por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

O enterro da sardinha: o carnaval na Espanha

 

Parece que ninguém sabe dizer ao certo, com certeza baseada em livros, de onde vem o costume de queimar e enterrar a sardinha na quarta feira de cinzas na Espanha. Uma fonte diz que, durante o reinado de Carlos III (que reinou de 1759 a 1788), ele tomou algumas decisões muito impopulares, e alguém – um gaiato de bom humor – lhe enviou um lote de sardinhas podres. O soberano imediatamente mandou queimá-las.[1]

Outras fontes dizem que a queima tem que ver com o fato de que, durante a quaresma, todos os ferventes católicos espanhóis vão passar praticamente comendo só sardinha. Este sempre foi um peixe barato e abundante na Espanha, tão cercada de mares e oceanos. O que encontrei de informação, e o que me foi passado por colegas espanhóis, é muito pouco mesmo. De fonte segura, só deu pra ver que, na Academia Real de Belas Artes de San Fernando, em Madri, há um quadro pintado por Goya entre 1812 e 1819, que se chama “El entierro de la sardina”.“El entierro de la sardina” (Goya) É um quadro relativamente pequeno, de 82.5cm por 62cm e pertence à fase madura da obra de Goya. Estranhamente, neste quadro não se vê nenhuma sardinha, mas somente uma multidão composta especialmente por homens, que circundam duas mulheres jovens vestidas de branco, enquanto um estandarte com um desenho de uma outra figura masculina, parecida a um palhaço, ri. Seria este o rei Momo do carnaval? Seria uma figura política da época do pintor? Os livros de arte são muito reticentes quanto a esta figura, e ninguém parece interessado mesmo em estudar o quadro. Ele aparece no museu e pronto.  A Academia Real de Belas Artes de San Fernando, que foi a escola onde Salvador Dali desenvolveu sua técnica, e onde o próprio Goya trabalhou, é um pequeno museu, que perto do mundialmente famoso Prado, do museu Thyssen e do museu da rainha Sophia (que tem uma grande coleção de Picasso) fica meio esquecido, e nenhuma multidão se põe às portas para ver as obras de arte contidas ali. Também, com a quantidade de quadros e pintores importantes que a Espanha já produziu, acho que podemos desculpar os espanhóis pelo “descaso” quanto a esta pintura que me interessa tanto.

O que podemos deduzir, pela imagem, é que a multidão está se divertindo. E que as duas mulheres, vestidas com o branco virginal, não parecem estar em nenhum perigo imediato. Tudo é carnaval! Todos estão claramente cantando e dançando, e há até duas crianças nas imediações das duas mulheres. Nada de ruim vai acontecer com elas.

O que me intriga é a ausência da sardinha.

Esta ausência, no entanto, não foi notada no “enterro da sardinha” de que participei em Alcalá de Henares nesta última quarta feira de cinzas. Na verdade, havia muitas sardinhas. Algumas de verdade, pregadas em uma armação de madeira que parecia muito com uma cruz, e algumas feitas de madeira e papel, que eram carregadas pelos “devotos”.

Este “enterro”, mesmo em uma cidade pequena como Alcalá, atraiu tanta gente como a que participou das festividades do sábado, domingo, segunda e terça feira. Esta cidade comemora seu carnaval nas ruas, com todos da família participando. Não há festas em clubes. Não há sambódromo. No sábado, domingo, segunda e terça, apesar da chuva fria as ruas milenares de Calle Mayor (onde se encontra a casa onde nasceu Cervantes em 1547) a Calle Libreros, e a Plaza Cervantes, se encheram de gente de todas as idades seguindo muitas “comparsas” – grupos de pessoas vestidas de roupas feitas especialmente para a ocasião. Entre estas comparsas havia dois centros de terceira idade compostos quase que exclusivamente de mulheres vestidas com roupas super coloridas, um grupo mais sofisticado vestido de guerreiros agricanos, mais um grupo de homens e mulheres que trabalham em uma companhia, todos vestidos de ratos, seguindo um suposto encantador que tocava uma musiquinha muito desanimada. E mais grupos de pais jovens que se fantasiaram, e aos seus bebês, e aos carrinhos dos bebês, todos de “joaninhas”, e mais a escola de dança que trouxe seus mais de cem estudantes vestidos de Michael Jackson enquanto dançavam e uma caminhonete logo atrás deles tocava um samba da Bahia, ê ê, samba da Bahia, ê ê samba da Bahia ê ê!

Que dizer de um espetáculo destes? No sábado, quando fui ver o primeiro desfile de comparsas, imaginei que seria uma coisa de meia hora. Já alguns conhecidos da cidade tinham dito que “o carnaval aqui não é bom. O melhor é em Madri. Em Cádiz e Tenerife, são os melhores do país, e só perdem para o carnaval do Rio de Janeiro!” Mas eu gosto de ver os festivais nas cidades pequenas, assim como gosto de fazer compras nas cidades pequenas. Daí fiquei por Alcalá mesmo, e foi excelente estar perto das pessoas, sem medo de assalto, sem preocupações com metrôs cheios, trens cheios. E o desfile durou umas 2 horas, seguido da premiação no coreto da Plaza de Cervantes. Antes da premiação, o prefeito, uma mulher que não se identificou mas foi reconhecida e aplaudida pela multidão, e uma criança, falaram pela paz, desde a janela da prefeitura.

Enquanto isto, no meio da praça, mais gente chegava, inclusive alguns amigos, com os quais assisti a entrega dos prêmios. Foi emocionante. O dinheiro não significava muito, mas a alegria dos participantes foi contagiante. Todos aplaudiram todos, e mesmo o conjunto dos ratos tristes se alegrou, dançando animadamente para celebrar os demais, que haviam ganho os prêmios. Quando saí da praça, uma orquestra tomava conta do coreto e cantava canções internacionais, boleros, tangos, música romântica, enquanto que a multidão se balançava suavemente, sem dançar.

Foto da autoraVoltei à praça na terça feira para ver o concurso das fantasias, e depois, na quarta feira, para o enterro da sardinha. Desta vez, não vi nenhum conhecido. Estávamos, meu marido e eu, sozinhos com a multidão alcalaína.

Assim que chegamos à praça de Cervantes, as 19:30, se abria o “cortejo” com quatro figuras “eclesiásticas”: um bispo, e três “coroinhas”. Detalhe: as quatro eram mulheres, e vinham em cima de pernas de pau, que as faziam ter quase cinco metros de altura. Vinham abençoando a multidão e abrindo caminho para o primeiro “andor” com uma sardinha, carregado por uns seis homens. E eram homens sérios, não fantasiados! Mais tarde, quando li a respeito, fiquei sabendo que em algumas cidades existem “irmandades do enterro da sardinha”, cuja função é esta, organizar o enterro e carregar a sardinha.

Detrás do primeiro andor, vinham outras sardinhas, algumas parecidas com a primeira, em um andor, e algumas eram usadas por pessoas, como chapéus gigantes. Por último, as sardinhas fechavam com as verdadeiras, que vinham pregadas na tosca armadura pFoto da autoraarecida com uma cruz. Depois das sardinhas, vinham duas outras figuras impressionantes, de seis metros de altura: dois bodes/diabos, com os requisitos chifres, e o corpo coberto de “pelos” que eram, na verdade, um tipo de tecido que funcionava como cobertura para a parte inferior dos corpos dos rapazes que faziam os “diabos”. Para se proteger do frio, eles usavam camisetas gola olímpica cor da pele, e dançavam. Detrás deles, um grupo de umas vinte pessoas de gênero indefinido, mas a maioria eram homens mesmo, vestidos de “viúvas” da sardinha. Alguns vinham com pernas de pau, outros caminhando mesmo. Todos usavam roupas tradicionais das mulheres espanholas, com rendas, pente alto no cabelo, leques, e muitíssima maquiagem.

E a música? Vinha em uma caminhonete. Às vezes tocava música fúnebre, e as “viúvas” “choravam” e diziam o quanto iam sentir saudade da sardinha. Mas, de repente, a música mudava, e as “viúvas” cantavam e dançavam. Ouvi, outra vez, “o samba da Bahia, ê! Ê! samba da Bahia, ê! Ê! samba da Bahia ê! ê!” Um pouco surreal escutar música brasileira nesta festa, mas o samba da Bahia, ê! ê! parece que agradou a todos.

O cortejo se esticou por várias ruas, passando em frente da catedral dos santos Justo e Pastor, quando o “bispo” e os “coroinhas” se esforçaram ainda mais para abençoar a multidão, que cantava, e se esforçava para dançar, enquanto os diabos também iam benzendo a todos. Um deles inclusive parou para explicar a um garotinho que ele tinha crescido tanto “porque comia verduras”, e que se ele quisesse crescer também, tinha que comer verduras. Taí: um diabo pedagógico.

Passando por várias ruas e avenidas, o cortejo chegou a uma parte perto das muralhas da cidade, que foram construídas quando Bernardo de Sedirac, arcebispo de Toledo, em 1118 tomou “a sangre y fuego” o castelo que os mouros tinham construído, e acabou com seu domínio em terra complutense. Agora estas muralhas estão ainda em pé, mas servem mais como enfeite, já que não se precisa mais do tipo de proteção que elas representavam. Ao chegarmos perto das muralhas, entramos todos numa espécie de um parque do tamanho de meio estádio de futebol. O “arcebispo”, os “coroinhas” e os “diabos” iam abençoando todo mundo indiscriminadamente. As crianças cantavam, os avós Foto da autoracantavam, os pais e os jovens cantavam, músicas diferentes, sem a menor intenção de coordenação. De vez em quando, se ouvia alguém dizer, “pobrecita de la sardina! Ya se murió!” E um outro grupinho respondia, “pero vuelve el año que viene!” E assim seguiram.

Por fim, as sardinhas foram colocadas numa espécie de pira, colocada longe do público, e com rodas de água no chão. Não vi quem foi, mas alguém acendeu a pira, e as sardinhas queimaram, enquanto diabos, arcebispos, carregadores dos andores, coroinhas, e público, jubilavam. Quando já ia se acabando o fogo, todos começaram a voltar para casa. Não ficamos para ver o que aconteceu com as figuras nas pernas de pau. Tinha sido uma longa noite.

II

Quando o generalíssimo Francisco Franco derrotou as tropas republicanas e tomou o poder depois da guerra civil, ele ordenou que não houvesse mais carnaval na Espanha. Durante seu reino de opressão e terror, triunfaram dois tipos de instituição no país: a igreja católica, que o apoiava, e as forças armadas, das quais ele veio. Franco determinou que o carnaval era uma anarquia, e que não se celebraria mais.

Cidades como Santa Cruz de Tenerife, e Cádiz, continuaram com suas festas, sob outros nomes. Logicamente, durante a ditadura, a festa tinha que ser mais comedida. Mas a festa continuou, de alguma forma. Mas talvez aquele carnaval espanhol sob a ditadura tenha na verdade sido uma outra maneira de controle imposto pelo governo. Mesmo um homem como Franco deve ter entendido que era melhor manter alguma forma de escape para o povo. Os ditadores não têm que ter lido Foucault ou James Scott para entender que estas forças não podem ser totalmente eliminadas, e que têm que ser, de alguma forma, cooptadas e utilizadas.[2]  Basta perguntar aos nossos generais do Brasil. Eles também sabiam que, na ausência de justiça, então o pão e o circo – ainda que sob controle – são imprescindíveis.

Foto da autoraCom a morte de Franco, os carnavais voltaram à Espanha. Meus colegas e amigos da Universidad de Alcalá me dizem que, quando crianças, não se faziam estas festas nas ruas, mas que se celebravam em casa, com amigos, cantando e dançando. Um colega mais velho do grupo disse que se lembra de uma vez, durante a ditadura, vizinhos dedos duros do prédio em que morava com sua família chamaram a polícia para dizer que eles estavam celebrando o carnaval. Quando viram que chegava a polícia, todos começaram a cantar “parabéns a você”, e convidaram os policiais para a festa. De fato, a resistência tem que tomar muitas formas.

III

Mas por que enterrar a sardinha? Minha primeira impressão, ao ver a festa, e sem saber de nada sobre a proibição dos carnavais durante o governo de Franco, foi de que este espetáculo remontava a eras muito antigas, nos tempos pré-cristãos, quando os grupos de iberos que viviam aqui certamente tinham suas festas para celebrar os solstícios, a chegada da primavera, a mudança das estações, os movimentos da terra e dos astros. Depois achei que teria que ver com as saturnálias romanas, já que os romanos invadiram esta região e impuseram tudo, cultura, religião, e costumes. A presença dos “diabos-cabras” me lembraram a questão telúrica de muitas destas festas tradicionais.

Mas por que a sardinha? Olhando a forma do peixe, é impossível não notar seu aspecto fálico. Também, a sua abundância no mar deve ser um aspecto que a relaciona com o espermatozóide. (Esta abundância logicamente talvez não seja mais tão grande, porque hoje em dia, em todos lugares, com a contaminação e diminuição dos cardumes, talvez não haja tantas sardinhas como antes.) O fim dos excessos do carnaval, que podem ser tomados como excessos sexuais, e o enterro da sardinha, indicam o período de preparação para a morte.

No calendário religioso católico, como sabemos, em 40 dias teremos a semana santa, no fim da qual se celebra a morte e a ressurreição de Jesus. A quaresma é um tempo de sacrifício e de negação aos prazeres da carne. Será que o “enterro” da sardinha, pela sua forma fálica, indica que as pessoas vão se abster de sexo durante os 40 dias? Ou será que indica que, entre outros sacrifícios, terão que comer sardinha e não comer carne por 40 dias? Qualquer pessoa que tenha vindo à Espanha sabe da adoração que os espanhóis têm pela carne de porco, e passar 40 dias sem comê-la deve ter sido um grande sacrifício, realmente.

A sardinha, humilde criatura, queimada e enterrada na quarta feira de cinzas, primeiro dia da quaresma, poderia significar outra coisa: o enterro, por antecipação, do próprio Jesus Cristo. Convém lembrar que um dos símbolos dos primeiros cristãos foi o peixe, numa forma simplificada da sardinha.

IV

Aquelas quatro figuras “eclesiásticas” foram as mais aplaudidas do cortejo. Será porque dançaram e cantaram o caminho inteiro? Será porque elas – três mulheres adolescentes e uma mais velha – tinham badalos e sinos que tocaram o tempo todo? Os aplausos maiores foram perto da catedral. O que teriam pensado os padres e freiras, que existem muitos deles em Alcalá, desta falta de respeito destas figuras claramente fazendo palhaçada com suas vestimentas?

Ou, talvez, eles mesmos estavam por lá, no meio do povo, disfarçados, se divertindo com a festa. E embora aquelas mulheres vestidas de figuras religiosas estivessem claramente dando “bananas” para a igreja de São Justo e Pastor, ninguém pode garantir que elas não tinham estado na igreja de manhã recebendo as cinzas de costume daquele dia. O que eu tinha visto, naquela manhã de quarta feira, quando passei pela igreja a caminho do trabalho, foi uma multidão muito grande, todos com a cruz de cinza na testa. Esta multidão, para minha surpresa, não continha somente os costumeiros velhinhos freqüentadores de igrejas: a multidão tinha de tudo, jovens, velhos, avós, crianças. E, pela roupa, se podia ver que vinham de várias classes sociais.

A Espanha é um país em transição, um país de grandes contradições, um país surpreendente. A guerra civil estraçalhou o coração do país, custando por volta de meio milhão de pessoas. A luta da metade dos bascos pela sua independência tem custado muitas vidas dos dois lados, e esta luta continua, todos os dias, com demonstrações, atentados. Em embora a cifra de mortos pela ETA seja de duas pessoas nos últimos três, a Catalunha ainda tem várias facções que se dizem dispostas a lutar pela sua liberdade da Espanha. “Guernica”, de Picasso, atesta os horrores aplicados a uma população inocente. E os ossos de Federico García Lorca, assassinado nos primeiros dias da guerra civil, nunca foram encontrados.

A Espanha dorme às vezes inquieta, e seus cidadãos sabem, de uma forma ou de outra, que podem sempre estar pisando em uma sepultura de alguém morto por um amigo, um vizinho, um parente, que estava do outro lado durante a guerra civil. Escolheram se juntar à União Européia, embora isto lhes tenha causado – pelo menos temporariamente – grandes perdas financeiras. Especialmente depois da tentativa de golpe de estado em 1981 por parte dos franquistas depois da morte do generalíssimo, os espanhóis souberam, com certeza, que a única maneira de proteger o regime e a figura do rei, era juntar-se a forças exteriores. A União Européia foi a resposta. Sabem de tudo isto, e alguns reclamam como sua moeda, a peseta, não se compara com o euro, e que perderam com a troca. Sabem, mas preferiram colocar esta perda financeira de lado, esta dor da morte de tantos na guerra civil de lado, para seguir a vida, esquecer, deixar pra lá.

Até que chega a quarta feira de cinzas, e os espanhóis se divertem enterrando a sardinha, usando a ocasião para representar as forças da terra voltando à vida, mesmo que seja nesta comemoração de morte. Tais contradições não são novas para os espanhóis. Quem mais teria a idéia de fazer da morte de um touro em perfeita saúde o espetáculo nacional, e depois render-lhe homenagens a este touro por sua “bravura” e “nobreza”?

Um período de tempo na Espanha nos coloca a todos diante de algo que nem sempre podemos reconhecer com tanta clareza: as pulsões históricas são intimamente ligadas à psique mais profunda de um povo. Os espanhóis entendem muito bem a morte, e por isto sabem comemorá-la em uma festa que, sob todos os aspectos, tem toda a aparência de vida.

 

[1] Ver a página http://www.spanish-living.com/entertainment_index.php Sobre os vários festivais anuais na Espanha.

[2] Ver especialmente Disciplina e Punição, de Michel Foucault, e Domination and the Arts of of Resistance, de James Scott.

 

por EVA PAULINO BUENO

 

 

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