por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Quando uma língua desaparece

 

No ano passado, a imprensa americana deu a notícia de que alguns conservadores apontaram mais uma entre as muitas razões para não aceitar a passagem da nova lei de imigração que oferece um plano para que os que estão ilegalmente no país possam ter a oportunidade de se tornarem legais. Estão se referindo ao livro Who Are We – Quem Somos Nós, de Samuel Huntington (2004), segundo o qual, já que a maioria dos ilegais são falantes de espanhol, eles estão menos interessados em assimilação lingüística, e que, portanto, esta língua representa um  “perigo” para a língua inglesa.[1]

A reação de outros cientistas sociais e lingüistas a esta afirmação foi fazer pesquisas extensivas sobre a adaptação dos imigrantes, e como esta adaptação se reflete em termos lingüísticos. Rumbaut, Massey, e Bean, por exemplo, conduziram uma extensiva pesquisa em Los Angeles, San Diego, e no sul da Flórida, e chegaram à conclusão de que não só o espanhol não representa nenhum perigo para o inglês, mas que, na terceira geração, mesmo para os imigrantes de origem mexicana (o maior grupo de falantes de espanhol, e o que recebe constantes “influxos” do México), somente 5 por cento conservam o espanhol. Para os imigrantes de outros países latino americanos, a porcentagem é ainda menor. Mas, uma revisão rápida da literatura a respeito do assunto mostra que já em 2002 um grupo de pesquisadores havia estudado a sobrevivência do espanhol nos Estados Unidos, e chegado à mesma conclusão no trabalho “Only English by the third generation? — Apenas inglês na terceira geração?”

O que está acontecendo, então, com esta discussão sobre o “cerco” ao inglês por parte dos conservadores americanos? Que diferença faria para o país que alguém fale inglês, ou espanhol, ou francês, ou qualquer língua, dentro do país?

O problema, logicamente, vai para além da questão meramente lingüística pelo simples fato de que uma questão lingüística, por si só, envolve muitas outras, incluindo políticas, econômicas, culturais, e mesmo psicológicas. Para uma nação, uma comunidade, um grupo, a língua é a sua forma de se representar junto ao mundo. Quando a língua é usada, ela expressa toda uma maneira de ver, de sentir, de aprender. Quando uma língua desaparece, com ela desaparece todo um universo, porque o universo é, em parte, a maneira em que ele é visto.

Mas por que uma língua desaparece? Uma vez mais, a pesquisa lingüística nos ajuda a entender os fatores que intervêm no processo. David Beck e Yvonne Lam, da Universidade de Alberta, Canadá, estudaram um fenômeno que acontece entre os camponeses que vivem em duas aldeias no estado de Puebla, na localidade de Sierra Norte, no México. Os resultados estão publicados no artigo “Language Loss and linguistic suicide: A case study from the Sierra Norte de Puebla, Mexico — Perda da língua e suicídio lingüístico: o estudo do caso em Sierra Norte de Puebla, México,” e os autores fazem uma distinção interessante entre “perda de língua,” e “suicídio lingüístico.”

No primeiro caso, o que ocorre é que os indivíduos mais jovens de um grupo minoritário começam a utilizar a língua do grupo dominante. Já o denominado “suicídio lingüístico” ocorre quando os pais decidem não ensinar sua língua aos filhos, para ajudá-los a fazer uma adaptação mais rápida ao grupo dominante.

Se tomarmos por um momento estas duas explicações de como uma língua minoritária desaparece, e as aplicarmos, digamos, ao que acontece com o espanhol no sul dos Estados Unidos, vemos que o que aqui existe é uma combinação dos dois fenômenos.

Muitos jovens sentem “vergonha” de falar espanhol em público, e optam pelo inglês. Os pais, muitos dos quais têm que trabalhar muitas horas para sustentar a família, acabam não tendo tempo de facilitar aos filhos uma visão mais completa da riqueza cultural dos seus países latino americanos de origem.[2] Também, em muitos casos, os jovens não têm contato com a língua espanhola escrita, e muitos jamais lêem um romance ou uma poesia em espanhol. Ao serem circundados pelo inglês, e ao sentirem que para fazerem parte da sociedade de sua idade têm que se expressar em inglês, é compreensível que muitos destes jovens acabam abandonando o espanhol.[3]

Mas também existe o lado dos pais. Até 1966 o Texas tinha uma lei que proibia o uso de qualquer língua que não fosse o inglês na escola primária.[4] Muitas das pessoas originárias (especialmente) do México, se lembram de terem sido punidas durante a escola primária por falarem espanhol na escola. Com esta experiência negativa associada à sua língua, não é de se surpreender que, quando tiveram seus próprios filhos, decidiram que iam falar com eles somente em inglês. Este é o suicídio lingüístico: não é que a língua mesma se suicide. Tal seria impossível, já que uma língua vive nos falantes. Eu preferiria mudar este termo para “morte” de uma língua. Os falantes que abandonam sua língua nativa estão cometendo, eu creio, um suicídio cultural, enquanto matam a sua língua quando não dão aos seus filhos a oportunidade de aprendê-la.

Estes dois fenômenos não se restringem aos falantes de espanhol. Todos os imigrantes que vieram de países com língua não inglesa passaram pela mesma situação. Uma possível exceção teriam sido os cubanos que chegaram aos Estados Unidos depois da revolução e Fidel Castro.

No caso deles, houve um fator muito importante, e as conseqüências lingüísticas e pedagógicas da sua presença nos Estados Unidos ainda não foram completamente estudadas, porque continuam em processo. Qual é e como se explica a diferença?

Inicialmente, devemos lembrar que a grande maioria dos primeiros exilados de Cuba consistia de pessoas de alto nível econômico e educativo. Adicionalmente, a própria história de Cuba, na sua luta para obter sua libertação da Espanha (o que só aconteceu em 1898), criou um alto nível de patriotismo e de orgulho pela língua e pela cultura. Ao chegar aos Estados Unidos, aqueles primeiros exilados não admitiram que seus filhos perdessem sua língua. Mesmo porque, convém lembrar, Cuba fica muito perto dos Estados Unidos, e grande parte destes exilados planejava voltar à ilha o mais rápido possível. Os Estados Unidos — ou a Flórida, para ser mais preciso — era somente um lugar de onde eles voltariam.

Como evitar que seus filhos fossem convertidos em falantes somente de inglês? Muito simplesmente, a comunidade cubana propôs e lutou para a instalação do que se chama hoje o “ensino bilíngüe”. Desta maneira, aqueles pais abriram caminho para que seus filhos aprendessem o inglês ao mesmo tempo em que continuaram em contacto com sua língua materna, mesmo fora de casa.

Embora a questão do ensino bilíngüe esteja longe de ser completamente aceitada e aceitável, este esforço da comunidade cubana pelo menos garantiu que se “descriminalizasse” o espanhol. Já as demais línguas simplesmente não contam com suficientes professores capacitados no nível primário para garantir que os estudantes sejam alfabetizados na sua língua do lar. O que muitas comunidades fazem é oferecer cursos aos sábados em igrejas, em centros comunitários e clubes.

Assim, por exemplo, em San Antonio, no Texas, uma igreja budista tem aulas de mandarin, uma igreja metodista tem aulas de thailandês, uma sinagoga tem aulas de hebreu, e assim por diante. O que estes grupos de pessoas estão tentando fazer é manter pelo menos traços da língua do país de origem dos pais nos seus filhos, com a esperança que eles continuem estudando, falando, praticando, e se aprofundem na cultura também. Não sei se em outras partes do país existem tais iniciativas quanto ao espanhol, mas em San Antonio, talvez exatamente porque a cidade se crê bastante hispana, não existe esta preocupação em oferecer aulas. Existe outras atividades culturais, como balé folclórico, festas especiais durante o ano, e um centro comunitário chamado Esperanza, que se dedica à comunidade hispânica. Quanto ao português, não há nenhuma iniciativa formal em San Antonio, mas em Austin, cidade a 80 milhas ao norte, e capital do estado, existem várias atividades coordenadas pela Universidade do Texas em Austin.

E no Brasil? Como está esta situação dos descendentes de falantes de outras línguas?

Antigamente, se dizia no Paraná que nós tínhamos uma cidade em que todos só falavam japonês, Uraí. Jamais pude verificar a veracidade de tal afirmação, mas imagino que, especialmente com a presença constante de rádio e televisão, todos os falantes de japonês já falam português. Como uma das razões pelas quais os pais tentam conservar a língua de origem é o percebido status do país de origem, e até a metade dos anos 70 o Japão ainda era considerado um país pobre, muitos pais de origem japonesa fizeram como os camponeses de Sierra Norte, e não ensinaram o japonês para seus filhos.[5] Qual é a situação dos outros grupos de imigrantes no Brasil? Os netos e bisnetos de alemães ainda sabem falar mais que algumas palavras em alemão? Os descendentes dos sírios, dos libaneses, e outros, ainda falam árabe? Não tenho conhecimento de pesquisa lingüística aprofundada sobre o assunto, mas imagino que, assim como os descendentes dos indígenas acabam perdendo sua língua e só mantêm alguns traços da cultura, o mesmo acontece com os descendentes dos imigrantes europeus vindo de países de língua não portuguesa.

E isto é ruim? Ou é bom? Como a nação é afetada pela existência de várias línguas dentro de seu território? Ou, seguindo a inspiração dos conservadores americanos, não seria preferível mesmo que todos falassem só a língua nacional, pra evitar problemas? Ou será que a existência de muitas línguas não necessariamente afeta a unidade nacional ou a língua nacional?[6]

Logicamente, estas são perguntas extremamente complicadas, e difíceis de responder. A primeira consideração é que ninguém vive tempo suficiente para ver mudanças lingüísticas tão marcantes que redundem na perda total de uma língua ou em mudanças tão radicais dentro dela que a transformem em outra. Estas mudanças levam gerações, e, por isto, é muito pouco o que um indivíduo, sozinho, pode fazer. Eu sou da opinião que é uma grande perda quando um grupo deixa de falar uma língua, porque todas as línguas são perfeitas, e cada uma delas reflete não só uma gramática, um léxico, mas uma maneira completamente sua de ver e representar o mundo. Existe, além deste lado digamos mais espiritual e cultural, um lado histórico no caso de todas as línguas (de onde vieram, quais mudanças tiveram, como se adaptaram), e um lado comercial, no caso das línguas das nações com as quais o país tem relações de negócios, além de um lado de preservação ecológica mesmo, no caso das línguas indígenas. Um país como o Brasil ganharia muitíssimo se tivesse um grande contingente de falantes das várias línguas européias e asiáticas e do oriente médio, por exemplo. E teríamos ao nosso alcance o conhecimento milenar dos indígenas, que mais facilmente contribuiriam para o entendimento do ecossistema das diferentes regiões do Brasil. Seria o caso de o Brasil começar a fazer um esforço sistemático para a recuperação e manutenção destas línguas, especialmente as indígenas, que não têm sistema escrito. Tais iniciativas não são novidade, e muitas vezes dependem da necessidade histórica de um determinado momento histórico. Os Estados Unidos, por exemplo, empregou os chamados “Navajo Code Talkers — Faladores do código Navajo” durante a segunda guerra mundial, para evitar que os nazistas decodificassem as mensagens que eram mandadas para a frente de batalha.[7] E, especialmente depois de 2001, está tentando incentivar o estudo de línguas que são consideradas “estratégicas”, especialmente o árabe.[8] Seria um grande avanço para o mundo todo que todos os países incentivassem o aprendizado de outras línguas para a paz. E a melhor maneira de garantir que um país tenha contingentes de pessoas fluentes em outras línguas é através da transmissão generacional, de pais para filhos.

Mas a pressão para que as pessoas descendentes de estrangeiros se conformem à norma geral é muito grande. A questão dos falantes das línguas indígenas é ainda mais dolorosa, porque em muitos casos as comunidades perderam sua língua, sua cultura, e se transformaram em cidadãos de segunda categoria, perdidos num abismo em que o que eles representam é homenageado através de fórmulas que eles não controlam, enquanto que eles mesmos são espezinhados e maltratados.[9] E nem sequer têm um país soberano ao qual se referir para que seus filhos e netos saibam de onde vieram.

Em termos práticos, cada país perde em capital humano e cultural cada vez que os netos de imigrantes perdem o contacto com a língua dos antepassados. Como pode um país assegurar-se que esta perda não ocorra? Primeiramente, os dirigentes políticos de cada país precisam conscientizar-se que falar mais que uma língua não diminui o patriotismo de ninguém, e nem diminui a sua capacidade de expressar-se na língua nacional. Pelo contrário: as pessoas que dominam bem duas ou mais línguas nas três formas (ler, falar e escrever), têm um vocabulário mais rico, e desenvolvem mais formas de expressão nas duas línguas. Naturalmente, os dirigentes de todos os países sabem muito bem disto, porque se tal não fosse o caso, as escolas de línguas seriam proibidas. Mas o problema é que as escolas de línguas são caras, e somente os filhos das classes mais ricas (ou as pessoas excepcionalmente talentosas para aprender línguas) acabarão falando fluentemente outras línguas.

O que os governos de todos os países precisam, eu acho, é de certificar-se de um excelente ensino da língua nacional ao lado de ofertas de ensino de várias outras línguas já na escola primária, para que os jovens estudantes comecem, desde cedo, a aprender. Também seria uma grande ajuda se o próprio governo incentivasse os recém chegados a compartilharem a língua e a cultura do seu país de origem com seus filhos, netos, e com a comunidade onde vive. Embora estas medidas, em si só, não possam garantir menos conflitos no mundo, eu creio que o respeito por pessoas que falam outras línguas mais o conhecimento de outras línguas, e um entendimento de outras culturas, facilitariam em muito o diálogo entre pessoas e nações diferentes.

 

__________

[1] Este livro foi severamente criticado por seus excessos, sua xenofobia, e, acima de tudo, a falta de fé do autor no próprio espírito formativo dos Estados Unidos, um país que, em seus anos formativos, aceitou a contribuição de muitos grupos imigrantes. Ver, na página de Amazon.com, as resenhas que apareceram em Publishers Weekly, e no Washington Post.

[2] Este é um fenômeno que ocorre com grande freqüência, especialmente quando os pais emigram por razões econômicas. Os que se mudam a outro país por razões políticas tendem a tentar manter mais a língua e a cultura do país de origem.

[3] Mesmo no sul do Texas, região com uma grande predominância de falantes do espanhol, é muito comum que pessoas no comércio, quando são interpeladas em espanhol, respondem em inglês. Esta é uma indicação de que, para muitos, o espanhol se transformou em uma língua da família, e não da sociedade.

[4] Ver o excelente artigo de Joseph Rodriguez, “Becoming Latinos — Tornando-se Latinos”, em que ele discute a situação dos recém chegados e sua luta com o sistema educacional americano, e com os professores que continuavam punindo as crianças que falavam espanhol entre si, na escola.

[5] Uma das conseqüências desta escolha se vê hoje na situação dos dekassegui que chegam ao Japão e são severamente discriminados porque, embora sejam etnicamente japoneses, não falam a língua, e sabem bem pouco da cultura.

[6] O inglês não é a língua nacional dos Estados Unidos, pela simples razão de que não existe tal lei na constituição americana. Muitos debatem este fato, as suas razões, e implicações, mas é compreensível que os fundadores da nação, como sabiam que muitos dos residentes falavam outras línguas além do inglês, não queriam aliená-los da tarefa da fundação nacional. Por outro lado, há países com mais de uma língua nacional, como é o caso, por exemplo, do Paraguai, em que o espanhol e o guarani são as línguas oficiais.

[7] No dia 12 de abril de 2000, o senado americano iniciou um ato especial de homenagem a estes “faladores” Navajo, por sua ajuda ao país durante a segunda guerra mundial, e porque, através deles, muitas vidas foram salvas. O ato foi tornado oficial em  18 de junho de 2002.

[8] Houve um tempo em que a lingual estratégica era o russo. Em outros, o alemão e o japonês. As razões são óbvias.

[9] Aqui eu me refiro especificamente aos indígenas brasileiros, cultuados como Ubirajara, Iracema, Peri, e outros heróis do romantismo brasileiro, verdadeiros cavalheiros medievais metidos nas florestas do Brasil. Os verdadeiros indígenas não se reconhecem e nem são reconhecidos nestas figuras. Uma das cenas mais patéticas que já vi no Brasil foi de um grupo de “índios” amontoados na rodoviária de Londrina no ano de 1990, numa noite de inverno. Eles não tinham roupas adequadas, estavam sujos, cansados, e todos tinham ares de fome. A multidão os olhava como se fossem bichos do mato, enquanto que um policial armado os guardava. A informação que obtive foi que eles estavam sendo levados para algum lugar no Mato Grosso. A mando de quem? Para fazer o quê? Ninguém sabia. Nos olhos daqueles pobres indivíduos—umas 3 famílias—se via o medo. Somente o medo. Esta era a sua recompensa por entrar na nacionalidade brasileira. Não soube jamais o que aconteceu com eles. Mas sei que por exemplo em Rondônia, na cidade de Jari já não existe nenhum índio da tribo Jari. Ninguém sabe, ninguém viu.

por EVA PAULINO BUENO

 

 

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Referências

Alba, Richard D., John Logan, Amy Lutz, and Brian Stults. “Only English by the third generation? Loss and preservation of the mother tongue among the grandchildren of contemporary immigrants.” Demography 39 (3), (2002): 467-484.

Huntingdon, Samuel P. Who Are We? The Challenges to America’s National Identity. New York: Simon and Schuster, 2004.

Rodriguez, Joseph A. “Becoming Latinos: Mexican Americans, Chicanos, and the Spanish Myth in the Urban Southwest . The Western Historical Quarterly, Vol. 29, No. 2 (Summer, 1998), pp. 165-185

Rumbaut, Rubén G., Douglas S. Massey, Frank D. Bean. “Linguistic Life Expectancies: Immigrant Language Retention in Southern California.” Population Council, 2006.

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