por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. É autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Confusão na livraria: 

Harry Potter e a mágica das escritoras latino-americanas

 

Era o dia 20 de julho de 2007, as 23:30 hs. De uma certa distância, eu já podia ver a multidão diante da livraria. E ouvia as suas vozes também. Quando cheguei mais perto, a primeira pessoa que eu vi foi Sor Juana Inés de la Cruz, a freira mexicana do século XVII que escreveu poemas e peças de teatro, e que depois se meteu em uma encrenca porque ousou escrever uma carta muito bem escrita a um padre, desafiando suas posições teológicas e seu conselho de que ela parasse de escrever coisas seculares e se concentrasse somente em temas religiosos.[1] Sor Juana, como ela é mais conhecida, estava batendo um papo com Fanny Buitrago, aquela engraçada escritora colombiana que escreve livros sobre sexo e amor e sobre como as mulheres gostam destas duas coisas, muitíssimo.[2] Fanny estava usando um vestido vermelho, e trazia uma bolsa plástica cheia de livros da poeta chilena Gabriela Mistral[3], assim como um violão, que ela mostrou a Sor Juana e disse que uma vez tinha pertencido à poeta e compositora Violeta Parra.[4] Outro grupo estava discutindo com a escritora Clarice Lispector, que nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras e disse que não se importava com isto, embora a Rachel de Queiroz tenha sido aceita, e hoje em dia a Nélida Piñón preside a Academia. Em uma mesa dentro da cafeteria da livraria, Alfonsina Storni estava tendo uma discussão com sua compatriota argentina Victoria Ocampo[5], enquanto Carolina Maria de Jesus e Marjorie Agosín tomavam um cafezinho e conversavam com a extraordinária Mercedes Cabello de Carbonera, a qual tinha nas mãos um livro de Lygia Fagundes Telles e perguntava a Carolina Maria o que ela achava do trabalho de María Luisa Bombal.[6] Em um outro canto da cafeteria, um grupinho havia se formado ao redor da cubana Lydia Cabrera, e discutiam as práticas de vudu no Caribe. Ao lado deste grupo, três poetas, Cora Coralina, Adélia Prado e Olga Savary conversavam animadamente sobre a natureza do sagrado na poesia, enquanto Cecília Meirelles tomava notas e sorria.

Estava ficando difícil identificar todas as escritoras! Os grupos se dissolviam, e suas participantes iam conversar com membros de outros grupos, tudo sobre literatura, como fazê-la, que diferença ela faz, o que significa ser mulher e escritora na América Latina, e como podem unir forças.

Enquanto isto, o pessoal de vendas da livraria estava trabalhando febrilmente tentando arrumar os estandes com o livro que ia começar a ser vendido exatamente à meia-noite. As livrarias do mundo inteiro esperavam vender milhares de exemplares durante a próxima semana, enquanto que o total de vendas esperado no mundo inteiro deveria atingir milhões de exemplares.

O relógio estava fazendo seu tic-tac, e a hora chegando mais perto e mais perto da meia noite. As crianças e adultos usando fantasias representando escritoras latino-americanas estavam ficando mais e mais animadas, mais agitadas. Como co-editora da enciclopédia que ia ser posta à venda à meia noite, eu não podia acreditar que havia tanta gente esperando ansiosamente pelo livro. Os vendedores dentro da livraria finalmente se aproximaram das portas de vidro. Um deles tinha uma chave, e abriu a porta. A multidão de compradores entrou correndo na livraria, e todos rodearam a primeira mesa coberta com cópias e mais cópias do livro.

Neste momento, mesmo de fora da livraria, eu pude ouvir o suspiro coletivo quando os compradores viram a capa do livro. Era Harry Potter and the Deathly Hallows, de J. K. Rowling, e não a Latin American Women Writers, an Encyclopedia que eles estavam esperando. Eles se voltaram para mim, desapontados, e perguntaram, “Por quê?”

Acordei. Era realmente o dia 20 de julho de 2007, e o livro que ia ser colocado à venda à meia noite era realmente o sétimo da série de Harry Potter, enquanto que a enciclopédia — com a qual eu trabalho há mais tempo que Rowling publica as aventuras do jovem bruxo Harry Potter — ainda está nas mãos do grupo editorial Routledge, que vai publicá-la no fim deste ano de 2007.

O que causou o meu sonho e a confusão entre uma enciclopédia acadêmica e o (suposto) último capítulo da história/companhia inventada por uma mulher que, de acordo com suas próprias palavras na sua página de internet, imaginou o menino bruxo enquanto viajava de trem em 1990?

Talvez a primeira coisa seja que 2007 é também para mim o fim de uma longa jornada com meu projeto. Em 1997, levada a princípio pela falta que eu via quando precisava material sobre escritoras brasileiras e sobre outras latino-americanas mais jovens, eu discuti com uma colega a idéia de escrever esta enciclopédia. Naturalmente há outros livros sobre a literatura de mulheres na América Latina, mas eles são mais restritos, e muitos deles mostram que seus autores não sabem que o Brasil é parte da América Latina, porque embora os títulos dos livros se refiram ao continente, ali não se encontra nem uma autora brasileira. Desde 1997, um ano antes que J.K. Rowling publicasse o primeiro Harry Potter, eu tenho publicado convites em jornais da área de literatura, feito muitas chamadas em conferências, explicando a idéia do projeto. Também troquei centenas de cartas, inicialmente, e depois de mensagens de email, à medida que o sistema ficou mais popular, com muitíssimos colegas de todos os países das Américas, e de alguns da Europa. Também li primeiras, segundas e terceiras versões de textos; tentei aprender a montar uma página de internet (e falhei); escrevi um pedido de assistência financeira do National Endowment for the Humanities para reestruturar a página de internet que minha segunda co-editora, María Claudia André, havia construído e colocado no site de sua instituição, a Hope College (a N.E.H. não nos deu os fundos); escrevi, juntamente com minha co-editora, dezenas de cartas a editoras, tentando conseguir um contrato para publicar a enciclopédia e, quando assinamos com Routledge, trabalhei centenas de horas com o time de editores/consultores lendo os textos e escrevendo minuciosas revisões dos textos para os colegas que contribuíram. Finalmente, no começo deste mês de julho, gastei 15 dias trabalhando 10 horas por dia lendo e corrigindo as provas do texto, minha última tarefa antes que os editores de Routledge mandem o texto para a produção. Nestes dez anos, tive momentos de grande alegria quando uma nova escritora nos foi revelada, ou quando uma colega escreveu um artigo sobre uma escritora de um século passado que está sendo finalmente descoberta e apreciada, ou quando outras escreveram seu primeiro artigo acadêmico para o projeto. Mas houve momentos em que a idéia do projeto parecia impossível, em que eu desanimava de conseguir publicar o livro, e até houve o momento em que duas pessoas me atacaram e insultaram, tentando causar dano ao projeto e à minha carreira profissional. (Infelizmente, algumas pessoas não admitem que outras tenham uma idéia antes delas, e fazem qualquer coisa para destruir aquilo que não podem possuir.) Mas o projeto seguiu e estas coisas negativas foram pequenas comparadas à grande alegria de ver o projeto completo com a ajuda indispensável da minha co-editora María Claudia André, e dos mais de 200 colegas que participaram. O dinheiro não é o nosso objetivo. A conclusão do projeto, e a divulgação da literatura das mulheres da América Latina são a nossa meta.

Rowling, enquanto isto, parece que se saiu muito bem. Pelo que tenho lido a respeito de sua vida, ela teve muita dificuldade antes de Harry Potter, mas desde a sua publicação, ela se tornou a mulher mais rica da Inglaterra (mais rica que a rainha, dizem), e foi nomeada oficial do Império Britânico. E como foi que ela ficou tão rica baseada neste grupo de personagens e nestes livros?

Eu não posso negar: eu também li o primeiro livro, depois o segundo, e depois o terceiro, enquanto morava no Japão e a narrativa era tão interessante que me fazia ficar tão entretida que várias vezes esqueci de descer na minha parada de trem durante minhas viagens diárias para ir ao trabalho na região de Osaka. Apesar do meu treinamento como professora de literatura, era divertido para mim poder ler os livros somente pela aventura, pelo simples prazer de ler, de seguir a história de Harry, Hermione e Ron em Hogwart, com os seus colegas, professores, e suas mágicas. Parece que a maioria dos fãs de Harry Potter lêem os livros desta mesma maneira. Mas, desde que voltei aos Estados Unidos, como aqui eu tenho que dirigir o carro para ir ao trabalho, não li mais nenhum livro da série, mas já vi vários dos meus alunos lendo Harry Potter.

Há alguns dias, na estação de rádio NPR (National Public Radio), durante uma discussão de Harry Potter e do enorme sucesso de Rowling, uma professora de inglês com uma atitude bastante esnobe telefonou ao programa e acusou a autora de algum tipo de crime, porque, ela disse, os livros não são tão bons como os de J. R. R. Tolkien (que escreveu O senhor dos anéis), ou de Charles Dickens (autor de muitos contos e de romances tais como The Pickwick Papers, The Adventures of Oliver Twist, David Copperfield, e muitos outros), e inclusive insinuou que não é certo que Rowling e “outras pessoas” estejam ganhando tanto dinheiro com os livros e os filmes.

Eu ri quando ouvi esta última “acusação,” e comparei o que Rowling supostamente ganhou com Harry Potter e o que eu ganhei com a enciclopédia que vai ser publicada em dezembro. Na verdade, comparando-se o que Rowling ganhou com estes sete livros e  tudo o que todas as escritoras da América Latina ganharam com todos os livros que elas publicaram nestes quatro séculos, Rowling ganhou talvez duzentas vezes mais que todas elas juntas.

E isto é necessariamente errado? Eu acho que esta não é a pergunta mais relevante.

O que Rowling conseguiu, com a série de Harry Potter, é uma coisa fenomenal para a história do livro na cultura ocidental. O fato de que uma geração inteira de crianças e jovens ficou interessada em ler um romance, e — ainda por cima — sete deles, já foi um grande feito. Em um tempo em que os jovens se dedicam mais a ver televisão e a jogar video games, é impressionante ver como tantos deles aguardavam ansiosamente a publicação de mais um livro contando a continuação das aventuras de Harry Potter e seus amigos. O fato que os personagens cresceram com seus leitores também foi um fator importante nesta relação e na lealdade dos leitores. E daí que os livros têm mágica? Basta lermos Gabriel García Márquez, ou Julio Cortázar, ou Horacio Quiroga, ou Guimarães Rosa, ou João Ubaldo Ribeiro, ou Lygia Fagundes Telles, ou Maria Clara Machado, ou mesmo Salmon Rushdie, entre tantos outros, para vermos que o uso de mágica é parte da melhor literatura, e os autores “canônicos” a utilizam livremente, de diversas maneiras. É verdade a mágica? É mentira? Este não é o ponto da questão, mas sim o que a mágica possibilita ao autor representar dentro do universo do romance, uma coisa que os autores que praticam ou praticaram o realismo mágico (como García Márquez ou Isabel Allende, por exemplo), sabem muito bem.

Mas, voltando à enciclopédia de escritoras da América Latina: depois de ler as mais de 800 páginas do manuscrito, eu posso dizer que as mais de 270 poetas, romancistas, dramaturgas e contistas que vêm de todos os países de fala espanhola, assim como do Brasil, tentaram, à sua maneira, conseguir coisas muito parecidas às quais Rowling tentou. Quando, por exemplo, Emília Freitas escreveu Rainha do ignoto, romance psicológico, em 1899, ela queria contar uma história, explicar uma filosofia, e chamar a atenção da sociedade brasileira para possíveis alternativas para a ideologia imposta a eles; quando Rosario Castellanos publicou Mujer que sabe latín em 1973, ela também queria documentar a situação das mulheres e ao mesmo tempo gravar o status dos homens e mulheres dentro da sociedade mexicana. Castellanos é a mesma que, antes, havia publicado o romance Balún Canán, o qual é visto, até hoje, como uma das defesas mais apaixonadas das populações indígenas da região de Chiapas, no México. Tanto as autoras consagradas como Rosario Castellanos, Lya Luft, Elena Poniatowska, Cecília Meirelles, Alfonsina Storni, Gabriela Mistral e outras, às mais jovens que recém publicaram os três livros requeridos para que pudessem aparecer na enciclopédia, todas estas autoras querem deixar a sua marca, falar como mulheres e como cidadãs do seu país, e como artistas, e como inventoras que usam a palavra para criar mundos ao mesmo tempo que registram o seu mundo.

É um assunto complicado indagar porque, mesmo que estas mais de 270 autoras possam ter escrito trabalhos melhores que a série de Harry Potter, elas não poderão jamais alcançar uma audiência do tamanho que Rowling alcançou. O público leitor reduzido da América Latina, o preço dos livros, a própria filosofia das casas editoriais, comparados à imensa máquina de promoção das editoriais inglesas, mais o alcance e a influência dos filmes para a continuação do interesse em todo mundo pelo destino dos personagens principais, tudo isto contribuiu para a fama da série. Mas não podemos descontar o gênio de Rowling, porque, afinal, o manancial de mitos e de histórias que ela usou construção do seu universo estão disponíveis a todos, mas só ela soube usá-los desta maneira. E, pensando bem, se ela fosse um homem, será que alguém estaria perguntando quanto dinheiro ela fez com estes livros? Alguém perguntou, por exemplo, a Mario Puzo, quanto ele ganhou com O Chefão (livros e filmes)? Uma vez Ken Kesey falava sobre seu livro One Flew Over the Cockoo’s Nest em uma conferência, e uma pessoa da platéia perguntou quanto ele tinha ganho com o filme. Kesey tomou um gole de um frasco que sempre trazia, olhou bem a pessoa, e respondeu, “Eu não faço idéia. E você não tem nada a ver com isto, afinal de contas”. Imagine se Rowling respondesse da mesma forma! Muito provavelmente, ela seria comparada às piores bruxas de Harry Potter.

Logicamente, como todos os que estamos interessados na carreira de mulheres escritoras, estou esperando para ver o que Rowling vai escrever em seguida, especialmente agora que ela é rica e pode escrever simplesmente pelo prazer de escrever. E, quem sabe, ela pode até já ter um projeto encaminhado, planejado. Enquanto isto, em algum lugar na América Latina, na África, na Ásia, na América do Norte, Austrália, Inglaterra, etc, uma jovem está lendo algum dos livros de Harry Potter e pensando, neste momento, que ela pode e vai escrever um livro também.

E aqui é onde Rowling se aproxima de cada uma daquelas centenas de mulheres escritoras da América Latina que aparecem na enciclopédia em que trabalhei por dez anos. O trabalho destas escritoras inspira aos que o lêem. Cada escritora encontra maneiras diferentes de expressar as ansiedades e as alegrias de seu tempo, da sua forma pessoal, com seu timbre artístico e humano. Poucas ficarão ricas ou famosas, mas todas, juntas, continuam avançando o imenso projeto de dar um espaço do qual todas possam falar, possam tornar conhecida a visão feminina do mundo.

Para nós, acadêmicos e professores de literatura de qualquer país, o incrível sucesso de Rowling atesta, primeiramente, o seu gênio de inventar, reinventar e usar, da sua maneira, enquanto capturando e mantendo a atenção do leitor por centenas de páginas. Se ela lucrou com os livros e direitos dos filmes, e se outros também lucraram com o lado puramente comercial da empreitada, não podemos esquecer o imenso lucro cultural e literário para o jovem leitor, que depois de ler os sete livros agora pode contá-los como algo que o iniciou/a iniciou no hábito da leitura, e que agora só precisa ser mantido pelos pais e professores com boas escolhas de outras obras literárias.

Tudo isto reverte, obviamente, para um ganho geral em termos de apreciação pela literatura e  pela leitura em geral. E alguém teria alguma coisa contra isto?

 

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[1] Existem muitos livros sobre Sor Juana, inclusive um de Octavio Paz, Sor Juana de la Cruz o las trampas de la fe (México: Fondo de Cultura Económica; 3ª. Edição;1995). Ela ficou esquecida por muito tempo, até ser recuperada no século XX. Para uma discussão preliminar da sua figura e sua obra e uma lista de outras fontes bibliográficas, ver http://oregonstate.edu/instruct/phl302/philosophers/cruz.html 

[2] Não deixe de ler especialmente Señora de la miel, um divertido melodrama ambientado em Colômbia e Paris.

[3] A chilena Gabriela Mistral foi a primeira mulher a receber o prêmio Nobel de literatura, em 1945.

[4] Violeta Parra, também do Chile, é a autora de jóias da canção latino americana como “Gracias a la vida,” e “Volver a los diecisiete.”

[5] Alfonsina Storni e Victoria Ocampo, ambas argentinas, foram contemporâneas. O campo é mais reconhecida pelo seu trabalho em prol das artes, Storni é considerada uma das maiores poetas argentinas do século XX.

[6] Marjorie Agosín nasceu nos Estados Unidos em 1955, filha de intelectuais chilenos. Passou a infância no Chile, e retornou aos Estados Unidos . Ela é poeta e também uma grande organizadora do trabalho de outras mulheres. Atualmente Marjorie Agosín mora e trabalha  nos Estados Unidos. Mercedes Cabello de Carbonera era peruana. Nasceu em 1845 e morreu em 1909. Seu livro mais conhecido é Blanca Sol. María Luisa Bombal nasceu no Chile em Via del Mar, Chile, em 1910, e morreu no Chile em 1980. Seu trabalho mais conhecido - El árbol, de 1939 — é freqüentemente usado em antologias, porque representa um momento de mudança no pensamento feminista latino americano.

 

 

 

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