TIMOTHY L. POWELL with collaboration and editing by GIANANTONIO (JONATHAN) MICHELON

 

Sobre os autores:

Timothy L. Powell, Graduando da Mary's University, San Antonio, TX.

Gianantonio (Jonathan) Michelon, Professor adjunto de Ciência Política, St. Mary’s University, San Antonio, TX

 

 

 

Um breve exame das causas da imigração aos Estados Unidos antes e depois das duas guerras mundiais

[Tradução: Eva Paulino Bueno]

 

Introdução

Os Estados Unidos, por boas razões, é freqüentemente chamado de uma nação de imigrantes. Quase todas as pessoas dos Estados Unidos é descendente de um imigrante. A imigração é uma fonte de mudança cultural e de crescimento populacional no país, embora aqueles que nasceram fora nunca passaram de mais de 15% da população desde 1675. Mas de onde estes imigrantes vieram, e por que eles deixaram seus países de origem? Os imigrantes de uma nação em particular tinham qualquer tipo de vantagem sobre os imigrantes de outro país? Muitos artigos e livros já foram escritos sobre este assunto, então propomos focalizar ainda mais e examinar o movimento de imigrantes para os Estados Unidos durante os anos antes da Primeira Guerra Mundial, especificamente os anos de 1900 a 1914, e os anos entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, e também analisaremos as razões para os seus movimentos, concentrando-nos especificamente na Itália e no Reino Unido.

História

A imigração sempre teve um papel muito importante na história dos Estados Unidos. Entre 1870 e 1914, 34 milhões de europeus deixaram seus países de origem, e 27 milhões dentre eles vieram para os Estados Unidos.[1] Mas e os imigrantes da Itália e do Reino Unido? Por que eles decidiram fazer a longa jornada através do oceano para virem aos Estados Unidos?

Na virada do século XIX para o século XX, a Inglaterra era a fábrica do mundo.[2] O seu comércio, exportação e atividade industrial estavam crescendo como nunca. O sol nunca se punha no Império Britânico, e aquele império se estendia pelo globo e liderava o mundo na produção de manufaturados. No entanto, muitos cidadãos do Reino Unido viam o futuro em termos incertos. Para eles, os dias de prosperidade e otimismo estavam terminados. O movimento de pessoas do campo para os centros urbanos como Londres e Manchester havia criado pobreza, doença e sofrimento a tal nível que até a família real não ficou imune aos horrores da cólera que foi causada pela água contaminada que afetou o suprimento de água potável para toda a cidade de Londres.

Ao despontar do século XX, a Itália tinha alcançado o status de nação apenas trinta e nove anos antes, em 1861, com o Rei Victor Emmanuel II. Antes de ser um país independente, a Itália existia como uma coleção de nações-estado. A maioria da terra na Itália, assim como em muitos outros países rurais não-industrializados, estava nas mãos do Estado, da igreja, ou dos latifundiários. Nas áreas rurais, um grande proletariado sem terra começou a emergir. Estes camponeses sem terra eram arrendatários, ou, na melhor das hipóteses, eram donos parciais da terra que ocupavam. E, depois que a Itália conseguiu tornar-se uma só nação, ela ainda enfrentava problemas dentro e fora de suas fronteiras.

Quais foram as causas da imigração? Embora não exista um fator único para explicar toda a imigração, vários fatores comuns podem ser identificados, e envolvem questões tais como a diferença de salários entre os Estados Unidos e outros países, a taxa de crescimento da população em um país nos vinte a trinta anos anteriores, as condições políticas e econômicas nos Estados Unidos, os vários graus de industrialização e o número de imigrantes de um determinado país que já haviam chegado aos Estados Unidos.

Os anos antes da Primeira Guerra Mundial, 1900-1914

O começo do século XX marcou muitas mudanças para o mundo inteiro. O aceleramento do avanço científico, melhor transporte e comunicações mais rápidas transformaram o mundo de forma que seria impossível imaginar cinqüenta anos antes, e estas mudanças ocorreram de forma extremamente rápida. A chegada do novo século viu também uma considerável mudança na maneira que um grande número de pessoas viviam suas vidas. Mas aquelas mesmas mudanças, incluindo mudanças econômicas, políticas e sociais, freqüentemente tiveram efeitos imprevisíveis e inesperados na população de todos os países.

Entre 1900 e 1914, um total de quase 13 milhões de imigrantes entraram nos Estados Unidos.[3] Como se imagina, a maioria dos imigrantes aos Estados Unidos veio da Europa, com a maioria deles sendo originária da Alemanha e Irlanda. Números menores de imigrantes também vieram de países como Rússia, Noruega e Suécia. Mas e os imigrantes que vieram da Itália e da Inglaterra? Por que eles resolveram atravessar o oceano e tentar a vida nos Estados Unidos? Eles tinham alguma vantagem sobre os outros grupos?

De fato, no fim de 1914, antes do começo da “Guerra que terminaria todas as guerras” [4], a imigração da Inglaterra aos Estados Unidos contava com quase 3,5 milhões de pessoas. Muitos tentavam escapar dos crescentes horrores da vida urbana que foram o resultado da migração em massa de pessoas do campo. Aqueles que continuaram a morar nestes enormes centros urbanos como Londres, Manchester e Liverpool sofriam constantes ameaças de despejo devido aos aluguéis exorbitantes e à ganância dos proprietários de imóveis; outros viviam arriscando ferimentos sérios e até morte devido às péssimas condições de trabalho causadas pelos inescrupulosos donos das fábricas; finalmente, eles também viviam constantemente acurralados por problemas de saúde por causa das condições sanitárias inadequadas nas cidades grandes e nas cidades pequenas também.

A morte da amada Rainha Victoria em 1901 deu lugar à ascensão do popular Príncipe de Gales sob o nome de Edward VII. Embora ele fosse conhecido como “Edward o Pacificador”, havia um crescente descontentamento e ressentimento em muitos setores da população. A Inglaterra passou a habitar numa espécie de “zona de meia luz”[5] enquanto que o equilíbrio de poder na Europa passou a mudar em muitas áreas. O nascimento do Labor Party (Partido do Trabalho) oriundo dos sindicatos de trabalhadores pobres na Inglaterra, também assinalou uma drástica mudança no clima político local. A questão do uso de tarifas para proteger a indústria local e nacional também contribuiu para tempos muito difíceis no Reino Unido. Para muitas pessoas na Inglaterra, a emigração era vista como uma maneira de escapar de todos estes problemas.

Com a passagem do século XIX ao XX, a situação era extremamente diferente a mil milhas do sul da Inglaterra. A Itália era ainda um país jovem, e quase completamente rural, e não tinha muita indústria. Esta nova nação enfrentava difíceis problemas. Uma dívida muito grande, combinada com a quase completa inexistência de indústria e sistemas de transportes, poucos recursos naturais, extrema pobreza, alto índice de analfabetismo, e uma estrutura de impostos desigual criavam grandes sobrecargas para o povo italiano. O regionalismo imperava no país, e muito poucas pessoas tinham o direito ao voto. O Papa, ainda furioso com a perda das terras papais e de Roma, se recusou a reconhecer a Itália como país. A forte repressão do governo resultou no aparecimento de bandidos e na anarquia entre os camponeses. A diferença de renda aumentou quando o norte do país começou a enriquecer enquanto que o sul foi afundando mais e mais na pobreza. A Itália estava se tornando rapidamente um país em crise, insatisfeito. Aqueles que desejavam uma mudança viram na emigração a única solução para seus problemas.

Entra 1900 e 1914, aproximadamente 8 milhões de italianos deixaram seu país, e destes, 3 milhões permaneceram na Europa. Por volta de 1914, um milhão e meio de italianos viviam nos Estados Unidos. Estes imigrantes se instalaram primariamente nas grandes áreas urbanas como Nova Iorque e Chicago.

O começo da Primeira Guerra Mundial assinalou uma drástica mudança na imigração para os Estados Unidos. De 1905 até o começo da guerra, a imigração para os Estados Unidos era de quase um milhão de pessoas anualmente. Depois do começo da guerra, a imigração passou a ser apenas uma pequena porcentagem do que era antes.

Os anos entre as guerras: 1918 a 1938

Os anos entre as duas guerras mundiais, 1918 a 1938, foram anos instáveis e amedrontadores para muitos dos países e habitantes da Europa. Trezentos anos de hegemonia européia chegaram ao fim. Uma grande parte da Europa estava em ruínas, devido ao avanço de forças armadas nacionais e da tecnologia da guerra. Novas fronteiras foram demarcadas, países completamente novos emergiram da devastação da Grande Guerra, enquanto que antigos impérios desapareceram. Quando a população começou a recuperar-se da devastação e dos horrores da guerra, muitas pessoas começaram a vislumbrar seu futuro em outro lugar, talvez na terra de um dos vitoriosos da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos.

O fluxo de imigrantes dos mesmos países continuaram como antes, durante estes anos, mas agora havia novos países dos quais os imigrantes estavam chegando. A nação da Tchecoslováquia surgiu das ruínas do antigo Império Austríaco-Húngaro.[6] A Polônia foi outra vez reconhecida como um país em 1918, depois de uma ausência de quase 130 anos. Apesar de todos estes fatores, as razões para a emigração, com algumas exceções, não tinham mudado significativamente.

No entanto, houve uma mudança que teve sérias repercussões no fluxo de imigrantes aos Estados Unidos depois da Primeira Guerra Mundial. No dia 19 de maio de 1921, foi aprovado o Ato de Emergência de Quotas, também conhecido como o “Ato Johnson das Quotas”. Este ato limitava o número de imigrantes europeus aos Estados unidos a cerca de 350.000 por ano. O “Ato Johnson das Quotas” limitava o número anual de imigrantes que podiam ser admitidos de qualquer país a 3% do número de pessoas daquele país que já viviam nos Estados Unidos em 1910. Este ato foi o resultado direto da crescente onda de isolamento e não-intervenção que varreu os Estados Unidos no fim da Primeira Guerra Mundial. Outras ações tomadas pelos Estados Unidos naquele tempo incluíram a recusa do Congresso americano de aprovar o Tratado de Versalhes, ou a Liga das Nações.

Quando seus soldados retornaram dos horrores sem precedente da Primeira Guerra Mundial, os soldados do Reino Unido encontraram seu país acossado por crescente problemas laborais e greves, crescentes distúrbios nas suas colônias ao redor do mundo, contínuos problemas políticos e sociais na Irlanda que tentava liberar-se do Reino Unido, e uma economia enfraquecida. O desemprego em massa assolou o país quando Winston Churchill retornou o país ao “gold standard” (“standard de ouro”) de 1925.[7]

Quando Hitler subiu ao poder na Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial, uma onda de nacionalismo se espalhou no continente. Nuvens de guerra podiam ser vistas formando-se no horizonte. Muitos cidadãos do Reino Unido viram uma vida melhor para si próprios do outro lado do oceano.

A Itália passou por uma situação semelhante em alguns aspectos, e diferente em outros: por causa da Primeira Guerra Mundial, o país foi atirado em uma profunda crise política e social. Os veteranos retornando da guerra, os camponeses desesperados e famintos, milhares de trabalhadores desempregados e uma classe média amedrontada contribuíram para tornar a Itália em uma nação instável. Os nacionalistas extremos dos partidos Socialista e Popular pediam expansão territorial, enquanto que as greves de trabalhadores e a constante ameaça de revolução contribuíam para um sentimento palpável de instabilidade.

Esta constante tensão foi um fator chave para a subida ao poder do ditador Benito Mussolini, um antigo revolucionário socialista que impôs um regime totalitário, destruiu as liberdades civis e criminalizou todos os outros partidos políticos. Sua subida ao poder foi conseguida através do uso do terror e da subversão constitucional. Sua política exterior, baseada na agressão e na expansão, terminou por levar à aliança entre a Itália e a Alemanha de Hitler, e mais tarde à Segunda Guerra Mundial. Todos estes fatores, tanto individualmente ou uma combinação entre vários, levaram milhares dos cidadãos a tentarem conseguir uma vida melhor em outros lugares, tanto na Europa, América do Sul, ou Estados Unidos.

Conclusão

Como podemos ver, há numerosas razões pelas quais os cidadãos do Reino Unido e da Itália buscaram uma nova vida para si mesmo em outros países. Condições tais como distúrbios laborais, condições políticas injustas ou repressivas, más condições de trabalho, condições de vida ruins ou insalubres, ou a ameaça de guerra, todas levaram as pessoas destes países a buscar uma vida melhor longe de sua terra natal. Nos Estados Unidos, no começo do século XX, a imigração era vista menos como uma ameaça do que durante os anos entre as guerras, de 1918 a 1938. Durante aqueles 20 anos, a intervenção do governo era vista como a resposta apropriada à imigração, porque os Estados Unidos estavam buscando uma posição mais isolacionista. Infelizmente, tudo indica que os Estados Unidos estão indo nesta mesma direção neste começo do século XXI. Somente o tempo nos dirá se a história vai repetir-se ou se outras opções mais abertas serão encontradas.

 

__________

[1] www.jmu.edu/madison/center/main_pages/teacher/curriculum/chap9.htm

[2] www.britannia.com/history/naremphist9.html

[3] Immigration Statistics: A Story of Neglect (1985) – The National Academic Press - http://darwin.nap.edu/books/0309035899/html/14.html

[4] Esta é uma maneira de referir-se à Primeira Guerra Mundial. Naturalmente, como sabemos, não só aquela guerra não terminou todas as guerras, mas, muitos opinam que foram exatamente as tensões e questões irresolvidas na Primeira Guerra deram origem à Segunda Guerra. (nota da tradutora).

[5] www.britannia.com

[6] www.cia.gov/cia/publications

[7] O “standard de ouro” era um compromisso entre países que decidiam atar o valor da sua moeda nacional em termos de uma quantidade especificada de ouro. Ver artigos sobre este sistema, sua história, seu uso, seus conseqüências em http://www.econlib.org/library/Enc/GoldStandard.html e em http://www.econ.iastate.edu/classes/econ355/choi/golds.htm  (nota da tradutora).

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