por RAYMUNDO DE LIMA

Formado em psicologia, mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

 

Miséria do discípulo (I)

(um quase-ensaio)

 

“Não siga os antigos. Procure o que eles procuravam”

Bashô – sábio japonês séc.17

 

 “Temo um homem que só conhece um livro”[1]

Tomás de Aquino.

 

O que é ser discípulo? Por que alguém escolhe ser discípulo de outrem? Existe uma influência religiosa no discípulo? O discípulo é um sujeito ou um sujeitado?

Do ponto de vista psicológico, ser discípulo é se entregar à condição de “não-sujeito” diante de um grande Outro[2]. Wilhelm Reich suspeita do que esse “Zé ninguém”[3], esse não-sujeito, pode “tudo” sob o disfarce de discípulo. Como “homem pequeno” (sic), medíocre, mesquinho, que não reconhece a sua pequenez, ele tenta ser grande através do seu líder. A segurança de discípulo é projetada na suposta coragem e carisma do líder. Sua devoção ao líder é mais importante do que a verdade e sua condição de sujeito que ele abdicou.

O verdadeiro discípulo está convicto[4] de sua missão. O convicto – e também o dogmático - não se dispõe examinar sua condição. A autocrítica lhe foi censurada. Escolhendo viver num mundo infantil, o discípulo sustenta o Outro, tomado como um “pai” bom, messiânico, moralista, poderoso, cujo discurso é marcado por meias verdades, mentiras[5], e ilusões; a obnubilação de sua consciência, tem o efeito ideológico de gratificar o seu desejo inconsciente e de agir sem a responsabilidade do Eu. 

Em psicanálise, o desejo – conceito psíquico – jamais é satisfeito, mas ele pode realizar-se através de palavras, imagens, objetos fantasmáticos[6]. Ou seja, o discípulo demanda realização de desejos inconscientes projetados na imagem e na palavra do “pai”, líder, encarnado, por exemplo, em um professor que se apresenta mais como líder do que professor, ou na obra de um “grande autor” venerado, fetichizado, tomado como guia espiritual ou revolucionário.  Enfim, há sempre um grande Outro, pai, líder, que o discípulo demanda que ele preencha o seu vazio desejante. Nada, a não ser o grande Outro, poderá gratificar essa imensa demanda de amor transcendente.

Uma vida reduzida à condição de discípulo troca a liberdade de ser e de pensar com autonomia para voluntariamente servir e adular o Outro, encarnado no líder, supostamente um Sujeito que sabe-e-pode tudo.  Conforme Etienne La Boétie (1982), o arbítrio é contrafação da liberdade, a persuasão é a contrafação do pensamento, o costume é contrafação da natureza, o adestramento é contrafação da educação, a doença é contrafação da saúde, a adulação é contrafação da amizade - entre os maus, quando se juntam, há conspiração, não amizade. Ou seja, o discípulo escolhe viver na condição de servidão ao Outro, do qual extrai um mais-gozar masoquista e sádico enrustido.

Evidentemente,A escravidão é mais dura do que a servidão [voluntária]. A servidão impõe um jugo; a escravidão um jugo de ferro. A servidão oprime a liberdade; a escravidão a destrói (LA BOETIE, p. 84 – rodapé). Mas, a escolha para ser discípulo, trata-se de uma servidão que não se dá conta de sua miséria intelectual e psíquica, pelo contrário, o discípulo obtém o seu ganho de gozo místico, ora deixando transparecer seu lado masoquista, ora escapando um ato sádico, com vantagem de não se sentir responsável por ambos.  

É na posição de servil que o discípulo extrai um ato de mais-gozar masoquista. Tal como observa Olgária Matos (1997), “servir é, portanto, fruto de um esforço”, isto é, um “querer não pensar. O contrário de servir é pensar. Não pensar não significa não querer pensar, mas querer não pensar”. O discípulo não quer pensar, porque implica em assumir ser sujeito. Seu esforço se concentra em apenas evitar o pensar próprio, e, ao mesmo tempo, acreditar que o “grande líder” – o Outro - tem o poder de pensar sobre tudo e por todos. Essa é a situação dos Zés ninguéns reichianos espalhados por esse mundo dos Homens, de Deus, e do Diabo.


__________

[1]  “Timeo hominem unius libri” Tomás de Aquino. .

[2] Outro, do francês Autre (escrito com “A” maiúsculo, chamado de “grande A” pela psicanálise desenvolvida por Jacques Lacan), é o lugar onde a psicanálise situa, além do parceiro imaginário, aquilo que, anterior e exterior ao sujeito, não obstante o determina. O Outro se distingue do parceiro imaginário, o pequeno outro (a), isto é, as identificações com os outros que constitui o seu eu.. O Outro é o ponto de articulação que está o Nome-do-pai, ou seja, o Outro é o significante enquanto lugar da lei, logo, ele se articula com o que é produzido a partir do Édipo, e, por isso mesmo, confunde-se com a ordem da linguagem. É a partir do Outro que o sujeito-não-sujeito fala e que ele deseja: o desejo do sujeito é o desejo do Outro;  (conhecida frase de Lacan). “No sujeito, o Outro não é o estranho ou a estranheza. Ele fundamentalmente constitui aquilo a partir do qual é ordenada vida psíquica, isto é, um lugar onde insiste um discurso que é articulado, mesmo que nem sempre seja articulável” (CHEMAMA, 1995, p. 156-7).

[3] REICH, W. Escuta Zé Ninguém. Santos: Fontes, 1974.

[4] O convicto está sempre convencido de sua verdade e, com ela, pretende convencer os outros. A convicção indica o aspecto intelectual de uma crença forte, mas deixa aberto alguma possibilidade de erro. É diferente da certeza do dogmático, que beira ao delírio psicótico.

[5]   Para compreender a mentira, sugerimos SAGAN, C. “A arte refinada de detectar mentiras” (cap.12). In: O mundo assombrado pelos demônios (1997). Esse capítulo, artigo está disponível na Internet.

[6] “O desejo implica um desvio ou uma perversão da ordem natural, o que torna impossível sua compreensão a partir de uma redução à ordem biológica”. Não confundir o desejo com necessidade – que é um conceito biológico – porque implica em satisfação corporal.  (GARCIA-ROZA, L. A.  Freud e o inconsciente. Rio: Zahar, 1984, ver cap. 7, “O desejo”, p.139-250). 

por RAYMUNDO DE LIMA

   

 

 

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico  

Referências

BAUDRILLARD, Jean. Para uma crítica da economia política do signo. São Paulo: M. Fontes, 1972.

CARVALHO, Alonso Bezerra. Educação e liberdade em Max Weber. Ijuí: Unijuí, 2004.

_______. Max Weber: modernidade, ciência e educação. Petrópolis: Vozes, 2005.

CHEMAMA, R. Dicionário de psicanálise. P. Alegre: Artes Médicas, 1995

GARCIA-ROZA, L. A.  Freud e o inconsciente. Rio: Zahar, 1984,

GUSDORF, G. Professores para quê? Lisboa, Moraes, 1978.

LA BOETIE, E. Discurso da servidão voluntária. São Paulo: Brasiliense, 1982.

MATOS, O. Filosofia: a polifonia de tudo para todos. São Paulo: Scipione, 1997.

REBOUL, O. A doutrinação. São Paulo: Edusp, 1980.

REICH, W. Escuta, Zé Ninguém. Santos, 1974.

SAGAN, C. O mundo assombrado pelos demônios. São Paulo: C. Letras, 1997.

WEBER, Max. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1982.

 

clique e acesse todos os artigos publicados...  

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2007 - Todos os direitos reservados