por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Aventura na catedral Nossa Senhora da Glória

 

Foto da autoraNo livro La construcción de las catedrales medievales, o pesquisador Percy Watson diz que os trabalhadores nestas construções eram muito orgulhosos e zelosos dos detalhes da profissão. Watson inclusive diz que existe uma canção folclórica francesa que conta a história de um cavalheiro que foi morto a pauladas pelos pedreiros da catedral, porque os estava espionando, fingindo falar com eles enquanto aprendia seus segredos.

Felizmente, nada assim aconteceu na construção da nossa catedral Nossa Senhora da Glória em Maringá. O que nós que morávamos em Maringá na época sabíamos, é que ia sendo construída, vagarosa mas constante a nossa catedral, ficando cada vez mais alta, ultrapassando o prédio humilde da antiga catedral, que um dia foi derrubado.

Quem tirou fotos destas fases da catedral? Todas as que existem disponíveis para o público são fotos “oficiais”. Isto não quer dizer que nós não estávamos orgulhosos com a gradativa subida do prédio. Simplesmente, naqueles tempos quase ninguém tinha uma máquina fotográfica em casa, e mesmo os que tinham, sabiam que o filme era caríssimo, e a revelação ainda mais cara. Para a maioria de nós que vivíamos em Maringá durante a construção, o que temos é a imagem mental.

E há muitas imagens mentais, nem todas visuais. É possível que cada um de nós se lembra de algo específico, acontecido ao redor do prédio, à sua sombra, do seu lado, e mesmo dentro. Outros têm lembranças em que a catedral aparece quase como uma pessoa amiga que esteve com eles durante a infância e a juventude. E não é para menos: a história da catedral Nossa Senhora da Glória está indelevelmente conectada com a história dos primeiros anos da cidade de Maringá. O primeiro bispo, Don Jaime Luiz Coelho, chegou à cidade em 24 de março de 1957. E ele chegou com planos: em pouco mais de um ano, precisamente em 15 de agosto de 1958, se lançava a pedra fundamental da nova catedral. Quantas pessoas que assistiram a este acontecimento ainda estão vivas, e morando em Maringá? Talvez não muitas. Mas muitas são as que estiveram presentes nos 14 anos que levou a construção para ser terminada, e, embora já estivesse sendo usada anos antes, ela foi inaugurada oficialmente em 3 de maio de 1981.

Em comparação com as catedrais góticas da Europa, ou mesmo com a Sagrada Família de Barcelona, que está em construção desde as primeiras décadas do século XX, 14 anos não é um tempo muito grande. De fato, é bem pouco, mas pode parecer muito mais quando lembramos que Maringá, afinal, passou de uma pequena cidade de umas quantas mil pessoas nos anos sessenta para uma metrópole regional nos anos noventa.

Alguns de nós que conhecemos Maringá desde o tempo em que a única via pública asfaltada era a avenida Brasil, em que o único edifício com elevador era o Três Marias, achamos que a cidade cresceu rápido demais. Uns reclamam que sentem saudade de quando havia carroças nas ruas, inclusive aquelas charretes que carregavam as prostitutas coloridas e sorridentes, ouro na boca, e grandes decotes nos vestidos estampados. Também já ouvi de pessoas que dizem que sentem falta do tempo em que a catedral estava em construção.

Logicamente, este é o preço de viver num lugar em que tudo aconteceu e acontece tão rápido. Mas, a não ser pela ausência do antigo prédio da estação ferroviária (que só foi destruído pela sanha burra de alguém que não entende nada de preservação do patrimônio histórico), o centro de Maringá ainda tem um crescimento orgânico dentro do plano inicial da cidade. E é dentro deste plano que se destaca a catedral, com suas linhas arrojadas, saídas da inspiração de Dom Jaime e do lápis do arquiteto José augusto Bellucci.

Como até nos leigos em arquitetura podemos ver, nossa catedral tem alguma coisa em comum com os edifícios de Brasília. Mas para nós, estudantes do antigo colégio Gastão Vidigal, localizado logo atrás da catedral até os finais dos anos sessenta, que importava com que outros edifícios ela se parecia? Aliás, nós nem sequer sabíamos direito como eram os planos do arquiteto. As meninas que estudávamos no horário da tarde, sabíamos que muitos dos operários assoviavam para nós quando passávamos por ali. Sabíamos que na frente da catedral estava o Hotel Bandeirantes, onde só gente muito rica se hospedava. E sabíamos que logo ali estava a praça, onde nos encontrávamos com amigos e colegas depois da aula. Já dizíamos: “me encontre na frente da catedral a tal hora”. Mesmo antes dela existir como tal, já era nossa catedral. Não nos importava que fosse terminada. Era a nossa catedral.

Houve um tempo, por volta de 1972, quando a construção pegou ritmo. Nesta ocasião, eu trabalhava como repórter na Folha do Norte do Paraná. Um dia meu chefe, o Antônio Augusto de Assis, me chamou no seu escritório e me perguntou se eu tinha medo de alturas. Como qualquer jovem de 19 anos, eu não tinha medo de nada, e assim me pronunciei. O Assis me perguntou se eu queria ir visitar a catedral, e escrever sobre ela. E quem resistiria a tal desafio?

Em meia hora, eu e o fotógrafo estávamos nos pés da catedral, conversando com o mestre de obras, que nos deixou subir no elevador externo, até o ponto em que a cruz ia ser colocada, naquele dia. Subindo por aqueles andaimes, de repente eu percebi a altura do prédio. Não deu tempo de ficar com medo: logo chegamos ao topo, e eu conversei com alguns operários que estavam terminando a base para a cruz. Eles foram muito gentis comigo, disseram que estavam muito contentes porque hoje iam ajudar a colocar a cruz. Eu perguntei se queriam dizer alguma coisa ao povo de Maringá (naquele tempo a gente perguntava estas coisas), e só um operário mais idoso me disse que estavam agradecidos da minha visita, e esperava que eu me casasse na catedral um dia. Todos rimos, e eu me despedi, e eles agradeceram minha visita.

De volta no jornal, já recuperada do medo, escrevi sobre a experiência. Hoje, lamento não ter sabido o nome daqueles operários que construíram nossa catedral. Aqui fica minha homenagem e o meu obrigado por terem sido tão cavalheiros num momento tão memorável. E, lembrando a história dos pedreiros da idade média, meu agradecimento vai por eles não terem se vingado da minha ousadia naquele dia, quando a cruz foi trazida por helicópteros. Hoje, cada vez que vou a Maringá, eu olho a catedral e me lembro daquele dia, assim como dos muitos outros em que este edifício foi parte importante da minha própria história.

 

 

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