por RUDÁ RICCI

Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais. Coordenador do  Instituto Cultiva, Professor da  Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais/Brasil e membro do Fórum Brasil do Orçamento

 

 

 

Bush and Push

 

1. A diplomacia do empurra-empurra

Após anos de quase absoluto descaso com a América Latina, o presidente Bush organizou um tour pela região, definindo interlocutores e agenda de acordos bilaterais. Os acordos bilaterais, inclusive, passam a sofrer certa inflexão na medida em que houve uma sinalização para toda a região.

Os motivos desta viagem são óbvios: a vertiginosa queda de popularidade de Bush nos EUA e sua derrota no Congresso Nacional, em virtude de sua idéia fixa de ataque e ocupação do Oriente Médio e o avanço acelerado da liderança de Hugo Chávez em toda região, além da vitória progressiva das forças políticas de esquerda nas últimas rodadas eleitorais do continente.

A viagem de Bush procurou criar uma alternativa política e econômica (leia-se, alternativa de fonte energética) para os EUA. Não por outro motivo, diversos analistas compreenderam que suas negociações no Brasil (8 e 9 de março) foram as mais importantes. Com Lula, Bush acordou um plano de expansão na produção de etanol a partir da cana-de-açúcar. Este acordo acena para uma tentativa de cerco ao poderia energético da Venezuela de Hugo Chávez. Bush assinou um pacto de cooperação sobre etanol com o Brasil, pelo qual os países se comprometem a promover o acesso e a produção do biocombustível na América Central e no Caribe, como alternativa ao petróleo. O Brasil é o maior produtor de etanol do mundo. Com o acordo com os EUA, os dois países passam a controlar 72% da produção mundial. Contudo, a produtividade brasileira é cinco vezes superior à dos EUA (produz etanol a partir do milho, afetando o preço da ração animal). O acordo firmado revela com nitidez o pragmatismo do lulismo. Em fevereiro, um manifesto assinado por vários movimentos sociais latino-americanos criticava o modelo de produção de bioenergia que adota o mesmo modelo de opressão secular sobre os trabalhadores. O manifesto destacava que o acordo do etanol é uma fase da estratégia geopolítica dos Estados Unidos para debilitar a influência de países como Venezuela e Bolívia na região.

Em seguida, no Uruguai (onde Bush ficou por 36 horas), vários acordos comerciais que já vinham sendo esboçados nos últimos meses, foram assinados. O Uruguai, inclusive, vem procurando tirar vantagens (e conseguido) desta aproximação do governo dos EUA, para fortalecer seus interesses no Mercosul. O presidente Tabaré Vázquez agradeceu publicamente a ajuda de 1,5 bilhão de dólares recebido dos EUA em 2002, durante a crise financeira uruguaia.

Colômbia é seu terceiro destino. O governo de Álvaro Uribe é parceiro antigo dos EUA. É, possivelmente, o governo mais favorável à Bush em toda América Latina. 

Sua viagem ganha contornos mais fortes e dramáticos na Guatemala (onde as eleições nacionais que ocorrerão em setembro apontam vitória do Prêmio Nobel, Rigoberta Menchú, opositor aos EUA) e México (onde existe forte instabilidade política).

Sintomaticamente, Hugo Chávez planejou viagem pela região no mesmo período. Esteve na Argentina, participando de comício contra a presença de Bush na América Latina (que contou com a presença do presidente Néstor Kirchner) seguiu para a Bolívia para visitar os desabrigados pelas recentes inundações.

Hugo Chávez no encalço de Bush

A política diplomática do empurra-empurra, em suma, alcançou a América do Sul. Já havia sido desenhada em anos anteriores, quando da criação do Nafta e do lançamento da criação da ALCA. Naquele momento, a ação diplomática dos EUA impunha a estratégia do 3 + 1, ou seja, cada país latino-americano aderia ao Nafta (composto por EUA, Canadá e México), se submetendo às suas regras, até a conformação final da ALCA. A política fracassou, como sabemos.

Neste giro regional, Bush procura recupera o tempo perdido e utiliza armas similares às de Chávez, que compra títulos de dívida da Argentina e Paraguai, estabelece políticas de cooperação agressivas na América Central e propõe a criação de Banco do Sul, Títulos Públicos da América do Sul e empresas estatais inter-regional de setores estratégicos.

Em artigo recente, cujo título é La Gira del Etanol, Raúl Zibechi sugere que se desenha na região um projeto geopolítico armado por Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura no primeiro governo Lula. Afirma o autor neste artigo:

Si consideramos que la actual coyuntura que vive la región es sumamente delicada es porque puede producirse una inflexión de larga duración que afectará tanto a los pueblos como a los gobiernos de izquierda.  Hilando fino, el problema no es ni Bush ni Estados Unidos.  Ellos hacen su juego, como siempre lo hicieron. Con el proyecto del etanol emerge una nueva-vieja alianza: la de las elites globales, que se expresa en algunos gobiernos de la región.

Entre los principales promotores de la Comisión Interamericana de Etanol, lanzada en diciembre, figuran dos personajes claves: Jeb Bush, ex gobernador de Florida, a quien muchos acusan del fraude electoral que facilitó el acceso de su hermano a la presidencia en 2000, y el brasileño Roberto Rodrigues, presidente del Consejo Superior de Agronegocios de San Pablo y ex ministro de Agricultura en los primeros cuatro años del gobierno de Lula.

2. Cada pais uma sentença

O importante é que Bush parece tentar explorar as diferenças políticas entre países da América Latina, enquanto Chávez procura trabalhar a construção da unidade a partir da identidade política focada no anti-americanismo.

O roteiro da viagemPara James Petras a região está dividida em quatro blocos, o que remete a dificuldade real para consolidação de uma estratégia comum, gerando maior probabilidade da estratégia de Bush obter mais sucesso que o pleito pela unidade ideológica de Chávez.

Segundo Petras, em artigo publicado no site www.rebelion.org (America Latina: cuatro bloques de poder), os quatro blocos revelam graduações de oposição ou aproximação de governos locais com o governo Bush. Petras sugere a seguinte classificação:

1. Esquerda Radical: composta pelas FARC colombianas; pelos setores sindicais e movimentos rurais e de bairros da Venezuela; pelo MST e a central sindical CONLUTAS brasileiros; setores da Confederación Obrera Boliviana; setores do movimento indígena da CONAIE equatoriana; movimentos indígenas e camponeses de Oaxaca, Guerrero e Chiapas mexicanos; setores da esquerda do Peru; setores sindicais e de desempregados (os piqueteros) argentinos. São setores fundamentalmente antiimperialistas, que se opõem ao pagamento da dívida externa, quase sempre nacionalistas;

2. Esquerda Pragmática: que incluiria Hugo Chávez, Evo Morales e Fidel Castro. Envolveria, ainda, uma multiplicidade de partidos (como o Partido Comunista chileno) e os principais sindicatos e centrais sindicais da América do Sul e da América Central, setores do MST brasileiro, do MAS boliviano, a CTA argentina e a minoria da Frente Ampla uruguaia. Petras sugere o pragmatismo em virtude de não mobilizarem contra a exploração capitalista, nem contra a dívida externa ou ruptura de relações com os EUA. Petras avalia que a retórica de Chávez não corresponde à realidade política. Sustenta que Chávez seria moderado se não fosse hostilizado constantemente pelo governo dos EUA;

3. Neoliberais Pragmáticos. Petras avalia ser o mais numeroso bloco política e envolveria Lula e Kirchner. Seriam os principais líderes do que denomina de oposição liberal de esquerda que se encontra no Equador, Nicarágua e Paraguai. Sustenta que os expoentes deste bloco pregam o pagamento obrigações oficiais com a dívida, buscam estratégias de crescimento mediante a exportação de minerais e produtos agrícolas, aumentam o lucro empresarial e do sistema financeiro, reduzindo os salários. Este bloco apresentaria diferenças. Kirchner conduziu uma taxa de crescimento maior que a conquistada por Lula em virtude de sua estratégia de defesa da indústria nacional;

4. Elite Neoliberal Doutrinária. São setores sociais e partidos que seguem sem restrição a estratégia dos EUA. Destacam-se os governos de Felipe Calderón (México), Michelle Bachelet (Chile), Alan García (Peru) e Alvaro Uribe (Colômbia). Todos governos propõem uma agressiva política de privatizações de empresas públicas, são exportadores de commodities e recebem auxílio direto do governo norte-americano.

É possível identificar uma outra classificação dos países da região em virtude de sua recente história econômica e social.

No caso do Uruguai, assediado pelos EUA e que vem promovendo abalos no interior do Mercosul, o êxodo de jovens é uma das facetas da situação dramática por que passa o país. Em 2004, mais de seis mil jovens saíram do país em busca de oportunidades de trabalho. Em 2005 foram quase oito mil jovens embora. Em 2006, mais 17 mil uruguaios migraram para outros países. Neste período, o crescimento do PIB foi o menor de toda história do país.

O economista Nildo Ouriques, da Universidade Federal de Santa Catarina, sugere uma análise detalhada, que revela diferenças significativas dos governos da região. Destaca o que denomina de nova esquerda, composta por Evo Morales, Rafael Correa, Néstor Kirchner, Hugo Chávez e a liderança peruana Ollanta Humala.

Lula é classificado como da velha tradição, de natureza eurocêntrico, cuja concepção não se baseia na história da América Latina, na compreensão da região. Por este motivo, sugere que PT e PSDB possuem as mesmas metas estratégicas, não havendo qualquer indicação de mudança qualitativa na estrutura da economia e da política do país.

Evo Morales, Kirchner, Chávez e Humala emergem do fracasso das políticas neoliberais, capitaneadas por Menem, Carlos Andrés Pérez, Fujimori.

Rafael Correa, do Equador se destacou em seu país no início de 2001. Foi um dos principais líderes do movimento pelo fim da dolarização da economia. Era ministro e foi derrubado. Sua principal bandeira no momento, além da independência frente aos interesses norte-americanos é a unificação do congresso (organização unicameral, eliminando o Senado).

Evo Morales lidera uma população indígena que significa mais de 60% do total de cidadãos bolivianos. A Bolívia é o país que mais enfrentou golpes militares na América Latina. Em 1994, foi iniciada uma vaga de privatizações de empresas estatais, denominada de capitalização, envolvendo gás, petróleo, estanho, níquel. Este é a motivação para o discurso nacionalista radical.

Kirchner, por seu turno, emerge a partir da profunda crise econômica e social que se abateu sobre a Argentina a partir do governo Menem. Faz-se como liderança nacional em meio à rebelião popular que explodiu em 2000, gerou assembléias populares em bairros de Buenos Aires, colocou nas ruas os piqueteros que lideraram passeatas em muitas cidades-pólo da Argentina. Sua liderança ganha legitimidade a partir desta mobilização social (que lembra em muito a mobilização social brasileira dos anos 80) e o forte discurso nacionalista (tão impregnado no caráter argentino). O ataque frontal às relações carnais (o termo foi empregado por Guido di Tella, do governo Menem) da Argentina com os EUA fazem parte deste cenário político e social. Kirchner é um emblema deste novo cenário justamente porque é considerado uma liderança moderada do peronismo, oriundo de uma família abastada da Patagônia, mas que é empurrado politicamente pela crise social e pela necessidade nacional de defesa intransigente da economia nacional e criação de empregos.

Ouriques concorda com a classificação que Petras faz em relação ao governo de Bachelet. Afirma que sua liderança é fruto de um acordo entre a Democracia Cristã e o Partido Socialista chilenos. É este acordo que gera a trama social que incitou a greve de 600 mil estudantes que abalou o Chile, tendo como mote sua política de austeridade fiscal que afetou o financiamento de políticas sociais.

Retornamos, portanto, ao ponto inicial.

A América Latina se polariza entre Chávez e Bush e o tour dos dois líderes escancarou o grau de embate que se desenha neste início de 2007.

As ações e estratégias de Bush e Chávez possuem algumas convergências e muitas diferenças. A principal convergência é procurar aliciar pela força do apoio financeiro. Chávez inaugurou este embate com fartos apoios à Argentina, Paraguai, Bolívia, Equador e Nicarágua, para destacarmos alguns apoios recentes. Bush aceita o desafio com a mesma moeda. Constrangimentos à parte, esta política de aliciamento cria na América Latina um verdadeiro balcão de negócios, cuja adesão está diretamente vinculada à possibilidade de crescimento econômico de cada nação.

A divergência principal não reside na identidade ideológica, embora esta seja a aparência imediata. Bush trabalha pelo acirramento das distâncias entre os países latino-americanos, sendo o apoio norte-americano o fiel de uma possível unidade futura. Em outras palavras, a unidade é um projeto futuro, construído sob a tutela dos EUA.

No caso de Chávez, a identidade latino-americana é um princípio. Seu discurso se baseia neste princípio articulador, anti-EUA. Sua revolução bolivariana tenderá a ser acrescida de outros interesses locais, como a identidade indígena e, sem dúvida, a autosuficiência energética.

Neste sentido, os últimos lances desta disputa posicionaram o governo Bush com mais propriedade e força. A disputa entre petróleo venezuelano e etanol brasileiro criaram um novo cenário, um novo tema deste embate. Até então, Chávez avançava na região e tirava a liderança regional de Lula. Surpreendentemente, a visita de Bush ao Brasil redefiniu o papel de Lula na geopolítica regional. O Brasil voltou à disputa. Mas deixou de ser o fiel da balança.

por RUDÁ RICCI

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