por ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI

Doutorando em Ciências Sociais na Universidade de Osnabrück – Alemanha.

 

 

Copa 2006: 

o mundo em casa de amigos?

 

O maior assunto do momento na Alemanha é, sem sombra de dúvidas, a Copa do Mundo de futebol. Mesmo aqueles que, normalmente, não apreciam o futebol, em tempos de copa do mundo passam a se interessar. Nesta 8ª. edição, o evento será acompanhado por um público recorde em toda a sua história: há estimativas de que mais de 2 bilhões de pessoas estarão ligadas às transmissões televisivas dos jogos. O lema desta copa “Die Welt zu Gast bei Freunden” (o mundo em casa de amigos) sugere que o evento simboliza a integração de povos e culturas, um encontro de amigos que não se conhecem, mas que pela sua afinidade comum pelo futebol se aproximam. Num mundo supostamente globalizado, torcedores de 32 países são localmente recebidos como “hóspedes” em um país que se orgulha por sediar a copa pela segunda vez[1]  em seu território. Mas, será que é esse o verdadeiro “espírito” da Copa 2006?

Como em outras copas, o país sede procura aproveitar a ocasião para se “mostrar ao mundo” da forma mais positiva possível. É essa a oportunidade que a Alemanha terá em 2006, o que políticos, jornalistas, empresários, artistas e esportistas não se cansam de repetir: tendo em vista este objetivo maior todos os investimentos são justificados. De fato, além da expectativa de que a copa possa propiciar um verdadeiro espetáculo do esporte mundial, obviamente há um amplo espaço para vendas, propaganda e marketing diretamente associado ao evento. Os investimentos em infraestrutura, oficialmente anunciados, somam 1,5 bilhões de euros. Somente a modernização de estádios (reconstrução, ampliação e reformas) custou 1,6 bilhões de euros, dos quais o mais caro é o estádio de Munique, o mais moderno da Europa, construído especialmente para o mundial ao custo total de 340 milhões de euros. Soma-se a isso toda uma rede de investimentos, como a modernização e ampliação da rede ferroviária de transporte de passageiros, a construção da maior estação de trem da Europa, inaugurada em Berlim em final de maio, hotéis, restaurantes, enfim, toda uma rede de serviços que os “amigos organizaram para a chegada dos hóspedes”.

A exploração comercial do evento é, certamente, a maior da história, tendo em vista a expansão do desenvolvimento e do acesso a tecnologias de comunicação nos últimos anos e a maior facilidade de circulação de pessoas em âmbito internacional, tanto pela ampliação dos meios de transporte como pela diminuição de barreiras políticas entre os países. Neste contexto, a Alemanha se prepara para receber mais de 1 milhão de torcedores vindos das mais diferentes partes do mundo. De acordo com a recente pesquisa da Gesellschaft für Wirtschaftliche Strukturforschung (Instituto de Pesquisas Econômicas Estruturais), o perfil médio dos turistas da Copa do Mundo é o seguinte: a) viajam de avião; b) costumam se informar regularmente via Internet e televisão; c) preferem estar em grupos; d) têm condições de ficar em hotéis e restaurantes em torno de 11 dias; e) gastam diariamente de 100 a 200 euros. De acordo com essa caracterização, o referido instituto estima que os torcedores terão um gasto mínimo de 675 milhões de euros com bens de consumo durante o período dos jogos. Somente a rede de hotéis alemães prevê um adicional de 5,5 milhões de diárias em função da realização do torneio no país. Segundo a agência de reservas de hotéis World Cup Accommodations Service, organizada oficialmente pela Fifa, os brasileiros lideram a lista de clientes (52 mil), seguidos dos ingleses (39 mil), dos mexicanos (35 mil), dos torcedores dos EUA (27 mil), dos argentinos (16 mil), dos japoneses (16 mil), dos italianos (12,5 mil), australianos (12,5 mil) e holandeses (12,5 mil). O Presidente do Deutscher Hotel- und Gaststättenverband (Associação de Hotéis e Restaurantes da Alemanha), Ernst Fischer, prevê um potencial de faturamento adicional de 500 milhões de euros para os hotéis durante a copa.

No que se refere ao contexto interno da Alemanha, esse efeito positivo da realização da copa vem sendo constantemente aproveitado para difundir uma onda de otimismo na população. Para os que costumam se queixar dos problemas do país e não estão convencidos das suas qualidades positivas, o recém lançado livro “O melhor da Alemanha”[2] apresenta 250 argumentos, minuciosamente selecionados para aumentar a auto-estima do povo alemão em ano de copa. Diante da crescente insegurança social (ver artigo Neonazismo e insegurança social na Alemanha), do aumento da desigualdade, dos altos índices de desemprego e da estagnação econômica, a copa do mundo pode, seguramente, servir de instrumento político ao país sede. Como já aconteceu em outras copas, a atenção é desviada dos problemas concretos do povo, enquanto as promessas de crescimento econômico combinadas com o sentimento de euforia que o futebol é capaz de provocar nos seres humanos podem servir de legitimação à onda de conservadorismo político, neoliberalismo e desmonte social em curso no país.

Por um mês inteiro, portanto, as atenções da população estarão, prioritariamente, voltadas ao futebol. Porém, assistir os jogos ao vivo no próprio país ficou difícil para os alemães: somente uma pequena minoria teve acesso a ingressos. A maioria dos ingressos foi destinada a patrocinadores, agências de turismo e às federações de futebol dos 32 países participantes. Assim, por exemplo, era mais fácil o torcedor brasileiro adquirir um ingresso no Brasil em forma de pacote turístico (incluindo viagens e hotéis) do que um torcedor alemão. Para os alemães, em geral, o acesso ficou restrito à venda via Internet, onde milhões de torcedores pagaram antecipadamente e continuam na fila de espera, aguardando os sorteios. Inúmeras empresas também anunciaram ingressos em forma de brindes a serem sorteados aos clientes, o que, em termos de probabilidade, apresentou chances maiores de acesso do que a forma oferecida oficialmente no portal da Fifa. Sem mencionar o mercado clandestino de ingressos, muitas empresas faturaram adicionalmente neste ano, aproveitando o “clima da copa” e a carência de ingressos. Para um imenso público excluído do acesso aos estádios, resta assistir os jogos pela televisão, em casa, com amigos, nos bares ou nos diversos espaços públicos organizados exclusivamente para essa finalidade (verdadeiros mini-estádios com transmissão via telão).

Um outro aspecto central da discussão que antecedeu a copa 2006 é a política de segurança pública. O pânico provocado na Europa pelos atentados em Madrid[3] e Londres[4] aumentou a preocupação com a garantia de segurança aos torcedores. A atenção especial é dedicada ao jogo de abertura no dia 9 de junho, em Munique, e à final, no dia 09 de julho, em Berlim. Segundo o comitê organizador, os estádios de futebol serão, durante a copa, os lugares mais seguros do mundo. Além dos policiais e agentes internacionais de segurança trabalhando em rede para impedir maiores problemas, em caso de emergência, 5 mil soldados do exército alemão estarão à disposição da copa do mundo. Um batalhão policial e um arsenal de equipamentos para vigia e identificação de suspeitos tão imenso jamais foi visto numa copa, o que, ironicamente, poderia transformar o lema “o mundo em casa de amigos” em outro menos atraente: “o mundo como hóspede de uma grande festa militar”[5]. Além dos Hooligans, um fenômeno conhecido na Europa, a polícia alemã terá uma preocupação toda especial durante a copa em território alemão: o crescimento do neonazismo no país. As declarações do ex-porta voz Uwe-Karsten Heye[6] em abril deste ano, afirmando a existência de regiões que os estrangeiros deveriam evitar no país (as assim chamadas No-Go-Areas), aumentaram a polêmica em torno da probabilidade de uma onda de violência, provocada por grupos neonazistas aproveitando a realização da copa. Criar pânico na população parece ser uma característica comum da imprensa conservadora em nível mundial. Mas, diferente das manchetes absurdas com relação ao cancelamento da copa em função da gripe aviária, o aumento do racismo é um fenômeno real que não pode ser subestimado e está intimamente imbricado com a crescente insegurança social na Europa (ver artigo O retorno da xenofobia). Diversos casos de violência contra estrangeiros nos meses que antecederam a copa advertem que agressões aos “hóspedes” são bastante prováveis. Os brasileiros têm uma relativa vantagem, nesse aspecto, na Alemanha: diferente de outros povos estrangeiros, há uma grande simpatia pelos brasileiros. O sucesso de jogadores brasileiros no campeonato alemão, certamente, influencia nesse aspecto, mas também a associação impulsivamente positiva com a assim chamada “cultura brasileira”, em moda em toda a Europa. Em recente pesquisa do Instituto Forsa[7] os torcedores brasileiros lideram a lista dos preferidos dos alemães, com 32% dos entrevistados (curiosamente, os alemães colocaram a si mesmos como torcedores preferidos em segundo lugar, com apenas 9%).

Dificilmente todos os torcedores serão encarados como amigos pelo povo alemão; os brasileiros, independente dos resultados da favorita seleção canarinho, entretanto, continuam bem aceitos como “hóspedes” nesse país. O que realmente se entende como amigo e como hóspede em tempos de copa do mundo é outro debate: enquanto a lógica de mercado domina o esporte, grandes eventos como este ficam reduzidos a shows que almejam a venda de mercadorias, em primeira instância. Se, à margem disso, ainda sobra algum espaço para a alegria e a integração de povos e culturas, isso também tem seu valor. Afinal de contas, quem nos próximos dias não cairá na tentação de se alienar com o futebol, com a emoção da Copa do Mundo, com o nacionalismo esportivo, mesmo que seja somente por alguns momentos?

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[1]   A primeira vez foi em 1974, com a Alemanha se sagrando campeã, jogando em casa. Desta vez, entretanto, o país está maior, com a reunificação das duas Alemanhas desde 1990.

[2]  Langenscheidt, Florian. Das Beste an Deutschland. 250 Gründe, unser Land heute zu lieben. Wiesbaden: Verlag Deutsche Standards Editionen, 2006, 544 p. ISBN 3-8349-0265-9.

[3]    No dia 11 de março de 2004

[4]    No dia 7 de julho de 2005.

[5]  Referência feita pelo Ministro do Esporte de Berlim, Klaus Böger (Die Welt am Sonntag, 21/05/2006, p. 18).

[6]    Porta-voz do governo de Gerhard Schröder, em entrevista ao jornal Neue Zürcher Zeitung, .

[7]    Gesellschaft für Sozialforschung und statistische Analyse mbH, Köln 2006. 

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