por ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO

Doutor em Ciência da Computação (UFPE)

 

 

Inclusão Digital – Sobre a solução com ‘Laptop de 100 dólares’ e a inebriante inépcia do governo brasileiro

 

“You can never solve a problem on the level on which  it was created.
Albert Einstein

Laptop popularO Brasil erra com sua iniciativa de laptops de 100 dólares. Não será desta forma que o governo brasileiro irá diminuir o abismo digital existente no país. Hoje, o Brasil tem aproximadamente 15% dos domicílios com computadores e cerca de 11% com acesso a Internet, segundo IBGE. A exclusão digital é imensa. Todavia, isso não se resolve com iniciativas como essa que tem sido alardeada pelo governo brasileiro. Vejo com tristeza a insistência das três esferas do governo em querer solucionar o problema da exclusão digital, buscando simplesmente oferecer, das mais variadas maneiras, TIC’s (tecnologia da informação e comunicação) aos excluídos. Mas, qualquer solução não começa por aí. Antes de tudo, é preciso tratar a exclusão social pela qual vive há décadas, e porque não dizer séculos a população brasileira. Inclusão digital tem três pilares (educação, renda e TIC’s). E, não há inclusão digital sem inclusão social. É preciso correr, e muito, para resgatar o tempo perdido.

Observe que para que quaisquer iniciativas caminhem para uma solução, é preciso que os formuladores de política pública do governo percebam que a exclusão sócio-econômica desencadeia a exclusão digital, ao mesmo tempo que a exclusão digital aprofunda a exclusão sócio-econômica. A inclusão digital deveria ser fruto de uma política pública com destinação orçamentária a fim de que ações promovam a inclusão e equiparação de oportunidades a todos os cidadãos. Neste contexto, é preciso considerar indivíduos com baixa escolaridade, baixa renda e com limitações físicas, além de idosos. Uma ação prioritária, portanto, deveria ser voltada às crianças e jovens, pois constituem a próxima geração. Todavia, para que essa ação traga resultado, é necessário uma ação orquestrada, sem qual continuaremos a emplacar baixos índices no DAI (Digital Access Index) ou Índice de Acesso Digital, elaborado pela ITU (International Telecommunication Union), que mede a possibilidade de acesso dos cidadãos de cada país às TIC’s. O Brasil encontra-se no segundo grupo com índice de 0.50 (66a. posição), conforme estudo coordenado por Michael Minges da ITU e apresentado em http://www.itu.int/newsarchive/press_releases/2003/30.html.

Pouco se consegue em termos da inclusão social através da inclusão digital no Brasil. O inverso seria o mais adequado. Eu diria que ela é muito incipiente. Não adianta haver programas e iniciativas de inclusão digital ou similares. Enquanto os três pilares (educação, renda e TIC´s) não forem adequadamente tratados, esse elevado índice de exclusão digital vai perdurar. Há uma má distribuição de renda no país, maioria da população tem baixo nível de escolaridade e esses dois fatores a limitam em ter acesso as TIC´s). É preciso que haja ações coordenadas nas três esferas governamentais em sintonia com a sociedade. Caso contrário, o problema persistirá por décadas. Hoje, apenas pouco mais de 11% da população brasileira é considerada incluído digital. Isso é muito pouco. É uma vergonha.

O abismo existente entre ricos e pobres que determina a exclusão social está sendo acentuado pela exclusão digital. Esse abismo existe e ainda perdurará. Por que? Porque as 3 esferas governamentais não resolveram os problemas básicos derivados dos três pilares da inclusão digital.

Considero essencial que haja uma reestruturação da sociedade brasileira, nos próximos anos, buscando assegurar o acesso a serviços públicos, ao trabalho e a condições de vida dignas para todos os brasileiros. Entretanto, escuto que o Brasil é o país do futuro há décadas e vejo pouquíssimo avanço. É triste dizer isso, mas falta compromisso dos governos nas três esferas. Apenas, observa-se algumas soluções pontuais em algumas cidades e só. Gostaria de ver esse país melhorar em vários sentidos, inclusive no problema da inclusão digital. Todavia, para se tratar do problema da inclusão digital com seriedade, é preciso tratar da exclusão social. Não é com programas ´assistencialistas´ que a exclusão social e digital vão ser solucionados. O cidadão precisa de trabalho para ter renda e precisa ter consciência de que a educação é fundamental para si e seus filhos. Enquanto não tivermos maioria da população com mais escolaridade e com renda, nada mudará. E isso só ocorrerá daqui a décadas SE começarmos hoje. Para que se tenha uma solução de inclusão digital efetiva no que ela se propõe, é precisa de ações coordenadas das três esferas governamentais em sintonia com a sociedade organizada para prover suporte aos três pilares da inclusão digital.

Há algo maior que chamo de vida digital que compreende oferta de serviços de natureza pública ao cidadão. Vida digital é uma tendência global. Governos de todo o mundo têm concentrado esforços no desenvolvimento de políticas e definições de padrões em termos de tecnologias da informação e comunicação (TIC’s), visando construir uma arquitetura interoperável a fim de munir as pessoas com acesso a informações e serviços. A aplicação das TIC’s no provimento de acesso a informações e serviços é denominada de governo eletrônico (ou governo digital como um conceito mais amplo). Cabe salientar que a maioria dos governos visa:

Oferta de meios de acesso a informações e serviços

Organização das informações dentro dos órgãos do governo

Troca de informações entre as várias esferas do governo

Suporte a interoperabilidade

Apesar dos esforços e iniciativas do governo brasileiro, suas preocupações e ações estão mais concentradas no aspecto técnico. Entretanto, há adicionalmente o aspecto social que é essencial a inclusão digital e, conseqüentemente, a vida digital. Como apresentado em http://www.espacoacademico.com.br/040/40amsf.htm, TIC’s não é tudo. O governo brasileiro precisa acordar. Sem os três pilares da inclusão digital, apenas parcela (11%) da população terá vida digital. Vida digital requer TIC’s e inclusão social.

 

por ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO

   

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