Por RAYMUNDO DE LIMA

Psicanalista, Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo, e professor do Departamento de Fundamentos da Educação da UEM.

 

 

O declínio da amizade em tempos sombrios (II): 

da ética dual à ética coletiva

 

“...Se amas sem despertar amor; isto é, se teu amor, enquanto amor, não produz amor recíproco [mas sim ódio], se mediante tua exteriorização de vida como homem amante não te convertes a homem amado, teu amor é impotente, uma desgraça”( Marx, K. Manuscritos econômicos e filosóficos de 1844. São Paulo: Abril Cultural [Os pensadores], 1985: 32).

 

“Sou um privilegiado ser teu amigo”

(do ator Tarcísio Meira para o ator Tony Ramos).

 

Obra de Ismael NeryMais que sustentada por um bom sentimento, a amizade comporta uma ética. “A amizade é uma forma de amor” (Alberoni, 1993). Não um amor qualquer, mas um processo adulto e sofisticado (Gikovate, 1996)[1], elaborado, revisado e reforçado pelas circunstâncias que a vida nos ensina. É um vínculo que faz bem aos envolvidos, fornecendo o caminho para a sabedoria e a felicidade, tal como pensavam os gregos antigos. Também as recentes pesquisas indicam os que possuem amigos como sendo mais saudáveis, mais felizes ou, pelo menos, levando a vida com melhor sentido.

Sócrates, no seu tempo, já sinalizava para seus discípulos que “os maus não podem amar uns aos outros” [2]. Esse tipo de vínculo só pode existir entre homens de bem e entre homens dedicados à sabedoria (Cícero (1997: p. 83, 120), que, como sabemos, nada tem a ver com aqueles que são dedicados ao conhecimento científico ou à luta por uma causa política ou ideológica. Em nosso artigo anterior, não somente distinguimos a amizade das pseudo-amizades como sinalizamos que na militância (política, religiosa, etc) não existe espaço para a amizade autêntica.

Para além da questão ética, Descartes[3] distinguiu a afeição e a devoção da amizade. É afeição – e não amizade – quando apreciamos algo, por exemplo, uma flor, uma ave, um animal. “Apreciamos neles algo menos que a nós mesmos”. Devoção é oposto da afeição, isto é, temos devoção a alguém que ocupa uma posição superior a nós. Temos devoção a nossos pais, a um governante, a um rei, a Jesus Cristo, a um ídolo do momento, a um país, a uma causa. É notória a devoção a ídolos como Elvis Presley ou a Che Guevara, décadas depois de sua morte. E pode parecer ridícula a devoção a falsos ídolos, que logo serão esquecidos na história.

No mundo oriental antigo, a amizade também era muito valorizada. Confúcio (551-479 a.C.) enumerava cinco tipos fundamentais de relações interpessoais: a relação entre imperador e súdito, a relação entre pai e filho, a relação entre homem e mulher, a relação entre irmão maior e irmão menor, e a relação de amizade. As quatro primeiras são hierárquicas, entre superior e inferior. Somente a amizade é relação entre iguais.

Castillo (1999) no livro “Educar para a amizade”, observa que uma das causas da desvalorização da amizade em nossa época é a trivialização desse conceito. O uso chistoso da expressão “meu amigo” para dirigir-se a pessoas com as quais não se sente nenhum vínculo pessoal ou que mal conhece, muitas vezes camuflando interesse instrumental sobre a outra pessoa, contribui para esta confusão e desgaste do conceito de amizade.

A verdade é que a amizade é sustentada por um sentimento espontâneo e desinteressado (consumatório) que funda um vínculo relacional entre dois seres humanos “bons” dispostos a dar o melhor de si para o outro e trocar impressões sobre como vê, sente e pensa a vida.

Podemos afirmar que a amizade demanda, sobretudo, sabedoria entre as pessoas. Sabedoria e não conhecimento, porque, se a amizade demandasse só conhecimento, as escolas e universidades seriam solos férteis para fazer amigos. E não são. A universidade contemporânea não é o espaço de sabedoria, nem do humor, nem da autenticidade, nem do amor, nem da felicidade. Ela é apenas um espaço de produção e transmissão de conhecimentos; nesse processo de produção as pessoas são mais ou menos obrigadas a se relacionarem funcional e profissionalmente. O relacionamento é acadêmico ou político-acadêmico. Como já dissemos no artigo anterior, as relações que ocorrem nas instituições e empresas são marcadas pela dessimetria dos cargos e funções, mas, eventualmente, é possível ocorrer uma ou outra relação que promete vir-a-ser amizade. Sobretudo nos dias de hoje, a universidade é, cada vez mais, um espaço de competição (“ou você publica ou morre”), onde o jogo de interesses é de fundo narcisista.

O exercício da amizade

Embora vivemos numa época em que é muito mais fácil estabelecer vínculos afetivos, existem pessoas que não suportam manter as amizades por muito tempo. Há aquelas que vivem se auto-enganando ter muitos amigos com colegas, funcionários, orientandos e alunos, e, na verdade, são relações sustentadas por contratos de trabalho formal ou informal. Existem professores ingênuos e carentes que alucinam nos alunos, amigos. Nestes casos, o aluno sabe mais sobre a relação do que o professor. Pela natureza do encontro e a qualidade da situação de trabalho, parece que os orientadores de pesquisas têm mais chances de fazer do orientando um amigo, mas há que sempre considerar entre ambos o formalismo do contrato que sustenta a assimetria dessa relação.

Em termos lacanianos, onde existe o “discurso universitário” não pode existir uma verdadeira amizade. Como o professor está preso ao saber instituído, ao paradigma, que é um saber com referência à tradição do que é ensinado pelos “mestres”, pelos “grandes autores”, ele tende a reproduzir respostas padronizadas, quase mecânicas, usadas para escapar da escuta e do conhecimento do outro tomado como pessoa autêntica. Algo parecido também pode acontecer na posição do capitalista, do cientista, do médico, do religioso, do militante político: todos eles são impedidos pela sua condição de fazer autênticas amizades.

Promessa e traição da amizade coletiva

Herdeiro da revolução francesa, o ideário socialista prometia à humanidade uma amizade em forma de fraternidade ou de solidariedade. Todos seriam amigos de todos porque todos viviam sob o princípio da igualdade. Nós, que sonhávamos tanto com a revolução, sob a paranóia da ditadura militar, no Brasil, tínhamos certeza de que a grande amizade entre as pessoas e entre os povos já havia sido instaurada na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) – seria a maravilhosa união das repúblicas! Afinal, eles tinham conseguido libertar-se da “barbárie” capitalista e estavam no caminho de realizar o paraíso proletário na terra.

Com o tempo, fomos colhendo frustrações sobre o “socialismo real” desse e de outros países que teriam conseguido difundir um clima paranóico em que todos vigiariam todos em nome da suposta causa da igualdade proletária. A burocracia socialista soviética, por exemplo, promoveu delatores, separou amigos e fundou uma falsa fraternidade, que, na vida cotidiana, gerou mais inimigos do que pretendia a intenção da teoria considerada “científica”.

Embora não se compare a paranóia desencadeada pelo totalitarismo de direita e de esquerda com os problemas normais da democracia pluralista (ver filme “Adeus, Lênin”), é a liberdade que faz as pessoas aproximarem umas das outras e com confiança. Se o totalitarismo produz desconfianças e inimizades, a democracia “burguesa” tende a levar um considerável número de pessoas a viverem sozinhas em suas casas e apartamentos, por insegurança, ou porque o outro está mais ocupado em “mais-ter” do que “ser”. A indústria e o comércio se aproveitam dessa condição de existência individualista para sustentar a vida solitária das pessoas levando sua solidão, sustentando a indústria dos congelados, da entrega das pizzas a domicílio, dos vídeos, os brinquedos que aliviam a carência sexual, os sites para encontros virtuais, os serviços telefônicos “disk amizade”, etc.

A sensação de violência das cidades do nosso planeta tem contribuído muito para aumentar o sentimento de solidão e a descrença na amizade. H. Arendt, no pós-2ª guerra, havia previsto o aumento da distância social e da desumanização. Não a desumanização efeito do totalitarismo, do capitalismo ou do terrorismo, mas outra, que atravessa invisível no nosso cotidiano banal e cujo sintoma nada investe para preservarmos as poucas amizades que restam. A antiga  “presteza em partilhar o mundo com os nossos amigos” é deslocada para viver de “pseudo-amigos”, ou seja, com um animalzinho de estimação ou relações humanas de faz-de-conta, são tentativas não conscientes de fazer um mundo com algum sentido para nele viver.

Como existe muita gente no mundo, e como as relações humanas parecem abundantes em quantidade de encontros casuais e de bens de consumo, as pessoas hoje têm a sensação de auto-suficiência, do tipo “eu não preciso dela para viver”. No entanto, as possibilidades de relações humanas, necessariamente, não se transformam em qualidade efetiva ou relações de amizade verdadeira, como prevê a dialética. O espírito humano contemporâneo tornado “líquido” leva-o a conceber a amizade como mais uma relação instrumental, só para ser usada, consumida, e logo descartada.

Infelizmente, a amizade morreu como ocupação principal das pessoas em franca busca pela sabedoria e felicidade. Hoje, estamos tão vinculados às instituições e às suas obrigações burocráticas impostas pela “qualidade total” das empresas ou pelo “qualis” universitário (Silva, 2006); estamos tão presos a uma ética do lucro e distantes de uma ética da solidariedade, que nos faz cegos para o valor da amizade e da busca da sabedoria.

A amizade concebida pelos gregos morreu para dar lugar a relações pragmáticas, impessoais, efêmeras e superficiais. É verdade que ainda existem amizades que se sustentam em termos consumatórios, apesar da ambiência social negativa e do pseudo argumento de falta de tempo ou de condições concretas para verdadeiros encontros. O esvaziamento da amizade consumatória parece estar fazendo surgir um outro tipo de relação mediada por interesse de luta por uma causa comum, ou contra um inimigo comum, ou de união para celebrar um acontecimento solidário, ou para fazer de conta que, nesse mundo sem coração (Lash, 1991), só existir amizade mediada por uma causa do bem. Ou seja, temos que nos contentar com uma “quase-amizade”, um arremedo de amizade, com aqueles que vivem sob o mesmo guarda-chuva do trabalho, ou que empreendem conosco um projeto de estudo, ou para jogar bola num clube, ou participar de uma ONG, de um partido político, ou se ligar aos irmãos de uma fé “x” ou igreja “y”, porque devemos fazer o que estiver ao nosso alcance para evitar que as pessoas fiquem cada vez mais individualistas e o mundo cada vez mais sombrio e sem coração.

 

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[1] Cícero (1997: p. 85) pensava que a amizade vale mais que o parentesco.

[2] Voltaire (1978), no seu dicionário filosófico, irá conceituar a amizade como um vínculo criado entre pessoas boas, éticas, já que os maus jamais tendem a ter cúmplices para suas atividades ilícitas.

[3] Apud Baldini, 2000: p. 115-117.

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Referências bibliográficas:

ALBERONI, F. A Amizade. São Paulo: Rocco, 1993.

BALDINI, M. A amizade e os filósofos. Edusc, 2000

BALTASAR GRACIÁN. A arte da sabedoria mundana. São Paulo. Best Seller, 1992.

BAUMAN, Z. O amor líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 

CARDOSO, S. Paixão da igualdade, paixão da liberdade: a amizade em Montaigne. In: Os sentidos da paixão. C. Letras, 1988.

CAVALCANTI, B. O. “O juramento de lealdade e fidelidade: a militância no PCB”. (Texto apresentado no Grupo de Trabalho “Partidos e Movimentos de Esquerda”, na 8ª. Reunião Anual da ANPOCS. Águas de São Pedro, SP, out. 1984. 

CICERO. Saber envelhecer e a amizade. Porto Alegre: L&PM, 1997.

DESCARTES, R. Discurso do método. As paixões da alma.Meditações. Objeções e respostas. Nova Cultural. [Os pensadores]. 1991.

GIKOVATE, F. Amizade é mais que amor. rev. Claudia, set/ 96, p. 229.

LASH, C. Refúgio num mundo sem coração: a família: santuário ou instituição sitiada? Rio: Paz e terra, 1991.

SILVA, Antonio Ozaí da. “A sua revista tem Qualis?”. Revista Espaço Acadêmico, nº 56, jan/ 2006.

SÓCRATES. [por Xenofonte]. Os pensadores.

VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. [Os pensadores]. 1978.

WHEELE, E. et al. A essência da amizade. São Paulo: McClaret, 1998.

 

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