por JOÃO DOS SANTOS FILHO

Bacharel em Turismo pelo Centro Universitário Ibero-Americano de São Paulo (Unibero) e bacharel em Ciências Sociais pela PUC/SP. Mestre em Educação: História e Filosofia da Educação pela PUC/SP. Professor-convidado na Faculdad de Filosofia e Letras da Universidad Nacional de Heredia (UNA), em San José da Costa Rica. Professor concursado pela Universidade Estadual de Maringá. Autor do livro “Ontologia do turismo: estudo de suas causas primeiras” EDUSC, Universidade de Caxias do Sul. 

 

 

 

Na defesa de um amigo e de nós comunistas

 

[...] no hay ninguna ideologia “inocente”. No la hay en ningún sentido, pero sobre todo en relación ... muy especial en lo que se refere cabalmente al sentido filosófico: la actitud favorable o contraria a la razón decide, al mismo tiempo, en cuanto a la esencia de una filosofia como tal filosofia, en cuanto a la misión que está llamada a cumplir en el desarrolo social. Entre otras razones, porque la razón misma no es ni puede ser algo que flota por encima del desarrollo social, algo neutral o imparcial, sino que refleja siempre el carácter racional (o irracional) ... (LUKÁCS. El Asalto a la Razon.  1972, p.4 e 5)

 

Em uma das passagens da literatura marxiana via Georg Lukács evidencia-se que uma das premissas fundante é a preocupação com os vivos e não com os mortos, essa é base do pensamento histórico dialético materialista, no combate constante para desmascarar as tendências reacionárias de base idealista e irracional. Isso nos faz recordar o nosso saudoso professor que em seguida se tornou grande amigo Florestan Fernandes que lutava valentemente na defesa dos professores de esquerda, progressistas e até liberais da Universidade de São Paulo, afirmando em carta aos militares em nove de setembro de 1964, escreve:

Não somos um bando de malfeitores. Nem a ética universitária nos permitiria converter o ensino em fonte de pregação político-partidária. Os que exploram meios ilícitos de enriquecimento e de aumento de poder afastam-se cuidadosa e sabidamente da área do ensino (especialmente do ensino superior).

João Quartim de Moraes (Fonte: http://www.vermelho.org.br/museu/classe/221/nacional-f2.jpg)Portanto, estimado amigo professor João Quartim de Moraes tens apoio para combater todas as pessoas que por fraqueza intelectual, tem na intolerância seu pressuposto balizado no seu contraponto  o comportamento do medo, em que alguém ou algo pode produzir aos indivíduos, seja por meio de uma atitude ameaçadora de expressão simbólica e / ou até material para uma pessoa ou grupo social.

Ser comunista, marxista e escritor da história da esquerda brasileira são qualidades de um intelectual ímpar. Ser distinguido como diferente é não compartilhar das mesmas opiniões e atitudes de consenso, fundadas nos valores e normas de uma determinada organização social, ou ainda, enxergar a possibilidade de mudança na perspectiva de subverter à lógica da ordem tradicional e rotineira é uma virtude presente em poucos intelectuais de qualidade nesse país.

Isso produz uma reação adversa de repulsa, hostilidade e animosidade da sociedade ou das classes sociais para com os indivíduos, a chamada intolerância dos imbecis e covardes que preservam a todo custo o pensamento de direita.

Por isso, caro Quartim a atitude fascista e anticomunista do senhor Olavo de Carvalho se constitui em um ladrar naquilo que há de mais podre do animalaço, expressão dos irracionais.

O processo de intolerância comum no pensamento de direita aparece e está empiricamente constituído em sociedades em que o aparelho de Estado “legalmente constituído” ou não, faz uso sistemático de instrumentos materiais ou ideológicos de repressão em todo o movimento de historia da humanidade.

 Da utilização do osso de um animal, como o primeiro instrumento para aumentar a força da mão humana passando pelo uso da madeira, bronze, ferro e aço até chegar aos materiais da fase aeroespacial. O trabalho aparece como a categoria explicativa dessa evolução, pois é por meio dele que os homens produzem os instrumentos responsáveis pela intolerância.

A sociedade aprimora seus instrumentos de combate à intolerância como as bombas de efeito moral, instrumentos de tortura e produtos químicos e propagandas de base subliminar que expressam o racismo, a inferioridade, a desclassificação social e o preconceito em todos os campos da sociedade e o anticomunismo.

Como escreve Engels em seu clássico texto o trabalho é o elemento explicativo da transformação do macaco em homem, e por ele pode ser usado também para manter e aprofundar a dominação de classe:

Resumindo: só o que podem fazer os animais é utilizar a natureza e modificá-la pelo mero fato de sua presença nela. O homem, ao contrário, modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, domina-a. E aí está, em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais, diferença que, mais uma vez, resulta do trabalho.[1]

Esse processo se configura em um problema que se compõe junto à lógica da reificação em que os homens inculcam a explicação dada historicamente pela classe dominante, acreditando em sua diferença, como resultado de atributos genéticos, físicos e intelectuais. Essa pseudociência teve guarida em todos os momentos em que o Capital necessitava gerir novos ciclos de acumulação, necessitando ampliar e estender sua base de exploração.

Para entendermos o movimento de intolerância é necessário estudá-lo no patamar da crise estrutural do Capital, pois o mesmo só ocorre em razão do seu desenvolvimento, por meio do mecanismo em que:

A dissociação entre realidade e pensamento, nesse universo, atinge nos dias em curso extremos sem precedentes, cuja medida só pode ser sondada na própria radicalidade da entre a crise estrutural do capital e a asserção de sua eternidade pela representação ideal.[2]

Portanto, o fato da existência da intolerância se deve a uma condição de desconforto físico e ou mental sentida pelo outro, na qual pode vir expressa em variadas formas de preconceitos; literários com a censura presente a determinados livros ou temática; religioso com a proibição do culto a diferentes e ritos; racial com a perseguição a diferentes etnias e suas lutas históricas; político em que as classes abastadas utilizam-se do Estado para impor seus interesses; de classe, em que a diferença pode vir expressa pela cor, status social, a crença em raças inferiores ou problemas genéticos.

Para podermos entender o mundo do preconceito, da intolerância e da diferença que palmilha a história da humanidade e principalmente a brasileira, temos que compreender o sistema capitalista em sua fonte geradora, o Capital. Pois o pressuposto básico que o assegura dentro desta perspectiva a existência e persistência da intolerância na sociedade como uma das características de transmutação do capital.

A intolerância entendida nessa visão permite a compreensão de sua materialidade, quando nos deparamos com a existência de vários instrumentos de tortura que os homens fabricaram como forma de conter, amansar, domesticar, dominar e evangelizar o outro. Esses equipamentos surgem no interior do desenvolvimento das forças produtivas, em virtude da necessidade de manter uma mão de obra obediente e submissa aos interesses do capital, a necessidade da acumulação vai exigir que a força de trabalho esteja atuando em condições máximas de sua força como mão de obra.

Nesse momento, a sociedade capitalista para poder manter sua exclusividade aprimora os mecanismos de persuasão com o objetivo de administrar a intolerância. Essa expressão de materialidade serve para manter as várias etapas de intolerância, que vão surgir desde o primeiro encontro entre colonizadores (exploradores) e população nativa.

Por isso Quartim, as ditaduras podem ter morrido, mas os ditadores permanecem na fila de espera para entrar em cena, como foi o caso da agressão perpetuado a sua pessoa pela escoria da direita vil que agrediu a intelectualidade progressista Brasileira.

por JOÃO DOS SANTOS FILHO

 

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[1] ENGELS, Friedrich. Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem. In Karl Marx e Friedrich, Engels. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Omega, s/d, p 277.

[2] CHASIN, J. A Sucessão na Crise e a Crise na Esquerda. In Revista Ensaio n. º 17 e 18. São Paulo: editora Ensaio, 1989, p. 3.

 

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