por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Ocasiões e cerimoniais natalinos

 

Foto da autoraO episódio da árvore mais linda do mundo

Era uma vez, há muitos anos (mais ou menos 40), numa vila então distante de uma cidade chamada Maringá, num estado em que todos trabalhavam (de acordo com o seu lema), um grupo de crianças da vila decidiu fazer uma árvore de Natal. Todos eles já tinham visto a árvore da igreja de Santo Antônio, que era linda: cheia de luzinhas, e de bolas coloridas.

Pra essas crianças, as alegrias do Natal eram as requeridas – missa, hinos, sermões intermináveis que contavam a história do nascimento de um menino chamado Jesus – e as inesperadas, tais como quando alguma dela ganhava um presente de verdade, e não somente outro guarda-pó pra escola, ou lápis e canetas e cadernos pro ano que vem. Estamos aqui falando de um grupo de crianças de uma vila pobre, lógico.

Mas aquela árvore de Natal na igreja era realmente uma das melhores coisas de dezembro. Uma vez, algumas daquelas bolas caíram, e as meninas esperaram todo mundo sair da igreja, e recolheram os pedacinhos. Como eram lindos! Elas guardaram tudo numa caixinha.

Mas, desta vez – eram os idos de 1965 – elas resolveram fazer a sua própria árvore. Ninguém tinha um tostão, nem como ganhá-lo, mas isto não era problema: iam usar um arbusto dos muitos que se encontravam na beira da estrada. Arrancaram o arbusto, e levaram pra frente do quintal da casa de uma das meninas cuja mãe tinha concordado em deixar que a árvore de Natal fosse feita diante da sua casa.

O arbusto era muito pequeno. E torto. As meninas resolveram que assim mesmo estava bom. Mas o arbusto não parava em pé, e começou a murchar imediatamente depois de arrancado. Aqui estava o primeiro problema.

O segundo, foi que elas perceberam que a caixinha com caquinhos das bolas de Natal da igreja do ano anterior tinha sumido. A menina que tinha ficado encarregada de guardar a caixinha tinha dois irmãos pequenos. Decerto eles tinham consumido a caixinha.

E agora, que fazer? Uma árvore de Natal sem enfeites não tinha graça nem era árvore de Natal.

As meninas resolveram falar com Joana. Ela ia com o pai todas as tardes pra praça da rodoviária. O pai era cego, e pedia esmola. Joana sempre trazia papéis brilhantes e coloridos de carteiras de cigarro que ela achava na praça. Joana então entrou no grupo, e ficou encarregada de juntar muitas carteiras de cigarro. E assim foi feito. Em alguns dias, as meninas – agora quatro – tinham muitos papéis para fazer as bolas. Por sorte e coincidência, no outro dia a irmã mais velha de Joana estava encarregada de levar o pai ao centro.

As quatro meninas embolaram pedaços de jornal para fazer as bolas, e embrulharam com o papel alumínio e papel dourado das caixas de cigarro. Mas como colocar as tais bolas na árvore? A mãe de uma das meninas emprestou agulha e linha, e elas resolveram este pequeno problema técnico. Em umas duas horas, elas fizeram umas trinta bolas para a árvore.

Então, era hora de voltar ao problema número um. E bem na hora, porque o Natal estava chegando muito perto, e a árvore tinha que ser enfeitada. Depois de alguma discussão, concluíram que a melhor coisa seria arrancar outro arbusto, e plantar na frente da casa escolhida. Um dos meninos foi encarregado de ajudar a procurar a “árvore” e arrancá-la. E assim foi feito: em meia hora, o arbusto escolhido foi retirado do mato, trazido pro quintal, e plantado no buraco. Com um bom balde de água jogado no pé do arbusto, as meninas tiveram certeza que desta vez a árvore não ia murchar. Agora só faltava colocar as bolas.

E assim foi. No fim da tarde, a árvore de Natal estava feita. Era a primeira vez que elas viam uma árvore de Natal tão linda. As mães e as crianças pequenas que vieram ver o resultado acharam a árvore linda também. Outros adultos vieram espiar e disseram que estava linda.

As meninas estavam radiantes. Mal puderam jantar direito e já voltaram correndo pra olhar a árvore e fazer planos para uma maior no ano que vem. Estava de fato tão boa a árvore, que até os meninos, que riram no começo do “projeto,” vieram olhar também. (O que tinha arrancado o arbusto e ajudado a plantar não se denunciou, e pediu às meninas que não revelassem que ele tinha ajudado. Algumas coisas eram sagradas, e menino não brincava com menina naquele tempo!)

Por fim, cansadas de admirar sua obra prima, as meninas foram dormir.

Naquela noite, caiu um toró. De manhã, olhos cheios de sono, quando elas foram olhar a árvore, viram que a chuva tinha derretido as bolas, e a enxurrada tinha desenterrado a árvore, que jazia no chão, como um defunto. Só os fiozinhos das linhas pendiam dos galhinhos do arbusto.

Naquela noite, dia 24 de dezembro, com arames e pedaços de papel de seda verde, a mãe de uma das meninas fez outra árvore de Natal e enfeitou com fotos de flores tiradas de revistas, coladas em pedacinhos de papelão e presas na pequena árvore com fios de linha. Agora, por via das dúvidas, a árvore estava dentro de casa. Embaixo dela, estavam quatro embrulhos, cada um com o nome de uma das meninas.

De manhã, quando a filha acordou e viu a árvore, ela não podia acreditar. Logo as quatro meninas se juntaram olhando aquela maravilha. A mãe lhes disse que alguém tinha trazido os embrulhos durante a noite, e fez a distribuição.

Dentro dos embrulhinhos, cada uma encontrou uma revistinha, e uma mensagem que dizia, simplesmente, “Feliz Natal para a menina que fez a árvore de Natal mais linda do mundo.”

As compras natalinas

No dia depois do Dia de Ação de Graças, a televisão americana sofre não uma metamorfose, mas uma intensificação: os programas são quase todos sobre o Natal, e os comerciais são todos sobre o Natal. Este ano, particularmente, senti que estes comerciais são como um cerco ao meu ser. Me sinto manipulada, mandada, julgada, ordenada a consumir, consumir, consumir a qualquer custo, sob pena de perder minha identificação com a espécie humana.

Um destes comerciais mostra um casal jovem na cama, dormindo. O homem abre os olhos, se levanta e caminha, pé ante pé, a um outro quarto, e volta trazendo uma corrente com um pendente de brilhante, que ele coloca sobre o tórax da mulher. Uma música de fundo pergunta, “Como posso dizer que eu amo você, sem usar nenhuma palavra?” A mulher acorda, apanha a jóia, olha, e se volta sorrindo para o homem, que agora faz de conta que está dormindo. A música aumenta, e a música insiste, “Como posso dizer que amo você?” Os dois se beijam.

A mensagem é clara: você pode dizer que ama uma pessoa com um presente. E quanto mais caro o presente, maior o amor. A fórmula tem uma beleza matemática: presente + caro = + amor. O que nos leva a concluir que presente  – caro= – amor. Então, se você quer ter amor, vai já já indo pra uma loja comprar o presente mais caro que você puder.

No dia 24 de dezembro, nas notícias vespertinas, anunciaram que o povo americano este ano gastou um récord de quase oito bilhões de dólares só nos dois dias anteriores, e o gasto total no país para este ano se calcula em uns 72 bilhões de dólares. As pessoas entrevistadas, correndo feito baratas tontas ou postadas nas filas das lojas, diziam que tinham que fazer suas “compras de Natal.” Quer dizer: presente + caro = + amor. Ou então é realmente uma espécie de hipnose geral, ou todos se transformam em robôs que têm que seguir a ordem de “comprar! Comprar!”

Ou será que não? O que são realmente estes presentes de Natal? Somente um sucumbir à fúria consumista? E o que dizer daquela grande maioria de pessoas que gasta no Natal além de suas posses e acaba endividada por muitos anos pagando juros? Ou será que estas compras todas indicam alguma outra coisa, a necessidade de resolver alguma insatisfação, insegurança? Ou será um jogo social em que cada um procura demonstrar que conhece a pessoa presenteada tão bem que vai saber escolher o presente ideal?

É bem possível que todas estas opções estejam corretas, e que existam muitas outras. Eu pessoalmente prefiro achar que a presenteação excessiva que vejo nos Estados Unidos ilustra um desejo, por parte do/a presentador/a, de mostrar que a) tem dinheiro, b) tem conhecimento da pessoa presenteada, c) que acredita na fórmula “presente + caro = + amor,” e que, de uma certa forma, querem manter o contacto com a pessoa presenteada. Os mais espertos, e os que não têm dinheiro suficiente, recorrem ao estratagema chamado de “regifting” – representear: guardam os presentes recebidos e os dão a outra pessoa. As possibilidades de erros e inúmeras situações embaraçosas e comédicas são enormes. Já houve, por exemplo, gente que recebeu de volta presentes que tinha dado no ano anterior; gente que recebeu presente com o cartãozinho ainda atado ao pacote, contendo o nome de outra pessoa, com seus votos etc à que agora a presenteava. Um dado interessante, de acordo com a tevê americana: os moradores do leste, e democratas, são os que mais “representeiam.”

E onde ficamos, com tudo isto? É muito negativo fazer este reboliço todo com os presentes? Gastar além da conta com os presentes? (Depois que o Natal passar, vêm as contas, assim como diz a canção, “depois que a saudade passar, a conta vem.”)

Ao fim e ao cabo, eu pessoalmente acredito que uma das melhores coisas do Natal é que as pessoas se mandam cartões, cartinhas, mensagens de email, desejando felicidades, saúde, e “muito dinheiro”. Mesmo que seja algo automático, e em algumas ocasiões até mesmo obrigatório, de qualquer maneira é uma forma de as pessoas se relembrarem da existência uma das outras. No nosso mundo atual, em que já não moramos todos os conhecidos em uma vila em que as crianças amigas podem se reunir num projeto de árvore de Natal, pelo menos esta rede de cumprimentos atravessando cidades, estados, países, é uma forma de reavivar nossas relações com nossos conhecidos, amigos e parentes, de recordarmos que estamos todos juntos num projeto que nem sequer entendemos direito, mas que faz bem recordar.

Isso sim, vale a pena. E não custa quase nada, a não ser relembrar as pessoas que tocaram nossas vidas, e mandar um sinal de que estamos vivos, estamos aqui ainda, e que elas são parte desta vida.

 

por EVA PAULINO BUENO

   

 

 

 

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