por HENRIQUE RATTNER

Professor na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA/USP); e na pós-graduação no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Fundador do Programa LEAD Brasil e da ABDL - Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças

 

Israel no Oriente Médio

 

Em agosto de 2006 terminou a guerra de 34 dias entre Israel e o Hezbollah, milícia islâmica extremista firmemente entrincheirada no sul do Líbano, país que sofreu enormes estragos em sua infra-estrutura e rede urbana.

Mais de oitocentos mil libaneses abandonaram seus lares e procuraram refúgio no norte do país. Movimento semelhante, mas em direção ao sul, ocorreu no norte de Israel. De ambos os lados houve pesadas perdas em vidas de civis e militares.

O cessar-fogo celebrado por injunção do Conselho de Segurança das Nações Unidas por meio da resolução 1701 é precário, dado que o Hezbollah não se retirou de suas posições e as forças militares internacionais e o exército libanês não têm como expulsar e desarmar seus militantes.

A instabilidade na região que deu origem ao conflito, após o seqüestro de dois soldados e a morte de oito outros israelenses pelas milícias do Hezbollah, continua e provavelmente continuará até encontrar-se um acordo com a Síria e o Irã, dois países que armaram e treinaram as milícias do Hezbollah.

Se o Líbano e o Hezbollah sofreram graves perdas, também Israel não saiu incólume do conflito perdendo centenas de soldados entre mortos e feridos, e viu suas cidades da região norte submetidas a um bombardeio constante pelos katyuchas cujos projéteis alcançaram até a cidade de Haifa, terceira maior do país. Israel declarou como seu objetivo na guerra a expulsão das milícias do Hezbollah para trás do Rio Litani, distante 30 km da fronteira.

Os soldados seqüestrados não foram devolvidos, nem o soldado capturado pelo Hamas na Faixa de Gaza. Em termos macropolíticos, o conflito evidenciou o isolamento de Israel apoiado unicamente pelos EUA, o que deve ter contribuído para as manifestações anti-israelenses e até anti-semitas por todo o mundo, inclusive no Brasil.

Quem ganhou e quem perdeu?

Apesar das declarações pomposas de Hassan Nasdrallah, chefe supremo do Hezbollah, de que suas tropas resistiram aos bombardeios das forças armadas israelenses, o Hezbollah sofreu pesadas perdas estimadas em 400 militantes de um contingente de quatro mil no total. Mas também Israel não ficou imune aos ataques do Hezbollah.

Alguns analistas compararam o conflito com a guerra de 1973, em que o ataque surpresa do Egíto custou a vida de três mil soldados até a reversão da situação pelo avanço dos israelenses em território egípcio. Reforçado em sua posição e prestígio, o então presidente Anwar Sadat propôs um cessar fogo em cuja consequência houve a celebração da Paz e o reconhecimento de Israel que se retirou de e restituiu o território do Sinai.

Mas a comparação é frágil: o conflito no Líbano não afetou diretamente as relações com os palestinos e o Hamas que se recusa a reconhecer o Estado de Israel. Donde se pode inferir que negociações de Paz no Oriente Médio só serão viáveis quando houver um acerto da situação com os palestinos, implicando em concessões territoriais inevitáveis.

Mesmo os países árabes que estabeleceram relações diplomáticas com Israel, Marrocos, Jordânia e Egito, continuam a pressionar para que se chegue a um acordo com os palestinos. Seus governantes e também os dos outros países islâmicos sunitas, Arábia Saudita, Kuait e os sultanatos autocráticos do Golfo da Pérsia receam a expansão dos radicais (eleitos!) do Hamas e também dos radicais xiitas, hoje apoiados sobretudo pelo Irã.

Entretanto, o conflito no Oriente Médio revela dimensões muito mais amplas do que a questão do Estado para os palestinos; assunto muito polêmico entre os próprios judeus e seus partidos políticos, sobretudo quanto a devolução dos territórios palestinos, ocupados após a guerra de 1967. Lá vivem hoje mais de 220 mil colonos israelenses.

Na análise geopolítica da região há de se considerar a emergência do Irã dos ayatolás, com 70 milhões de habitantes, a maioria na miséria, mas que resiste firmemente às pressões do mundo ocidental para que abandone o enriquecimento de urânio para fins militares.

Beneficiado pela bonança dos altos preços do petróleo, o Irã apóia movimentos radicais como o Hezbollah e outros militantes xiitas que subscrevem a doutrina da destruição do Estado de Israel. Junta-se o Iraque fracionado e praticamente em guerra civil, o isolamento da Síria, país laico, e a tensão permanente nos territórios habitados por palestinos.

A atuação do Hezbollah como Estado dentro do Estado libanês e a situação de miséria de dezenas de milhões no Egito, governado autocraticamente pelo presidente Hosni Mubarak, configuram uma pálida idéia da explosividade da situação no Oriente Médio. Acrescenta-se a presença em todos os países da região de contingentes variáveis de militantes alinhados com a doutrina e prática de Osama Bin Laden e de sobreviventes do Talibã no Afeganistão.

Visto sob esta perspectiva e em retrospectiva do último século, os intermináveis conflitos travados entre Israel e seus vizinhos – 1948, 1956, 1967, 1973, 1982 e as Intifadas quase ininterruptas até a guerra recente com o Hezbollah – uma possível saída e solução só se afiguram por um entendimento com os palestinos, o que poderia conferir a legitimidade e segurança de Israel entre seus vizinhos e em muitos países do mundo.

Por outro lado será inevitável chegar-se a um acordo com a Síria, o que implica a devolução do território estratégico do Golã, ocupado por Israel desde o conflito de 1967.

A sociedade israelense continua presa ao sonho de uma pátria nos termos bíblicos, abrangendo territórios que pertencem a outros países. A idéia de que somente assim conseguiriam proteger-se era e continua sendo equivocada. Mudou a concepção do Estado nacional porque a globalização exige cooperação mais estreita entre países geograficamente vizinhos, nas áreas de comércio, serviços, educação e cultura.

Israel permanece isolado de seus vizinhos, enquanto alguns países árabes despertaram tardiamente para um nacionalismo débil que mistura ideologias anti-israelenses com elementos religiosos e extremistas.

A maioria da população israelense continua convencida de sua superioridade tecnológica e militar e se recusa a encarar a dura realidade das transformações ao seu redor. Mantém a visão e a ideologia de um Estado que incorporaria terras árabes como o Golã (da Síria), e do lado ocidental do rio Jordão (dos palestinos) onde foram instalados dezenas de milhares de colonos.

Ademais, Israel também tem gente fanaticamente religiosa que não admite a cessão da terra “sagrada”, chegando até assassinar o Primeiro Ministro Ytzhak Rabin. Junta-se a este quadro a presença de 1,3 milhão de árabes palestinos dentro das fronteiras atuais do Estado, para visualizar toda a complexidade do problema.

Os defensores do Estado de Israel alegam que este tem o direito e, aos olhos de seus cidadãos, o dever de se defender contra as agressões como o seqüestro de soldados, bombardeios com mísseis Kassem na Faixa de Gaza e dos Katyushas do Hezbollah no Líbano.

A maioria da mídia e dos analistas recusa este argumento, apresentando o chamado princípio da proporcionalidade em guerras tradicionais, supostamente rompido pelo uso maciço da força aérea israelense.

A discussão pode parecer abstrata – o que é uma guerra justa? – mas remete a Santo Agostinho que já no século IV d.C. pregou o jus ad bellum – o direito de ir à guerra em casos extremos.

Dezesseis séculos depois, com a existência da diplomacia, das normas internacionais e dos princípios dos Direitos Humanos, questiona-se o uso de armamentos pesados, principalmente pelo Human Rights Watch, que recusa o argumento de que o primeiro ataque partiu do Hezbollah. Apontam, também, para os danos causados à infra-estrutura do Líbano – destruição de pontes, estradas e centrais elétricas, além de numerosos edifícios civis.

Na realidade, é difícil fazer a distinção entre o jus ad bellum e o jus in bellum, uma questão que envolve a ética da guerra, a qual se subordina a questão de que tipos de armas se “pode” utilizar. Hoje, diríamos que os fins não justificam os meios e, não raramente, os meios invalidam os próprios fins.

Indubitavelmente, as imagens e relatos sobre os danos causados ao Líbano, dos milhares de refugiados perambulando pelas estradas, e o constante incitamento pela mídia, não só iraniana, levaram ao fortalecimento das forças anti-israelenses. Mesmo o clero iraniano, que não simpatiza com o Hezbollah, clamou por uma união entre sunitas e xiitas contra Israel.

Vejamos as reações ao conflito em Israel, particularmente entre os mais extremistas, em favor da continuação das ações bélicas. Mal cessados os combates, começaram a surgir críticas de todos os lados manifestando uma insatisfação com a forma como foram conduzidas as operações militares. Várias falhas na condução das operações foram apontadas pela mídia e pela opinião pública em geral.

Além das falhas dos serviços de inteligência militar e do alto comando das forças armadas que foram apanhadas de surpresa – tanto pelo seqüestro de soldados quanto o uso simultâneo de mísseis Katyushas que semearam o pânico entre a população da região norte – criticou-se a excessiva confiança no poderio militar e sua força aérea que poderia vencer sozinha o conflito. Apontou-se para o despreparo dos soldados para a guerrilha urbana em que se enfrentou uma força bem armada, treinada, organizada e com forte motivação religiosa.

A aparente falta de planos para conter um ataque do Hezbollah, apesar de precedentes, teria levado à entrada tardia da força terrestre na guerra que sofreu pesadas perdas (34 soldados mortos) nos dias 10 e 14 de agosto, data de cessar-fogo. Mesmo assim, não faltaram vozes entre a população israelense clamando por uma retomada da ação bélica.

A que atribuir esta belicosidade?

Há uma tradição de décadas, praticamente desde o início do sionismo, que exalta “Eretz Israel shlema” (“Israel integral”) incluindo as colinas do Bashã, Gilead, o vale do Jordão e a região montanhosa do Golã.

Esta visão irrealista imobilizou politicamente a sociedade israelense e foi estimulada por todos os governos, desde o primeiro de Ben Gurion, após a criação do Estado em 1948 até o atual, de Ehud Olmert.

Do sonho de uma sociedade mais justa, uma pátria que os defendesse contra ataques anti-semitas no mundo, surgiu um Estado militarizado e sua população cega às mudanças que se operaram no mundo e na própria sociedade israelense. A maioria da população israelense continua convencida de sua superioridade tecnológica e militar, recusando-se a encarar a dura realidade das transformações ao seu redor.

Não perceberam que toda equação estratégica de Israel como potência estava equivocada à luz da globalização e da necessidade irrecusável de uma associação mais estreita entre países vizinhos geograficamente, procurando fortalecer e incrementar as relações comerciais, culturais e políticas, sob forma de cooperação regional (União Européia, Mercosul, ASEAN etc.). Israel ficou isolado num mundo em que estão mudando a concepção do Estado nacional e a segurança de suas fronteiras.

O mundo islâmico e árabe mudou. Modernizaram-se graças aos ganhos imensos pela exportação de petróleo; instalaram indústrias e adquiriram armas e tecnologia. A guerra – se houver outra – será de mísseis contra mísseis, com efeitos devastadores em territórios tão próximos quanto Israel e seus vizinhos.

Os dois principais grupos que lutam contra Israel e se recusam a reconhecer o direito de existir do Estado judeu, o Hamas e o Hezbollah, contam com armamentos modernos, homens disciplinados, treinados e movidos por um fanatismo religioso que os motiva e os capacita a lutar de igual para igual com as tropas israelenses. Têm apoio na população, sobretudo os mais pobres, para os quais construíram e mantêm creches, escolas e postos de saúde.

Esses grupos extremistas têm o apoio, direto e indireto, de  um bilhão de islâmicos – um quinto da população do mundo os quais, apesar de enormes divergências e inimizades internas, concordam quanto ao ódio a Israel. Dentro do Estado judeu vive hoje 1,3 milhão de árabes, com uma taxa de crescimento populacional maior que a dos israelenses.

Mesmo os governos mais moderados, Egito, Turquia, Jordânia e Paquistão, que receiam a expansão dos extremistas da Al Qaeda, Talibã e outros, se sentem atingidos pela situação dos palestinos e, mais recentemente, pelos conflitos no Líbano. Mas a população israelense, convencida de sua superioridade tecnológica e militar, recusa-se a encarar as transformações necessárias em sua política em relação aos árabes.

A visão messiânica de um Estado de Israel

A cada dia fica mais patente que Israel não pode depender exclusivamente do apoio político e militar dos EUA. Os esforços de manter as forças armadas dotadas de equipamentos mais modernos têm exaurido a economia do jovem Estado, aumentando a desigualdade social e o desemprego.

A ocupação de terras palestinas e a construção de um “muro de segurança” têm consumido bilhões de dólares e os especialistas calculam que a desocupação e a reinstalação dos colonos irão exigir aproximadamente outros 20 bilhões de dólares.

Por isso, a sobrevivência de Israel exige um entendimento e uma futura cooperação com os países árabes. O governo e a população israelenses devem compenetrar-se da realidade e aceitar que nenhum pedaço de terra compensa a perda de milhares de jovens, vítimas de décadas de conflito e que afastaram cada vez mais a perspectiva da Paz.

A política de subestimar ou demonizar os árabes levou Israel a um beco sem saída. Haverá visão estratégica e coragem das lideranças dos dois lados para levar a maioria das populações a consentir numa solução negociada?

A população libanesa duramente atingida pelo conflito iniciado pelo Hezbollah certamente apoiará os esforços de pacificar a região sul onde se travaram violentos combates. Também, a maioria dos palestinos, sofrendo as sanções dos EUA e da União Européia que cortaram os subsídios após a ascensão do Hamas ao poder, gostaria de ver a normalização das relações com o Estado judeu, o que garantiria para ela trabalho e renda – meios para a existência e sobrevivência.

Finalmente, os maiores beneficiados da celebração de um acordo de paz serão as populações árabe e israelense, com a cooperação econômica e técnica entre os vizinhos que permitirá o pleno desenvolvimento de seu potencial tecnológico, científico e humano.

por HENRIQUE RATTNER

   

 

 

 

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* Texto elaborado em agosto de 2006 e revisado em fevereiro de 2007.

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