por ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP); Pós-graduando em História das Religiões (DHI/UEM) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)

 

 

 

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blog do Ozaí (UOL)

 

 

EVANGELISTI, Valerio. As Correntes da Inquisição. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2007 (310 p.)

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A permanência da Inquisição

 

Qual o elo que vincula a inquisição contra os remanescentes cátaros do ano de 1369 ao racismo dos Skinheads da nossa época? Qual a conexão entre fenômenos históricos aparentemente distintos como a inquisição e o nazismo? Que há em comum entre o genocídio nazi-fascista e a dedicação do inquisidor Nicolau Eymerich contra homens, mulheres, idosos e crianças considerados hereges? Quais elos vinculam experiências genéticas na Romênia do ditador Nicolae Ceauseseu com as criaturas de aspecto animalesco da Itália Medieval do século XIV? Quais elos unem a organização nazista – que sobrevive sob fachada religiosa e é financiada pelo tráfico de órgãos humanos – à inquisição do século XIV e à violência dos Skinheads? Quais elos, enfim, constituem as correntes da inquisição?

O primeiro elo

O doutor Albert Blakeslee, nos Estados Unidos, observa em seu laboratório um fenômeno que o deixa, ao mesmo tempo, eufórico e estupefato: os trevos de três folhas que cultiva estavam quadrifoliados, pentafilos e hexafilos. O aspecto era monstruoso e parecia a criação de um esquizofrênico.

No mesmo dia em que o doutor Albert Blakeslee vivencia essa experiência, 22 de junho de 1937, na Alemanha hitlerista o biólogo Jakob Graf aguarda impacientemente para ser recebido pelo ministro da Educação Popular e da Propaganda do Terceiro Reich, Joseph Goebbels. Finalmente é convidado a adentrar à sala do ministro. Este o trata cordialmente e com palavras que saciam o ego, apesar do sorriso tímido que aparenta modéstia.

– Mandei chamá-lo, professor, porque recebi a segunda edição de sua... – Debruçou-se sobre o livro e leu: – Teoria da Hereditariedade, Ciência das Raças, Luta pela Saúde Hereditária (p.16).

A conversa foi rápida. O todo poderoso ministro promete ao professor cientista que obterá a titularidade da função que exerce na universidade e que terá verba ilimitada para o seu programa de pesquisa. Ao sair, o lisonjeado cientista quase explode de alegria. Sua teoria foi elogiada e será aplicada ao projeto de regeneração da raça humana, o que inclui a eliminação física dos judeus, e também dos “dementes, cegos, surdos, epiléticos, idiotas, gagos e todos que possa denegrir nossa raça”, enfatizou Goebbels (id.). O professor Graf não mede esforços diante da “árdua tarefa” de purificação racial e se sente feliz diante dos resultados obtidos.

O segundo elo

1945, dia do aniversário de Hitler. O professor Jakob Graf é recebido pelo Füher. Graf tornara-se o vice-diretor do Projeto Genético do Reich. O professor Graf expõe suas teorias. Hitler não compreende, mas o encoraja a continuar as pesquisas.

O terceiro elo

1959. Sob o calor do novembro guatemalteco, Viorel Trifa conversa com o coronel Eugen Dollmann. Eles aguardam o comandante e conversam sobre a RACHE (Igreja Romena Americana dos Episcopais-ortodoxos – Roumenian American Church of Episcopalian-orthodoxes) e as experiências genéticas para a produção de órgãos humanos. A RACHE, que significa vingança em alemão, fornece a fachada para o tráfico de órgãos humanos. “Precisamos de uma estrutura limpa e insuspeita, com base nos Estados Unidos, para ser implantada em todos os países onde atuamos. Não há cobertura melhor do que uma organização religiosa. Conseguiremos até angariar contribuições para nossas pesquisas” afirma Dollmann (p. 81). O pastor Trifa, enxugando o suor que escorre pelo corpo, reluta. O comandante o convencerá, frisa o coronel. Este surge, acompanhado de um cão de aspecto aterrorizante que causa alvoroço. O pastor, trêmulo de emoção, levanta-se.

O quarto elo

Sob a aparência do bom pastor, esconde-se um criminoso fascista. A RACHE (Inc. Roumenian American Chemical Incorporated) amplia as atividades por vários países. Por que ela se interessa pelas águas térmicas de Baite Herculane? Estaria vinculado às experiências químicas de manipulação do DNA e produção de órgãos humanos sintéticos? Os elos se ligam e formam a corrente que trará a verdade à tona. Era o ano de 1968.

O quinto elo

Em Bristol, no ano de 1972, o doutor Arthur Guirdham relata como conheceu a senhorita Mills. Ela pedira o seu parecer médico sobre uma série de estranhas circunstâncias remoídas obsessivamente em sua mente. Duas palavras atormentavam a senhorita Mills: “Raymond” e “Albigenses”. E, com freqüência, ela sonhava que fugia de um castelo erguido sobre uma encosta e que estava no interior de uma paliçada em chamas. O jovem jornalista pergunta se o doutor Guirdham estudara sobre os albigenses. Ele responde:

– Exatamente por isso, como dizia, consegui entender as referências da senhorita Mills, que não sabia nada de albigenses. Os últimos cátaros de Languedoc foram sitiados em 1244 no castelo de Montségur, que de fato está situado no alto de um penhasco, e em seguida, queimados em uma fogueira coletiva. Alguns anos antes, a senhorita Mills tinha ido à França, e um impulso terrível a tinha arrastado até Carcassonne, que não era um destino previsto em seu plano de viagem... (p. 184).

Carcassonne fora sede do tribunal da Inquisição mais famoso à época, a mesma que sentenciara os cátaros à fogueira. Eles foram queimados no dia 16 de março de 1244 e, coincidentemente, no dia 16 de março de 1969, a senhorita Mills sentira uma dor aguda de origem inexplicável. O doutor fornece outros detalhes cujas coincidências ajudam o leitor a compreender os elos que formam a corrente. Mas como explicar a curiosidade sobre processos de envelhecimento do profissional de um obscuro jornal de nome alemão, Der Weg, sediado em Buenos Aires?

O sexto elo

– A AULA MAGNA da Cetus Corporation de Emeryville estava lotada  de participantes do tradicional encontro científico anual. Homer Loomis notou logo o doutor Gary Dullis. Estava conversando com Joshua Lederberg, reitor da Rockefeller University. Ambos olhavam um pôster em que, debaixo da sigla PCR, havia representações estilizadas do DNA (p. 255).

Loomis se aproxima do doutor Dullis e se apresenta como representante de uma indústria química sediada em Santa Fé, a RACHE. A conversa gira em torno do pôster, o qual representa a descoberta da DNA-polimerase, uma enzima que duplica o DNA. Hoomer Loomis mostra enorme curiosidade e conhecimento sobre o tema. A conversa se desenrola e, a certa altura, o cientista Dullis o interrompe e dispara: “ Mas o que pretende a RACHE? Criar uma nova humanidade?” (p. 257). O interlocutor o fita com ar de sonhador e, sem proferir palavras, dá-lhe a costa e desaparece. Dullis fica desconcertado e curioso sobre tal indivíduo e a RACHE. Era o ano de 1984.

O último elo

Numa clínica psiquiátrica um padre é interrogado pela terapeuta sob efeito da hipnose. A sessão é acompanhada pelo doutor Semurel e Homer Loomis. Na prática é ele quem conduz o interrogatório, a hipnotizadora obedece às suas instruções. O padre Jacinto Corona responde e, pouco a pouco, os elos se encaixam.

As correntes

A narrativa de Valerio Evangelisti não é cronológica. Sua narrativa é intermediada por personagens e ações que nos remetem à atuação do inquisidor Nicolau Eymerich e à profanação de túmulos judaicos por Skinheads racistas. Homens que vivem em épocas distintas e nutrem os delírios inquisitoriais. Os elos formam as correntes inquisitórias que persistem com o passar dos séculos. Elas expressam a intolerância religiosa, política, racial etc. que sobrevive e constitue o lado sombrio e bárbaro da existência humana.

À época do inquisidor as criaturas deformadas eram vistas como manifestações do poder maligno e ele se considerava o representante de Deus, cuja missão era purificar as almas e os corpos, mesmo que tivesse que lançá-los ao fogo. No século XX, as ideologias totalitárias também perseguiram os “hereges” e almejaram “purificar” a raça. É um prolongamento da Inquisição, ainda que o argumento seja científico e secular. O delírio inquisitorial subsiste através dos novos inquisidores do nosso tempo A homofobia e as ideologias racistas comprovam-no.

“As Correntes da Inquisição” é uma obra de ficção. É admirável a imaginação do autor: personagens, situações e narrativa. Ele nos prende a cada capítulo e elo da corrente. Muitas vezes nos vemos diante do absurdo, acreditável apenas em termos ficcionais. Mas a realidade também é absurda. A fúria puritana inquisitorial do nosso tempo, os horrores do nazismo, a permanência do racismo e da intolerância em todos os níveis, são tão absurdos quanto a ficção literária. O livro, por mais que nos choque, é apenas um objeto. As marcas que a realidade nos deixam são de outro tipo, são indeléveis. Não obstante, obras como esta contribuem para percebermos o absurdo de idéias e ações inquisitoriais e nos ajudam a quebrar as correntes das inquisições que persistem.

Sobre o autor

Valerio Evangelisti é um dos autores italianos mais populares e elogiados pela crítica européia. Nascido em Bolonha, em 1952, é historiador e articulista político, atuando como diretor editorial da revista italiana Carmilla e como colaborador para publicações internacionais, com a francesa Le Monde Diplomatique. Pela mistura de elementos que compõe em suas narrativas, Evangelisti é considerado um dos principais representantes do chamado movimento new weird, caracterizado pela mescla constante de diferentes gêneros literários. Seu primeiro romance, O Inquisidor[1], publicado pela Conrad em 2006, foi o marco inicial de uma série de livros protagonizados pelo inquisidor dominicano Nicolau Eymerich. [Texto da orelha]

 

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[1] Ver a resenha “Sobre velhos e novos inquisidores”, publicada na REA, nº 60, maio de 2006.  

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