por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. É autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

A lei é cega mesmo?

 

Michael VickNestas últimas semanas aqui nos Estados Unidos, além dos comentários diários dos horrores da guerra no Iraque e no Afeganistão, as emissoras de TV, rádio e os jornais têm comentado quase que obsessivamente a questão do jogador Michael Vick, que é o quarterback do time do Atlanta Falcons. Para entender a razão de tal interesse, é bom lembrar que o quarterback é, em geral, o eixo ao redor do qual funciona um time de futebol americano em campo. É o quarterback quem organiza as jogadas, quem corre com a bola e a atira por detrás da linha de defesa do outro time. Enfim, o quarterback é o “cérebro” de um time de futebol.

Michael Vick, um jovem de 27 anos, chegou ao time do Atlanta Falcons em 2001, em meio a grande esperança e muita bajulação. De fato, Michael, que vem de uma família muito pobre, foi então considerado um dos mais sensacionais talentos em futebol americano, e inclusive decidiu sair da faculdade (Virginia Tech) antes de se formar, para poder começar a ganhar os milhões que ganham os jogadores profissionais com a cotação alta como a dele. O sistema de “draft” — “escolha” - dos jogadores que estão saindo da universidade é extremamente complicado em todos os esportes aqui nos Estados Unidos, mas basta dizer que os responsáveis pelo time do Atlanta Falcons trocaram a possibilidade de escolher outros jogadores promissores para contratar o jovem Michael Vick. Eles tinham tanta certeza que o mesmo talento mostrado na universidade ia continuar, que lhe deram 3 milhões de dólares de bônus quando ele assinou o contrato. E a dinheirama não parou aí.

A fama que ele adquiriu enquanto estava na universidade chegou antes, por assim dizer, a Atlanta, e foi traduzida em um salário de muitos milhões de dólares, e mais outros tantos milhões pagos por companhias que ele se comprometeu a representar. Este dinheiro se converteu na compra de uma mansão, e outros bens de consumo. Durante estes anos todos, Vick jogou bem, e, embora não tenha conseguido levar seu time à Super Copa (Super Bowl) devido a uma contusão em 2004 que lhe custou tempo para recuperar, pelo menos a sua presença no time representou um grande aumento da popularidade do time, do número de pessoas assistindo o jogo, e comprando bilhetes para a temporada. Quando voltou da recuperação pela contusão, ele foi outra vez recebido com aplausos e mais  adulações.

Em abril deste ano, o escândalo estourou: foi descoberto que em sua mansão no estado de Virginia ele tinha um canil no qual ele criava e treinava cachorros da raça pit bull para participarem em brigas de cachorros. Tais brigas são ilegais em si, e no caso de Michael Vick, seus cães eram os “gladiadores” de uma corrente de apostas, também ilegais. Além destas duas atividades ilegais – briga de cachorros e apostas nas brigas – de acordo com o sumário legal apresentado pela acusação feita, em abril deste ano de 2007, Vick e seus sócios Phillips and Peace executaram pelo menos 8 cães que não tinham lutado bem, nem sido agressivos o suficiente.[1]

O clamor da sociedade americana nestes últimos dias só pode ser comparado com a adulação ao talento de Vick antes de seu “pecadinho” ser descoberto. De todos os cantos aparecem pessoas que se pronunciam horrorizadas com o que ele fazia com os cães. Muitos estão inclusive vendendo seus bilhetes para o campeonato de futebol deste ano, e outros estão rasgando publicamente as camisetas com o nome de Vick que tinham comprado por um bom dinheiro.

Entre estas pessoas, estão as que simplesmente acham que mexer com qualquer coisa relacionada com apostas suja o nome e a idoneidade do sujeito. Mas uma grande parte dos que estão horrorizados diz que o tratamento dele aos cães é o mais repreensível e criminoso. Na propriedade de Michael Vick se encontraram instrumentos que só podem ser descritos como instrumentos de tortura, e o fato de seus sócios terem dito que ele pessoalmente matou uns 8 cachorros praticamente a paulada realmente parecem selar o seu destino. Ele entrou com uma ação de reconhecimento de sua culpa, e vai receber a sentença em dezembro. Enquanto isto, ao que tudo indica, fica em liberdade para lidar com outros problemas que se amontoam, tais como as questões financeiras, já que seu time quer de volta o dinheiro que lhe havia dado de bônus, e provavelmente vai pedir ainda mais dinheiro.

O homem está realmente arruinado.

E não poderia deixar de ser desta maneira. O mesmo impulso que leva um indivíduo a matar cachorros amarrados, a paulada, eu acho que é o que leva a matar crianças, velhos, ou qualquer pessoa indefesa. Michael Vick vai pagar por um crime que cometeu, mas por mais que pague, não pagará o suficiente.

Mas a culpa é somente dele? De onde este homem tirou a noção que poderia fazer tal coisa e seguir sua vida como se nada estivesse acontecendo?

Em minha opinião, os atletas profissionais — não só dos Estados Unidos, mas do mundo inteiro — quando são muito talentosos, ficam com a impressão que pertencem a uma espécie especial, e que não podem e não fazem nada errado. Isto me lembra uma entrevista de O. J. Simpson, quando foi acusado do assassinato da ex-mulher e de um rapaz de 25 anos. Ele disse, “O. J. jamais faria tal coisa.” O. J então é uma “terceira pessoa,” da qual o próprio homem que leva este nome fala como se não fosse ele. Esta “terceira pessoa” vive no olho do público, e tem as características que o público vê e adula. Michael Vick também era “Michael Vick,” o incrivelmente talentoso quarterback, que jamais fazia coisas erradas. Isto estava estampado em todas as revistas, em todos os jornais, a cada vitória dele. Não é somente coincidência que, na sua entrevista depois de haver admitido sua culpa, ele disse: "So I got a lot of down time, a lot of time to think about my actions and what I've done and how to make Michael Vick a better person" - “Então eu tive muito tempo parado, muito tempo para pensar em minhas ações e no que eu fiz, e em como fazer de Michael Vick uma pessoa melhor” (entrevista divulgada pela CNN).

A “persona” pública dominou a compreensão até mesmo da própria pessoa, do que ele ou ela é. Isto acontece freqüentemente, como sabemos. O que existe é somente o que os outros vêem. Os “pecadinhos” cometidos às escondidas, estes não existem. A pessoa famosa então passa a viver numa situação esquizofrênica não muito diferente do caso de criminosos que levam uma vida normal, tem família, trabalho, etc, e quando ninguém está vendo, cometem seus crimes.

No caso dos atletas especialmente, o problema é causado pela própria sociedade. Quando estes jovens que são “reconhecidos” quando estão lá escola secundária, daí eles passam às mãos de técnicos e treinadores que os bajulam desde que continuem a produzir dentro do esporte; assim estes jovens chegam à maturidade acreditando que para eles não há limites, desde que não sejam pegos e tenham suas atividades ilegais ou criminosas expostas.

E vejamos que muitas vezes, mesmo quando são pegos, são perdoados. Que aconteceu –por exemplo – com os jogadores da seleção brasileira que chegaram ao Brasil depois da Copa do Mundo de 1994 trazendo um avião cheio de muamba? Depois do “escandalozinho” inicial, algum dele pagou imposto? Eu duvido muito. Com certeza trouxeram toda a mercadoria para o Brasil, e se elas ainda existem, estão sendo desfrutadas. Os cidadãos comuns, ao trazer um necessário computador, naquela época, tinha que pagar todo o preço do computador na alfândega.

Quanto a Michael Vick, resta saber se ele vai receber a sentença que seus crimes merecem. E, muito importante, quando esta sentença for decidida, resta saber quanto dela ele vai realmente cumprir. Estes últimos meses aqui houve dois casos de duas socialites e “artistas” famosas que foram presas por dirigirem bêbadas. Uma delas foi solta depois de algumas horas, e a opinião pública objetou (esta mulher é uma milionária antipática), e ela foi trazida de volta à prisão, onde ficou em uma cela especial. Já a segunda “artista” só passou 82 minutos na prisão. O público desta vez não protestou, porque os que a soltaram aprenderam com o erro anterior, e inventaram uma desculpa mais convincente (falta de espaço na prisão). Se fosse uma qualquer, com certeza estaria amargando a cela até hoje. Tenho certeza que no Brasil abundam exemplos destas maneiras diferentes de aplicar a lei.

O que fazer então, na nossa sociedade tão sedenta por modelos, por gente famosa, que usa seu dinheiro para viver como se o planeta inteiro lhe pertencesse? Uma coisa que resolveria bastante o problema, eu acho, seria se, por exemplo, os jogadores profissionais recebessem o mesmo salário de, digamos, um bombeiro. Ou de um professor. Ou de um encanador. Um artista, seja de qualquer ramo da arte, deveria receber o mesmo salário. E qualquer um, independentemente da fama e do dinheiro, teria que ser responsável por seus atos. Neste momento, a lei não seria só para os inimigos, mas para todos.


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[1] Vários órgãos da midia falaram deste ocorrido, e uma reportagem completa pode ser facilmente encontrada na Internet. Uma boa fonte de informação, contendo inclusive o endereço da página pessoal de Vick é o New York Times, em http://topics.nytimes.com/top/reference/timestopics/people/v/michael_vick/index.html?inline=nyt-per.

Em 27 de agosto, dia em que Vick publicamente se desculpou, tanto sua página como a do Atlanta Falcons estava fora do ar por excesso de tráfego.

 

 

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