por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Ruminações arqueológicas

 

Na semana passada, nos jornais de Madri, dois assuntos aparentemente desconectados me chamaram a atenção. O primeiro foi a descoberta de um fóssil de mais de 40.000 anos, e o outro foi o fim de semana de violências na comunidade chamada Alcorcón, um bairro que contém um grande número de imigrantes da América Latina.

Quais seriam os pontos em comum entre estas duas notícias?

Indo por partes: o fóssil encontrado está provocando polêmica entre os arqueologistas e pesquisadores, porque ele parece conter características de dois grupos diferentes, os chamados Neanderthals e os que são chamados humanóides. Antes desta descoberta, estava estabelecido que um grupo tinha eliminado e substituído o outro. Agora, pelo que esse fóssil indica, houve mescla dos dois grupos, como comprovam os ossos da cabeça encontrada, que mostram os dentes dos dois tipos de grupos. Como eu não sou arqueóloga, e de dentes só entendo que custam caro pra consertar, e que devem ser mantidos limpos o tempo todo, tendo a acreditar nesta notícia fria (40.000 anos é, convenhamos, tempo suficiente pra esfriar uma história) do cruzamento dos dois grupos.

Já em Alcorcón, as notícias são todas quentes, e apaixonadas. Cada um tem uma opinião, e quase todas são mutuamente excludentes. Dependendo de quem esteja dando a entrevista à televisão ou ao jornal, a história é que os espaços públicos da comunidade estão se tornando em campos de batalha nos quais os jovens da América Latina, especialmente da República Dominicana, lutam entre si e com os jovens espanhóis pelo direito de habitar estes espaços. Os grupos latinos formaram gangues, e os jornaizinhos tablóides distribuídos gratuitamente na capital espanhola trazem desenhos dos símbolos e saudações dos grupos, assim como sua data e lugar de formação (alguns existem desde os anos 40), cores, traje, área de influência, e número de detidos.

Este fenômeno, que talvez seja muito comum em grandes cidades brasileiras, parece ter pego os espanhóis de surpresa. Um grupo de espanhóis de mais idade, quando entrevistados pela televisão, disseram que na semana anterior ao tentarem sentar-se no banco da praça, foram impedidos por um grupo de jovens latino-americanos, que queriam cobrar-lhes dois euros para usarem o lugar público. Uma mulher entrevistada disse que seu filho foi atacado por um bando de dominicanos. O jornal ADN trouxe no dia 22 de janeiro a manchete, “Estallido social en Alcorcón”.

Já o mesmo jornal em 23 de janeiro traz uma notícia com o título, “Tenemos miedo”, e um subtítulo que diz que os latinos, intimidados, já não saem à rua. Desta vez, os entrevistados são jovens latino-americanos da faixa etária que compreende as “gangues.” “J., de 17 años, no fue ayer al instituto. Tiene miedo. Es ecuatoriano y cuenta que estos días por la calle de Alcorcón se oye demasiado a menudo: ‘Latino que vea, latino que pego”. O jovem assegura que não é parte de nenhuma gangue, mas que tem medo que o confundam e lhe dêem uma surra, “ou alguma coisa pior”. Amigos seus, dois colombianos e um peruano, também decidiram não ir à escola e ficar em casa, para evitar ataques por parte dos espanhóis.

2.

Cegonhas fazem ninhos em Alcalá de Henares (foto da autora)Nos arredores da pequena cidade de Alcalá de Henares, situada  a uns 40 km ao leste de Madri, existe um parque dentro do qual existe uma subdivisão chamada “Ecce Homo”, que fica no meio de colinas. É uma região que tem uma proteção natural e também fica perto do rio Henares. Aqui, no Ecce Homo, no século VIII, existia uma povoação muçulmana protegida por uma pequena fortaleza, que no século X foi elevada à categoria de castelo e recebeu o nome de Qal’at’abd al Salam, ou seja, Castelo de Salam. As ruínas da torre principal do castelo ainda existem e, de acordo com a informação dada na página de internet da cidade de Alcalá de Henares, o interior da torre ainda tem vestígios de outras construções muçulmanas (ver www.callemayor.com.es)

Cegonhas fazem ninhos em Alcalá de Henares (em detalhe) - foto da autoraComo sabemos, a luta contra os mouros na península ibérica foi iniciada assim que o domínio mouro foi imposto, e nesta região à volta de Madri, já em 1118 tropas cristãs sob o comando do arcebispo de Toledo, Bermardo de Sedirac, tomaram Alcalá dos muçulmanos. O então rei, Alfonso VII, doou a região ao arcebispado de Toledo. E assim foi: nos próximos 700 anos, esta região ficou sob o domínio do arcebispado de Toledo. Muitos dos prelados se mudaram para cá, e promoveram o desenvolvimento de Alcalá como uma cidade das letras e da ciência. Aqui, em 1499, o cardeal Cisneros, confessor da rainha Isabel (aquela mesma que custeou a viagem de Colombo à América), fundou a Universidad de Alcalá, e isto transformou a cidade em importante foco intelectual da época. Além da permissão e financiamento para a viagem de Colombo, desta pequena cidade também vem um evento de grande importância religiosa, lingüística e cultural: a tradução poliglota da Bíblia (a chamada Bíblia Complutense).

3.

Morar em uma cidadezinha da Espanha perto de um rio importante sempre é uma aventura. Às vezes a aventura é muito mundana, como conseguir passar pelas calçadas de meio metro de largura quando um grupinho de pessoas está caminhando nesta mesma calçada, batendo o maior papo do mundo, sem pressa. Ou a gente vai para a rua e arrisca ser atropelada pelos carros que vêm passando pelas ruazinhas de 4 metros de largura, ainda competindo pelo espaço com os carros estacionados, ou a gente pede licença (grita), ou se resigna a chegar tarde ao trabalho, diminui o passo, e aproveita pra escutar a conversa dos outros. A melhor opção depende da manhã e do humor. Mas estas são aventuras mundanas. Mesmo assim, em pleno século XXI, elas nos lembram que estamos convivendo com um tempo diferente. As ruas são mais estreitas, feitas de pedra. As construções, quase todas, têm uns 400 anos. As pessoas nativas de Alcalá em geral vêm de famílias que se conhecem há muitas gerações.

E é aqui que entra a parte não mundana da experiência. Uma parte dela é puramente imaginativa: como sabemos que esta parte do mundo teve habitantes dos quais lemos em nossos livros de colégio e faculdade, não é muito difícil imaginar um grupinho de humanóides, vestidos de peles, caçando pelas colinas ao redor de Alcalá. Mas outra parte da experiência precisa ser completada com uma visita a um museu arqueológico. Será aí que nos defrontaremos com artefatos, objetos, ossos, de uma ou mais civilizações muito antigas que viveram nesta região.

Assim, no museu arqueológico de Alcalá, se fica sabendo, por exemplo, que há uma lenda que soldados fenícios, vindos da guerra de Tróia, vieram até estas colinas e aqui fundaram a mítica Iplacea. No vale, se criou um bairro chamado Al-hala. O museu também nos informa que, embora esta Iplacea possa ser mítica, o que se sabe ao certo é que pesquisadores encontraram restos de povoações dos períodos Neolítico, Idade do Bronze, e da Idade do Ferro. Nesta última, já a população era formada pelos celtíberos, um povo que foi conquistados pelos romanos. Destes celtíberos existe prova, em escrito: foi encontrado um grupo de moedas nas quais se encontra o primeiro nome da cidade: Ikesancom Kombouto. Estudiosos também acham que o nome romano “complutum” dado a esta região talvez tenha sido resultado do termo latino “compluvium,” “lugar onde convergem as águas”. De fato, aqui convergem três rios, o Henares, o Camarmilla e o Torote. Esta região é chamada, muito apropriadamente, “Complutense”.

Os romanos, em sua época de dominação, impuseram sua língua, seus costumes, suas medidas, sua cultura. Como todos nós que falamos uma língua romance sabemos, nada destas imposições permaneceram como vieram. O latim se reconfigurou em uma dezena de outras línguas, cada uma trazendo parte de todas as que a compõe, tanto a do invasor como a do povo autóctone. Assim, o espanhol, por exemplo, é parecido, mas não é igual, ao português, ao francês, ao italiano, ao galego, ao catalão. E assim por diante.

Me faz lembrar aquela linda música do Lulu Santos, “Nada do que foi será/ do jeito que já foi um dia/ tudo passa/ tudo sempre passará.”

4.

Na cidade de Toledo, que fica a uns 100km a sudoeste de Madri, existe uma sinagoga no bairro chamado “Judería”. Estes bairros existem em praticamente todas as cidades espanholas. A sinagoga de Toledo me chamou a atenção de maneira especial porque a cidade sempre teve características aristocráticas, e porque foi uma importante cidade durante a época da reconquista do país dos mouros.

Perto da catedral da cidade, a sinagoga é um prédio ínfimo. Aliás, o prédio foi muito reconstruído, e muito pouco do que era antes da expulsão dos judeus em 1492 permanece. O prédio – assim como muitas propriedades dos judeus expulsos ou mortos pela Inquisição – foi dado a ordens religiosas cristãs, que o utilizou para vários fins didáticos e sanitários. Hoje, se podem ver partes do piso original, e existe uma escavação no local mostrando a parte inferior do prédio quando ele era usado como sinagoga.

O que me parece fascinante neste edifício, cuja visita recomendo a todos que vierem à Espanha, não é nem o fato que ele hoje abriga as cicatrizes da história dos judeus de Toledo, objetos históricos da vida dos judeus, livros, fotos, obras de arte. Estas coisas são importantes, mas o mais importante é que existe um consenso no país de que tem que saldar esta dívida e expor seus passos, mesmo os mais errados.

Hoje, há muitos judeus vivendo de volta em Toledo. Ainda não tive a oportunidade de conversar com as pessoas judias que conheço e perguntar o que elas sentem sobre esta história. Mas imagino que devam sentir, pelo menos, que a Espanha está tentando lembrar-se de onde vem, de todos os eventos, não só os gloriosos, não só as conquistas.

Atualmente, quando os nacionalistas Bascos estão tentando criar um país separado para eles – parte em território espanhol, parte em território francês – este é um assunto que tem suma importância. A resistência basca, em dezembro do ano passado, depois de haver dito que iria seguir um caminho diplomático, fez uso da violência mais uma vez, explodindo uma bomba no estacionamento do aeroporto, matando duas pessoas inocentes em seus carros. As duas pessoas, coincidentemente, eram dois homens latino-americanos, que tinham ido ao aeroporto receber parentes que chegavam.

5.

Eles são chamados “cayucos.” São africanos que chegam às praias de Andalusia, às vezes mais mortos que vivos. Vêm pelo mar, em canoas e botes sem a menor segurança. As estatísticas são de que, de três africanos que se aventuram, um não chega às praias de Andalusia.

E onde estão eles, os que sobrevivem e conseguem entrar? Em todos os lugares, todas as cidades. Que fazem? O que podem. Alguns vendem coisas nas ruas. Outros conseguem empregos mal pagos. Outros, pela necessidade, acabam se dedicando a atividades menos honestas.

A África continua com as portas abertas, e um grande contingente de seus filhos, a maioria homens, mas também mulheres, agora vêm por própria conta, mas sempre acossados pelas péssimas condições de vida em seus países. Sem contarmos com os que morrem na travessia, o continente perde muitos dos seus mais fortes, mais saudáveis. A vida, para eles, é difícil na Europa. São relativamente poucos os que realmente conseguem se estabelecer e criar raízes estáveis, formar famílias. Mas ainda assim continuam vindo, tentando, buscando.

Quem pode julgá-los?

6.

A mulher, de uns 60 anos, me pára na Calle Mayor, a rua principal de Alcalá de Henares. Nas mãos, traz vários raminhos de alecrim. Ela me coloca dois nas mãos, e diz, “Para sua sorte, senhora.”

Pega de surpresa, não tenho tempo de reagir antes que ela estenda a mão e me peça uma moeda. Sem ter dinheiro à mão, acabo devolvendo os dois raminhos e me desculpando muito com a mulher. Saio quase correndo, fugindo mesmo. E me sinto muito, muito mal, por não ter podido ajudá-la.

Esta mulher, assim como duas outras que “trabalham” a Calle Mayor, é cigana. Ou rumena, nao sei. Ou é uma cigana rumena. Durante a orientação para professores e alunos na Universidade de Alcalá, nós fomos advertidos que os ciganos e rumenos são responsáveis por  um grande número dos furtos cometidos nesta área, especialmente nas estações de metrô e nos locais turísticos, e que um dos truques pra distrair a atenção da vítima é o raminho de alecrim. Custo a acreditar que esta mulher seja parte deste grupo.

Dias mais tarde a revi, tentando entregar raminhos de alecrim a outras pessoas. Ainda não creio que seus propósitos sejam algo mais que conseguir algum dinheiro. Também já vi que ela está relacionada com o sanfoneiro que toca canções românticas e tristes debaixo das colunas centenárias da Calle Mayor. Os dois conversavam animadamente um dia desses, em uma língua que não reconheci.

Os ciganos estão na Espanha há muitos séculos. Sua música, sua dança, são parte importante da cultura espanhola. Muitos estão completamente integrados à vida espanhola, exercem funções comuns a todos os cidadãos. Como, então, estão aqui estes outros ciganos?

É bem possível que estes sejam recém chegados, especialmente da Romênia, onde foram cruelmente perseguidos e mortos durante a ditadura de Cescheuscu. Agora, seguindo a rota de muitos de seus antepassados, aqui estão eles na Espanha, assim como em outros países europeus.

7.

Às vezes é uma grande tolice olhar o passado muito longe. Às vezes é um consolo.

Neste momento, na Espanha, algumas coisas indicam que toda esta história arqueológica, e aquela documentada em livros, serviram para alguma coisa. A história mais recente da Espanha, com os horrores da guerra civil, com a ditadura de Franco, aliada a toda a história das lutas, conquistas, reconquistas, descobrimentos, guerras, derrotas, império e colônias, talvez tenha ajudado a tornar o povo espanhol em um povo muito maduro, e muito mais tolerante.

Ou, pelo menos, um povo que sabe que, o que se faz, de alguma maneira se paga. Se não hoje, então no futuro.

Quando o frei Bartolomé de las Casas, em seus textos do século XVI sobre a escravização dos índios sob o domínio dos conquistadores espanhóis, amaldiçoou seu próprio país e disse que a Espanha pagaria por seus pecados, ele não sabia que em 1898 ela perderia suas colônias numa guerra desastrosa. Mas alguns crêem que esta derrota, se não estava prevista nas palavras de Las Casas, foi a punição pela atuação cruel dos conquistadores espanhóis na América. Muitos historiadores dizem que, daquela derrota (na guerra contra os Estados Unidos) sugiram as condições que deram origem à guerra civil e à ditadura de Franco. Para os que acreditam nesta idéia, então o período desde a guerra civil até a subida ao poder do rei Juan Carlos foi uma espécie de purgatório. O sofrimento do povo espanhol durante aquele largo período deu lugar a um tempo de abertura e democracia.

Mas aqui estão as gangues de jovens latino-americanos. Que fazer com elas? De um lado, os espanhóis estabelecidos, e seus jovens (especialmente os rapazes) lutando contra os que são – ou são considerados – “invasores”. Do outro, os latino-americanos, todos vindos de países que são o resultado histórico da conquista da América. A trincheira desta luta é o espaço público, são as canchas de esporte, as praças, as ruas. Como resolver esta situação?

Este não é um problema de solução fácil, assim como certamente não foi fácil para os muitos grupos humanos que viveram nesta península nos últimos 40 mil anos. A vantagem – sem que queiramos ser positivistas cegos – é que neste momento o povo espanhol está tentando participar das discussões para resolver estes problemas. Muitas discussões serão necessárias. Muita vontade política será necessária. A beleza de tudo isto é que os espanhóis sabem que têm que participar da solução, porque nenhum governo, sozinho, pode legislar estas coisas.

Voltando àquele fóssil encontrado recentemente, e nas lições que nos sugere, é bem possível que diferentes grupos e idéias possam conviver e, talvez, até criar algo novo.

 

por EVA PAULINO BUENO

 

 

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