Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA

Docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP); Pós-graduando em História das Religiões (DHI/UEM) 

 

 

Entre o sagrado e o profano: o interdito ao riso[1]

 

 

“O homem é o único animal que ri”

Aristóteles

 

“Sim, nós temos o direito de caricaturar Deus”

France Soir[2]

 

"One of the great tragedies of Islam is that it has not had its own Enlightenment and therefore there is no coherent point where it can break through the crust and begin to define what being a Muslim might be like in the modern world".

Stuart Hall[3]

 

 

Não tenho o propósito de ser jocoso com os que esgrimem as suas opiniões como se fossem verdades que valem uma guerra. Também não é o meu intuito desrespeitar valores religiosos e a subjetividade de quem quer que seja. Com todo respeito às idiossincrasias de uns e outros, proponho uma reflexão crítica sobre o riso.

Pode parecer engraçado, mas o riso é coisa séria. Para o pensamento platônico o riso afasta o homem da verdadeira sabedoria. “O riso e o risível seriam prazeres falsos, experimentados pela multidão medíocre de homens privados da razão”, observa Alberti (1999: 45).[4]

Na teologia medieval, o riso é reconhecido como próprio do homem, mas em geral censurado sob o argumento de que Jesus não teria rido em sua vida terrena. O ser humano é ambíguo: é o único animal capaz de rir, e neste sentido superior aos demais animais; mas é inferior em relação à divindade – e esta, que se saiba, não ri. Jesus seria a expressão dessa ambigüidade. Segundo o historiador Jacques Le Goff:

“Vê-se, portanto, que em torno do riso travou-se um grande debate, que vai longe, porque, se Jesus não riu uma única vez em sua vida humana, ele é que é o grande modelo humano, (...) o riso torna-se estranho ao homem, ou pelo menos ao homem cristão. Inversamente, se é dito que o riso é o próprio do homem, é certo que, ao rir, o homem estará exprimindo melhor sua natureza”.[5]

E se Deus ri da sua criatura? Talvez seja irônico o fato de Javé[6] ter criado o homem (Adam) a partir do barro (Adamah), mas não a mulher:

“Javé forma o molde de Adão a partir do barro, do Adamah umedecido, não como um ceramista que trabalha com sua roda, mas como uma criança que faz um bolo de lama. E temos aqui um Deus infantil, que sopra a vida nas narinas de sua criatura, assim exaltando Adão à condição de ser vivente, não uma alma presa em um corpo, mas uma entidade mista, como o próprio Javé” (Bloom, 2003: 144).

Deus criou o homem e decidiu que este precisava de uma companhia – talvez a sua primeira criação não tenha lhe deixado plenamente satisfeito! E criou a mulher a partir da costela de Adão. “É claro (e irônico) que essa segunda criação seja mais bela. O homem surgiu do barro, a mulher, de algo vivo e portanto imediatamente animada” (id.: 144). E Javé não precisou soprar-lhe as narinas para que ela tivesse vida.[7]

A interdição medieval ao riso não poderia admitir leituras profanas como a que Harold Bloom faz do texto bíblico. Mesmo hoje, é inaceitável a judeus e cristãos devotos que se leia “a Bíblia como literatura”. Bloom não é o único a agir assim, e ele também propõe  o “Alcorão como literatura”, o que é ainda mais inaceitável a muçulmanos fiéis. No entanto, os próprios muçulmanos falam do “glorioso Alcorão”, talvez porque o livro não seja visto como uma criação, sendo, literalmente, a Palavra de Deus” (id.: 172-173). Para Armstrong, em termos profanos, o Profeta Muhammad criou “uma nova forma literária e uma obra-prima da prosa e da poesia árabes” (Armstrong, 2001a: 44).

O humor tende a profanar o sagrado. No fundo do nosso ser, rimos dos nossos medos e das nossas crenças. Piadas sobre santos, o paraíso e o inferno são comuns entre os cristãos simples que não se vêem pecando ao pensar e rir sobre o sobrenatural. O humor judaico também é rico em piadas e charges que ridicularizam as altas autoridades como os rabinos, intelectuais e os homens doutos em geral:

“O humor judaico zomba de todos – inclusive de Deus. Muitas vezes satiriza personalidades e instituições religiosas, assim como os rituais e os dogmas. Ao mesmo tempo afirma as práticas e tradições religiosas, buscando uma nova compreensão entre o sagrado e o mundano” (SCLIAR, FINZI, e TOKER, 1990: 7-8).

O humor questiona as verdades absolutas, os dogmas e as autoridades que as encarnam. Isto, é claro, tem a resistência dos que interpretam os textos sagrados e falam em Nome de Deus. Não é por acaso que os ditadores não admitem o humor dos escritores e chargistas. “O poder da charge cria e destrói ícones com seu simbolismo exacerbado. A função do humor é questionar o poder a todo o momento. Por isso, é altamente revolucionário”, afirma José Alberto Lovetro, presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil (FSP, 26.02.06). Nem sempre! A charge também pode expressar racismo, sexismo e preconceitos religiosos. E aí não tem graça, a não ser que haja identificação entre o que ela exprime e o que a observa. Porém, o racista e o sexista e os preconceituosos em geral sabem que a liberdade de expressão não é absoluta; que há leis que devem ser observadas, valores que devem ser respeitados e pressupõe responsabilidades.

Uma boa charge é aquela que provoca a compreensão e o riso espontâneos. Como nota o chargista palestino Bahá Boukhari, o seu trabalho “é criar um sorriso, não a raiva” (FSP, 12.02.06). As charges publicadas no jornal dinamarquês não tem graça.[8] A que mostra o profeta Muhammad usando um turbante em forma de bomba, por exemplo, alimenta o preconceito em relação ao mundo muçulmano, na medida em que este é apresentado como um todo homogêneo e identificado com a violência dos militantes fundamentalistas. Os monoteísmos têm os seus fundamentalistas e se a violência se sobressai neste e outros episódios, ela não é exclusiva dos irados muçulmanos que saem às ruas e bradam contra o ocidente. Na pluralidade do mundo islâmico, há também os que defendem os valores da tolerância e da laicidade do Estado, vinculados à tradição da modernidade.[9] Também devemos lembrar que a difícil convivência entre o Estado e a religião não se restringe ao mundo muçulmano. Todos os fundamentalistas, no ocidente e no oriente, resistem aos valores seculares vinculados à modernidade e ao iluminismo. Como afirma Peter Demant (2004: 342): “Não devemos nos esquecer que o fundamentalismo, causador dos presentes atos de violência, constitui uma escolha entre outras possibilidades do Islã. Ele não exaure suas possibilidades e, para muitos muçulmanos, significa a desnaturação da religião”. E mesmo o fundamentalismo não é homogêneo. [10]

E ainda que as charges provoquem o riso, o fiel religioso, fundamentalista ou não, pode resistir ao riso se considerá-lo um sacrilégio. É seu direito! Mas pode este negar ao outro a faculdade de rir? O respeito à religiosidade do outro tem sentido se inserido no sistema religioso. Se freqüento um determinado espaço sagrado, não devo ser jocoso em seu interior. Mas se não sou membro da comunidade religiosa não estou obrigado a seguir os mesmos preceitos. Se não riem, não quer dizer que também não devo rir; se não comem carne de porco, não significa que também devo me abster; se idolatram e cultuam imagens, não estou obrigado a fazer o mesmo. E ainda que eu me irrite com o desrespeito do outro à minha crença, não tenho o direito de lhe tirar a vida ou lhe ameaçar por isso. Só os que se imaginam instrumentos de Deus, a sua mão em ação contra os infiéis, podem aceitar o absurdo de um Deus que se regojiza com a violência e a morte em seu nome. Deixem que Deus cuide dos seus interesses!

No romance de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”, Jorge de Burgos representa o guardião da verdade absoluta que não pode ser desafiada nem mesmo pelo riso – daí a proibição aos textos e imagens cômicas. Como na ficção, os “Jorges de Burgos” atuais almejam o posto de guardiões da fé. Se não podem evitar o riso dos que não comungam dos seus dogmas, dado que rir é inerente ao humano, aterrorizam os que riem. A exemplo da “Santa Inquisição Medieval” almejam purificar o homem do seu pecado eliminando o pecador. O diálogo seguinte, escrito por Umberto Eco, é bem ilustrativo do mecanismo inquisitorial e da sua concepção sobre o riso:

“Mas o que te assustou nesse discurso sobre o riso?[11] Não eliminas o riso eliminando o livro.”

“Claro que não. O riso é a fraqueza, a corrupção, a insipidez de nossa carne. É o folguedo para o camponês, a licença para o embriagado, mesmo a igreja em sua sabedoria concedeu o momento da festa, do carnaval, da feira[12], essa ejaculação diurna que descarrega os humores e retém de outros desejos e de outras ambições... Mas desse modo o riso permanece coisa vil, defesa para os simples, mistério dessacralizado para a plebe. Dizia-o também o apostolo, antes do que abrasar, casai-vos. Antes do que rebelar contra a ordem desejada por Deus, ride e deleitai-vos com vossas imundas paródias da ordem, no fim do pasto, após teres esvaziado os cântaros e os frascos. Elegei o rei dos tolos, perdei-vos na liturgia do asno e do porco, representai as vossas saturnais de cabeça para baixo... Mas aqui, aqui...” Jorge batia agora o dedo em cima da mesa, perto do livro que Guilherme tinha diante de si, “aqui a função do riso é invertida, elevada à arte, abrem-se-lhe as portas do mundo dos doutos. Faz dele objeto da filosofia, e de pérfida teologia...” (ECO, 2003: 454-455).

Eis o verdadeiro perigo representado pelo riso: ele pode “contaminar” os doutos, as pessoas sérias. Neste aspecto, a condenação do ancião ao riso se assemelha à posição platônica: se no primeiro caso, o riso pode afastar os indivíduos de Deus, no segundo, afasta-os da razão e do caminho da verdadeira sabedoria. Em ambos, o riso é admitido como próprio dos medíocres, dos homens e mulheres simples. Estes não representam perigo, mas os doutos. “Mas a igreja pode suportar a heresia dos simples, que se condenam sozinhos, arruinados por sua ignorância”, afirma Jorge de Burgos (Id.: 455).

O riso suspende a razão, desarma-a.[13] Na linguagem religiosa do bibliotecário Jorge de Burgos, o riso liberta o indivíduo do medo do demônio. Se o homem tiver a liberdade de rir o que o impedirá de afrontar a autoridade instituída e, no limite, o próprio Deus, com o seu riso? Toda religião se fundamenta no temor. Paradoxalmente, o crente ama e teme a divindade; aceita-a e voluntariamente submete-se. Em alguns contextos históricos, o medo chega mesmo a se tornar terror – como escapar de um Deus onipresente e onisciente? E se a divindade é a do Antigo Testamento, então poderá parecer colérico e ameaçador. E, de qualquer forma, seus sacerdotes, os que falam em seu nome, nos lançarão diante do horror que ameaça consumir nosso corpo e alma. Em nome dele, e pelo terror das trevas, surgem os dispostos a fazer cruzadas e combater as heresias, nem que seja preciso consumir no fogo corpos e almas. O temor é, portanto, fundamental, e quem ri tende a não temer. Eis o principal argumento de Burgos:

“O riso libera o aldeão do medo do diabo, porque na festa dos tolos também o diabo aparece pobre e tolo portanto controlável. Mas este livro poderia ensinar que libertar-se do medo do diabo é sabedoria. Quando ri, enquanto o vinho borbulha em sua garganta, o aldeão sente-se patrão, porque inverteu as relações de senhoria: mas este livro poderia ensinar aos doutos os artifícios argutos, e desde então ilustres, com que legitimar a inversão. Então seria transformado em operação do intelecto aquilo que no gesto irrefletido do aldeão é ainda e afortunadamente operação do ventre. Que o riso é próprio do homem é sinal do nosso limite de pecadores. Mas deste livro quantas mentes corrompidas com a tua tirariam o silogismo extremo, pelo qual o riso é a finalidade do homem! O riso distrai, por alguns instantes, o aldeão do medo. Mas a lei é imposta pelo próprio medo, cujo nome verdadeiro é temor a Deus. E deste livro poderia partir a fagulha luciferina que atearia no mundo inteiro um novo incêndio: e o riso seria designado como arte nova, desconhecida até de Prometeu, para anular o medo. Para o aldeão que rir, naquele momento, não lhe importa morrer: mas depois, acabada sua licença, e a liturgia impõe-lhe de novo, de acordo com o desígnio divino, o medo da morte. E deste livro poderia nascer a nova e destrutiva aspiração a destruir a morte através da libertação do medo. E o que queremos nós, criaturas pecadoras, sem o medo, talvez o mais benéfico e afetuoso dos dons divinos” (ECO, 2003: 455).

Este argumento é tão simples quanto atual. Pode o homem criar uma arte que leve-o a rir da divindade? E, se o faz, não é sacrilégio? Para Burgos é preciso impor limites, e estes são vontade divina. Guilherme de Baskerville refuta-o: “Deus criou os monstros também. Também te criou. E quer que se fale de tudo” (id: 458).

Na mitologia grega há a pluralidade de deuses e estes expressam as qualidades e defeitos dos humanos; eles são deuses porque são imortais e superiores aos homens. [14] No entanto, riem como os humanos e isto não os diferenciam. Se o riso é condenável não se deve a uma interdição religiosa, mas sim filosófica. Na concepção de Platão: “Somente o filósofo, atingindo o bem e o ser, podia experimentar o prazer puro do saber, que o preenchia, pode-se dizer, à maneira do gaudium spirituale da teologia medieval. A verdade plena – seja a do filósofo, seja a do teólogo – exclui a fraqueza humana do riso”, destaca Alberti (1999:69).

Concluindo

Na concepção do personagem Jorge de Burgos: “Os simples não devem falar. Este livro teria justificado a idéia de que a língua dos simples é portadora de alguma sabedoria. Era preciso impedir isso, foi o que fiz. Tu dizes que eu sou o diabo: não é a verdade. Eu fui a mão de Deus” (Eco, 2003: 458) Estas palavras sintetizam a postura elitista dos “doutos” que sempre se consideram superiores aos simples, e não vêem nestes qualquer “sabedoria”, mas apenas mediocridade. Contudo, o mais grave, e que infelizmente permanece atual, é a certeza absoluta de Jorge Burgos em representar o instrumento de Deus, como se  a sua mão fosse guiada por Ele. Os fanáticos fundamentalistas de todos os credos se vêem assim. São os que se consideram os “eleitos de Deus” ou candidatos a mártires em nome da “guerra santa”. O passo seguinte é eliminar os infiéis e/ou purificar o mundo... Esse filme é antigo, mas a sua tragédia é real e contemporânea.

Contra a pretensão à verdade absoluta e ao delírio de ser a “mão de Deus”, finalizo com as palavras de Umberto Eco (Id., 470), na fala do seu personagem Guilherme de Baskerville, frade franciscano do ano de 1327: “Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, fazer rir a verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade.” A polêmica sobre as charges tem como positivo a possibilidade de refletirmos sobre o inevitável confronto das diversas verdades e a necessidade de as tratarmos através do dialogo e respeito mútuo, sem interdições ou ações absurdas que se fundam na verdade única de fanáticos religiosos. Se não agirmos positivamente, os fundamentalistas de todos os credos e ideologias, no oriente e/ou no ocidente, imporão o seu fanatismo e a intolerância. Voltaremos, então, à idade média, de onde alguns parecem nunca terem saído ao reencarnarem os espíritos medievais.

 

______________

[1] Agradeço ao Prof. Paulo Fernando de Moraes Farias pelas sugestões e à Olga Ozaí da Silva pela leitura e observações.

[2] Frase estampada no “France Soir”, que reproduziu as charges do periódico dinamarquês “Jyllands-Posten”. O “Die Welt”, jornal alemão, também publicou as charges, afirmando que o “direito de blasfêmia” é fundamentado nas liberdades democráticas” (FSP, 02.02.2006). A Folha de S. Paulo, reproduziu as charges e defendeu, em “Editorial”, que entre o direito à expressão das idéias e o direito à liberdade de culto, ambos vinculados à tradição iluminista e, portanto, universais, a opção dos regimes democráticos deve ser “pela defesa do valor mais importante – a liberdade de expressão –, mesmo que isso signifique contrariar uma comunidade religiosa”. O oposto seria aceitar a “censura religiosa” (FSP, 05.02.2006).

[3] “Uma das grandes tragédias do Islã é que ele não teve uma Idade do Iluminismo própria, e por isso não dispõe de um ponto coerente onde possa romper a casca e começar a definir o que ser muçulmano poderá vir a ser no mundo moderno” (Entrevista ao “The Times Higher Education Suplement”, nº 1.732, de 03.03.2006, p. 20).

[4] Platão é crítico ao riso e à poesia: “Como afirma Heródoto, Homero e Hesíodo fabricaram as gerações dos deuses; retrataram os seus contornos e distinguiram as atribuições e poderes de cada um. Aí residia o perigo real para A República de Platão. Admitir a poesia significava admitir o mito, mas o mito não podia ser admitido sem frustrar todos os esforços filosóficos e minar os alicerces do Estado platônico” (CASSIRER, 1976: 83).

[5] Citado em ALBERTI, 1999: 69. Ver: Le Goff, Jacques. Rire au Moyen Age. Cahiers du Centre de Recherches Historique, École des Hautes Études em Sciences Sociales (3): 1-14, avr., 1989.

[6] “O maior escritor da língua hebraica, conhecido pelos estudiosos como J, ou Javista, escreveu textos cruciais que hoje chamamos Gênese, Êxodo e Números, entre os anos 950 a 900”, afirma Bloom (2003: 142). Ele inclui Javé e Maomé entre “Os 100 autores mais criativos da História da Literatura”.

[7] Esta percepção irônica sobre a narrativa bíblica também emerge na análise que Jacó Guinsburg faz sobre A Mulher na Bíblia. (ver: SCLIAR, FINZI, e TOKER, 1990: 7-8)

[8] Ainda que sob o risco da blasfêmia, admito que, dos doze cartoons polêmicos, o único que me fez rir foi o que representa o profeta na entrada do paraíso e, de braços abertos, diz aos seus pretensos discípulos: “Parem, parem, nós estamos sem virgens”. A frase é uma alusão à suposta crença de que os mártires ganharão virgens após a morte. Esta charge foi reproduzida na Folha de S. Paulo, de 03.02.06. Todas as charges podem ser acessadas em: http://www.star.niu.edu/articles/?id=19272.

[9] Na França, por exemplo, foi criada em 17 de dezembro de 2004, a Association du Manifeste des libertés, que reúne homens e mulheres ligados ao islamismo, favoráveis à laicidade, por uma cultura da liberdade e contra o “islamismo totalitário e os Estados despóticos”. Ver o Texto de Fundação, disponível em http://www.manifeste.org/article.php3?id_article=113, e, também, o endereço http://www.manifeste.org/rubrique.php3?id_rubrique=23. A Association du Manifeste des libertés publicou vários artigos sobre “A censura em nome do Islã”, disponível em: http://www.manifeste.org/rubrique.php3?id_rubrique=51

[10] Como ressalta Karen Armstrong: “Os fundamentalistas cristãos rejeitam as descobertas da biologia e da física sobre as origens da vida e afirma que o Livro de Gênesis é cientificamente exato em todos os detalhes. Numa época em que muitos estão rompendo os grilhões do passado, os fundamentalistas judeus observam sua Lei revelada com uma rigidez maior que nunca, e as mulheres muçulmanas, repudiando as liberdades ocidentais, cobrem-se da cabeça aos pés com seu xador. Os fundamentalistas islâmicos e judeus têm uma visão exclusivamente religiosa do conflito árabe-israelense, que começou como uma disputa secularista. Mas o fundamentalismo não se limita aos grandes monoteísmos. Ocorre também entre budistas, hinduístas e até confucionistas, que rejeitam muitas das conquistas da cultura liberal, lutam e matam em nome da religião e se empenham em inserir o sagrado no campo da política e da causa nacional” (2001b: 09-10).

[11] Trata-se do discurso aristotélico. Umberto Eco imagina a situação na qual o exemplar do livro que está nas mãos de Jorge de Burgos é a “Arte Poética” na íntegra – desta obra perdeu-se a parte que trata do riso. (Ver: Aristóteles, s.d.: 93). E é precisamente por ser uma obra filosófica que o personagem mais a teme: “Há muitos outros livros que falam da comédia, muitos outros que contém o elogio do riso. Por que este te incutia tanto medo?”, pergunta Guilherme. O ancião responde: “Porque era do Filósofo. Cada livro daquele homem destruiu uma parte da sabedoria que a cristandade acumulara no correr dos séculos” (ECO, 2003: 454).

[12] Claro, é impossível à religião eliminar o riso; trata-se, portanto, de admiti-lo sob certas condições e de interditá-lo naquilo que pode afrontar a verdade instituída. A resposta da tradição teológica medieval a este dilema será a diferenciação entre dois gêneros do riso: a laettitia e o gaudum spirituale. “O primeiro correspondia à felicidade das coisas terrenas e passageiras, que fazia com que o homem esquecesse sua missão. O segundo, em compensação, era a verdadeira felicidade, aquela que atingia sua maior realização após a morte, mas podia ser experimentada ainda em vida, pela contemplação de Deus e de suas criações. A esta última correspondia o riso discreto e mudo que exprimia a felicidade do coração”, afirma Alberti (1999: 69)

[13] “Estudar o riso no pensamento do século XX leva à constatação de algumas recorrências interessantes. A principal delas é uma espécie de leitmotiv presente em textos de proveniências e objetivos bastante diversos e que pode ser assim resumido: o riso partilha, com entidades como o jogo, a arte, o inconsciente etc., o espaço do indizível, do impensado, necessário para que o pensamento sério se desprenda desse espaço, o riso torna-se o carro-chefe de um movimento de redenção do pensamento, como se a filosofia não pudesse mais se estabelecer fora dele”, escreve Verena Alberti (id.: 11; grifos nosso). Contra a sisudez da razão, a filosofia do riso.

[14] No politeísmo grego, o risco da intolerância quanto às atividades intelectuais é consideravelmente menor do que no monoteísmo: “Sem Igreja ou clero, sem dogma ou credo, sem teologia, a religião regula de fato o conjunto das práticas de culto, mas não domina a vida do pensamento. Deixa subsistir, fora dela, espaços onde se desenvolve a pesquisa sobre a verdade, pela negação crítica, a discussão argumentada, o debate contraditório” (VERNANT, 2002: 470).

   

 

 

 

Referências bibliográficas

ALBERTI, Verena. O riso e o risível na história do pensamento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor; Editora da FGV, 1999.

ARISTÓTELES. Arte Retórica e Arte Poética. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.

ARMSTRONG, Karen. Em Nome de Deus: O Fundamentalismo no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2001b.

__________. O Islã. São Paulo: Companhia das Letras, 2001a.

BLOOM, Harold. Gênios: os 100 autores mais criativos da História da Literatura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

CASSIRER, Ernst. O Mito do Estado. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976.

DEMANT, Peter. O Mundo Muçulmano. São Paulo: Contexto, 2004.

ECO, Umberto. O Nome da Rosa. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.

SCLIAR, Moacyr, FINZI, Patrícia e TOKER, Eliahu. Do Éden ao Divã: Humor Judaico. São Paulo: Ed. Shalom, 1990.

VERNANT, Jean-Pierre. Entre Mito e Política. São Paulo: Edusp, 2002.

Jornal

“A revolução pelo Cartum”. Folha de S. Paulo, 26.02.06, A6.

“Censura Religiosa” (editorial). Folha de S. Paulo, 05.02.06, A2.

“Jornal francês amplia crise com islâmicos”. Folha de S. Paulo, 02.02.06, A15.

SUWWAN, Leila. “Israel é alvo preferido de charges islâmicas”. Folha de S. Paulo, 12.02.06, A20.

 
 

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