por RAYMUNDO DE LIMA

Formado em psicologia, mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

O professor, “sua” ética e a política

 

“A função da escola é ensinar às crianças como o mundo é, e não instruí-las na arte de viver. Dado que o mundo é velho, sempre mais que elas mesmas, a aprendizagem volta-se inevitavelmente para o passado, não importa o quanto a vida seja transcorrida no presente” 

(ARENDT, 1992, p. 246).

“As profecias que caem das cátedras universitárias não têm outro resultado senão o de dar lugar a seitas de fanáticos e jamais produzem comunidades verdadeiras” 

(WEBER, 1995, P. 453).

 

Age de modo ético o professor que impõe aos alunos, durante a aula, um candidato x ou partido y para eles votarem? Cabe ao professor, do alto de sua cátedra, fazer pregação política ou deve problematizar ou analisar o momento político, as tendências, os candidatos, os interesses que estão em jogo? Qual é a função dos professores em época de eleições?

Durante a campanha eleitoral, o professor, como cidadão que é, também pode ser tomado pela paixão política, deixando de lado o compromisso de análise serena sobre o contexto político do momento; contudo, dependendo do tipo de relacionamento que estabelece com os alunos, o professor pode vir a ser solicitado por eles para expressar sua opinião sobre quem é o melhor candidato, ou mesmo revelar em qual candidato ele irá votar.

Ao exprimir tal opinião, o professor revela seu lado pessoal quando seu trabalho deve ser necessariamente impessoal; sua função é o da  transmissão do saber sistematizado, no caso, sobre o complicado jogo político, os interesses pessoais e de grupos, as demandas dos diversos partidos políticos, etc.

Desde a época da ditadura militar é lugar comum dizer que o compromisso do professor é o de levar os alunos a pensar criticamente o mundo em que vivemos. Embora a palavra ‘crítica’ fosse usada, naquele contexto político, como um fetiche[1] que enfeitiçava tanto os que a usavam como os que a ouviam, o sentido geralmente empregado era o de ir contra o ‘sistema’ capitalista e o ‘regime’ ditatorial. Ora, ser crítico parece implicar algo mais do que o mero levantamento de objeções ou a emissão de opiniões estereotipadas e descontextualizadas. O aluno que aprendeu somente repetir compulsivamente frases prontas, plagiadas da boca de um autor ou professor em vez de assumir o trabalho de pensar, analisar e contextualizar tanto as palavras como os acontecimentos, ainda não sabe ser crítico porque não foi bem educado nesta habilidade. Um aluno que age como se fosse um boneco ventríloquo do seu mestre posicionado criticamente não está sendo verdadeiramente crítico, porque, tal atitude ‘critica’ deve ser construída pelo próprio sujeito criativo; por outro lado, se auto-engana o professor que troca seu compromisso profissional de problematizar as coisas para ser um “líder” para os seus pupilos, alertava o sociólogo Max Weber (1982; tb. CARVALHO, 2004, 2005).

Apesar de alguns professores se deixarem levar pelo relativismo pós-modernista, pouco se importando ser a atividade docente mais moral do que ética (IMBERT, 2001), é preciso reconhecer que para uma escola se construir democrática não basta apenas ter uma agenda de reuniões marcadas para debater e decidir assuntos educacionais por meio do voto, mas, sim, é no cotidiano das relações humanas orientadas pedagogicamente pelo respeito ao outro, o pluralismo de falar e escutar idéias diferentes que a democracia pode virar ato comum e necessário para a existência tanto de cada pessoa como do coletivo da escola. Caso contrário, teremos uma escola de fachada democrática abrigando em seu interior um “núcleo duro”, insensível e indiferente aos diferentes posicionamentos que vão para além do âmbito do ensino.

A prática do ‘curral eleitoral’ também pode acontecer numa universidade que se quer pluralista. No caso de uma eleição para reitor e vice-reitor, qualquer professor pode se sentir seduzido ou pressionado para entrar numa ‘onda irracional’, por exemplo, usando adesivos ou botons de candidatos da sua preferência, que, como sabemos, tem o propósito de funcionar como uma propaganda sub-liminar em sala de aula. Será que tal atitude do professor poderia ser considerada ética?

Eventualmente, o professor até pode declarar seu voto em sala de aula, ato que provavelmente despertará constrangimentos com os alunos que rejeitam tal candidato ou que estão decididos a votar no candidato adversário, ou mesmo anular seu voto. Apesar do provável constrangimento, talvez podemos dar um desconto ao mestre apaixonado pela política, desde que ele use sua condição docente para conduzir um debate de idéias ou oriente uma pesquisa científica sobre o assunto.

A paixão política na sala de aula pode ser semelhante à paixão religiosa, pois ambas podem elevar a temperatura da discussão entre alunos e professor. Contudo, cabe ao professor sinalizar sobre a existência de uma ética pró-conhecimento racional: a sala de aula não deve ser um lugar de pregação política (nem religiosa), mas sim um espaço de debate de idéias[2].

A direção da escola e seu regulamento devem garantir o direito dos alunos terem um professor que “ensina” e/ou “educa”. O mal da aula está no reprodutivismo, ou no instrucionismo (DEMO, 2004), ou seja, passa-se ao aluno um conhecimento de segunda mão, muitas vezes sucateado e fora da realidade objetiva, mas que ainda pode fascinar o aluno e impedir de ele investigar o assunto com autonomia e espírito crítico. Penso que, o bom professor sabe como deve politizar um assunto, sem necessariamente fugir de cumprir o conteúdo programado para o conhecimento e sem declarar sua opinião. Afinal, o ofício docente é o de promover o conhecimento (gr: episteme) e não a opinião (gr.: doxa).

Para Hannah Arendt (1992), a escola deve ser um espaço para  levar os alunos a pensar como o mundo é e não para pregar as idéias e convicções que o professar acredita; até porque vivemos uma época de profundas transformações onde a única certeza é não ter certezas.

Uma aula é conversação sobre vários assuntos e problemas. Na escola laica não cabe pregação de ordem política ou religiosa. Sócrates nos ensinou que o bom professor sabe como provocar o aluno, a parir seu conhecimento através do diálogo; também, que devemos ser mais modestos quanto ao próprio conhecimento que julgamos ter.

A modernidade reinventou o lugar do professor para ele fazer da aula um momento de análise científica, preparo para a atitude de pesquisa, comparação de resultado e debate de idéias, tudo com o propósito de transformação da sociedade. “Saber é poder”, escreve F. Bacon.

Max Weber reexamina a relação entre o saber científico e a moral do professor, observando que há jovens imaturos demandando mais por um “líder” que os guie ou profeta prometendo um futuro feliz, obviamente, depois da “revolução”, do que por um professor que os ajuda a pensar “cientificamente”. Como “líder” o professor adota uma atitude de como os alunos devem se conduzir na vida prática, como se ele próprio soubesse como fazê-lo, acertadamente. Ora, cabe ao docente ser um pesquisador que se compromete fazer “análise e formulações de fato”, recomenda Weber.

Segundo o sociólogo, mais que inapropriado, é imoral o professor usar a função docente – que é simbolicamente investida de saber e poder – para veicular um discurso ideológico que é o avesso da verdade do conhecimento científico.

Não é pedido ao professor ser neutro. Nem zerar suas paixões. Ele deve, sim, fazer política junto com os membros do seu sindicato ou de um partido político, por exemplo, mas, deve evitar perverter a função docente com meras ‘opiniões’; a responsabilidade do professor é ajudar o aluno pensar criticamente (inclusive a si próprio). Portanto, uma coisa é fazer uso da posição política “pessoal” no lugar certo, e outra, é realizar uma análise científica do momento político na sala de aula.

Assim como não há jornalista ou mídia isentos de opinião, também não há professor que não tenha sua própria opinião política. Uma coisa é o jornalista dizer em que ele vai votar e outra é fazer um escrito ‘impessoal’ que procura analisar as coisas mais ou menos com objetividade; uma coisa é um professor querer impor aos alunos a sua preferência política e outra é agir como profissional – ou cientista social – que problematiza o momento político, por exemplo, sugerindo aos alunos uma pesquisa, promovendo um debate de idéias, orientando-os metodologicamente para desenvolver argumentos mais claros e consistentes. [outubro/ 2006; Obs: escrito após o 2º turno das eleições].

__________

[1] Uma interessante análise do “fetichismo”, para além do fetichismo do dinheiro (Marx), deve ser consultado Baudrillard (1972), a terceira parte “Feiticismo e ideologia: a redução semiológica”.

[2] Para Max Weber, a política nunca deveria entrar na sala de aula levada pelo docente, salvo quando este se interessasse cientificamente pela política.

por RAYMUNDO DE LIMA

   

 

 

 

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Referências

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.

BAUDRILLARD, Jean. Para uma crítica da economia política do signo. São Paulo: M. Fontes, 1972.

CARVALHO, Alonso Bezerra. Educação e liberdade em Max Weber. Ijuí: Unijuí, 2004. 

_______. Max Weber: modernidade, ciência e educação. Petrópolis: Vozes, 2005.

DEMO, Pedro. Professor do futuro e reconstrução do conhecimento. Petrópolis: Vozes, 2004.

IMBERT, Francis. A questão da ética no campo educativo. Petrópolis: Vozes, 2001.

WEBER, Max. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1982.

_______. Metodologia das Ciências Sociais. São Paulo: Cortez, 1995.

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