por JOÃO DOS SANTOS FILHO

Bacharel em Turismo pelo Centro Universitário Ibero-Americano (UNIBERO) e Bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Mestre em Educação: História e Filosofia da Educação pela PUC/SP. Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

MARCELO PARREIRA VELOSO

Bacharel em Turismo pela Faculdade Cambury de Goiânia e Especialista em Pesquisa e Docência em Turismo e Hospitalidade pela Universidade de Brasília (UnB/Cet). Autor dos livros “Visita Técnica: uma investigação Acadêmica” (Ed. Kelps: 2000) e “Turismo simples e eficiente” (Ed. Roca: 2003). Possui vários artigos publicados em jornais e revistas acadêmicas nacionais. Atua, também, na área de gestão pública, ocupando a Gerência de Orientação Preventiva e procedimentos Administrativos do Gabinete de Controle Interno do Governo de Goiás.

 

 

 

A regulamentação profissional do turismólogo não se resume a uma questão meramente filosófica

 

Pronto: 

A contraposição saiu – para o desespero daqueles que insistem em negar a luta de classe como sendo o motor da história

 

Não, não seria essa nossa intenção! Contrapor aos raríssimos e equivocados manifestantes contrários à regulamentação da nossa profissão, e sim alertar para alguns fatores que vem sendo analisados e disponibilizados, sempre, de maneira distorcida e travada, envolvendo muito mais uma visão antropofágica de corte academicista duvidoso ou como estratégica mercadológica. Não há o que discutir, ou profissionalizamos o turismo no Brasil, utilizando para isso das ferramentas normativas de controle e fiscalização, a partir da responsabilização de uma categoria devidamente organizada (sindical e politicamente), qualificada, capacitada e preparada, ou então, continuaremos a aceitar, calados e passivos, o descabido proceder de ditos profissionais do setor de turismo.

Se de um lado temos a academia que tem a sua responsabilidade na profissionalização conceitual, teórica, técnica e humanista temos de outro lado um mercado ávido de organização e responsabilidade, para tirar do leito do rio limpo e claro do turismo, a alga inóspita  que tem conseguido enlameá-lo.

Não queremos utilizar, neste documento, informações, dados e números para expor o que existe e o que não existe sobre os países que tem a regulamentação do profissional de turismo, queremos apenas apresentar uma posição em relação à devida regulamentação a ser normatizada no Brasil. Em vários artigos que escrevemos sobre esta questão, sempre tivemos a preocupação em fundamentar a posição que defendemos. E agora, para que possamos ampliar a discussão, propomos algumas considerações para que os leitores possam refletir e, se acharem importante, manifestarem sobre as mesmas.

Senão vejamos:

  1. Os que sempre manifestam contra a regulamentação e organização sindical da categoria tem suas condições financeiras e econômicas estruturadas, ou seja, são docentes, consultores, escritores e empresários que, independentemente da regulamentação, não terão as suas vidas profissionais alteradas, aliás, o risco é de que, com a regulamentação, terá, em curto espaço de tempo, um grande número de profissionais ocupando alguns espaços deles. Esse medo velado acaba bloqueando ou dificultando o desenvolvimento da luta organizativa dos turismólogos em torno de uma organização sindical combativa e independente de interesses pessoais.

  2. Interessante que as manifestações contrárias à regulamentação, sempre vem absorvida de críticas à estrutura profissional do turismo, focando sempre a questão do consumo e do mercado, como fonte capital, ou seja, a instrumentalização social, cultural e política do turismo são tidas como um mero ponto a ser considerado. Esta percepção em que há uma secundarização dos valores sociais, culturais e políticos em relação a uma leitura economicista, exige saber e quantificar quanto foi consumido pelo turista e como o mercado deve se organizar para atender ao gosto do turismo receptivo, o único que é valorizado e aclamado como capaz de trazer o desenvolvimento econômico.

  3. De outro lado, existem àqueles que são a favor, porque não conseguem emprego e acham que com a regulamentação o emprego vai cair do céu, ou tem aqueles que querem sair da faculdade/universidade empregados. Aliás, esse é um dos principais argumentos usados pelos opositores à regulamentação, para justificar suas posições. Nada mais falso e leviano, pois a luta sindical fortalece a categoria para reivindicar e não cria emprego.

  4. Existem, também, os que criticam as instituições (faculdades/universidades) pela má qualidade do curso, outros pela falta de controle e fiscalização do governo, mas nunca encontram tempo para reunir ou fazer parte de alguma entidade, associação ou grupo de pessoas que lutam pela regulamentação;

  5. Outro ponto a ser considerado é a da utilização brusca de um processo ideológico de defesa do fim da história, apagando a história da luta de classes mundial e nacional, impondo uma historiografia que não é nossa, mantendo a crença de que Thomas Cook é o criador do turismo (como se o fenômeno do turismo não acontecesse na América Latina) ou como o programa nascituro e morbo “Empreendetur” fosse o salvador do turismólogo;

  6. Em relação à criação de uma entidade de classe, é importante transpor alguns aspectos fundamentais para que esta entidade:

Seja a defensora oficialista do turismo nacional e não somente do turismólogo;

Seja comprometida com os interesses do turismo de uma maneira abrangente, principalmente com o do turismo receptivo e não simplesmente com uma política apenas ou somente para o turismo interno;

Não seja uma entidade de amigos na defesa de interesses pessoais;

Seja a disseminadora e divulgadora de tudo que é de interesse do turismo, fazendo chegar, inclusive, ao conhecimento da categoria os pareceres contrários ao projeto de regulamentação elaborados pelo Ministério do Trabalho e pelo Ministério de Turismo.

  1. Tem aqueles que, em proveito de sua vasta peregrinação turística pelo mundo se acham no direito de tentar convencer que existe uma forte tendência no mercado, nacional e internacional, contra a regulamentação, mas, nunca apresentam, de maneira clara e comprovada, de onde foram tirados esses dados. O que existe na verdade é o uso individualista, baseado numa retórica, dita neoliberal, que inculca a ideologia da desregulamentação, significando, com isto, a negação da luta de classe.

  2. O turismo é um setor ativo e estratégico nas sociedades pós-industriais, portanto não pode ser subestimado ou analisado de acordo com instrumental teórico absoluto ou dogmático. Essa é uma visão atrasada, linear e de “senso comum”, que possui suas raízes no positivismo que recusa a processualidade histórica e que entende a regulamentação profissional como algo descolado do turismo como um fenômeno social.

  3. Deve-se discutir de maneira efusiva sobre o que é, e o que representa a regulamentação profissional, que muitas vezes é tida ou dita como algo burocrático e ineficaz. O cerne da questão não é algo meramente político, basta observar o que elencamos abaixo:

Em primeiro lugar: os sindicatos e as associações perdem sua força de barganha, são hostilizados e ridicularizados pela sociedade e por seus próprios filiados, que acreditam que houve um esgotamento da luta de classes;

A lógica é a negação da política e a adoração dos pensamentos livres, abertos, naturais e descomprometidos de qualquer objetivação teórico-filosófica, portanto, de tonalidade irracionalista. Este é o jogo da despolitização;

Esse movimento de negação da história aparece em virtude de nossa formação cartesiana, muito presente no pensamento da humanidade, que se traduz dentro do seio de setores da academia que trabalham no sentido da volta de um purismo escolástico que acredita na neutralidade, pois parte do pressuposto que o sistema capitalista caminha para um redirecionamento inevitável de rumo, no qual nossa atitude seria aderir ao seu modelo sem buscar as determinações, pois não devemos e não podemos pensar em modificá-las;

Esse entendimento, em que muitos de visão dita neoliberal, pensam o fenômeno turístico de forma idealista buscando acreditar no equilíbrio e harmonia que deve ancorar o turismo sustentável.

A globalização para o turismo se constitui em uma solução para seu crescimento. Esse pensamento de base economicista está preocupado com a entrada de recursos econômicos, entendendo a transformação dos homens em simples mercadoria.

Os fatos errôneos dessa visão levam-nos a termos de lutar dentro e fora da academia contra aqueles que acreditam nas "boas" intenções do capitalismo para com o turismo. Bondosos idealistas se instalaram nas galerias do saber e desenharam um fenômeno turístico acrítico, sustentável e desenvolveu programas modelares para o país, como forma de conscientizar a diversidade cultural por meio de um modelo estrangeiro que não atende as nossas peculiaridades de país continental.

Pouco temos a festejar, pois somos uma categoria ainda muito despolitizada e com um inexpressivo censo crítico.

  1. A nós cabe entender todas essas limitações e buscar combater os reais inimigos do turismo profissional, com qualidade e organização e, por conseguinte, dos turismólogos, que se caracteriza por aqueles discursos que:

Encaram a regulamentação da profissão como coisa desnecessária por meio do discurso despolitizante, infantil, reargumentando sua fala com base na "qualidade total" que, como resposta imediata, costura a ideologia do pragmatismo;

Combatem a regulamentação usando da lógica discursiva simplista que a mesma não criará empregos e, portanto não é necessário lutar por essa causa;

Existem outras profissões que não são regulamentadas e o mercado está à disposição dos mais competentes, não há necessidade de nenhuma formatação jurídica, mas de pessoal qualificado capaz de garantir seu mercado de trabalho;

Se regulamentarmos a profissão, limitaremos o nosso campo de trabalho, deixando de lado atividades que poderão surgir e que necessariamente fugiria de nossa amplitude regulamentada;

Em nenhum país do mundo a profissão de bacharel em turismo foi regulamentada, essa argumentação aparece como o último recurso dos ditos neoliberais para justificar suas posturas de fundamentação exclusivamente capitalista e de uma posição perversamente direitista. Na verdade a leitura que essas pessoas fazem da realidade não leva em conta a luta de classes como motor da história, mas sim, deslocam sua leitura para as técnicas de motivação, ou seja, de auto ajuda.

Importante chamar a atenção de todos os alunos e dos já graduados em turismo, para que não se deixem levar pelas falas sedutoras daqueles que se dizem nossos amigos, mas na verdade lutam para que o turismólogo não amplie seu mercado de trabalho e não se reconheça como elemento transformador da realidade turística. Esses "amigos da onça" lutam para que nossa categoria não cresça e sim desapareça, pois em sua lógica todos podem vir a contribuir não necessitando de nenhum estatuto corporativo.

Pense, amplie seu censo-crítico e acompanhe a discussão atual e reflita quais os motivos que levaram entidades, pesquisadores e professores a tentarem desmobilizar nosso trabalho, por meio da lógica separatista de que política e academia devem estar desvinculadas.

Será que eles entendem a lógica da luta de classes?

Bom, teríamos mais um grande número de considerações, mas sabemos que só essas já serão suficientes para suscitar uma discussão acalorada. Portanto, não sejamos incrédulos, nem messiânicos, sejamos realistas com a nossa verdade brasileira:

O turismo é uma jóia que precisa ser bem lapidada, e sabemos que não existem só aqueles que querem usá-la de maneira bruta, primitiva; existem aqueles que, de maneira leiga e com instrumentos antigos, podem e querem lapidá-la; outros com muito ciência, técnica e prática podem fazer até melhor; mas, por incrível que pareça, tem aqueles, também, que querem roubá-la, achando que a jóia só pertence a eles.

O turismo não é, simplesmente, um processo filosófico, arranjo econômico, instrumento cultural ou formalidade social, é uma realidade do cotidiano do ser humano que precisa de água, sol, ar e terra, com censo para medir, consenso para meditar, com senso para ser respeitado.

 

por JOÃO DOS SANTOS FILHO & MARCELO PARREIRA VELOSO

 

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