por HENRIQUE RATTNER

Professor (aposentado) da FEA/USP e Coordenador do Projeto "Capacitação Mercosul" da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL

 

 

Iraque - corte e corra?

 

Sob este título, a revista “The Economist” publicou no número 3501/vol 382 de 28/10 a 3/11/06 um editorial em que analisa as opções da política norte-americana no Iraque, às vésperas das eleições de 7 de novembro nos EUA.

A questão do Iraque é central nas políticas dos EUA e da Grã-Bretanha, não somente porque têm suas forças armadas envolvidas no conflito – 150 mil soldados dos EUA e 12 mil da Grã-Bretanha – além de soldados poloneses, italianos, japoneses e de outros países. O Iraque tornou-se o epicentro das tensões e conflitos que assolam o mundo ocidental, desde o ataque às torres gêmeas do World Trade Center de Nova Iorque em 11/9/2001, as invasões sucessivas do Afeganistão e Iraque, supostamente para derrotar o terrorismo. Ora fala-se de “choque de civilizações”, ora de uma nova cruzada contra a intolerância e a violência incontida dos islâmicos.

Caricaturas do profeta Muhamad publicadas em um jornal dinamarquês despertaram a ira e a revolta de centenas de milhões de islâmicos, desde o Extremo Oriente – Malásia, Indonésia, Bangladesh, Índia e Paquistão – até o Atlântico – Marrocos, Argélia, Mauritânia – e reações ainda mais iradas surgiram no Oriente Médio, convulsionado pelo conflito entre Israel e os palestinos e a ameaça representada pelo programa nuclear do Irã.

O Iraque – a antiga Mesopotâmia localizada entre os rios Eufrates e Tigre foi, ao lado da China e do Egito, um dos berços da civilização humana. Sumérios, acádios, assírios, babilônios e persas ocuparam sucessivamente esse território extremamente fértil e propício à agricultura irrigada; hoje com 434 mil km2 e aproximadamente 23 milhões de habitantes.

Em sua marcha vitoriosa, as colunas gregas sob o comando de Alexandre Magno, ocuparam as principais cidades da Mesopotâmia, e continuaram sua expansão pelo Afeganistão e a Pérsia, a caminho da Índia. A história do Iraque foi e continua sendo uma das mais trágicas e pode ser concebida como uma confirmação de hipótese sobre “ascensão e queda” de grandes impérios. Sucessivas invasões destruíram o complexo sistema de canais de irrigação, base de uma economia agrícola altamente desenvolvida que propiciou os recursos e a base material para o crescimento e expansão das cidades. No fim do século VII da Era Cristã, os árabes conquistaram, como um vendaval, as terras férteis e seguiram em sua expansão até a Pérsia, Índia e, mais tarde, Indonésia. Sob as dinastias dos Omayadas e Abbassydas iniciou-se um novo ciclo de florescimento econômico e cultural, tendo Bagdá como centro e irradiando sua cultura até a Espanha e África do Norte, particularmente na época do lendário califa Harun al Rashid. A partir do século X da Era Cristã, as invasões dos mongóis devastaram novamente a Mesopotâmia, deixando sua população num estado de penúria que não foi superado pela conquista de toda região pelos turcos que dominaram um vasto império, estendendo-se do Afeganistão até a África do Norte.

Durante a I Guerra Mundial, quando ficou evidente a derrota próxima dos exércitos otomanos, foi estabelecido um acordo secreto entre franceses e britânicos (Acordo Sykes-Picot, 1916) pelo qual decidiu-se a divisão dos territórios turcos, cabendo aos primeiros a Síria e o Líbano, enquanto o Iraque, a Palestina, o Egito e a Arábia ficariam com os ingleses.

Finda a Guerra, os ingleses tentaram entronar Faiçal, um filho de Hussein, o xerife de Meca que tinha colocado sob as ordens de Lawrence das Arábias dezenas de milhares de guerreiros árabes ajudando na derrota dos turcos como rei de Damasco. Os franceses reagiram e a Grã-Bretanha foi obrigada a retirar Faiçal, oferecendo-lhe como compensação o título de Rei do Iraque.

O acordo foi sancionado em 1920 pela Liga das Nações, que confirmou no mesmo ato o mandato da Inglaterra sobre a Palestina. Na parte oriental foi estabelecido o Rei Abdallah, outro filho de Hussein, cujo reino e o de seus herdeiros se mantêm ao longo de décadas graças à Legião Árabe, uma força militar fiel de beduínos, treinada e armada pelos britânicos.

O lado ocidental do Rio Jordão, onde se estabeleceram os colonos judeus, foi reconhecido em 1947 pelas Nações Unidas como Estado de Israel, o que deu início a uma série infindável de conflitos armados com os palestinos e os países árabes vizinhos.

Em 1958, com a queda da monarquia e a ascensão de militares ao poder, a influência dos ingleses diminuiu gradualmente, devido aos sentimentos nacionalistas dos oficiais militares e da população. Esses sentimentos nacionalistas e anticolonialistas já se manifestaram durante a II Guerra Mundial quando, em 1941, com o avanço dos alemães pela Rússia e pela Líbia, ameaçava cortar as rotas marítimas e terrestres entre a Inglaterra e a Índia, oficiais militares egípcios e iraquianos tentaram um golpe de Estado contra os britânicos.

A seqüência dos acontecimentos segue de perto o movimento nacionalista dos militares no Egito que depuseram o Rei Farukh, em 1956. Enquanto o Egito foi rapidamente dominado pelos coronéis sob o comando de Gamal Abdel Nasser, o Iraque passou por um período turbulento de vários golpes militares até 1968, quando o poder foi conquistado pelo partido Baath, que se dizia “socialista”. Em 1979, após um outro golpe militar, Saddam Hussein assumiu o governo, no qual se manteve até 2003. Tal como Nasser, seu ídolo, com seu discurso panarábico e suas ações anticolonialistas que nacionalizou o Canal de Suez e lutou contra a Grã-Bretanha, França e Israel, numa guerra na qual foi salvo da derrota pela intervenção diplomática conjunta dos EUA e da URSS. Ambos os ditadores alimentaram certamente o sonho de um mundo árabe unido, sob o comando de um novo “Napoleão” árabe. Nasser faleceu em 1970, mas Saddam Hussein continuou em sua política bélica internamente, contra as etnias xiita e curda, que foram reprimidas, intimidadas e massacradas pelas tropas sob o comando dos sunitas.

Tendo eliminado qualquer oposição interna, Saddam Hussein lançou-se, em 1980, numa guerra contra o Irã xiita que durou oito anos e causou a morte de 1,5 milhão de soldados. Comprovadamente, o Iraque usou, durante a guerra, de armas químicas, cuja matéria-prima foi fornecida pela Grã-Bretanha e EUA, tementes da expansão dos xiitas iranianas sob o comando dos ayatolás. Terminou o conflito, sem vencedores ou perdedores, por imposição de um cessar-fogo das Nações Unidas. Dois anos mais tarde, as tropas do Iraque invadiram o Kuait, país também rico em petróleo. A reação das potências ocidentais não demorara. As tropas dos EUA invadiram o Iraque, obrigaram os soldados iraquianos a retirar-se do Kuait e facilmente poderiam ter chegado até Bagdá derrubando Saddam Hussein.

Entretanto, o cálculo estratégico das potências ocidentais levou-as a parar diante de Bagdá e assim manter o regime ditatorial de Saddam. Certamente, contribuiu para essa opção o temor de uma expansão do Irã, em aliança com os xiitas iraquianos.

Ironia da História, em 2003, após o ataque e derrubada das torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque, o governo Bush (filho) decidiu invadir outra vez o Iraque, ignorando resolução das Nações Unidas e a resistência da maioria dos países, inclusive China, Rússia, França e Alemanha. As razões alegadas e nunca confirmadas foram a ameaça do Iraque à paz mundial por desenvolver e armazenar armas químicas, biológicas e nucleares. Ademais, Saddam Hussein seria parceiro de Osama Bin Laden.

Nada adiantaram os relatórios da Comissão de Inspeção das Nações Unidas, negando a existência dessas armas no Iraque, nem o Relatório Kelly, um assessor de Tony Blair que foi morto ou teria se suicidado em circunstâncias misteriosas. Outro relatório, de um diplomata norte-americano foi rechaçado por Bush, que somente dois anos mais tarde iria confessar que sua decisão de iniciar o conflito estava baseada em informações falsas da CIA.

Ademais, por arrogância ou ignorância, o governo Bush parecia desconhecer que no final da II Guerra Mundial, quando parecia próxima a derrota do Japão, o governo do presidente Roosevelt tinha encomendado à antropóloga cultural Ruth Benedict um estudo para decifrar e antever as reações do povo japonês a uma provável ocupação de seu território. Não consta que uma iniciativa semelhante tenha sido preconizada e realizada para aprender sobre a cultura e os povos árabe-islâmicos.

Curiosamente, verificou-se posteriormente que tanto o planejamento da campanha militar quanto aos planos de reconstrução do Iraque tinham sérias falhas e se mostraram totalmente irrealistas. As autoridades militares e os soldados norte-americanos esperavam ser recebidos com flores e o povo aclamando os invasores por derrubar a ditadura e prometendo a instalação de um regime democrático.

O balanço, neste final de 2006 é trágico: 2800 soldados americanos apesar de equipados com as armas mais modernas foram mortos, 20 mil feridos, com muitos casos de amputação ao ponto de ser necessário construir às pressas um novo hospital especializado, e mais de 30 mil soldados foram retirados por necessitarem de cuidados médicos especiais, provavelmente psiquiátricos, por causa dos traumas da guerra. Com isto, aumentou a rejeição da população americana e inglesa à guerra exercendo pressão sobre Bush e Blair, e levou à derrota acachapante dos republicanos nas eleições de 7 de novembro de 2006.

A captura de Saddam Hussein e seu julgamento por crimes de guerra, particularmente o genocídio de mais de 180 mil curdos e xiitas, não melhorou a situação. Não diminuíram os ataques de “insurgentes”, nem as represálias dos invasores que afetam, sobretudo, a população civil. O Iraque está destruído, sua infra-estrutura de energia e transporte, escolas, hospitais e prédios estão em escombros e a população está de luto permanente. O número de vítimas civis, difícil de calcular, se eleva segundo algumas estimativas a 600 mil; outros falam em 900 mil e a cada dia morrem pessoas nos atentados à bomba e nas emboscadas.

Não existem mais leis ou instituições que garantam pelo menos a sobrevivência da população. Além dos soldados invasores, aproximadamente 180 mil, há um exército crescente de mercenários que atuam como “seguranças” para funcionários das empresas estrangeiras, políticos, tecnocratas e jornalistas cuja remuneração está bem mais elevada do que do soldado militar. Estão também fora da jurisdição militar, o que lhes permite cometer além de corrupção generalizada, assassinatos, estupros, torturas, abusos sexuais e tráfico de drogas e armas. Dificilmente poderia-se alegar que o Iraque “progrediu”, mesmo depois de terem capturado e levado a julgamento Saddam Hussein, que foi proibido de revelar suas relações com o ex-secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, e com o clã dos Bush (pai e filho).

Os mesmos que forneceram a matéria-prima para a fabricação de armas químicas usadas contra os iranianos e curdos recusaram posteriormente o envio de material para a fabricação de vacinas contra difteria, alegando que poderia servir também para produzir armas biológicas.

Eis, em resumo, a situação do Iraque após a invasão das potências ocidentais, hoje atoladas e assoladas no que parece ser um beco sem saída. Bush falou de uma nova estratégia duas semanas antes das eleições, mas até agora absolutamente nada explicou ou especificou. A situação é trágica, pois a cada dia fica mais claro que ninguém entre os falcões americanos, nem entre os democratas vitoriosos no último pleito tem uma proposta concreta e sustentável.

Fala-se numa república federativa, dividindo o país em três regiões, mais ou menos autônomas. É verdade, o Iraque nunca se constituiu uma nação com identidade, idioma e cultura comuns a todos. Parece fácil dividir o território entre os curdos, xiitas e sunitas, mas a proposta não leva em conta os deslocamentos forçados de milhões de pessoas de etnias e religiões diferentes, mantidas unidas durante as últimas décadas, pela mão de ferro do ditador. Os curdos até ficariam contentes com a confirmação de sua relativa autonomia, já que em seu território estão localizadas as maiores jazidas e poços de petróleo. Os xiitas (a maioria) que ficariam em território sunita temem a vingança dos grupos armados sunitas que durante o regime de Saddam Hussein ocuparam os principais postos no governo, nas forças armadas, na política e nos negócios. Os sunitas, por sua vez, receiam a perda total dos rendimentos da exploração e exportação de petróleo, esteio principal da economia. Os xiitas, odiados e eternas vítimas dos sunitas preparam-se para uma vingança pela opressão secular e formaram uma milícia bem treinada e armada, sob o comando de Muqtadar-al-Sadre, que controla parte de Bagdá e outras regiões, sem que os americanos ousassem prendê-lo.

Os EUA apostam, após desmontar as antigas forças armadas de Saddam Hussein, na constituição de um novo exército que se encarregaria, após a saída dos americanos, da segurança do país. Entretanto, os avanços nesta direção são extremamente lentos e muitas vezes desencorajadores. Parte dos novos recrutas desertam, vendendo suas armas aos insurgentes e, mesmo quando treinados, não têm ânimo para enfrentar a violência e a ferocidade dos mesmos. O comando norte-americano prometeu que para cada três brigadas iraquianas, treinadas e armadas às custas do contribuinte americano, será retirada uma brigada dos EUA do Iraque.

Dado o tempo necessário para o recrutamento, seleção e treinamento mínimo dos jovens iraquianos, estimados em seis meses, a estratégia norte-americana levaria pelo menos uma década para concretizar-se. Até lá, o que espera a população do Iraque, são a continuação dos massacres, tentativas de “limpeza étnica”, guerra civil, enfim, uma vida infernal sem fim em vista.

O que agrava essa situação é a retomada da violência e conflitos armados no Afeganistão, supostamente pacificado e democratizado, onde ressurgiram adeptos do Talebã, de Osama Bin Laden e outras gerações de guerreiros, muitas vezes estimulados pelos chefes tribais que contestam o governo central de Hamid Karzai, em Cabul.

Alguém se arrisca em apontar uma saída do atoleiro em que se meteram os americanos e ingleses? Ou, estarão esses dois países em um “callejón”, um beco sem saída?

Por isso, é pertinente a pergunta do “The Economist” – “cut and run”? embora evoque o espectro da derrota catastrófica no Vietnã, quando os soldados “descalços” derrotaram os 500 mil soldados norte-americanos dotados de armamentos dos mais modernos.

A História se repete, duas vezes, como tragédia?

por HENRIQUE RATTNER

   

 

 

 

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Referências Bibliográficas

BENEDICT,Ruth. O crisântemo e a espada, traduzido e publicado pela Editora Perspectiva, São Paulo, 1972

FISK, Robert. Outro “grande dia” no Iraque. Folha de S. Paulo, 7/11/2006.

The Economist – Novembro 4-10/2006

The Economist – Outubro 30 – Novembro 3/2006

 

* Outros textos do autor estão disponíveis na coluna IDENTIDADE em www.abdl.org.br 

 

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