós mulheres intelectuais, sair do nosso esconderijo com nossas agulhas, nossas linhas e nossos retalhos, e admitir que nós também fazemos colchas, bordados, crochê, tricô. E que queremos que estas manifestações do nosso gosto, da nossa habilidade de combinar cores e formas sejam consideradas arte que não fica a dever nada a nenhum quadro. E quantos pezinhos de bebês, e quantos pescoços e quantas orelhas estas artes aqueceram durante séculos?

Eu imagino que em todas as casas do Brasil existe pelo menos uma colcha de retalhos, uma toalhinha de crochê, um cachecol de tricô, uma roupa de bebê feita por uma das mulheres da família. A colcha de retalhos especialmente é uma espécie de memorial da família, juntando num mesmo espaço histórias dos membros da família, pelas roupas que usam ou usaram.

Trabalhadoras! Vamos unir nossos esforços e fazer uma cooperativa de crochê, tricô, bordados e colchas de retalhos?  Não precisamos falar difícil, nem invocar Marx, nem usar nenhuma palavra terminando em “ismo.” Vamos celebrar o que nossas mães e nossas avós nos legaram, em silêncio, com arte e muita garra. É fácil: só precisamos agulhas, linhas, tesouras, e retalhos, e vontade de contar, com nossa arte, quem somos, de que gostamos, e o que podemos fazer.

Quem não gostar de costurar, ou fazer crochê e tricô, ou tecer, pode colaborar fazendo um chá, e ficar conosco contando histórias. Precisamos lembrar nossas histórias e nossos talentos para podermos passá-los às nossas filhas e netas.

 

[i] Há muita informação na rede sobre colchas de retalhos e a tradição de fazê-las. Vejam por exemplo  como as mulheres negras americanas, que não tinham material sofisticado, faziam suas colchas, em http://xroads.virginia.edu/~ug97/quilt/atrads.html

Outro exemplo muito interessante é dado pelas mulheres do grupo Amish, que tradicionalmente se dedicam a esta arte. Veja uma explicação e algumas colchas em http://www.800padutch.com/quilts.shtml

E, por fim, um dos museus de colchas se encontra em New England: http://www.nequiltmuseum.org/

 

 

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