por JOÃO DOS SANTOS FILHO

Bacharel em Turismo pelo Centro Universitário Ibero-Americano (UNIBERO) e Bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Mestre em Educação: História e Filosofia da Educação pela PUC/SP. Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

O fetiche da “política nacional de turismo”: 

o paraíso perdido da classe trabalhadora

 

O elo perdido do turismo brasileiro.

O Brasil tem sido ao longo dos séculos, um terrível moinho de gastar gentes, ainda que, também, um prodigioso criatório. Nele se gastaram milhões de índios, milhões de africanos e milhões de europeus. Nascemos de seu desfazimento, refazimento e multiplicação pela mestiçagem. Foi desindianizando o índio, desafricanizando o negro, deseuropeizando o europeu e fundindo suas heranças culturais que nos fizemos. (Ribeiro – O Brasil como problema, 1995, p.13)

 

Escrever sobre o turismo brasileiro exige um retomar do processo histórico que se inicia com o descobrimento, se estabelece com a colonização, cresce com a república e se fortalecem com os governos populistas. Porém, é utilizado pelo Estado militar de 1964, com objetivo de ocultar a eliminação física, tortura e a repressão a seus opositores. A ditadura militar usou da EMBRATUR para construir e divulgar uma imagem de país, pró-americano, gigante, anticomunista e democrático[1]. Hoje a política pública de turismo para a população brasileira permanece estagnada nos entraves de uma “Política Nacional de Turismo – 2003 a 2007” de base internacionalista cujo enfoque prioritário é o turismo receptivo.

Urge fazer com que os responsáveis pelo turismo nacional entendam as limitações dessa política, que é reflexo de uma compreensão de cunho economicista de base empirista, preocupada principalmente em aferir a quantidade de entrada de divisas na economia brasileira por meio do turismo receptivo, para bater recordes duvidosos, festejado sempre por uma armação publicitária de tonalidade sublimar e de produção nem sempre nacional.

Esse entendimento limitado e simplista sobre o turismo, agregado ao fato do fenômeno aderir à lógica do capital e empurrar o referido fenômeno a serviço dos interesses da classe dominante dentro da estratificação social. É a lógica do turismo no neoliberalismo, oculta o concreto pensado[2] e simultaneamente arma o fetiche do entendimento da aparência do real, fazendo do mesmo algo de glamour e mítico em que a leitura existencialista e fenomenologia banca sua expressão.

Cabem aos estudiosos deste fenômeno alertar para essa percepção de fundo positivista que encobre a sua produção literária, pois os estudos apresentam uma base filosófica dentro dos parâmetros do neopositivismo[3], em que os dados quantitativos descolados da materialidade formatam os discursos das classes dirigentes. Como assim comenta o filosofo Lukács:

Todos sabem que nas últimas décadas, radicalizando as velhas tendências gnosiológicas, o neopositivismo dominou de modo incontrastado, com sua recusa de princípio em face de toda e qualquer colocação ontológica, considerada como não científica. Esse domínio se deu não apenas na vida filosófica propriamente dita, mas também no mundo da práxis. Se analisássemos bem as constantes teóricas (sic) dos grupos dirigentes políticos, militares e econômico de nosso tempo descobriríamos que elas – consciente ou inconscientemente – são determinadas por métodos de pensamento neopositivistas[4].

Ontológica do conceito de turismo

Para entendermos o fenômeno do turismo, necessitamos apreender como esse conceito se forma na historia da humanidade, pois só assim poderemos compreender sua constituição ontológica, para isso, recorremos ao materialismo histórico, método que permite alcançar a totalidade histórica dos fatos, segundo a análise dos modos de produção. Segundo Marx:

[...] Até as categorias mais abstratas – precisamente por causa de sua natureza abstrata – apesar de sua validade para todas as épocas, são, contudo, na determinidade dessa abstração, igualmente produto de condições históricas e não possuem plena validez senão para essas condições e dentro dos limites destas.[5]

Com isso Marx está alertando que um conceito é produto das condições objetivas da materialidade produzida pelo homem em sua relação de trabalho com o meio, pois ele desenvolve uma ação entre formas moventes e movidas da própria matéria, isto determinações de existência. Por isso, os conceitos expressam e sinalizam patamares de uma possível materialidade que corresponde ao estágio de desenvolvimento das relações de produção e, portanto, podem ser ressignificados lingüisticamente, porém não deixam de apresentar uma continuidade de significado histórico acumulativa de um todo mais desenvolvido.

Com isso, podemos entender que a palavra ócio, independente de sua significação etnológica vem acompanhada de uma historicidade presente e futura. Essa potencialidade só existe em decorrência da capacidade que o homem tem de abstração e usá-la para o entendimento do mundo.

Nesse sentido, entendemos que a palavra é uma construção social que pode ser ampliada, substituída, alterada, mas sempre mantêm uma significação originária que lhe permite entender sua historicidade primeira. Marx detalha esse entendimento no seu clássico texto “O método da Economia Política”, com o seguinte comentário:

O dinheiro pode existir, e existiu historicamente, antes que existisse o capital, antes que existissem os Bancos, antes que existisse o trabalho assalariado. Desse ponto de vista, pode-se dizer que a categoria mais simples pode exprimir relações dominantes de um todo menos desenvolvido, ou relações subordinadas de um todo mais desenvolvido, relações que já existiam antes que o todo tivesse se desenvolvido, no sentido que se expressa em uma categoria mais concreta. Nessa medida, o curso do pensamento abstrato que se eleva do mais simples ao complexo corresponde ao processo histórico efetivo.[6]

A leitura proposta por Marx buscou encontrar as leis históricas que levam a transformação da sociedade, para tanto encara a transformação econômica, social e política como um processo que só tem condições de ser apreendido quando a consciência dos homens domine e oriente a transformação histórica. Pois só assim o homem poderá se afastar do pensamento místico, religioso e das abstrações idealista e metafísica que nutrem o neopositivismo, pois produz abstrações vazias em razão de desprezar as relações sócias de produção e as forças produtivas.

Nesse sentido, a leitura histórica permite entender que o conceito de turismo é um significado que vem se consolidando historicamente, segundo o desenvolvimento das relações de produção[7] e, portanto não pode ser entendido somente como nascido ou/e desenvolvido no modo de produção capitalista.

Em um livro de minha autoria, afirmo:

O turismo aparece como resultado de um longo processo de sinalização que vai se efetivando durante o movimento da história; nasce como o trabalho, uma vez que produz seu contrário – o não trabalho – que vai apresentar várias significações, até sua forma mais acabada, o turismo.[8]

Conclusões

Na verdade a política pública no campo do turismo foi sempre um instrumento organizado, montado e utilizado para atender as classes dominantes, quer nacional ou internacional. E essa não é uma peculiaridade de nossa política pública em turismo, outras tiveram o mesmo destino, como foi o caso do nascimento da educação pública brasileira.

Por isso, não há nenhuma novidade, mas sim uma característica peculiar do fenômeno turístico. O turismo é tido como uma atividade econômica de alto grau de racionalização do capital na busca de maior produtividade, surgindo como a atividade capaz e propensa a ampliar a reprodução do capital de forma rápida e acumulativa, pois seu “produto” exige um leque de serviços que requer uma massiva e diversa empregabilidade. Por isso a atividade turística surge como um possível milagre para os sistemas capitalistas e “socialistas” como elemento capaz de trazer o crescimento desses países.

O turismo possui, então, uma diversidade e abrangência na totalidade de todas as suas atividades societárias, sua globalização atinge desde as populações pobres até as classes abastadas; culturas se mesclam, culturas se destroem, outras aparecem agora padronizadas pela vida do Fast Food e das classificações hoteleiras decretadas de cima para baixo segundo os padrões norte-americanos e europeus num processo dialético em que o novo pode ser o descobrimento do valor histórico do velho ou ao inverso o novo ser a destruição do velho. A perfeita ditadura das grandes corporações capitalistas multinacionais que estão hoje, comprando e implantando empreendimentos imobiliários na orla do litoral nordestino.

Com isso, estamos afirmando que o Estado tem o dever de desenvolver políticas públicas para as classes populares, bem como, fortalecer as secretarias (municipais e estaduais), autarquias e ministérios que estejam diretamente envolvidos com o turismo. E tomar cuidado para que as atividades “importantes” dos Conventions Visitors Bureaux que em muitas localidades vem indiretamente ocupando espaço dos órgãos públicos de turismo. O leitor poderia afirmar “se o setor público não faz, os Conventions, pela agilidade da iniciativa privada, faz!

Essa afirmação é simplista e falsa, pois quando o setor público desativa, ou simplesmente fecha uma repartição do Estado. Na verdade está prestando um desserviço aos mais necessitados e afastando-se do seu dever civil de entender a comunidade como um todo e estender seus serviços a quem não pode “comprá-los”.

Turismo ainda é considerado pela economia neoliberal como sinônimo de glamour e de riqueza. Riqueza esta, que só pode ser usufruída pelas classes abastadas, pois é desse turismo que o capital tem interesse. O outro, qual outro? Aquele que conhecemos vulgarmente como farofeiro, mochileiro, religioso (Padin Cícero, Lunardeli ou Aparecida e outros), esses não interessam às multinacionais.

O que interessa aos grupos multinacionais são áreas virgens, reservas de mata nativa, onde vivem populações autóctones, verdadeiros paraísos terrestres, muito comuns na orla marítima do Brasil. São esses lugares paradisíacos que a fúria do capital deseja. Por isso, parem de acalentar um Plano Nacional de Turismo que nasceu falido e clone da ditadura dos curiosos do turismo.

Para finalizar, não poderia deixar de registrar, como já o fiz[9]pela internet, por meio de um artigo, minha indignação perante o processo fascista da EMBRATUR na formatação da exposição; 40 anos EMBRATUR: Um passeio pela história do turismo no Brasil. O que nos deixa mais revoltado é que poderíamos esperar uma exposição desse tipo de qualquer outro governo (tucanos, militares golpistas), mas nunca do governo petista da qual somos filiado e militante.

por JOÃO DOS SANTOS FILHO

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico

[2]Utilizar as categorias aparência e essência, trabalhadas por Karl Marx em seu texto clássico - Para a crítica da economia política: salário, preço e lucro; o rendimento e suas fontes: a economia vulgar.

[3]Corrente do pensamento idealista, base do arcabouço teórico da filosofia burguesa do século XIX valoriza o pensar cotidiano como verdadeiramente científico. Sua grande referencia se deve a base empirista que é hegemônica para a formulação do pensamento científico da época.

[4] LUKÁCS, Georg. As bases ontológicas do pensamento e da atividade do homem. Temas de Ciências Humanas, São Paulo, n. 4, p. 1 e 2, 1978.

[5] MARX, Karl. Para a crítica da economia política: salário, preço e lucro; o rendimento e suas fontes: a economia vulgar. São Paulo: Abril Cultural, 1982.p. 17.

[6] MARX, Karl. Para a crítica da economia política: salário, preço e lucro; o rendimento e suas fontes: a economia vulgar. São Paulo: Abril Cultural, 1982. p. 15.

[7] Sugiro que o leitor leia: Pasos Revista de Turismo y Patrimônio Cultural. Volumen 5, número1, de Enero de 2007.  www.pasosonline.org O artigo; O espelho da história: o fenômeno turístico no desenvolvimento da história.

[8] SANTOS, FILHO, João dos. Ontologia do Turismo: estudos de suas causas primeiras. Caxias do Sul: Educs, 2005. p. 43.

[9] O leitor deve ler o artigo de minha autoria publicado pela Revista Espaço Acadêmico, n. 68, janeiro de 2007.

clique e acesse todos os artigos publicados...  

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2007 - Todos os direitos reservados