Por HENRIQUE RATTNER

Professor da FEA (USP), IPT e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

 

O declínio da classe média

 

A tão aclamada globalização da economia, transformada em bandeira de governos neoliberais e mesmo, de trabalhistas, seja na Grã-Bretanha ou no Brasil, arrasou a classe trabalhadora, profundamente atingida pela reengenharia, a flexibilização das relações de trabalho e a terceirização.

A mobilidade do capital e sua capacidade de transferir ativos e instalações de um país para outro, aproveitando-se de níveis salariais diferentes e de subsídios, incentivos e isenções fiscais dos governos locais e nacionais conseguiu reduzir dramaticamente a renda média dos operários da indústria, premidos também pelo desemprego estrutural e tecnológico.

Não foi somente o operariado que sofreu os impactos negativos da reestruturação da economia e da nova divisão internacional do trabalho. Uma grande parcela da classe média, escolarizada e qualificada, acabou sendo gradualmente proletarizada e socialmente degradada.

O capital monetário foge para os mercados especulativos porque os investimentos em novas fábricas se tornaram menos rentáveis. Enquanto uma parte crescente da sociedade fica fora da produção e empobrece, do outro lado se realiza uma acumulação e transferência de capital para as “bolhas financeiras”.

O colapso da nova economia e o estouro das bolhas financeiras tiveram impactos profundos na queda da classe média, particularmente entre funcionários públicos e empregados de empresas privadas.

A expansão da economia capitalista na 1ª e 2ª metades do século XX parecia criar um mercado de trabalho ilimitado nos setores de produção e de serviços para a nova classe média. Sem possuir meios de produção próprios, como os artesãos e pequenos comerciantes, os membros da nova classe média ocuparam as funções de supervisores, gerentes e técnicos, contando com o seu “capital humano”, ou seja, sua qualificação profissional adquirida em instituições de ensino médio e superior.

As recorrentes crises econômicas do sistema capitalista e o progressivo desmantelamento do Estado de bem-estar social atingiram amplos segmentos da nova e da antiga classe média, vítimas do desemprego tecnológico e das pressões crescentes para “enxugar” as empresas, privadas e públicas, através da reengenharia e da terceirização.

A onda de desemprego atinge também os centros do capitalismo avançado, seus técnicos, professores, advogados, médicos, jornalistas e funcionários, bem como uma parte do pequeno empresariado, artesãos e comerciantes.

Com a crise econômica, estes são obrigados a recorrer à poupança privada e, freqüentemente, a abandonar seu patrimônio imobiliário, em busca de aluguéis mais baixos, em cortiços e bairros de pobreza.

A perda de status social leva à radicalização política da classe média, reforçando as correntes conservadoras, racistas e chauvinistas, a exemplo de que ocorreu recentemente na França e em outros países europeus. Antes da II Guerra Mundial, seus elementos desclassificados e empobrecidos aderiram às tropas de choque dos regimes totalitários, nazista e fascista.

Entretanto, a classe média em declínio não quer ser associada com as camadas sociais mais baixas, geralmente imigrantes de regiões mais pobres que despertam preconceitos e práticas discriminatórias.

No século XX, as sociedades em processo de industrialização eram divididas entre capitalistas e trabalhadores, assegurando certa estabilidade política ao sistema.

Com a expansão do capital oligopolizado e a tendência crescente à sua concentração, diminuiu o número de capitalistas pequenos proprietários, que cederam o lugar aos conglomerados e às sociedades anônimas, burocraticamente administradas, por gerentes (os managers) considerados uma nova classe social, na década de 1950.

A antiga classe de “pequeno burgueses” – artesãos, comerciantes, profissionais liberais e funcionários públicos – perdeu seus meios de produção e veio engrossar as fileiras dos partidos radicais, de esquerda ou de direita, minando o precário equilíbrio dos regimes democráticos.

O debate no começo do século XX, entre Karl Kautsky e Eduard Bernstein, teóricos da social-democracia na Alemanha, sobre a classe média emergente de trabalhadores e funcionários em decorrência de tecnificação da produção, apontou para as novas categorias sociais, conforme descritas também nas obras de C.Wright Mills em A Nova Classe Média (White Collar) e James Burnham, em A Revolução dos Gerentes.

A miséria social econômica transformou-se em grave crise também nos países desenvolvidos, inclusive na União Européia levando a manifestações agudas racistas e nacionalistas.

Os membros da classe média qualificada em declínio não querem se aliar às camadas mais baixas e se refugiam no conservadorismo e chauvinismo com nostalgia do antigo nacionalismo, contra a ideologia dominante da globalização, enquanto o discurso sobre “empreendedorismo” procura manter viva a ideologia do sistema capitalista e encobrir o fracasso de suas práticas.

No início do século XX, a classe média aumentou em números absolutos, em função das novas formas de organização, tecnificação e administração da produção. No período pós-guerra (1950), os “milagres” econômicos na Alemanha, Itália e outros países abriram novas oportunidades de trabalho nos setores de lazer, turismo e serviços em geral, para mão-de-obra mais escolarizada e graduada no ensino superior.

A proletarização das camadas mais qualificadas coincide com a introdução de inovações técnicas na produção industrial e com a perda dos meios de produção pela pequena burguesia, detentora do chamado “capital humano”.

As discussões no meio da social-democracia alemã sobre os destinos da classe média já ocorreram no início do século passado entre K. Kautsky e E. Bernstein . Enquanto o primeiro apontava para a tendência à proletarização da classe média, Bernstein apostava na estabilização do sistema capitalista, sua capacidade de realizar reformas sociais e de absorver novos contingentes de mão-de-obra.

O enfraquecimento do Estado, em conseqüência da crise econômica na década de 1980, revelou a falta de recursos orçamentários decorrente do encolhimento da produção e da redução de serviços sociais considerados “supérfluos”. O Estado “enxuto” dispõe de menos verbas para a educação, saúde e cultura, assinalando o desaparecimento do Estado de bem-estar social. Com isso, surge o desemprego de acadêmicos e técnicos qualificados, na onda de privatizações e da terceirização que tendem a desvalorizar o “capital humano” e transformar seus portadores, segundo Robert Kurz, em “diaristas intelectuais”.

As incertezas que pairam sobre o futuro da economia e da sociedade brasileira se tornaram patentes quando o governo alardeou, em 2004, uma taxa de crescimento da economia de 4,5% e prometeu mais de 5% para 2005. A queda da taxa em 1,2% no terceiro trimestre augura problemas em 2006, já que o ritmo atual de expansão da economia é insuficiente para absorver os jovens que pretendem ingressar no mercado de trabalho.

Além do desempenho pífio da economia nos últimos vinte anos, verifica-se uma tendência perversa de transferência de renda da produção e do consumo para os setores mais rentáveis, ou seja, a especulação do capital financeiro nacional e internacional contemplado com taxas de juros elevadas.

O número de famílias com renda média de mais de R$ 1000/mês tem declinado constantemente, enquanto aumenta o número de milionários. Em conseqüência, assiste-se à erosão da classe média e sua proletarização.

Segundo estudo de um economista da UNICAMP (Folha de S. Paulo, 14/nov./2004), nos últimos anos a classe média brasileira teria perdido 1/3 de sua renda e, 2 ½ milhões de pessoas perderam a condição de classe média (renda mensal superior a R$ 1000). Com isso, perderam também a possibilidade de enviar seus filhos para escolas particulares, e deixaram de freqüentar cinemas, teatros e clubes. Estima-se que nos últimos 5 anos, mais de 4 milhões de pessoas tenham abandonado planos privados de saúde.

A escolarização, conquistada a duras penas e com muita luta, da qual se esperava um retorno sobre o investimento, está sendo desvalorizada pelos baixos salários ou o desemprego. Esse processo não deve ser debitado somente ao governo Lula. Já no segundo período de governo FHC, a deterioração das condições de vida da classe média avançou rapidamente, o que motivou seu apoio ao PT, nas eleições de 2002, quando os efeitos de “estabilização” do Plano Real foram agravados pela política cambial e a conseqüente desvalorização da moeda nacional.

A tendência à proletarização da classe média é um fenômeno universal e ocorre nos EUA, na UE e , com mais intensidade, nos países “emergentes”, como o Brasil.

A queda prolongada do nível de emprego e de renda atinge não apenas a massa dos pobres que sobrevivem à custa de políticas compensatórias, mas também as camadas da população que já haviam alcançado padrões sócio-econômicos mais favoráveis.

A cada período de estagnação ou retração do PIB, uma parcela da classe média é reduzida à condição de proletários, com impactos devastadores em sua auto-estima.

Em 2002, aproximadamente 57 milhões de brasileiros pertenciam à classe média, com renda mensal acima de R$ 1000. Em 2003, eram 54,4 milhões e, em 2004, ficaram reduzidos a 53 milhões.

Enquanto a economia mundial cresce a 4% ao ano e os países “emergentes” (China, Índia) com mais de 9% em média, nos últimos 10-15 anos, o Brasil, no entanto, continua a padecer com taxas de crescimento de 2,5% anuais, em que pese o “boom” das exportações agropecuárias.

Uma nova crise da economia mundial afetará inevitavelmente as exportações brasileiras – único setor que apresenta desempenho favorável, embora com custos ambientais crescentes.

Enquanto antes o desemprego atingia sobretudo as categorias de trabalhadores menos qualificados, com escolaridade incompleta e ocupados em tarefas manuais, hoje, o desemprego atinge cada vez mais as camadas “qualificadas” de técnicos, professores, profissionais liberais, funcionários públicos e parte do pequeno empresariado.

A concentração da produção e dos serviços em grandes unidades torna impossível conhecer o funcionamento de todos os setores da empresa, enquanto a reengenharia e a racionalização diminuem as possibilidades de promoções. Nessas condições, a expansão da rede educacional leva a maior desemprego e não ascensão social; mesmo de trabalhadores e funcionários mais qualificados.

Incapaz de resistir às pressões da economia globalizada, à eliminação das barreiras alfandegárias e à busca desenfreada de maior produtividade apesar dos enormes custos sociais, a classe média, individualista e sem tradição de organização e lutas sindicalista, acaba empurrada para a arena política, em busca de soluções para seus problemas existenciais. Almeja o retorno à estabilidade e segurança econômicas, mas deve enfrentar as incertezas do mercado de trabalho no qual a instrução escolar não garante mais a ascensão social. Acrescenta-se a insegurança física nas grandes cidades e entende-se a nostalgia do passado, da ordem e da estabilidade.

Frustrados com as notícias sobre a corrupção em diferentes níveis e setores de governo, os membros da classe média tornam-se descrentes e desencantados com o regime democrático parlamentar, tornando-se presa fácil de demagogos populistas ou de “homens fortes”, pretensos salvadores da pátria.

 

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