por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMASIO

Doutoranda em Literatura na Sorbonne e em Filosofia na
Université de Marne-la-Vallée

 

Mortos Sem Sepultura e o olhar de O Ser e o Nada

 

Jean-Paul SartreA obra Mortos Sem Sepultura, de Jean-Paul Sartre, publicada em 1946, é uma peça de teatro composta por três atos e narra a história de um grupo de partidários que, durante a segunda guerra mundial, atacou um vilarejo francês, matou muitas pessoas consideradas inocentes e, conseqüentemente, foi preso pela milícia.

Contando com doze personagens, esta obra tem como tema principal as conseqüências da guerra sobre as pessoas. A partir disso, podemos analisar as relações entre estas personagens, suas atitudes, suas influências. A idéia defendida, sobre a qual comentaremos, é que mesmo a vida e a morte dependem do outro e, mais especificamente, do olhar do outrem.

O ambiente é, o tempo todo, envolto em agonia e o cenário, que é descrito como muito sombrio, varia entre um sótão e uma sala de aula. A maior parte da história se passa entre as quatro paredes do sótão que recebe a claridade apenas por uma fresta. O personagem Canoris, “o grego”, que era um homem de ação e pronto à morrer em nome da liberdade, disse com indiferença que dentro do local onde eles estavam não acontecia nada de importante. Este comentário assinala a inutilidade humana que, nesta obra, é marcada pela guerra e pelas relações com o outrem.

As torturas se passam na sala de aula, é um lugar um pouco mais claro; isso nos dá a idéia de oposição: a claridade do ambiente contra a obscuridade da tortura e do silêncio à um grande preço. Um preço que poderíamos chamar de “negro”[1] como a escuridão.

Em geral, o existencialismo sartriano é fundamentado na revolta contra a aceitação cega da autoridade, do sistema. Não há ordem no mundo e o homem é um estranho, não tendo nada mais que sua existência. O mundo é um Nada e o homem se encontra nu diante dele. Ele está só face à obscuridade e à irracionalidade, mas encontra sua liberdade e pode designar, dar significações à tudo que é externo a ele, esta liberdade é, entretanto, angustiante porque o homem está condenado a ela.

O homem livre é responsável, e é por suas possibilidades que ele cria sua essência que é, então, precedida pela existência; assim, o homem cria ele próprio. Estas possibilidades são limitadas, influenciadas e determinadas pelo exterior, pelo ambiente, pelo meio, pelas leis mecânicas, pelo outrem.

Normalmente, nas obras de Sartre os conflitos existenciais são marcantes. “Mortos Sem Sepulturas” tem um ponto em comum com sua outra peça de teatro “Huis clos(A Portas Fechadas): nas duas, cada um é o torturador dos outros, porque eles se sentem acusados pelo olhar do outrem e estão, além disso, fechados entre quatro paredes sem que pudessem se deixar.

Viver é o absurdo, tudo sobre a terra está envenenado. Diante deste absurdo é preferível morrer. Jean, o chefe dos resistentes, que afirmava ter somente Lucie, sua namorada, e a própria vida, disse a Henri que preferiria morrer em seu lugar porque ele morrerá alegre e orgulhoso: a morte é considerada um motivo de alegria e orgulho. Acreditando nisso, Jean institui-se o mais infeliz que todos os outros porque estava condenado a viver. No final, Henri, por sua vez, declarou aos seus camaradas que não queria recomeçar a viver sendo que ele podia morrer consigo mesmo.

Os personagens estão sós diante de si próprios e são livres, logo, responsáveis. Sobretudo, são responsáveis pela vida de seus camaradas. Eles são livres a ponto de poderem escolher a vida ou a morte.

Há uma espécie de disputa entre os partidários e os milicianos, os partidários queriam vencer com suas possibilidades. Estas possibilidades são representadas, naquele momento, pelo fato de não falar, ainda que sob tortura, o que o “adversário” queria. Era melhor morrer do que denunciar seus companheiros. O personagem Henri evidencia esta situação: “Ganhar. Há duas equipes: uma que quer fazer falar a outra. (Ele ri.) Isso é idiota. Mas é tudo o que nos resta. Se falamos, perdemos tudo. Eles marcaram dois pontos porque eu gritei, mas no todo estamos bem posicionados.” (SARTRE, Morts sans sépulture, 2003, p. 166.)[2]

Presos, eles tinham somente suas mortes diante deles e queriam salvar esta morte do Nada, queriam que ela tivesse um sentido. Morreriam para salvar seus companheiros que estavam lá fora, ou, até mesmo, o chefe Jean, que estava com eles sem revelar sua verdadeira identidade aos torturadores.

A primeira idéia que se tem é, justamente, de um lugar sombrio, que dificulta o olhar físico. No entanto, em toda a história, pode-se constatar que as pessoas são olhadas, limpidamente, pelo outrem, pois elas crêem ser olhadas sem cessar por um olhar que ultrapassa a escuridão e que, neste caso, os leva à morte, porque, como Sartre afirma em “O Ser e o Nada”, é um olhar determinante, que os constitui.

Podemos detectar, agora, a natureza do olhar: há em todo o olhar, a aparição de um outrem-objeto como presença concreta e provável em meu campo perceptivo e, por ocasião de certas atitudes deste outrem, eu determino a mim próprio, tomado pela vergonha, angústia, etc., meu “ser-olhado”. (SARTRE, L’être et le néant. 2003, p.320)

A vergonha

François, o mais jovem, é o primeiro a ficar nervoso e a demonstrar a inquietação por causa do olhar do outrem. Ele pede barulho, pois não quer que os inimigos o escutem reclamar, no entanto, ele não quer o barulho da música que vem da milícia porque se sente olhado pelo olhar que o julga.

Ele tem vergonha de reclamar, vergonha diante do “outrem-inimigo”, ainda que eles não estivessem escutando-o. Esse fato não muda o sentimento e os sinais. Até aí, há uma falsa vergonha: ele a demonstra pedindo barulho e querendo livrar-se de suas algemas, como se tudo isso pudesse modificar o que está sentindo. Contudo, mesmo quando há barulho ele continua a ter o mesmo sentimento. Assim, ele deseja que o barulho atinja seus pensamentos, ainda que seja a narração das torturas que seus colegas sofreram, que quebre o silêncio.

Sorbier, ao contrário de François, prefere o silêncio e se inquieta ao ouvir o som dos passos de François. Porém, em seu silêncio é atingido, por sua vez, pelo sentimento da vergonha. Ele tem, em sua cabeça, os gritos da menina de treze anos que morreu no incêndio provocado por eles, em uma fazenda. São esses gritos, além do fato de ter matado outras pessoas, que desencadeiam sua vergonha.

Ele sente vergonha diante de seus amigos e diante das próprias pessoas mortas. É atormentado de tal maneira que admite não poder guardar esses gritos somente para ele. Na verdade, ao querer partilhar sua culpabilidade, ele não quer partilhar os gritos, mas a vergonha que sente.

François recusa a partilha dessa culpabilidade com Sorbier, ela a joga àqueles que deram a ordem de invadir o vilarejo, desta forma, grita que é inocente; mas assume, entretanto, sua própria vergonha: “Não me deixe só. Vêm-me idéias das quais tenho vergonha.” (SARTRE, Morts sans sépulture. 2003, p. 94) e declara sua agonia: “A todos os barulhos tenho sobressaltos. Não posso mais engolir minha saliva, estou agonizando.” (Idem, p. 173)

Ele tem medo do olhar e diz a Lucie que não quer olhar as faces de seus companheiros. Essa atitude confirma seu medo de reconhecer que é julgado, olhado. Se ele os olha, verá a morte, a culpabilidade e os olhares deles sobre ele.

Quanto a Lucie, ela sai, bruscamente, de seu sonho quando Sorbier fala da pequena que morreu, mas demonstra ter muito mais vergonha de ter colocado François, seu irmão mais novo, nesta vida. Ela tenta mascarar sua vergonha ocupando-se dele e procurando meios para que ele se livre disso tudo. Sendo assim, depois que ele morre, ela ocupa-se somente dela, com o objetivo de agüentar firme até o fim.

Com relação aos seus torturadores, Lucie deixa claro o determinismo do olhar dizendo que não foi violentada porque ela não admite isso; repreende o irmão porque se continuasse a afirmar o fato, ela seria violentada verdadeiramente, é o olhar de François que a violentaria, que admitiria o ato cometido pelos milicianos. Ela não poderia, então, ser vista como alguém que tenha sido violentada.

Ela sente-se tão orgulhosa de sua atitude, de não ter dito nada que os adversários queriam, que afirma não precisar de ajuda. Sente orgulho, também, da morte de François, morto por Henri para não entregar os outros. Como eles decidiram juntos que ele deveria morrer para não falar, ela assume a morte como sendo ela mesma que o tivesse assassinado.

No final, o orgulho de Lucie aumenta quando ela grita aos milicianos que eles a violentaram, que eles queriam que ela esquecesse isso e continuasse vivendo, mas ela se recusa e clama pela morte. Ela admite o estupro para contrariá-los e para jogar o ato vergonhoso em suas caras. Nesse momento, assume o papel de sujeito objetivizando os torturadores, que passam a ser um objeto que possui a vergonha. Essa inversão é considerada uma vitória, ou seja, pontos marcados para a equipe dos prisioneiros.

Quando Henri é torturado, a vergonha vem com seus gritos, para ele, o único sentido de tudo isso é de perseverar até o final sem desviar o objetivo, sem denunciar seus camaradas. A vida não tem sentido, ele demonstra essa falta de sentido quando diz que sua vida nunca foi boa, intitula-se inútil e assinala sua impotência diante dela, bem como sua culpabilidade, que vem com o sentimento de inutilidade e de vergonha diante do mundo. Ele designa como inúteis tanto seu nascimento como as mortes de que são culpados, conseqüência de ordens idiotas e mal executadas:

Se ao menos eu pudesse dizer-me que fiz o que pude. Mas é, sem dúvida, pedir muito. Durante trinta anos, senti-me culpado. Culpado por viver. Agora, existem as casas que queimam por minha culpa, existem esses mortos inocentes e eu vou morrer culpado. Minha vida foi somente um erro. (SARTRE, Morts sans sépulture.  2003, p. 109)

Diante da certeza da morte, ele joga seu olhar sobre ele próprio, com a intenção de fazer o papel de objeto e sujeito ao mesmo tempo, mas não pode porque é necessário que o sujeito seja o outrem. Há uma queda em direção à objetivação que é alienação, e não se pode alienar-se de si mesmo. Ele pode, evidentemente, passar de objeto a sujeito e vice-versa, mas isso não pode acontecer ao mesmo tempo[3].

É o outrem que o constitui, que influencia o si-mesmo, e ele só sente vergonha diante do outrem. Mesmo quando afirma que está só, que ninguém mais pode lhe dar ordens e nada mais pode justificá-lo, ele declara a ausência de alguém (um outrem) que fazia isso antes.

A ausência se dá, unicamente, pela realidade humana e, somente ela, enquanto suas próprias possibilidades, pode ter esse lugar: “Em uma palavra, a ausência define-se como um modo de ser da realidade-humana com relação aos lugares que ela mesma determinou pela sua presença.” (SARTRE, L’entre et le néant. 2003, p. 317)

Seu amor por Lucie, que sempre foi um segredo, torna-se mais vivo com o sofrimento. Henri afirma que o sofrimento os aproxima enquanto que o prazer que ela tinha com Jean os separava, ele sente-se muito mais próximo dela do que antes e mais próximo do que Jean era dela porque a dor aproxima mais que a satisfação.

Lucie, Henri e Canoris, depois da morte de François, se declaram unidos pelo sentimento de vergonha, eles “caíram” juntos. Lucie e Canoris sentem vergonha quando Hennri gritou ao ser torturado. Lucie lamenta, até mesmo, que Canoris não tenha gritado, porque se o tivesse feito, ele teria tanta vergonha como Henri, e eles também teriam vergonha com ele, isso os tornaria mais unidos. “A vergonha é o sentimento de queda original, não pelo fato que eu tivesse cometido tal ou tal falta, mas, simplesmente, pelo fato de que eu “caí” no mundo, no meio das coisas, e que eu preciso da mediação do outrem para ser o que sou.” (Idem, p.328). O fato de precisar do outrem possibilita uma maior unidade.

As possibilidades

Todos eles explicitam suas possibilidades diante do outrem, diga-se, face à milícia, mesmo aqueles que não queriam pensar nisso, acabaram por expressar o que acreditavam que fariam na hora da tortura.

Estas possibilidades em relação ao outro caem a probabilidades, pois elas são limitadas por esse outrem[4]. Nunca temos certeza do que o outrem pode fazer, de como ele pode agir. Deste modo, o outrem impõe um limite às possibilidades que constituem meu ser, que definem minhas atitudes, minhas reações. “Na medida em que me nego como outrem e em que o outrem se manifesta primeiro, ele pode se manifestar somente como outrem, ou seja, como sujeito além do meu limite, quer dizer, como aquele que me limita. De fato, nada pode me limitar além do outrem.” (Ibidem, p.326)

Constata-se que é preciso a negação para que isso aconteça. Eu declaro o outrem por minha negação de ser este outrem, afirmando ser eu próprio e vice-versa. Desta maneira, eu sou responsável pela negação do outrem.

Após a cena IV, pode-se perceber, claramente, a influência do outrem porque eles não reagiram exatamente da mesma maneira que eles haviam previsto. Confere-se este fato nas palavras de Sorbier depois de ter passado pela tortura: “(...). Agora eu sei. Sei o que eu sou de verdade.” (SARTRE, Morts sans sépulture, 2003, p. 124).

Sempre que eles escutavam um barulho no corredor, reagiam como se já estivessem sendo olhados. Esperavam que a milícia viesse buscá-los, mas isto nem sempre era verdade. Mesmo assim, tinham vergonha e medo, porém, esses sentimentos eram falsos porque o sujeito – o outrem que, neste caso, era a milícia – não era verdadeiro, pois eles estavam enganados.

Nas três primeiras vezes eles se enganaram. A primeira coisa a fazer, era identificar o barulho como um barulho de homem, dos homens que eles esperavam, então, seria necessário identificar os milicianos e não era qualquer barulho que os definiria como homens. Seria preciso mais que o simples barulho seria preciso o olhar. Não necessariamente o olhar físico, mas um barulho mais preciso que os fizesse se sentir olhados, que pudesse apresentar um outrem-sujeito. Era preciso definir a natureza do olhar.

Em seguida, quando a porta se abriu, eles identificaram o homem como objeto, no entanto, quando ele colocou o seu olhar sobre eles e não fez o que eles esperavam, houve uma descentralização do mundo que escapa a eles. Seria preciso, também, que esses homens chegassem para levá-los.

De outro lado, os milicianos esperavam, sempre, que os presos falassem, e se defrontavam com seus limites cada vez que um deles resistia. Quando Sorbier declarou sua vitória saltando pela janela, eles se sentiram completamente sem poder sobre os prisioneiros. Essa reação inesperada que escapou a eles fez com que perdessem, verdadeiramente, uma batalha.

Quando souberam que François estava morto, tiveram, igualmente, o sentimento de ter seus atos limitados pelos atos do outrem. Não podiam mais fazê-lo falar, a situação escapou a eles, também. A contingência do mundo se assinalou. Eles tinham a consciência de não ter lugar neste mundo e de que a existência era inútil.

Conclusão

Considerando esta obra, podemos inferir que o ser só pode ser constituído pelo outrem. Este “pelo” acaba designando um “para” o outrem. É o olhar que o outrem põe sobre mim que desencadeia minhas atitudes, meus gestos, minhas reações, meus sentimentos. É preciso que eu o defina como “outrem” para que eu encontre minha identidade e, mesmo, minha essência de “ser”. Assim, é necessário que eu me negue como “outrem”.

Minha liberdade de definir meu ser é, sempre, limitada, pelo outrem. Minhas possibilidades são limitadas. O limite é a influência que ele tem sobre mim quando eu me sinto olhado. Este poder lhe é atribuído somente por sua subjetividade. Devo me assumir, preferencialmente, como “ser-olhado-para-outrem” do que como “ser-olhado-por-outrem”.

O mundo e as ações são arrancados de mim. Meu mundo se escoa em direção ao outrem. É a contingência que define minha queda. Minha queda original é, justamente, a existência do outro. Finalmente, eu me dou conta de um além, de uma transcendência.

Assim, a aparição do olhar do outrem não é a aparição no mundo: nem o “meu” nem o do “outrem”; e a relação que me une ao outrem não saberia ser uma relação de exterioridade ao interior do mundo, mas pelo olhar do outrem, eu testemunho, concretamente, que há um além do mundo. (SARTRE, L’être et le néant, 2003, p. 309).

Os personagens de “Mortos Sem Sepultura” , apesar de suas mortes e suas vidas, foram, sempre, definidos por este olhar do outrem. Esta definição pelo outrem é a transcendência que os submetia e que todos eles procuravam.

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[1] A palavra “negro” é utilizada, aqui, referindo-se à sua conotação na maior parte das culturas, com relação às ações não consideradas boas. Nos dicionários, pode-se encontrar definições como: triste, funesto, mau, mal, atroz, odioso, perverso, etc. “O negro, símbolo da melancolia, do pessimismo.” Tradução nossa. (ROBERT, Paul Dictionnaire alphabétique e analogique de la langue française. Paris: Le Robert, 1981, p. 1275).

[2] Tradução nossa para todas as citações das obras de Jean-Paul Sartre.

[3] De acordo com a teoria sartriana, o ser só pode assumir a função de objeto e sujeito, ao mesmo tempo, quando não tem relação real com o outrem.

[4] Segundo Sartre, quando uma possibilidade está fora de si ela torna-se probabilidade (conf. SARTRE, J.-P. L’être et le néant. 2003, p.304)

 

por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMASIO

   

 

 

 

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Bibliografia:

SARTRE, J.-P. La P… respectueuse seguido de Morts sans sépulture. Paris: Gallimard, 2003.

________. L’être et le néant. Paris: Gallimard, 2003.

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