por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Igrejas, política, turismo e arte

 

Foto da autoraBem no centro histórico de Córdoba, na Espanha, se encontra um edifício interessante e complexo. Para entrar, passamos por um jardim plantado de laranjeiras, e a fachada, como a maioria dos prédios históricos em Andaluzia, tem motivos árabes. Esta é a mesquita-catedral  ou catedral-mesquita da cidade.

Quando entramos no edifício, nos deparamos com séculos de história e de luta entre grupos étnicos, línguas e religiões diferentes. Neste mesmo lugar onde hoje se celebram missas e outras cerimônias católicas, se vêem as centenas de colunas da mesquita árabe que uma vez foi considerada a segunda maior do mundo, só perdendo para a mesquita de Meca. Aquela mesquita cordobesa, orgulho dos mouros que invadiram a Península Ibérica em 711, foi feita sobre os escombros de um templo cristão visigodo, o qual tinha sido construído sobre as ruínas de um templo romano, o qual, por sua vez, tinha sido erigido em cima de um templo em que os habitantes locais utilizavam para suas Foto da autoracerimônias religiosas, há mais de dois mil anos. As colunas de sustentação do prédio mostram marcas de muitos crentes que aqui se juntaram e rezaram, oraram, tentaram se encontrar com o ser supremo da sua religião. Marcas de suor, marcas das pequenas sujeiras que nós trazemos nas mãos, marcas da humanidade que passou por esta terra há tantos séculos.

O edifício da mesquita continua de pé, apesar da derrota final e da expulsão dos mouros nos séculos XV e XVI. Mas, em si só, o fato do edifício ter permanecido não é surpreendente, afinal, os cristãos tiveram o bom senso de não destruir vários outros edifícios mouros, como a Allambra de Granada e outros alcazares, ou fortes, que simplesmente mudaram de função quando mudaram de donos. Mas falávamos da catedral de Córdoba: o que surpreende nela é o fato de que ela está localizada dentro de uma mesquita. Foto da autoraNa verdade, a catedral é como um corpo estranho nascido dentro da floresta de delicadas colunas e arcos bicolores que constituem o suporte da mesquita. Com suas formas mais sólidas e pesadas, seus altares cheios de imagens humanas, a catedral católica se impõe imediatamente como o “outro” da mesquita, na qual não existem representações do profeta Maomé, nem de outros representantes da religião, e só se vêem alto relevos de flores e motivos geométricos, e frases do corão. Assim é também em outras mesquitas e residências – casas, palácios – que sobreviveram à retomada da Espanha dos mouros.

Recentemente, houve uma polêmica na comunidade cordobesa, quando uma das autoridades muçulmanas da cidade queria ir até esta famosa mesquita para fazer as orações da sua religião. Os que protestaram contra esta idéia disseram que os muçulmanos não podem reclamar que este é um local seu, já que a mesquita foi construída sobre uma igreja cristã visigoda. Logicamente, seria interessante se houvesse algum romano reclamando que os visigodos construíram sobre seu tempo. E, ainda mais interessante, se existisse algum seguidor das antigas religiões locais reclamando que este lugar é sagrado para a sua religião, e que todas as demais usurparam este espaço.

A celeuma entre católicos e muçulmanos continua, e provavelmente continuará por muitos anos. Mas não teria que ser necessariamente assim.

2.

É domingo em Barcelona. Os trens das linhas do metrô indo até a Sagrada Família estão cheios de gente de todas as cores, nacionalidades, línguas. Famílias inteiras com várias gerações representadas, jovens estrangeiros com mochilas às costas, homens sérios, mães com crianças pequenas, todos descendo na mesma estação da Sagrada Família.

Foto da autoraA cena que nos espera, logo à saída do metrô, é impressionante: um prédio de proporções enormes, coberto de escritas, e de estátuas, e de andaimes e gruas de construção, tapumes verdes, cercas impedindo a passagem em alguns pontos. Esta é uma das visitas obrigatórias para qualquer um que vai a Barcelona.

A cidade está cheia de monumentos e museus fascinantes, vários parques, e inclusive algumas casas projetadas pelo mesmo arquiteto autor dos planos para a Sagrada Família, Antoni Gaudí. As pessoas visitam estes outros lugares também, mas o que torna a visita à Sagrada Família espetacularmente singular é o fato de que praticamente todos que a visitam, independentemente de religião, origem étnica, língua, idade, ficam admirados – alguns deslumbrados – com o prédio, com a sua enormidade, com as esculturas, e até com a altura dos andaimes e das gruas. Alguns se admiram com a qualidade artística, outros, se horrorizam com ela. Isto, em si, não é de se admirar.

O edifício está em construção há 120 anos. Tal coisa não é incomum em se tratando de catedrais, porque como vemos nos livros de história, algumas das catedrais góticas levaram dois ou três séculos para serem construídas. Algumas das catedrais mais antigas na Europa inclusive carregam nos diferentes estilos quase que um manual das transformações dos gostos e das técnicas de construção atravessados desde a pedra fundamental à inauguração da catedral. O caso da Sagrada Família inclui muita lenda sobre seu arquiteto, devoto católico, que queria que esta catedral fosse seu testamento e sua herança à humanidade. E quantos arquitetos já foram beatificados e tiveram um ano dedicado a ele pelo Papa? Que eu saiba, só Gaudí.

Mas a Sagrada Família se impõe, assim como a mesquita/catedral de Córdoba, como um documento de uma situação política. Durante as primeiras décadas do século XX, a Catalunha, onde Barcelona se situa, passava por uma época de grande fervor nacionalista. Houve uma renascença no estado, e Barcelona era a vitrina desta renascença, com muitos prédios novos, grande agitação artística e política. A Guerra Civil, e depois, a ditadura de Franco, puseram uma enorme pressão contra Catalunha e outros estados que queriam mais independência.[1] Até a língua catalã foi banida por Franco, e só continuou existindo graças aos catalães que a mantiveram no seio da família, esperando por um momento correto de sair de novo às ruas.

Mas durante a vida de Gaudi, quando, de acordo com a lenda, ele se vestia humildemente e pedia dinheiro para a continuação da obra, a Catalunha ia de vento em popa. As dimensões da catedral mostram isto. No entanto, durante a Guerra Civil, os planos do projeto e as maquetes foram queimados pela turba de anarquistas que invadiu os escritórios da igreja, e não sei bem por que não destruíram o prédio, como fizeram com quase todas as outras igrejas de Barcelona. A construção da Sagrada Família parou.

Foi preciso outro momento político, e outras forças, para que se retomasse a construção, e agora a inauguração está prevista para o ano de 2020. A julgar pelo número de trabalhadores na obra, é possível que se cumpra a data. A julgar pelo número de pessoas que visita a obra, sua conclusão é do interesse do mundo inteiro. A força do turismo mundial atesta este interesse.

3.

Como a grande maioria dos brasileiros, eu fui criada em uma família católica. E todos nós católicos sabemos que a “central” do catolicismo é Roma, e dentro de Roma o Vaticano, e dentro do Vaticano a Catedral de São Pedro. Talvez não seja muito exagerado afirmar que todo católico quer, algum dia, visitar a Catedral de São Pedro. Embora não seja uma ordem como a que tem todo muçulmano de visitar Meca, de todas maneiras, os católicos que podem fazer a viagem, fazem.

Embora eu não tenha ido à Itália para ir a Roma, uma vez eu fui. E não pude resistir ao chamado: fui ao Vaticano, e fui à Catedral Basílica de São Pedro. Impossível negar que sentia uma grande emoção ao me aproximar do edifício, cuja imagem tinha visto tantas vezes na televisão, quando se mostrava o Papa em uma das janelinhas, falando à multidão dos fiéis. Que esperava desta visita? Embora há muitos anos tenha deixado de participar da igreja católica com o mesmo fervor que meus pais, tinha a impressão que dentro do edifício iria me encontrar com algo sagrado. Talvez, lá dentro, reencontrasse um pouco da fé e devoção que uma vez, levada pela mão de meus pais, sentia na igreja. No fundo, no fundo, todos nós temos um desejo de recuperar algumas das coisas maravilhosas da infância, e, para mim, uma delas era a participação na cerimônia religiosa, quando eu via meus pais tão atentos, tão devotos, murmurando uma oração. A ida à catedral de São Pedro talvez trouxesse um pouco daquele sentido do divino, do maravilhoso, de volta à minha vida.

Mas quê!

Por dentro, o edifício é no mínimo lúgubre, com sua enormidade e seus frios pisos de mármore. Acostumada às nossas igrejas, eu esperava um altar regular, em que as pessoas pudessem fixar sua vista, rezar, olhar a velinha acesa.

Mas quê?

Foto da autoraMuitos altares, muitas capelas, e todas elas coalhadas de ouro. Santos, anjos, figuras das mais diferentes eras. Muitas capelas. E, no centro da nave, mausoléus de mármore e outras pedras. É difícil entender estes mausoléus que são capelas extremamente elaboradas e ricas, até que lemos a quem estão dedicadas: a Papas. Algumas delas, foram mandadas fazer pelos próprios homenageados, que escolheram entre os maiores escultores de sua época, os maiores artistas, as melhores pedras, o ouro mais fino, para render uma homenagem a eles mesmos, depois de mortos, dentro do edifício que é, para todos os católicos, o centro do qual emanam os raios da igreja.

Foto da autoraA única peça dentro da Catedral que me emocionou foi a “Pietá” de Michelângelo, que, diferentemente das colossais homenagens que alguns Papas fizeram a si mesmos, trazia Jesus Cristo para uma dimensão humana: a figura da mãe segurando o corpo do filho morto.

4.

Quem já foi à Aparecida do Norte trouxe impressões diversas, dependendo de quando foi. Eu estive lá em 1994, quando já existia a chamada “nova igreja”. Mas não visitei a nave principal. Por aquelas alturas, já tinha desistido de examinar altares, e já tinha me cansado de criticar a vestimenta litúrgica, as regalias dos religiosos, as relações de classe, a evidente hierarquia férrea, o tratamento da mulher, que percebia na igreja. Mas fui de todas maneiras, porque estava na região, e assim como Roma é parte do imaginário do católico Foto da autoramundial, Aparecida é parte do imaginário do católico brasileiro. Resolvi ir direto aos lados da igreja, onde se encontram os ex-votos.

Aquele é um lugar emocionante. Senti uma grande afinidade pelas pessoas que lá se encontravam, e também pelas que haviam trazidos os objetos representando as partes de seu corpo que tinham sido curadas pela interseção de Nossa Senhora Aparecida. Examinando aqueles toscos artefatos, é impossível não sentir coisas muito contraditórias.

Por um lado, está a fé popular, esta crença simples e profunda em uma dimensão divina que, em muitos casos, é a única valia do desvalido, do desatendido. Por outro lado, por que não admitir, está a grande admiração pelo que a fé das pessoas as inspira a fazer. Aqui, uma escultura de madeira mostrando um pé nas suas mais perfeitas dimensões; ali, um quadrinho pintado sem a menor arte, mas com uma graça que nem sequer os grandes artistas alcançaram. Acolá, uma foto de uma criança, um jovem, um pai de família, e a letra desenhada, agradecendo, com um pequeno poema, uma frase, um nome. Esta fé, que dizem que move montanhas, aqui moveu a mão e a inspiração do devoto, e transformou a todos em artistas. Ademais da percebida graça alcançada, a cura obtida, aqui está outra: a habilidade de representar esta graça de uma maneira artística.

Talvez, em uns cinqüenta ou cem anos, já não existam mais ex-votos em Aparecida do Norte. Isto representará uma perda em termos da diminuição da fé religiosa, e também a inexistência de um espaço para que as pessoas possam explorar seu encontro com o divino como arte. A não ser que outros espaços sejam desenvolvidos!

5.

Quantos maringaenses de hoje se lembram da Catedral Nossa Senhora da Glória em construção? Somente os mais velhos, e eles são bem poucos dentro da nova Maringá que recebeu tantos imigrantes nos últimos anos. Talvez nas escolas ainda se estude a história da cidade, a questão do traçado das ruas do centro, e da designação daquele local para a catedral. Não sei. As coisas mudam muito, e talvez já não se estude isto.

Foto da autoraNos anos de 1960 e 1970, estudávamos estas coisas, assim como o hino a Maringá, muitas vezes ensinados pelos próprios autores, que eram nossos professores. E assistíamos a subida do prédio da “nossa catedral”. Parecia que ia levar cem anos para terminar. E quando terminou, parecia que jamais colocariam os vitrais. Mas tudo foi terminado, e agora está pronta.

Para os maringaenses que, como eu, moram fora, a nossa catedral é um dos símbolos mais queridos da cidade. Mesmo para os que não são católicos. Afinal de contas, o projeto é diferente de todas as outras catedrais que conhecemos no Paraná, e seu estilo arrojado se parece mais às catedrais de cidades muito mais ricas que as nossas, em estados muito mais importantes politicamente que o nosso.

Cada vez que vou a Maringá, a nossa catedral me comove de novo, e me lembro do dia em que, com um fotógrafo da Folha do Norte do Paraná, eu subi pelo elevador dos operários até o ponto em que iam colocar a cruz no outro dia. Lá em cima, entrevistei dois dos operários, que estavam contentes com a chegada da cruz. Ao descer, ainda de “pernas bambas” pela aventura nos ares, não me dei conta de que, provavelmente, seria a única mulher a subir ao pé da cruz da catedral. Mais tarde, no jornal, ao escrever uma coluna sobre a catedral, não me lembrei de agradecer à gentileza e ao cavalheirismo dos operários que me deram a mão e me ajudaram a conduzir minha entrevista e fazer o meu trabalho. Agora agradeço. Eles me proporcionaram uma experiência única, em um momento único na história da nossa cidade.

Tantos anos depois, a catedral de Maringá é para mim, assim como para muitos maringaenses, um lugar onde se celebraram grandes momentos de alegria, casamentos, batismos, crismas, e também um local em que nos despedimos com lágrimas dos nossos entes queridos. Quer gostemos da arquitetura ou não, quer nos lembremos da construção do prédio, vagarosa, poeirenta, ou não, este edifício faz parte da história de nossa cidade, e da história de todos os maringaenses.

E tem potencial turístico? Imagino que sim, porque suas formas, tão diferentes das catedrais tradicionais, refletem um momento da história da arquitetura brasileira, e, como gostávamos de nos gabar antigamente, quando foi terminada era o décimo primeiro edifício mais alto do mundo! Ou seria o décimo segundo?

6.

Por que falar de catedrais e igrejas? Por que nos ocuparmos deste assunto, especialmente num tempo em que, ao que tudo indica, a fé religiosa está em plena decadência? Creio que há várias razões.

Uma delas é que as igrejas e catedrais, ou locais de reunião de devotos de qualquer religião, sempre marcam um espaço do social, e de como o social é compreendido dentro de um determinado tempo. Tomemos como exemplo as catedrais góticas da Europa: elas levaram séculos para ser construídas, e são o testemunho vivo do trabalho e da dedicação não só da nobreza, mas também do povo que a construiu. Juntamente com o trabalho de artesãos e artistas, também os fiéis contribuíram com sua oferta monetária, com o trabalho que ofereceram, e também com sua presença nestes lugares. Se não houvesse fiéis, não haveriam igrejas, muito menos catedrais. O fato desta fé e devoção nem sempre terem sido espontâneas indica que, muitas vezes – alguns diriam que sempre – o religioso é escrito com as forças da política. Ou da polícia, como no caso do tempo da Inquisição.

Em outras palavras: conhecer como um povo trabalhou ou trabalha a questão da fé é uma maneira de conhecer a sua história, e as relações de poder em diferentes épocas.

Também podemos conhecer a evolução da arte dentro destas épocas. Como algumas dessas igrejas e catedrais mais antigas levaram tanto tempo para serem construídas, elas são como um livro de arte ao vivo.

Finalmente, estudar as igrejas e catedrais nos leva a perguntar o que está acontecendo com elas hoje em dia. Quem as mantêm? Que função têm atualmente?

Para responder a esta pergunta, basta ver a catedral da Sagrada Família em Barcelona: as energias que a estão construindo são de base exclusivamente turística. É possível dizer-se que, enquanto as catedrais dos séculos passados foram o resultado da doação de nobres e do povo da comunidade regional ou nacional, as grandes catedrais que se constroem hoje são o resultado da contribuição de peregrinos, turistas e curiosos do mundo inteiro, e não só da Barcelona ou da Espanha. Isto quer dizer que, independentemente da religião da pessoa, sua contribuição financeira é parte do que constrói a igreja, catedral, ou basílica. Quando estiver terminada, a Sagrada Família não vai ser somente uma obra do gênio de Gaudi e dos arquitetos que reconstruíram os planos. Também não vai ser somente o resultado do esforço dos catalãos.

Como se sentem os moradores da cidade de Barcelona sobre esta situação? Deveriam estar contentes que esta igreja vai ser terminada, com a ajuda dos turistas. Sim? Uma placa no telhado de uma casa em Barcelona, ao lado do Parque Güell diz, “Why call it tourist season if we can't shoot them?” – “ Por que dizer estação de turistas se não podemos atirar neles?” A placa está voltada na direção do parque, para que os turistas que param no mirador para olhar a cidade de Barcelona vejam. Esta é uma clara indicação de que, como sempre, as coisas não são nada simples. Qualquer pessoa de Barcelona com um mínimo de inteligência deve saber que o dinheiro trazido pelo turismo é parte importantíssima da receita da cidade e que ajuda a manter os monumentos, a terminar a construção da catedral. O turismo trouxe à Espanha 44 milhões de pessoas em 2006, e esta é a indústria mais forte do país. Por que então esta placa, escrita em inglês? Seria uma brincadeira? Deixo a cada um a sua conclusão final.

 

 

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[1] Um livro muito emocionante e emocionado sobre a Catalunha e seu sofrimento durante a Guerra Civil é Homenagem a Catalunha, de George Orwell.

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