por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

A destruição do nosso patrimônio histórico: o caso das estações de Maringá

 

O nome do lugar é Ágniram. Estamos no ano 2050.

De um planeta distante, chamado Ano 2007, chegam em uma máquina do tempo um grupo de pessoas cujo intuito é transformar Ágniram em uma cópia de, digamos, Londrina. Estas pessoas — vamos chamá-los de “jagunços arquitetônicos” — haviam sido banidas do seu planeta Ano 2007, e enviadas ao espaço sideral como castigo (qualquer semelhança com o filme do Super Homem não é mera coincidência). A arma usada para liquidar os “jagunços arquitônicos” foi o voto, uma arma muito poderosa, que os colocou fora de combate e os anulou, deixando-os sem forças, e assim as pessoas de bom senso conseguiram enviá-los para o espaço sideral do esquecimento.

Mas agora, no ano 2050, as pessoas viviam muito tranqüilas e esquecidas de onde Ágniram vinha, e o que a faziam ser Ágniram, e não Londrina, e não Ribeirão Preto, e não Caruaru, Jaú, Pelotas, Macapá, etc. Os “jagunços” chegaram com tudo: “Vamos remodelar a cidade e fazer um dinheirinho!” eles disseram entre si. “Ninguém vai nem perceber!”

E assim foi. Começaram derrubando a catedral de Ágniram, aquela que parecia um triângulo. Tinha uma certa fama no mundo, mas que importava? Aquele terreno seria  vendido por muitos milhões de reais, ou seja qual for o nome do dinheiro naquele tempo. Logo logo havia muitos prédios que pareciam caixotinhos, construídos no lugar. Os apartamentos foram vendidos muito bem. Os jagunços compraram fazendas no Paraguai.

Mas não ficaram satisfeitos. “Quem precisa de uma prefeitura? Ninguém está prestando atenção mesmo!” E assim foi. Derrubaram a prefeitura. Venderam os tijolos. Venderam o terreno também. Fizeram muito dinheiro. Compraram fazendas no Uruguai.

E daí, como ninguém estava prestando atenção ainda, resolveram derrubar o prédio Três Marias (que velho e feio!), o Hermann Lundgren (que desengonçado!), e mais todos os edifícios da Universidade de Ágniram (que cafonas!). E o estádio Willie Davis (que desperdício de espaço!). Foram destruindo, vendendo, enriquecendo. E daí, um do grupo — talvez o mais espertinho, ou o mais ousado — viu que o cemitério do Cerro Azul estava numa “área privilegiada,” e já que os moradores “não estavam utilizando,” e “nem sequer tinham renda comprovada,” e que afinal não podiam dizer nada, mandou as grandes escavadeiras, que foram abrindo buraco para um lago artificial, e uma área de lazer maravilhosa. À volta, construiu uma série de prédios de luxo, com apartamentos de 500 metros quadrados, que foram comprados por ricaços de outras cidades. A inauguração foi uma orgia total. Os jagunços, enquanto isto, com o lucro, compraram terras nos países vizinhos, mandaram dinheiro pra Suíça, fizeram grandes viagens internacionais com filhos, esposos, esposas, amigos, amigas, amantes, conhecidos, aderentes. Um até construiu um cemitério só pra ele, todinho de ouro, naquela confluência entre a avenida Brasil e a Avenida Getúlio Vargas, afinal, os grandes homens devem ser respeitados e homenageados de acordo. Ouro pode não encher barriga, mas brilha, heim?

E o povo? Todo mundo contentinho chupando sorvete! Do mesmo jeito que haviam feito no planeta 2007 quando a prefeitura de Ágniram, num toque de gênio, havia derrubado a última das estações históricas da cidade, e vendido o terreno para um grupo de “particulares” que “desenvolveu” o lugar, vendeu apartamentos, escritórios, lojas e butiques. O centro tinha ficado lindíssimo, e lembrava alguma outra cidade, mas ninguém tinha certeza do que era. Só teve um porém: ao ver sua cidade descaracterizada, o povo de repente se havia enfurecido, mas era tarde demais, porque os jagunços tinham conseguido seu intento, que era ganhar dinheiro, e a única coisa que os moradores de Ágniram de 2007 tinham podido fazer tinha sido chorar a perda da sua cara forjada no barro vermelho, e depois castigar os jagunços mandando-os ao esquecimento.

Mas agora, a história estava sendo repetida! E ninguém tinha aprendido com o erro do passado! E então, em bem pouco tempo, em um ano, no ano 2051, a cidade, antigamente conhecida como Ágniram, tinha virado um amontoado de caixotinhos, todos iguais. Na verdade, nem sequer parecia com Londrina, porque aquele cidade pelo menos tinha conservado seus edifícios históricos, suas estações, suas catedrais. Lá em Londrina tinha gente que entendia de patrimônio histórico e respeito. Mas agora, já Ágniram não parecia com nada. Ágniram não era nada.

Enquanto isto, o grupo de “jagunços”  no ano 2051, que já exigiam ser chamados “barões,” tomavam banho em banheiras cheias de leite de cabra, que dizem que é bom pra pele, pra remover as impurezas da cútis.

O povo chorava leite derramado, mas era tarde.

Quê? Fala sério!

“A memória, a história e a cultura de um povo podem ser preservadas em maquetes, fotos e acervos colocados em um belo museu, com custos infinitamente menores” — Leonel João Galacini, Engenheiro Civil – Maringá

The sites of memory are, in the proper sense of the word, crucial. They are crossroads. They are the points where space and time meet memory.

Os lugares da memória são, no sentido próprio da palavra, cruciais. Eles são uma encruzilhada.Eles são os pontos onde o espaço e o tempo Encontram a memória. – Søren Kolstrup, University of Aarhus, Dinamarca

Estamos em um momento de grave crise em Maringá. Não, não é nem crise financeira. É crise de inteligência mesmo. É crise de respeito. É crise de entendimento do que faz a nossa história. E, infelizmente, esta crise não é de hoje. Esta é a mesma crise que permitiu que o povo dormisse enquanto alguém decidiu destruir a antiga  estação ferroviária da cidade, e deixar um buraco em seu lugar. Agora, o ataque vai ser contra a estação rodoviária.

Mas por que devemos nos opor a esta medida que, de acordo com engenheiros e gente do status quo, vai melhorar o centro da cidade? Por que não nos calamos e deixamos que outros pensem por nós e decidam que o progresso e a ordem sigam seu caminho e limpem o centro e construam novos prédios no lugar? Por que não deixar que prédios de escritórios e apartamentos ocupem aquele espaço central da cidade, e que o velho prédio seja derrubado.

Por uma razão que pode parecer estúpida, que pode parecer não ter nada a ver com o progresso: a nossa história. Esta estação, que pode não ser uma maravilha arquitetônica, é parte da história de Maringá. O estilo pode estar fora de moda, assim como os castelos da Espanha ficaram fora de moda no ano 1492, quando os mouros foram expulsos, e já não era necessário ter castelos que funcionavam como fortes. Os espanhóis derrubaram os castelos e fizeram maquetes e fotos, como sugere o engenheiro Leonel que façamos com a rodoviária? Não. Eles conservaram os castelos, assim como conservaram os moinhos de vento séculos depois que os moinhos de vento deixaram de ser economicamente viáveis, porque os espanhóis sabem que aqueles moinhos, assim como  aqueles castelos, são parte da história do país, da cultura do país. Eles são parte da alma espanhola.

O prédio da estação rodoviária de Maringá pode ser “feio,” assim como são feias muitas das catedrais góticas européias. Aliás, elas também ocupam lugares centrais e importantes nas cidades, onde prédios de apartamentos conseguiriam milhões e milhões de euros. Mas as catedrais não são derrubadas. Elas são a marca do tempo, o registro da história. Elas são conservadas, mesmo quando “belas fotos” poderiam muito bem substituí-las. Perguntem a qualquer pessoa da Europa se ela quer esta substituição. A resposta será um não.

Alguém disse que o centro de Maringá, ao redor da rodoviária, está “infestado” de prostitutas. Da mesma forma as estações de trem nas partes centrais, especialmente no bairro de Ueno em Tóquio estiveram infestadas de prostitutas depois da segunda guerra mundial. As estações não foram destruídas: a situação social foi resolvida, as prostitutas conseguiram empregos dignos, e as estações foram reformadas, e existem até hoje. Mas as pessoas que vivem e viveram naqueles lugares tinham uma coisa que está faltando aos políticos maringaenses que se juntaram ao vagão dos bois de presépio e estão admitindo que se destrua a estação: perspectiva histórica, respeito pelo bem público. Aqueles japoneses depois da guerra, assim como muitos dos europeus de hoje,  talvez não tinham e não têm o número heráldico depois de seu nome, como nosso prefeito, mas eles tinham e têm consciência do valor da sua terra.

Qualquer um que passe pelo centro de Berlim vê as ruínas de edifícios que foram bombardeados durante a segunda guerra mundial. Eles estão preservados, e são parte do patrimônio histórico da cidade e, de fato, da própria humanidade. São o retrato do que aconteceu, e lembra aos alemães que eles devem fazer tudo para que não aconteça de novo. Em Auschwitz, continuam de pé os prédios do campo de concentração onde milhares de judeus foram mortos. São bonitos estes lugares? São bonitas as ruínas? De jeito nenhum? São horríveis, são tristes. Mas são como aquela cicatriz que marca por onde estivemos, o que fizemos, ou o que devemos evitar fazer de novo. São a marca da história e a história, como nos ensina Fredric Jameson, “é aquilo que dói.”

Então é caro manter o edifício da rodoviária? E por que não é transformado em museu? Ou em algum estabelecimento misto de lojas e salas de concerto, ou pequenos museus, para que o edifício se se auto-sustente? Por que não ver quais são as causas da prostituição no centro e atacar a raiz do problema, ao invés de utilizar isto como uma razão pra destruir o prédio.

Em inglês existe uma expressão que me parece muito boa – “to throw the baby away with the bath water” (“jogar o bebê fora junto com a água da banheira”) – que me parece aplicável neste caso. Se existem problemas em volta da rodoviária, então a solução é atacar os problemas, e não destruir a rodoviária. Houve um tempo em que uma situação semelhante acontecia no Parque do Ingá. Ele foi destruído? Não. O problema foi resolvido com policiamento, e com mais luzes na região do parque, etc, e, pelo que eu saiba, já não existe mais prostituição no parque.

Como maringaense, me entristece ver que a cidade está permitindo que um de seus marcos históricos seja destruído. Mas ainda há tempo! Será que não há suficientes cidadãos de consciência que se juntem para impedir que as máquinas comecem a derrubar a nossa história? Vamos ver. Se não existem tais cidadãos, então devemos começar mesmo a fazer a lista dos próximos edifícios e marcos a serem atacados, e talvez, em alguns anos, já não exista mais nem o lago do Parque do Ingá, porque está ocupando espaço que poderia ser utilizado em prédio$ e mai$ prédio$.

 

Bibliografia

Jameson, Fredric. The Political Unconscious; Narrative as a Socially Symbolic Act. Ithaca: Cornell University Press, 1981.

Kolstrup, Søren. “Space, Memory and Identity.” P.O.V. n. 8, dezembro 1999. Também disponível na rede em http://pov.imv.au.dk/Issue_08/section_2/artc5B.html

 

 

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