por HENRIQUE RATTNER

Professor da FEA (USP), IPT e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

Reestruturação produtiva e reconversão profissional[1]

 

Fonte: http://www.smabc.org.br/interag/temp_img/857495925.jpgA direção mundial da Volkswagen, maior montadora de automóveis da Europa, com cinco fábricas instaladas no Brasil, anunciou planos de reestruturação para reduzir custos de mão-de-obra e aumentar as exportações. Entre as medidas preconizadas pela direção da empresa está o fechamento de uma fábrica com a conseqüente demissão de milhares de empregados.

Os problemas da Volks não são exclusivos desta empresa. Toda a indústria automotiva brasileira orientada para a exportação está sendo prejudicada pela baixa cotação do dólar no mercado interno causando margens de lucros negativas para as exportadoras. No ano passado (2005) chegaram a pedir crédito ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para financiar as exportações de veículos automotivos.

Mas, a crise da indústria automobilística assumiu dimensões mundiais, com exceção das montadoras japonesas. As três grandes norte-americanas – Ford, GM e Chrysler – estão praticamente à beira da falência e as montadoras européias também estão fechando estabelecimentos, tais como a Peugeot na Grã-Bretanha.

Não é de se admirar que todas apelam para a reestruturação industrial como possível tábua de salvação.

Em que consiste essa reestruturação industrial, além de fusões e incorporações mal sucedidas e negativas em seus resultados financeiros?

A maior ênfase é dada na redução de custos da produção mediante a terceirização, a flexibilização das relações de trabalho e a conseqüente redução dos salários e do número de empregados. Assim, o dilema crucial das sociedades capitalistas está configurado: queremos mais produtividade, competição por mercado e mais lucros, ou defendemos uma sociedade de bem-estar e qualidade de vida para todos?

A problemática toca no cerne das políticas públicas, econômicas e sociais, e exige um posicionamento de todos os cidadãos.

Por isso, propomos a releitura de um artigo elaborado há uma década e que nada perdeu em sua atualidade.

O tema serviu de pauta para um seminário realizado há alguns anos em São Paulo, organizado pelo SEADE – Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados, e a SERT – Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho.

Reunindo uma centena de estudiosos e técnicos, o seminário debateu as transformações que ocorrem na estrutura industrial, seus impactos no emprego, na (des)qualificação da mão-de-obra e as propostas de reconversão profissional, a fim de atender às demandas do mercado.

Previsivelmente, a nota dominante na abertura do seminário foi a visão apocalíptica de Jeremy Rifkin (“O fim do trabalho”), acenando com o espectro de desemprego generalizado em decorrência da introdução de novas tecnologias, por volta do ano 2020. Sem dúvida, os novos processos de produção, mais tecnologia-intensivos, requerem menos matéria-prima, menos energia, menos espaço e, por tudo isso, menos trabalho.

O discurso oficial, contudo, parece mais uma apologia da expansão do capital transnacional do que uma análise ponderada, apontando tendências e contradições desse processo. Afinal, a “racionalização” do sistema produtivo via privatização, desregulação, “enxugamento” das empresas, a fim de garantir sua produtividade e competitividade, seria uma tendência fatal, inevitável e irreversível, apesar de seus efeitos destrutivos e desestruturadores na vida de centenas de milhares de seres humanos?

As perspectivas sombrias são fruto da abordagem filosófica e metodológica fragmentada que trata dos problemas isoladamente sem perceber ou identificar as conexões sistêmicas mais complexas.

Ao aceitarmos a premissa de que... “os homens (e as mulheres) fazem sua História, embora em condições e contextos herdados, não por eles criados”, a questão central configura-se diferentemente. Em vez de ficar a reboque das loucuras e da ganância insaciável do capital, tentando adequar o perfil e a qualificação da mão-de-obra aos lances e investidas especulativas das empresas, caberia aos responsáveis pelas políticas econômica, industrial e tecnológica uma reflexão mais profunda sobre o futuro do trabalho humano, à luz das tendências gerais da sociedade, neste começo de século e milênio.

Até quando assistiremos passivamente à ofensiva do capital contra o trabalho, ofensiva que contém o germe de sua própria destruição, via acumulação de contradições crescentes?

À luz da polarização, concentrando riqueza e miséria em campos opostos; o aumento contínuo dos desempregados e dos “inempregáveis”, o recurso crescente ao trabalho infantil e a exploração desavergonhada dos trabalhadores migrantes e refugiados, questionam-se as novas práticas advogadas nas relações de trabalho – a flexibilização, a precarização e a terceirização – todas minando violentamente o poder de negociação dos trabalhadores e, assim sua qualidade de vida e as próprias bases de um convívio social mais equilibrado e harmônico. Diante das contradições e conflitos gerados aparentemente sem solução dentro do marco jurídico-legal do sistema “liberal”, questiona-se, não o fim do trabalho, mas o esgotamento da missão civilizatória do capital, após quatro séculos de inúmeras conquistas materiais e, também, de sofrimentos humano incontáveis.

O futuro do capital e da própria sociedade (“nosso futuro comum”) não pode ser construído sem uma redefinição do trabalho e do papel dos trabalhadores. Uma sociedade que “sucateia” e, portanto, condena indivíduos em plena fase produtora ao perecimento, não tem futuro. O destino dos seres humanos está estreitamente relacionado com o futuro de seu trabalho. Contrariamente à visão bíblica de inspiração judaico-cristã... “no suor de teu rosto ganharás o pão”... enfatizamos a visão hegeliana da redenção e de auto-realização por meio de atividades criativas, gratificantes e coletivas.

É verdade, a evolução do sistema capitalista tem resultado na separação do trabalhador de seus meios de produção e do saber profissional, com conseqüências alienadoras. O advento do “toyotismo” parecia acenar com uma reversão dessa tendência, infelizmente não confirmada. Continua a aumentar o fosso entre os que “pensam” e aqueles que “executam” as tarefas. Os desafios estão além de uma mera reestruturação industrial e uma eventual readequação da mão-de-obra. Cumpre-nos redesenhar e planejar uma reconstrução cultural, econômica, social e política para garantir empregos produtivos para todos; eliminar o desperdício de recursos naturais, a depredação do meio ambiente físico e social; e suprimir as desigualdades gritantes – condições básicas para uma sociedade coesa e solidária, enfim, uma sociedade sustentável.

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[1] Adaptado de um texto homônimo publicado em julho de 1997 no Boletim Informações Fipe/USP.

 

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